sábado, 4 de agosto de 2007

A MULA DO OURO

Eduardo Gonçalves David

O Computador Invadido


Certo dia, quando limpava minha caixa de entrada de e-mail, apagando sem abrir as mensagens de remetentes desconhecidos com arquivos anexos ou com temas apelativos, os incômodos "spams", uma delas se destacou levando-me a concluir que meu computador tinha sido invadido, pois ninguém poderia saber o tema de meu interesse naquele momento.

Eu já havia escrito dois livros sobre a implantação e evolução da Estrada de Ferro D. Pedro II, inaugurada em 29 de março de 1858 e estava preparando uma terceira versão mais ampla, comemorativa de seu sesquicentenário.

Atualizei o antivírus, mas aparentemente sem resultados, as mensagens continuaram a chegar, até que finalmente resolvi arriscar e aceitei os e-mails misteriosos. Foi como se houvesse aberto uma Caixa de Pandora. Um fluxo ininterrupto de informações, imagens, dramas e mistérios inundaram meu computador. Mensagens passaram a chegar de mais de uma fonte, com informações e dados desencontrados. Sem me preocupar de início com a fidedignidade das origens, já que a Internet constitui um universo de liberdade anárquica, comecei a tabular as informações, organizando uma tabela cronológica e uma linha de tempo. Complementei as lacunas e corrigi algumas informações com livros, teses, dissertações e trabalhos acadêmicos.

No final, tinha material para escrever um livro, ou melhor, vários livros. Juntei uma grande quantidade de papel, de textos digitados e de informações conseguidas na Internet. Levei bem uns oito anos neste trabalho, sempre interrompido por questões profissionais.

Várias vezes tentei sintetizar o que havia anotado. Mas - pensava sempre - que leitor estaria hoje interessado em acontecimentos, ocorrido há mais de um século e meio, numa região muito limitada do território brasileiro, que forma um triângulo cujos vértices são as cidades de Vassouras e de Petrópolis no estado do Rio de Janeiro e Juiz de Fora no estado de Minas Gerais e em pequenos povoados da Galícia, na Espanha? Atualmente, como o tempo é o fator escasso mais disputado por outras mídias, que chance teria mais um livro tema histórico para merecer a atenção dos futuros leitores?

Todavia, graças à Internet e as tecnologias de processamento de informações baseadas na inteligência artificial, tema que tem ocupado parte do meu tempo em pesquisa e faz parte de alguns tópicos da disciplina "Tecnologia da Informação" que ministro em alguns cursos de pós-graduação em Logística, é possível uma customização do conhecimento, capaz de filtrar aquilo que o leitor está de fato interessado ou, de alguma forma, possa lhe ser útil ou prazeroso.

Resolvi então montar um e-book, que é um livro digital que pode ser lido na tela de computadores ou dispositivos eletrônicos do tipo Palms. Entretanto, como muitas pessoas preferem o livro tradicional, pelo prazer de escolhê-lo numa livraria, sentir o cheiro do papel virgem e a facilidade de manusear as folhas no ritmo, local e ocasião que se deseja. Cheguei a montar uma versão para impressão, mas os custos eram proibitivos diante de minhas atuais prioridades e não consegui patrocínio para a história completa. Resolvi então publicar a história neste blog e testar a reação do público - afinal de contas grande parte do trabalho já estava realizado.

Futuramente, se tiver tempo, farei a versão interativa. No algoritmo de navegação deste verdadeiro e-book usarei técnicas de Inteligência Artificial, principalmente a chamada de Sistemas Multiagentes, que andei pesquisando para Educação à Distância interativa, um tema que apresentei em artigo redigidos para dois congressos científicos internacionais, promovido pela ABEAD - Associação Brasileira de Educação à Distância, que despertou o interesse de alguns pesquisadores. Desenvolvei um algoritmo bem interessante que mereceu registro no INPI, mas parece que estou defasado no tempo e não consegui ainda implantá-lo comercialmente. Como já tenho mais de 20 patentes registradas na área de transportes, sem bem como é isso. Ter uma boa idéia é uma condição necessária mas não suficiente para que vingue. Como as sementes de uma árvore, não basta que sejam sãs, mas que caiam em solo fértil - nem que seja num rasgo de terra encravada numa fresta de pedra.

Quando estiver pronta esta versão para Internet, Agentes Inteligentes, que são os pequenos programas que interagem com o leitor, aprendem sobre ele e toma decisões, irão acompanhá-lo durante sua navegação, incorporando ou retirando situações dramáticas, ampliando ou sumarizando detalhes técnicos e gerenciando até mesmo o estilo literário da apresentação. Desta forma, o leitor deste livro se tornará também seu co-escritor, podendo na sua impressão particular, grafar também seu nome como co-autor desta história.

Portanto, nos 21 capítulos páginas seguintes será criada apenas uma primeira rota desta viagem no tempo, envolvendo cenas e personagens reais e cenas e personagens provavelmente fictícios, pois não se pode confiar em tudo que se acha na Internet e a História é uma disciplina que sempre cabe re-leitura.

Ao longo da rota existirão placas de variantes e atalhos, que convidam o leitor a visitar locais especiais, alguns exigindo mais tempo e esforço para ser alcançado, mas não se afastando do objetivo final da história, sempre convergindo. No texto em papel estas placas serão palavras sublinhadas; mas numa tela indicam hiperlinks, permitindo uma navegação, para que o leitor monte também a sua versão da história, do jeito que lhe for mais interessante.

Enquanto esta técnica ainda não ficar pronta e possamos escrever um livro em conjunto, façams um passeio pela História do Brasil, apenas com a minha versão e tenham, é o meu desejo, uma agradável viagem na leitura; como eu tive na sua redação, realizada em três meses que passei em Salamanca, na Espanha, de dezembro de 2006 a fevereiro de 2007.

A MULA DO OURO - Capitulo 1

Capítulo 1
De Carracedo a Paraíba do Sul



Quando olhou na direção sudeste e observou a formação de nuvens escuras sobre a Serra Calva, o jovem galego de 17 anos, Emilio Pietro, previu as primeiras nevascas daquele inverno de 1831. No mesmo instante, a cerca de dez mil quilômetros de distância, no Hemisfério Sul, observando também uma formação de nuvens na direção sudoeste, Mariana Barroso, a jovem de 15 anos, filha de um dos mais ricos fazendeiros de café no Vale do Paraíba, na Província do Rio de Janeiro, previu as primeiras tempestades de verão. Ambos ficaram preocupados: Emilio, por causa do rebanho que pastoreava, pois as ovelhas estavam excessivamente dispersas, correndo o risco de não conseguir abrigo a tempo; Mariana, por sua vez, preocupava-se com as inundações do Rio Paraíba do Sul, que poderia destruir pontes e caminhos, prejudicando o acesso dos convidados ao seu casamento, já marcado.

Não estavam restritos, entretanto, apenas aos caprichos do clima presente os pontos em comum que uniam estes jovens; na verdade, as ligações entre ambos voltavam ao passado, estavam no presente e estariam no futuro, durante todas suas vidas. Com relação ao passado, as guerras napoleônicas alteraram toda a estrutura de poder da Europa Central e tiveram efeito indireto também nas colônias portuguesas e espanholas do Novo Mundo; com relação ao presente tinham eles perspectiva de vidas, de acordo com as regras sociais vigentes, não muito diferentes do passado recente, já que ambos viviam em uma sociedade conservadora; porém, quanto ao futuro, laços comuns os uniriam em uma teia de relações totalmente imprevista naquele momento que observavam as nuvens.

Quando Napoleão Bonaparte, no final de 1807, avançou com suas tropas em direção à Península Ibérica, gerou reações evidentes no Brasil, que deixando de ser simples Colônia, se tornou sede da Coroa Portuguesa, mas bem dissimulada na Galícia, onde aparentemente nada mudou. A chegada da Família Real ao Brasil em março de 1808 provocou um inegável surto de desenvolvimento econômico e político.

Na Espanha a influência de Napoleão foi desastrosa, já que o Rei Carlos IV propôs-lhe uma aliança com o objetivo de recuperar o trono do qual havia abdicado em 1808 para o filho assumir como Fernando VII. Napoleão, entretanto, depois de atendê-lo força uma nova abdicação, colocando na coroa espanhola seu irmão, José Bonaparte. Carlos IV e Fernando VII ficaram detidos na França enquanto o povo da Espanha entrava em guerra contra os invasores, em pequenas guerras, chamadas de guerrillas, fragmentando todo o império espanhol nas Américas.

No Brasil, especialmente no Vale do Paraíba do Sul, as plantações de café que já ganhavam as encostas foram estimuladas, com as mudas de espécies africanas bem aclimatadas aos trópicos na Guiana Francesa, ocupada por tropas luso-brasileiras entre 1809 até 1817, como forma de barrar uma possível contra-ofensiva francesa contra a inusitada decisão da Corte Portuguesa de limpar os cofres de Lisboa e transferir a sede do governo para sua maior e mais importante Colônia. O próprio D. João VI, o Príncipe Regente, fazia questão de entregar pessoalmente mudas de pés de café aos mais prósperos fazendeiros, como foi o caso do major da Guarda Nacional, Antonio Barroso, pai de Mariana.

Na Galícia, a Guerra da Independência, que derrotou e expulsou os franceses que haviam ocupado toda a região a partir de princípio de 1809, deixou uma abertura às idéias liberais, que abalou uma estrutura sólida há anos, apesar de terem impostos sua organização política por apenas cinco meses de ocupação. Os religiosos e fidalgos, ao verem correr risco seus privilégios seculares, conseguiram o apoio da massa de camponeses, que formavam 90% da população e impuseram uma guerra de guerrilha sobre as tropas francesas, que se refugiaram nas principais cidades.

Em Ourense, uma grande cidade na Galícia estrategicamente situada para combater a interiorização da ajuda inglesa aos guerrilheiros, no antigo bairro judeu, que há mais de três séculos, desde o decreto de banimento de 1492, deixou de ser um gueto exclusivo, as idéias dos invasores baseadas no lema da Revolução Francesa deram um novo ânimo e práticas religiosas escondidas começaram a ficar mais evidentes. Mas só um pouco, pois com a expulsão dos franceses o velho sistema de poder baseado em grandes extensões de terras pertencentes à Igreja Católica e à Fidalguia, arrendada aos campesinos foi fortalecido e qualquer idéia liberal que colocasse em discussão esta tradição era vista como revolucionária.

Emilio guardou o livro que estava lendo, uma edição em francês da biblioteca da vila de A Veiga, distante meia légua (3 km) de Carracedo, assobiou o código de juntar rebanho e observou seus dois cães pastores começarem a reunir as ovelhas. As nuvens estavam baixando rapidamente e o vento frio começou a soprar mais forte. Caso a noite chegasse mais cedo seria obrigar a pernoitar no caminho, seguindo viagem apenas no dia seguinte. Pensou, então, com preocupação na situação de seu irmão gêmeo, Juan. Eles haviam trocado seus gorros e Emilio era Juan e Juan era Emílio. Naquela semana ele, Emilio, deveria estar trabalhando na construção e reparação de muros de pedras de junta seca, outra atividade que seu pai exercia para complementar os baixos rendimentos da criação de ovelhas. Mas, como o irmão não gostava tanto de ler como ele e preferia o trabalho braçal, trocaram os gorros e estava usando o verde, de Emilio, ao invés do vermelho, que desde criança fora sua cor de identificação.

Logo que nasceram os dois meninos gêmeos uni vitelinos chamavam a atenção pela semelhança física. Apenas com o passar do tempo, para um observador mais atento, era possível perceber que Juan, que nasceu primeiro, era destro enquanto Emilio era canhoto, que sabia disfarçar bem esta natureza, pois conseguia escrever com ambas as mãos. No seu ambiente religioso ser canhoto não era bem visto, sendo considerado como coisa do demo, razão pela qual na escola fora forçado a escrever com a mão direita. Para observadores mais atentos era possível perceber Juan mais extrovertido, preferindo atividades físicas intensas, enquanto Emilio, mais reflexivo gostava de leitura, razão pela qual preferia o pastoreio à construção de muros.

Quando ambos tinham treze anos, o pai ficou muito abatido depois de um forte resfriado e o médico da vila próxima, de A Veiga, recomendou que os filhos menores ficassem afastados por pelos menos seis meses, como medida de precaução contra a tuberculose que costumava dizimar famílias inteiras. Os irmãos foram separados pela primeira vez e cada um foi residir na casa de seu respectivo tio e padrinho.

Juan foi morar com o irmão de seu pai, um próspero pecuarista que administrava sua propriedade nos arredores de Bilbao, no País Basco. Emilio foi para Ourense, indo morar com o tio, irmão de sua mãe, um sapateiro que vivia nos fundos de sua pequena loja. Foi nesta ocasião que Emilio testemunhou experiências que nunca mais haveria de esquecer, relacionadas os ritos religiosos proibidos. Seu tio explicou-lhe que o sobrenome Prieto era de cristão-novos, de origem Sefaradi. Embora sua mãe fosse uma católica fervorosa, nada deixando transparecer de uma possível conversão forçada, da parte do tio, porém o mesmo não acontecia, provavelmente pelo ambiente onde morava, no bairro judeu de Ourense, onde as datas do calendário judaico eram respeitadas. Todas as sextas-feiras, um grupo discreto se reunia após as seis horas da tarde, cada vez em uma casa diferente, para leituras de um rolo de uma antiga Torah redigida em hebraico, onde os trechos religiosos eram recitados em voz baixa. Mas foi apenas um mês depois de estar morando com o tio, quando já havia ganhado a confiança pelo interesse nos livros, foi cientificado do segredo e convidado a participar.

Depois que o pai se restabeleceu e a suspeita de tuberculose foi descartada, os irmãos voltaram a conviver como antes, embora não mais exatamente como antes, pois cada um absorveu valores das famílias de seus respectivos padrinhos que os iria acompanhar por toda vida.

Emilio tornou-se mais reflexivo, um leitor voraz e com um grande dilema religioso que o perturbava quando assistia às missas na velha igreja de pedra de Carracedo junto com toda sua família. Os conceitos filosóficos desordenados que o tio lhe passara especialmente o lema da Revolução Francesa (Liberté, Egalité, Fraternité), que preconizava o fim dos privilégios do clero e da nobreza, constituía uma outra revolução no dia-a-dia da Galícia. Juan, por outro lado, ocupava sua mente em planejar um futuro melhor do que simples criador de ovelhas como o pai, tentando trazer para a Galícia o que seu tio conseguira de sucesso no País Basco.

O súbito anoitecer, provocado pelas nuvens cinzentas da nevasca, foi também testemunhado por Juan, que por estar usando a boina verde do irmão, era chamado de Emilio. O pai mandou-lhe guardar as ferramentas porque poderia haver uma tempestade e eles teriam ainda uma boa caminhada da obra no povoado de Santa Cristina, podendo a neve surpreende-los na subida da serra até Carracedo.

Do alto da serra Calva, cujo topo já estava ficando branco pela neve, um vento forte e frio descia pela encosta e assustava as ovelhas, criando dificuldades para reunir o rebanho. Os cães corriam atrás das desgarradas, parecendo mais desorganizar do que formar o conjunto necessário para descer os caminhos sinuosos até o primeiro abrigo. A primeira lufada da neve fez Emilio estremecer, mas não de frio: definitivamente não daria tempo para que chegasse a tempo até sua casa. A solução seria pernoitar no meio do caminho, num abrigo de pedra de mais de 300 anos, construído provavelmente para situações como estas pelos antigos pastores. Para ele o mais grave é que havia prometido dar lições de francês à vizinha, sua colega de classe. Deixaria de ver seus lindos olhos azuis, observar seu sorriso agradável e sentir o perfume que brotava de sua blusa, que o deixava terrivelmente constrangido – aparentemente para gosto dela. Provavelmente, se não chegasse a tempo de trocar de chapéu com irmão, este deveria passar como professor e, por não gostar tanto de ler, como se arranjaria?

Depois de quase uma hora de dificuldade Emilio chegou até ao abrigo de pedra. Contou as ovelhas, concluindo que nenhuma havia se perdido – antes isto! Reuniu os cães em sua volta e preparou-se para uma noite fria e silenciosa, entrecortada apenas por piados soturnos das corujas e dos uivos distantes dos lobos, no alto da Serra Calva, coberta por uma embranquecida cabeleira de neve.

Quando Juan chegou à sua casa, a mãe logo comentou:
- Seu irmão deve ter ficado retido pela tempestade. Ainda bem que foi Juan e não você, não é Emilio?
- Sim, mãe – atalhou Juan constrangido e usando, com certa dificuldade, a mão esquerda para pendurar o gorro verde no gancho atrás da porta.
- Por causa da tempestade apenas amanhã a Martina vai passar aqui, para a aula dela. Vocês estão de namorico, não estão?
- Não, senhora...
- Não foi o que a mãe dela disse... Veja lá o que vai arrumar, é moça ajuizada, de família antiga...
- Sou respeitador, mãe...
- Sei disso, Emilio.

As tempestades de verão nos trópicos são intensas, com rajadas de vento capazes de arrancar árvores pela raiz e provocar deslizamento em morros não protegidos pela vegetação da Mata Atlântica que estava sendo derrubada para dar lugar às lavouras de café. As águas lamacentas descendo pelas encostas arrastam as frágeis pontes de madeira sobre os córregos e riachos que alimentam os rios maiores, deixando um rastro de destruição que leva muito tempo e exige mão de obra escassa e rara para reparação.

Não foi diferente a tempestade que se abateu naquele início de verão nas imediações do ponto onde três importantes rios se encontravam: o Rio Paraíba do Sul, que nasce no município paulista de Areias e percorre 1.150 km até sua foz; o Rio Paraibuna, que nasce na Serra da Mantiqueira em Minas Gerais e o Piabanha que nasce na Serra Estrela, na Província do Rio de Janeiro. Num ponto único, denominado Três Barras, os três se encontravam, prosseguindo o Rio Paraíba do Sul, cada vez mais caudaloso pela água que descia das serras que formavam sua calha.

Foi exatamente nas terras cercadas por estes três rios, que em 1817 o então, rei D. João VI, pois sua mãe D. Maria I “a Louca”, já havia morrido, deu a concessão ao major Antonio Barroso para implantar uma das maiores e mais produtivas fazendas de café de todo o vale fluminense.

O aguaceiro despencou do céu em profusão, fazendo o córrego Puris e o ribeirão Cantagalo se elevar mais de dois metros do seu nível normal. Andando de um lado para outro na varanda da sede da fazenda, observado silenciosamente e com atenção pelos feitores, o major Antonio Barroso, batia com a chibata levemente na perna. Perguntou à mulher:
- Já queimou a palha benta, dona Claudina?
- Sim. Vamos ter fé, que a tempestade logo vai passar.
- Será que a nova ponte da Boa União, vai resistir Seu Domingos?
- Sim, senhor major, vai resistir sim, se Deus quiser!
- Sei lá, é muita água que está descendo...
- Fé eu tenho, eu não confio muito é no trabalho destes negros de roça. Catar café eles sabem, mas construção...
- Usamos madeira-lei, major. Deus vai nos ajudar.

O dia amanheceu na Galícia sem uma nuvem no céu, fazendo o sol refletir sobre um branco tapete tênue da primeira nevasca. Emilio calculou que já deveria ser sete horas da manhã e começou a tomar as providências para reunir o rebanho. Teria ainda de caminhar cerca de três horas até sua casa. Aquele pernoite inesperado haveria de alterar toda sua vida.

Às oito horas como prometido, Martina a filha do vizinho estava batendo na casa dos pais dos gêmeos, a caminho da escola. Juan que já estava preparado rapidamente vestiu os agasalhos e desceu as escadas, cabisbaixo.
- Vá com Deus, Emilio! - ouviu sua mãe gritando enquanto acenava.

Em Paraíba do Sul o major Antonio Barroso observava com a cara fechada os estragos provocados pela tempestade na estrada, enquanto caminhava em direção ao seu ponto de maior preocupação: o pontilhão sobre o córrego Puris. O casamento da filha estava marcado para o primeiro sábado depois da semana santa e se o estrago fosse grande o plano de inaugurar a Fazenda Boa União, seu presente de noivado para a filha e o sobrinho, poderia sofrer atraso. Como ele ficaria, então, diante de outros fazendeiros, especialmente os da Vila de Vassouras e da Vila de Paraíba do Sul? O casamento de Mariana Claudina com José Antonio, primos em primeiro grau, dentro da mais absoluta tradição entre os fazendeiros de café do vale, corria o risco de se atrasar.

Enquanto os homens envolvidos neste cenário tinham preocupações concretas, as duas jovens, que nunca haveriam de se conhecer, as tinham intangíveis. Martina havia concluído que Emilio era de fato um tímido; como gostava dele, deveria, ela mesma, já que a mulher é quem decide pela relação amorosa, tomar a iniciativa. Mariana, por outro lado, desde que se entendia por gente, estava prometida para o primo, um ano mais velho. Não tinha escolha, nem mesmo quando, estudando no Rio de Janeiro, num colégio de freiras, ousou lançar olhares angulosos para um menino bem vestido que assistia às missas aos domingos em companhia dos pais. O padre confessor a aconselhou rezar mais para afastar as tentações do demônio que investia especialmente nas meninas de treze a quatorze anos. Concentrou-se, entretanto, tão intensamente Mariana nas orações que começou a manifestar vocações religiosas, chegando a pensar em ser freira. Ao relatar este desejo à mãe foi suavemente desaconselhada, já que isto iria constranger seu pai que já a havia se comprometido com a irmã. Quando ouviu isto Mariana deixou rolar uma lágrima incontida e aceitou resignada a destinação que lhe impuseram, como viria a fazer em várias oportunidades de sua vida.

Emilio, que se passava por Juan, estava tendo dificuldade em conduzir o rebanho de ovelhas serra a baixo porque alguns cordeiros mais jovens, que nunca haviam pisado na neve, tornavam-se incontroláveis aos cães pastores. Estava com fome, pois não levara provisão alguma, mas as ovelhas irrequietas não deixavam esta necessidade fisiológica vir à tona.

Juan, que se passava por Emilio, estava tendo outro tipo de dificuldade, também de natureza fisiológica, porém mais agradável. Martina, tão logo virou a curva, lançou um olhar profundo em sua direção e pegou sua mão enluvada, apertando com força. Ele devolveu o aperto e sorriu, apertando seus olhos esverdeados. Andaram uma centena de metros de mãos dadas, até que ela, por aproximar-se cada vez mais, estimulou que a enlaçasse, passando o braço sobre seu ombro, caminhando juntos, abraçados, em passadas cadenciadas, como se fossem um só corpo. Tão logo atravessaram a ponte românica sobre o rio Xarés na entrada da vila de A Veiga, Martina parou e ofereceu seus lábios entreabertos para Emilio (Juan).

O pai e a mãe de Emilio aguardavam a chegada do rebanho com preocupação. O estábulo que ficava sob a casa, onde as ovelhas ficaram abrigadas do inverno ainda não estava devidamente reparado. Aquela nevasca inesperada iria exigir uma mudança de planos: era preciso preparar o local o mais rápido possível. Por isso a ordem, logo na chegada:
- Que Deus seja louvado, Juan – disse sua mãe.
- Não perdeu ovelha nenhuma, filho? – quis saber o pai.
- Não, nenhuma... O Emilio, onde está?
- Seu irmão está bem, foi mais cedo para a aula particular de francês, antes da prova.
- Vou me preparar...
- Não, filho. Depois eu mando uma carta ao diretor pedindo que faça a prova em outra data. Agora você tem que me ajudar na preparação do estábulo... Veja lá, cuidado! As ovelhas estão seguindo na direção da horta, vão comer todas as hortaliças... Leve-as já para o cercado ali do vizinho, depois eu falo com ele...

A principal diferença entre uma floresta de clima temperado e frio das florestas tropicais é a profusão de espécies vegetais que convivem, tornando as matas fechadas. A água que desaba em precipitações pluviométricas anuais superiores a 2.500 mm, antes de atingir o solo é absorvida, protegendo a fina camada de solo orgânico das erosões. Porém, na implantação da monocultura no século XIX, quando a técnica do plantio respeitando curvas de nível ainda não estava difundida, e o café era plantado em ruas, fatiando os morros, as águas não encontravam resistência e através de erosões sucessivas arrastava, em forma de lama fina, o solo fértil, tornando as áreas desmatadas mais improdutivas a cada ano. Novos desmatamentos eram exigidos, a cinzas que restavam após o fogo devolviam ao solo os sais minerais retidos pela vegetação e nos primeiros anos os cafezais, abundantemente irrigado pelas chuvas tropicais, eram muito produtivos. Por uma contingência de mercado, que tornava a bebida antigamente acessível apenas às classes abastadas, um produto de consumo da burguesia, estimulava a produção no Vale do Paraíba, que não parava de crescer, mas incapaz de atender uma demanda que não parava de aumentar, mantendo os preços ascendentes. Um verdadeiro paraíso para o fazendeiro de café, que se autodenominava lavrador, que cada vez mais rico formava uma elite rural capaz de sustentar o único Império dos trópicos.

A enxurrada correndo entre fileiras de pés de café cavou valas profundas, ganhou volume e força, arrastando a ponte de madeira que levou três meses para ser construída. Antes de começar a dar ordens, que seriam prontamente obedecidas, o major Antonio Barroso andou o tempo todo no meio da lama planejando como recuperar os troncos arrastados pela correnteza.

Emilio ouviu ordens do pai o tempo todo em silêncio, enterrando o gorro do irmão Juan até as orelhas, por causa da nevasca inesperada. O dia foi de muito trabalho nestes dois cenários.

Quando a noite chegou Emilio estava taciturno, sentado na cadeira que ficava próximo da janela, de onde observava todo o povoado de Carracedo. Juan entrou na sala em silêncio, trocou um olhar com irmão, deixou o gorro verde no lugar habitual, ao lado do vermelho do irmão, que se levantou e seguiram ambos para perto da lareira. A neve já do dia anterior havia derretido, mas a temperatura ainda estava baixa. Juan aproximou-se do irmão e segredou-lhe algo no ouvido. Uma lágrima incontida brotou dos olhos esverdeados de Emilio, que ficou todo o resto da noite em silêncio.

Às quatro horas da manhã, todos dormiam profundamente na casa construída de grandes blocos de granito em Carracedo. Emilio levantou-se sem fazer ruído, jogou toda sua roupa em um saco, embrulhou pão e o queijo de ovelha feito pela mãe e pegou uma garrafa de vinho. À luz avermelhada da lareira que queimava apenas brasa redigiu em galego uma carta de poucas linhas, que deixou sobre a mesa. Abriu a porta com cuidado, pois a dobradiça enferrujada produzia um som estridente. O cão pastor levantou as orelhas quando o viu descendo a escada de pedra. Abanou a cauda alegremente e o acompanhou em silêncio até o portão de entrada.

Emilio hesitou qual caminho tomar. A primeira idéia seria passar algumas semanas na casa do tio, no bairro judeu de Ourense. Mas como explicar ao tio a súbita aparição em pleno período escolar? Tomou a direção sul, seguindo pela estrada que cortava as montanhas até a vila de A Gudiña, pouco mais de cinco léguas de distância. Caminhou num ritmo intenso, concentrado em se afastar o mais rápido possível de casa, parando duas vezes para se alimentar de pão com queijo e vinho. Quando tinha sede as águas cristalinas dos riachos serviam para saciar, bebendo com as conchas das mãos. Na sua cabeça o tempo todo girava o segredo que lhe fora cochichado pelo irmão, que alterava todo seu plano de vida, pois Martina não mais lhe poderia pertencer.

Pensava no que diria quando chegasse a Ourense, sem aviso prévio na casa de seu tio pobre. Porém lembrou-se de velhas lições e percebeu que, aos 17 anos, tinha pela primeira vez um forte sentimento de liberdade. Poderia, livremente, escolher o destino que quisesse, pois era um homem livre. Olhou em direção à serra do Xurés, que faz divisa entre a Espanha e Portugal que estava sem vestígios de neve e resolveu mudar de rumo.

Escurecia quando começou a subir em direção a serra e quando chegou ao alto do Xurés já noite alta, mas a lua cheia iluminava bem a estrada sinuosa. O frio intenso fez com que procurasse um abrigo. Localizou algumas ruínas celtas, construídas de blocos de granito bem encaixadas há mais de mil anos, mas bem conservadas. Acendeu uma fogueira com a lenha que recolheu na mata ao lado e puxou o casaco para cobrir o corpo encolhido. Durante a noite fez muito frio, mesmo perto do fogo. Por duas vezes acordou com uivos de lobos. Avivou as chamas e armou-se de pedras quando ouviu um ruído vindo dos arbustos, pensando ser talvez um urso, procurando o último alimento antes do longo período de hibernação. De certa maneira estava arrependido de ter deixado sua casa aquecida, a proteção da família e sentiu medo de virar alimento dos animais selvagens que circulavam livre pela serra. Enfiou a mão na trouxa e tirou de dentro o livro de catecismo de sua primeira comunhão, procurando alguma oração milagrosa que pudesse afastar qualquer mal. Concentrou-se na leitura das letras ondulantes pelo dançar das chamas. Fez movimentos com a cabeça, imitando o modo de rezar de seu tio, como chamas de uma vela, relembrando-se dos meses que passara em Ourense.

Dormiu o resto da noite sossegado. Quando amanheceu, começou a descer a serra. Quase meio dia, seu farnel já havia acabado, quando ouviu barulho de pedras sendo quebradas. Seguiu o som por uma trilha entre as árvores e procurou o chefe da turma, oferecendo-se para trabalhar. Descobriu então que já estava em Portugal, porém todos falavam o mesmo idioma, o galego, que não conhecia fronteiras políticas. Os trabalhadores tinham uma cabana de madeira e comida quente.

Quando D. João VI veio para o Brasil o café no Vale do Paraíba já estava em franco desenvolvimento. Cem anos antes da sua chegada, havia sido descoberto ouro nas proximidades de Vila Rica, localidade de três mil habitantes. A descoberta deflagrou uma corrida que atraiu gente de todo mundo. No ano de 1709 a população de Vila Rica já havia saltado para 20 mil habitantes, chegando em 1770 a 300 mil, enquanto Lisboa tinha 200 mil e Nova York 25 mil habitantes na mesma época. Porém, o clímax do período áureo durou pouco: entre 1735 e 1754, a exportação anual girava em torno de 14.500 kg; no final do século XVIII, a quantidade de ouro enviada para Portugal caíra para 4.300 kg por ano. Efetivamente, Lisboa não teve a mesma sorte de Madri na exploração de ouro suas colônias nas Américas, especialmente México e Peru.

Visando garantir renda, a lei lusitana obrigou que toda descoberta deveria ser comunicada e para garantir o pagamento do imposto de 20% (o quinto), foram criadas a partir de 1720 as casas de fundição, que transformam o minério em barras timbradas e “quintadas”. Não obtendo o resultado esperado, passou a exigir um pagamento fixo anual da Província de Minas Gerais, um imposto conhecido como “derrama”, independente da produção – que gerou muito descontentamento.

Os proprietários das minas de ouro exauridas tiveram de mudar de ramo, passando a investir na agricultura ao longo do vale do Rio Paraíba do Sul, que estava mais próximo do porto e as terras eram férteis e baratas. Inicialmente a produção foi de milho e açúcar, mas logo evoluindo para o café. Portanto, todas as grandes famílias dos fazendeiros de café eram de procedência da Província de Minas Gerais e constituíam grupos aliados politicamente entre os dois partidos formalizados pela primeira constituição Imperial, quando o Brasil se tornou uma nação independente de Portugal: o partido Conservador e o partido Liberal.

Como um legítimo representante mineiro, procedente de São João Del Rei, na antiga região aurífera, Antonio Barroso tinha no casamento da filha uma grande chance de se firmar politicamente junto ao Regente Feijó, que governava o país na ausência do primeiro imperador, D. Pedro I, que havia seguido para Portugal em 1831. Ainda estava longe o dia em que o filho deste, nascido em dois de dezembro de 1825, Pedro de Alcântara, seria coroado como Pedro II, com apenas 16 anos de idade, em 1841.

Para recuperar rapidamente a ponte arrasada pela enxurrada, Antonio Barroso mandou vir de suas outras fazendas: Piracema, Bemposta e Cantagalo várias parelhas de bois, chamadas juntas, para recuperarem as grossas toras levadas pela correnteza. Lamentou que não tivesse uma serraria próxima, pois os troncos precisavam ser trabalhados a machado. Priorizando esta obra de recuperação, em um mês estaria novamente reerguida a ponte de madeira, não havendo necessidade de adiar o casamento da filha, com seu sobrinho, situação comum em mais de 80% das famílias de fazendeiros de café do Vale do Paraíba.

Em Portugal, Emilio apesar de jovem e franzino foi aceito sem muitas indagações e começou a aprender um novo ofício. Primeiro apenas carregando pedras, depois aprendendo perfurar para o corte, identificando bem o veio natural da rocha e depois como reduzi-las a paralelepípedos perfeitos. Um dia o chefe da turma, mestre Ribeiro de Sá, após examinar em silêncio sua mão esquerda precisa trabalhando diagnosticou:
- Tu levas jeito!

Apenas três meses depois de ter chegado ao grupo, Emilio foi convidado, juntamente com dez outros operários, para uma empreitada bem paga na Ilha dos Açores. Leu o texto que lhe mostraram redigido em português:

Pelo Decreto n.º 28, de quatro de junho de 1832, assinado em Ponta Delgada por D. Pedro IV, em nome de sua filha, a rainha D. Maria II, sendo Secretário de Estado dos Negócios do Reino o marquês de Palmela, fica extinta a Capitania Geral dos Açores, sendo criada a Província dos Açores, com sede em Angra, na ilha Terceira.

Dom Pedro IV que assinava o decreto era o mesmo Imperador D. Pedro I, responsável pela independência do Brasil de Portugal. Segundo comentários, resolveu fazer obras de melhoramento na ilha, pois tinha medo de outra proclamação de independência, agora contra ele, já que navios ingleses com olhares cobiçosos frequentemente circundavam o estratégico arquipélago, oferecendo seu apoio bélico aos temerosos políticos favoráveis à independência. Para as obras de melhoria estava recrutando bons canteiros em todo o reino.

O mestre Ribeiro de Sá, antes de embarcarem, convidou Emilio para permanecer alguns dias em Penafiel, onde residia, com uma família numerosa. Neste momento Emilio sentiu falta de sua casa, mas nada disse que pudesse trair este sentimento. Deixara crescer a barba, o que lhe conferia mais idade e ficou especialmente animado com o aumento de salário que teria.

O trabalho nos Açores foi difícil, o granito da ilha vulcânica era muito mais duro do que o da Serra do Xurés. Teve que aprender várias técnicas e examinar bem a pedra antes de começar a bater, para quebrá-la no tamanho certo. Emilio concentrava-se no trabalho da lavra, esquecendo-se completamente das tardes de ócio que passava lendo enquanto as ovelhas pastavam. Portanto, não ficou muito surpreso quando, menos de um ano depois, surgiu um convite para a mesma turma seguir para o Brasil. A Galícia ficaria ainda mais distante, mas a perspectiva de ganho era muito maior do que teria como simples criador de ovelhas. O mestre Ribeiro de Sá não viajaria com o grupo e antes de retornar para a vila de Penafiel, deixou com Emilio algumas cartas de apresentação e recomendação que ele poderia utilizar à vontade, como credencial de profissão.

- Não estamos correndo muito risco de ir para o Brasil, mestre?
- De forma alguma! América é onde está o futuro. Na Espanha ou em Portugal, você Emilio, apesar de toda a habilidade, só seria reconhecido mestre quanto tivesse mais de quarenta anos. Lá não, você será um operário especializado, pois disputará apenas com o trabalho escravo, onde os profissionais são formados à base de chicote. Lá você será um rei...
- Está me chamando de caolho, só porque em terra de cego quem tem um olho é rei? – perguntou provocando sorriso de mestre Ribeiro de Sá.

A MULA DO OURO - Capitulo 2

Capítulo 2
Estrangeiro no Novo Mundo

Durante a viagem que durou mais de dois meses, num navio a vela comandado por um capitão galego como ele, que partira do porto de Vigo, Emilio teve oportunidade de ler alguns livros sobre a história das Américas, disponíveis a bordo e conversar bastante com o capitão que tinha um especial interesse pela disciplina. Segundo os relatos deste, o governador da província do Rio de Janeiro, onde estava localizada a Corte, desejava melhorar o Caminho Novo da Estrada Real, na Serra da Estrela, que partia do porto do mesmo nome a dois quilômetros da foz do rio Inhomirim na baía da Guanabara, contando com mão-de-obra especializada, ao invés do braço escravo, mais treinado para trabalhos na lavoura.

A obra contratada era na verdade um atalho, pois o Caminho Novo foi a primeira estrada na América do Sul aberta do interior para o litoral, a partir da fazenda Borda do Campo implantada no alto da Serra da Mantiqueira.pelo bandeirante Fernão Dias Paes Leme, conhecido com o Caçador de Esmeraldas. A chamadas bandeiras eram expedições exploratórias destinadas a capturar índios para trabalho escravo e garimpar ouro. A última bandeira realizada por Fernão Dias, quando já tinha 66 anos, partiu de São Paulo em julho de 1674 com um contingente de 600 homens, sendo 40 brancos e os restantes índios e consumiu quatro anos de trabalhos de exploração nas montanhas de Minas Gerais. Como último feito, pouco antes de sua morte, Fernão Dias escreve uma carta em março de 1681 ao Rei de Portugal relatando: “Deixo abertas cavas de esmeraldas no mesmo morro donde as levou Marcos de Azeredo, já defunto, coisa que há de estimar-se em Portugal”. As ditas esmeraldas, entretanto, eram turmalinas, que Fernão Dias nunca soube, pois morreu de febre em outubro do mesmo ano.

A abertura do Caminho Novo foi uma iniciativa do governador da Capitania do Rio de Janeiro, Artur de Sá Menezes, logo que se teve confirmação, em 1702, da descoberta de grandes jazidas de ouro em Minas Gerais. O Caminho Velho, utilizado por Fernão Dias de São Paulo, era uma rota que descia em canoas, das proximidades da vila de São Paulo pelo o Rio Paraíba do Sul até onde deixa de ser navegável, no ponto conhecido como Cachoeiras. O caminho terrestre atravessa no lado da margem esquerda do rio a Serra da Mantiqueira, que divide as províncias de São Paulo e Minas Gerais, e ao lado da margem direita a Serra da Bocaina, que divide as províncias de São Paulo e Rio de Janeiro. O Caminho Velho chega ao mar na cidade portuária de Parati, no extremo sul da baía de Sepetiba, obrigando uma navegação costeira até à Capital da Colônia, no Rio de Janeiro, sendo, portanto vulnerável a ataques de piratas e de contrabandistas de pau-brasil. Um caminho novo, exclusivamente por terra, mais curto e seguro, era então recomendado.

Garcia Paes, na abertura deste caminho, tomou a direção sul a partir da Fazenda da Borda do Campo, seguindo um rio de águas escuras, chamado Paraibuna (designação Tupi: Paray, rio e Una, escura) a partir de sua nascente na Serra da Mantiqueira até seu encontro com um rio mais volumoso, de águas claras o Paraíba (também designação Tupi). A maior dificuldade na abertura deste caminho foi vencer o alagadiço de mais de quatro léguas encontrado no meio da selva e formado pelas águas espraiadas do Rio Paraibuna. Ali Garcia Paes teve que fazer uma longa pausa até achar a direção que o rio tomava, o que o obrigou a derrubadas para plantar uma roça de milho e mandioca para alimentar sua gente, um grupo de cerca de cem pessoas. O povoado que surgiu no local tomou o nome de Santo Antonio do Paraibuna.

Seguindo na direção sul, Garcia Paes desviou-se do vale do Paraíba depois do alagadiço, porque ele passava a correr entre desfiladeiros, na Serra de Marmelos. Do ponto mais alto da região de Santo Antonio do Paraibuna se avista ao longe o maciço de granito conhecido como Pedra de Paraibuna, como mais de 400 metros de altura, quase de prumo. No meio do caminho plantou uma roça, criando uma fazenda e uma localidade que recebeu o nome de Matias Barbosa, quando retomou o caminho acompanhando sempre as margens do Rio Paraibuna.

O Rio Paraibuna foi transposto por Garcia Paes na cachoeira existente diante do grande maciço de granito, chamado monte Serrat, a Pedra de Paraibuna, que vinha orientando sua direção. O rio nesta região era o limite sul da vila de Barbacena, servindo como fronteira entre as províncias de Minas e Rio de Janeiro. Por esta razão foi escolhido para um futuro posto de fiscalização ou Registro.

Para atravessar o Rio Paraíba do Sul, seu maior obstáculo natural, Garcia Paes evitou a barra do Paraibuna, pois neste exato ponto o caudaloso rio recebe também as águas do encachoeirado Rio Piabanha, que desce da Serra do Mar, engrossando ainda mais, preferindo um ponto distante três léguas a montante, onde também plantou roça e criou fazenda, batizando o local de Paraíba do Sul, o mesmo nome do rio que iria vencer.

Esgotado pelo trabalho intenso, em meados de 1703 Garcia Paes enviou ao Rei de Portugal uma carta-apelo explicando as dificuldades ocasionadas pela deserção dos escravos e pedido ajuda, já que ficara reduzido a 30 homens. A ajuda logo chegou e os serviços prosseguiram, venceu a Serra das Araras, passando pelo trecho conhecido como Serra dos Macacos, Pilar e finalmente Penha, aonde chegou em 1707.

Logo depois de inaugurada a nova rota mostrou serventia. Em 1711 a baía da Guanabara foi ocupada uma esquadra 18 navios de corsários franceses, comandados por René Duguay-Trouin. Foi subindo pela rota do Caminho Novo que as riquezas da capital da província escaparam do saque, viajando em lombo de burro até a fazenda de Garcia Paes em Paraíba do Sul, no outro lado da serra. Foi também pelo Caminho Novo que desceu o reforço enviado de Vila Rica pelo Governador Antonio de Albuquerque, composto por cerca de 6.000 homens em grupos de 100, para ajudar a expulsar os franceses.

Não houve, entretanto batalhas, pois o governador Francisco de Castro Morais assinou um termo de capitulação, pagando um resgate de 610 mil cruzados, cem caixas de açúcar e duzentas cabeças de gado para que a cidade do Rio de Janeiro abandonada e os navios ancorados no porto não fossem incendiados como ameaçava Duguay-Trouin – um prejuízo muito maior. Pago o combinado, após cinqüenta dias de ocupação, a esquadra francesa deixa a baía da Guanabara rumo à França, para dividir o botim com o próprio Rei Luís XIV, já que desde março de 1711, por condições aprovadas pelo ministro da Marinha francesa, o monarca havia se tornado sócio da empreitada, fornecendo sete navios dos 18 da armada, equipada com marinheiros, guardas e soldados do seu governo.

Emilio lia e ouvia os relatos históricos com admiração, parecendo-lhe uma história familiar, pois envolvia serras, rios e ouro. A cidade onde tinha laços familiares especiais, Ourense, recebeu este nome exatamente por causa das jazidas de ouro que os romanos assumiram, mas que já eram exploradas anteriormente pelos Celtas. A descrição da paisagem e de estradas através das montanhas e florestas verdejantes também lhe parecia familiar à distante Galícia, com montanhas verdejantes e cortadas de rios encachoeirados. Para um rapaz de 19 anos a nova terra parecia-lhe repleta de aventura e cheia de oportunidades. Trocava assim, uma perspectiva de vida difícil, mas regular na Galícia, por uma incerta e cheia de recompensas no Brasil.

Enquanto o navio viajava dos Açores em direção ao Brasil, na Câmara de Vereadores da Vila de Paraíba do Sul, instalada em 1833, data da criação da vila, uma importante reunião acontecia, envolvendo todos os grandes fazendeiros da região e o engenheiro militar Júlio Frederico Koeller, jovem oficial alemão, de 31 anos, que ainda falava um português arrastado, apesar de já estar no Brasil há sete anos. Embora tivesse estudado medicina na Alemanha, fez com brilhantismo prova de aptidão em matemática, sendo nomeado engenheiro militar. Koeller era o chefe da 2ª. Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro.

A pauta da reunião incluía decisões sobre melhoria do Caminho das Tropas, uma variante do Caminho Novo que passava pela Serra Estrela ao invés da Serra das Araras e terminava no fundo da baía da Guanabara e a construção de uma ponte na Vila de Paraíba do Sul, para substituir a precária ligação através de barcaças. As obras interessavam principalmente os fazendeiros da margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, que tinham um custo de transporte superior aos dos fazendeiros de café instalados na margem direita. Dentre os maiores interessados destacava-se Antonio Barroso e Hilário Joaquim de Andrade, seu vizinho, dono da Fazenda Serraria, ambos eleitos vereadores.

Este atalho do Caminho Novo foi aberto em 1724 pelo militar Bernardo Proença sendo chamado Estrada do Proença ou Caminho das Tropas. Atravessava a fazenda do Padre Correa, onde pernoitou D. Pedro I, na sua primeira viagem à Província de Minas Gerais depois da independência do Brasil. O Imperador gostou da propriedade e propôs compra-la, mas os familiares do Padre Correa recusaram e ofereceram como alternativa a fazenda do Morro Queimado, vizinha, que foi adquirida, mas não paga pelo Imperador, que logo seguiria para Portugal para guerrear com seu irmão Miguel e garantir a posse da filha Maria da Glória como rainha.

No seu traçado, o Caminho das Tropas segue o curso do Rio Piabanha até onde, como no caso do Paraibuna em Minas Gerais, passa a correr entre desfiladeiros, na Serra do Taquaril. Contorna este obstáculo subindo pelo riacho do Fagundes em direção a Cebolas, daí a Paraíba do Sul, onde encontra com o Caminho Novo original, na Vila de Paraíba do Sul. Neste ponto foi construída uma igreja, que passou a ser conhecida como Santo Antonio da Encruzilhada.

Um século depois, tropas de mulas transportando café da zona do Paraibuna tinham neste local duas opções: seguir pelo Caminho Novo original, pela serra dos Macacos e Araras, até a rio Iguaçu, onde o café era descarregado e embarcado em canoas rasas para seguir para o porto do Rio ou tomar o atalho do Caminho das Tropas, até o porto de Estrela, onde também era descarregado para seguir em barcaças de maior porte que navegavam na baía para junto do porto marítimo, onde o café seria selecionado, classificado e estocado para exportação.

As obras para as quais estavam os trabalhadores açorianos contratados eram as de melhoria do Caminho das Tropas, que na época das chuvas tornava o caminho muito difícil. Deveria ser toda pavimentada com lajes de granito, retirada de jazidas nas imediações. Depois da explanação pelo engenheiro Koeller, foi aberta a seção de perguntas. O major Antonio Barroso foi o primeiro a se inscrever e perguntou:
- Minha experiência é amarga, senhor engenheiro. A mão-de-obra dos negros não é adequada para construção de pontes. Além disso, a lavoura está exigindo cada vez mais braços. Como resolver isto?
- Boa pergunta, major. Nós já havíamos chegado a esta conclusão. Neste momento está a meio caminho, um navio vindo dos Açores repleto de trabalhadores especializados em obras de cantaria. Realmente, não é possível uma ponte de madeira resistir às chuvas de verão, como o senhor mesmo afirma, os pilares têm de ser feitos de blocos de granito. Assim poderão durar séculos!

Nos últimos dias da viagem, quando já acompanhavam a embarcação as gaivotas e fragatas que aninhavam nas ilhas próximas à entrada da baía da Guanabara, o capitão chama Emilio para uma última lição:
- Vais estranhar uma coisa quando chegarmos ao porto do Rio de Janeiro: a grande presença de negros.
- Como assim?
- Pensará que estamos na África, pois no Rio de Janeiro, mais da metade da população é negra. A divisão social é também bem diferente da nossa Galícia. Lá, por conta da expulsão dos mouros realizada pelos Reis Católicos Fernando e Isabel, grandes porções de terras foram cedidas à igreja e aos fidalgos que comandavam os exércitos. No Brasil a igreja não é tão forte; mas existe sim, como na nossa Galícia, uma elite composta por grandes proprietários de terras, recebidas graciosamente do governo na forma de Sesmarias, com o compromisso de exploração econômica.
- São os proprietários portugueses?
- Raramente. Houve uma espécie de divisão tácita. Enquanto os brasileiros exploram a terra os portugueses exploram o comércio, principalmente o tráfico de escravos da África. Comerciantes portugueses se estabelecem junto à costas em ambas as margens do Atlântico, da África e do Brasil. Comerciavam açúcar, fumo e cachaça, que eram trocados por negros já escravizados, por tribos rivais em várias colônias lusitanas nas costas da África.
- Não existem então, arrendatários de terras da igreja e de fidalgos, como na Galícia?
- Raramente. A mão-de-obra é exclusivamente de braço escravo, treinada para o trabalho na lavoura. Por isso, para serviços especializados, precisam de pessoas como você.
- Existem também a figura dos fidalgos?
- Sim, porém sem tradição familiar. No Brasil, para ser fidalgo é preciso ser muito rico ou poderoso politicamente. Os títulos de nobreza são as recompensas por serviços prestados à Coroa. Com o passar dos anos, provavelmente, através de casamentos entre famílias importantes, será criada uma nobreza sangüínea, como na Europa. É apenas uma questão de tempo...

Depois de terminada a reunião na Câmara, os fazendeiros Antonio Barroso e Hilário Joaquim seguiram juntos, evitando o antigo Caminho Novo aberto por Garcia Paes, porque, como relatou o geólogo Barão Wilhelm Ludwig Von Eschwege, que entre 1808 e 1821 percorreu várias vezes o Caminho, em toda sua extensão o pior trecho encontrava-se entre a Pedra de Paraibuna e a Vila de Paraíba, composto por uma série de subidas e descidas íngremes. Preferiram um novo atalho quase plano, aberto pelo Capitão Tira-Morros.

Em 1817 encontrava-se na direção do Registro Novo de Paraibuna o capitão José Antonio Barbosa Teixeira, que também comandava o destacamento ali aquartelado. A sede do Registro ficava à direita do Caminho Novo e o pequeno quartel quase defronte. Recebeu ordens do governo do príncipe regente D. João VI de construir uma ponte no local para a travessia do Paraibuna. Iniciou as obras no inverno de 1818 terminando-a em 1822.

A Imperial Ponte de Madureira teve o estrado e construído em madeira de lei, abundante na região e era coberta. Não foi, porém, devido à ponte que José Antonio Teixeira passou para a história, mas pela construção concomitante de uma variante que seguia a partir da vila de Paraíba do Sul o curso do rio de mesmo nome pela margem esquerda até às proximidades da foz do córrego do Puris, que passou acompanhar até próximo sua nascente. Vencendo o divisor de águas dos rios Paraíba do Sul e Paraibuna, seguiu pela margem direita deste até a ponte de Madureira ou ponte de Paraibuna. O caminho era mais longo, porém quase plano o que deu a José Antonio o apelido de Capitão Tira-Morro.

José Antonio também poderia passar à história por outro fato. Em 1792 diante de sua fazenda em Cebolas foi amarrada a um poste uma parte do tronco esquartejado de Tiradentes, salgada para apodrecer lentamente. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nasceu em 1746 e além de Alferes também fazia serviços de dentista. Muito amigo dos povoados ao longo do Caminho Novo onde trabalhava em patrulhamento, havia oferecido para a igreja local de Cebolas algumas peças de devoção. No mesmo dia que os portadores dos despojos de Tiradentes, acompanhados de soldados do exército português, cumpriram em Cebolas as determinações de Lisboa, celebravam-se ali as festas do Divino Espírito Santo que foram, em sinal de pesar, imediatamente interrompidas. Passadas algumas horas, de madrugada, Mariana Barbosa Teixeira, mulher de José Antonio, juntamente com seu capelão, Padre Amorim e mais um escravo da fazenda, retirou do poste o despojo de Tiradentes, sepultando-o na base do altar da capela de Nossa Senhora do Rosário, na própria fazenda.

Tiradentes era muito amado pelo povo, desde quando, em 1783, como comandante de Destacamento do Caminho Novo, para o qual fora designado dois anos antes, ajudou o fazendeiro José Ayres Gomes, da Fazenda da Borda do Campo, a desbaratar uma quadrilha de ladrões da Serra da Mantiqueira, que assaltava os viajantes.

Em suas andanças por todo o Caminho Novo até o Rio de Janeiro, Tiradentes quando vivo angariava simpatia e amores, já que contavam as lendas que possuía várias namoradas nas várias fazendas que percorria, algumas delas as próprias fazendeiras.

- Por que Tiradentes assumiu toda responsabilidade pela Inconfidência Mineira? – quis saber Emílio.
- É uma história longa, cheia de contradições, traições, interesses políticos e econômicos...
- Foi ele influenciado pela Revolução Francesa, como aconteceu em certos locais na Galícia?
- Creio que não, pois o episódio conhecido como a Queda da Bastilha de 1789, que deu início ao movimento revolucionário, aconteceu quando Tiradentes já se encontrava preso.
- Qual a razão, então?
- O mais provável é que as origens do movimento estejam no estabelecimento, em 1765, da Derrama: o confisco dos bens dos moradores da província de Minas Gerais para cobrir o valor estipulado para o quinto quando havia déficit de produção de ouro.

Emilio ficou pensativo observando o morro do Pão de Açúcar na entrada da baía da Guanabara se aproximar, e o capitão continuou:
- José Antonio, o Capitão Tira-Morros, foi um severo Fiscal de Barreiras, ordenando que seus soldados rondassem todo o Caminho até defronte de Barra Longa, onde os sonegadores do quinto de ouro haviam criado um atalho para não passar pelo Registro. Conta-se que um dia um viajante, com vários animais carregados de ouro, chegando neste local encontrou o Rio Paraibuna demasiadamente cheio e ali pretendia ficar para esperar a vazante. Não havia ainda descarregado os burros quando foi informado que a guarda estava a caminho. Resolveu enfrentar o azar: apertou os animais para fazê-los tentar a travessia a nado. Dois deles não alcançaram a margem oposta e foram arrastados pela correnteza um longo trecho, desaparecendo com mais de dez arrobas de ouro que jazem até hoje no fundo do rio.
- Verdade? – quis saber Emilio.
- É o que dizem. Mas o ouro sempre deu margem a histórias assim, de tesouros perdidos.

Depois dos sessenta dias de travessia, Emilio ansiava pisar terra firme. Antes da entrada da baía da Guanabara, o navio rodeou duas ilhas, passando de frente a praias alvíssimas, no fundo da quais pedras arredondadas formam a silhueta de um gigante deitado. A grande pedra do Pão de Açúcar, na entrada da baía deslumbrou Emilio, fazendo-o recordar-se da Serra Calva, que de Carracedo se avistava coberta de neve no inverno, mas verdejante no verão. Quando o navio atracou Emilio confirmou a maciça presença de tantos escravos negros em torno dos cais. Olhou ao longe o contorno azulado da serra que circundava a baía, para onde logo se dirigiriam.

Os trabalhos de reparo da estrada desde o Porto Estrela até a fazenda do Córrego Seco, tiveram inicio em agosto e era comandado por Júlio Frederico Koeller. Os experientes açorianos logo dominaram o granito da serra, mais macio do que da ilha vulcânica e o serviço rendeu bem mais do que quando realizado por mão-de-obra escrava, arrendada das fazendas próximas. Emilio, como contra-mestre, ficou encarregado de uma turma de dez outros operários, todos açorianos e portugueses.

Os relatório favoráveis de Koeller contribuíram para a criação em janeiro de 1836, da Sociedade Promotora de Colonização do Rio de Janeiro, através da qual chegaram nove mil colonos portugueses na Capital da Província, sendo seis mil das Ilhas dos Açores. Alguns desses colonos, sob as ordens de Koeller, foram trabalhar na construção da ponte do Rio Paraíba e mais tarde na conservação da Estrada Calçada de Pedras na Serra da Estrela. Eram 70 famílias com cerca de 150 pessoas.

Por determinação de Koeller, Emilio foi trabalhar na construção dos pilares da ponte que atravessava o Rio Paraíba do Sul, na vila de mesmo nome. A obra foi solicitada pelo vereador Hilário Joaquim de Andrade, proprietário da fazenda Serraria, que havia sido Guarda de Honra do Imperador Pedro I. Com 40 anos, jeito autoritário, o fazendeiro acompanhava de perto as obras e ficou particularmente surpreendido com a pouca idade de Emilio, chamado de contramestre canteiro, com apenas 20 anos. Mas, ao observar como o rapaz manipulava o martelo e a talhadeira, esculpindo rapidamente as pedras em encaixe perfeito, ficou tranqüilo. A obra, porém, não andava bem, pois havia como que uma má vontade em ajudar os operários e mesmo uma torcida para que o serviço se atrasasse, por parte dos barqueiros que faziam a travessia das tropas de burros que seguiam para o Porto Estrela. Os materiais só eram transportados até os pregões quando não havia carga alguma para ser atravessada.

O caudaloso e barrento Rio Paraíba do Sul, que a cada chuva nas cabeceiras aumentava de volume, alargando as margens, também impressionou Emilio, acostumado com os riachos de águas límpidas da Galícia.

Outro aspecto que chamou a atenção de Emilio foi o excesso de dirigentes. Uma comissão foi composta por vereadores da Vila de Paraíba do Sul, presidida pelo fazendeiro e major da Guarda Nacional João Gomes Ribeiro de Avelar, que tinha propriedade na margem direita, com a participação de outro grande fazendeiro, também major da Guarda Nacional e proprietário de terras na margem esquerda, Antonio Barroso. Os dois não se entendiam e era preciso ficar atento para não receber ordens contraditórias. O major Koeller parecia pisar sobre ovos para não desagradar nenhuma das partes. Isso também contribuía para o atraso nos serviços, pois muitas vezes os operários ficavam dias sem ter o que fazer, apenas ouvindo as conversas na beira do rio. Estas conversas permitiam-lhe imaginar como era o dia a dia numa fazenda de café no Vale do Paraíba.

Certa manhã, pouco antes da hora do almoço, enquanto Emilio esperava uma tropa de mulas terminarem a travessia do Rio Paraíba, para poder utilizar as barcaças para transporte dos paralelepípedos de granito até o pilar assentado sobre uma pedra que formava uma ilhota, avistou um grande cavalo branco chegando pela margem esquerda. Reconheceu o major Antonio Barroso e ficou observando-o com atenção enquanto caminhava em sua direção. Depois dos cumprimentos formais, ficou aguardando, pois sabia que o Major estava a sua procura.

- O serviço está lento, não é espanhol?
- Sim, senhor. Já fiz relatório pro major Koeller...
- Sei. Não precisa explicar, não é culpa de vocês. O problema é político, interesses, coisa grande... Mas não é por causa disso que te procuro...
- Sim, senhor.
- Preciso de seu trabalho na fazenda. Tenho uma grande obra para fazer. Preciso do melhor canteiro. E o melhor que me indicou o major Koeller é você – apesar de tão novo.
- Sim, senhor. Mas as obras da ponte...
- Está tudo acertado com o Koeller. Você vai ganhar três vezes o que recebe aqui e pode levar uma turma de até cinco homens, ganhando o dobro do que o governo paga pelo serviço da ponte. Mas vão ter que trabalhar duro!
- É uma oferta tentadora, major Antonio. Mas o engenheiro Koeller...
- Já falei não precisa te preocupar. Ele acaba de contratar uns patrícios dele mesmo, alemães, que desembarcaram do navio Justine. Iam para Austrália, mas, devido aos maus tratos a bordo resolveram aportar no Rio de Janeiro. Koeller conseguiu que dos 238 passageiros germânicos, 235 fossem cadastrados como colonos pela Sociedade Promotora da Colonização. Vão dar um reforço às obras da estrada na subida da serra antes que comecem as chuvas de verão. Portanto, os trabalhos da ponte podem esperar.
- Se é assim, estou de acordo, sim senhor.
- Bom. Você vai ter o prazer de construir a mais bela sede de fazenda de todo o Vale do Paraíba, uma obra que vai durar séculos!

Quando Emilio viu os desenhos da planta da casa ficou boquiaberto, parecia um castelo. Não se assemelhava, entretanto, a uma construção de pedra, como as grandes obras que conhecia na Espanha. Após alguma indecisão resolveu questionar o major Antonio Barroso a respeito:
- A mansão não será toda feita de pedra não?
- Claro que não, meu jovem. Aqui no Brasil uma casa de pedra como a que vocês usam na Europa mataria todos de calor durante o verão. Vamos usar uma técnica mista, taipa com fundação de granito. Não se preocupe você ficará responsável apenas pela fundação e da marcação de canto, serviço de canteiro. O resto da obra ficará a cargo de um mestre português, que chegará a alguns dias. Até lá, aproveite a fazenda e conheça um pouco da nossa vida de lavrador.

A MULA DO OURO - Capitulo 3

Capítulo 3
Dia-a-dia em uma Fazenda de Café



Enquanto aguardava a chegada do mestre de obra português, Emilio ficou acomodado em um quarto, junto à pequena sede da Fazenda do Cantagalo, que a nova iria substituir. Após o jantar com o major Antonio Barroso e sua esposa, dona Claudina, foi recolher-se cedo, como todos os outros, por volta das oito e meia da noite. Depois de um sono agitado, entrecortado por períodos despertos onde ouvia sons de insetos e pássaros noturnos o tempo todo, Emilio percebeu que o galo lá fora, empoleirado no galho mais alto da goiabeira, estava reduzindo o intervalo entre os cantos.

Acordou e percebeu que era noite ainda, provavelmente o sol vai levar ainda mais de duas horas para nascer. Porém, da fresta da porta vê uma lamparina acesa percorre o corredor com sua chama azulada, proveniente da queima de óleo de mamona, e desaparece na porta dos fundos. É a escrava responsável pela cozinha da sede da fazenda de café.

Apura o ouvido e percebe que, ao mesmo tempo, em um dos quartos da senzala, uma outra cozinheira, a dos escravos, acende o fogo para o café da turma dos pretos que vai seguir para a roça. Os homens solteiros se levantam enquanto os casados tentam aninhar-se às companheiras, pois lá fora, no mês de maio, faz frio de manhã.

De repente o silêncio é quebrado por um toque de sino, às quatro horas. No mês seguinte, no inverno, o toque será às cinco. Todos os homens se levantam e procuram as bicas d’água para espantarem o sono.

Emilio também se levanta e vai até a cozinha. A velha escrava lhe serve uma caneca de café e broa de milho. Vai com a caneca fumegante nas mãos até a porta e observa que os escravos correm para pegar pedaços de mandioca frita, que serve de pão. Cada um pega também uma caneca de café, que engolem rápido porque o feitor vai começar a chamada.

Emilio dirige-se até ele, pedindo para acompanhar o trabalho daquele dia. O feitor fica admirado e logo lhe providencia uma montaria. Os escravos, em fila, seguem para roça, distante meia hora de caminhada rápida; rápida para espantar o frio. Na frente da fila dupla seguem os rapazes mais novos, no centro as mulheres e no rabo da fila os escravos mais velhos. Montado numa mula o feitor não tem posição fixa, uma hora está na frente outra atrás – mas sempre vigiando a todos. Emilio mantém sua posição no final, o que lhe permite observar com atenção e à distância, não desejando com sua presença interferir na rotina do dia-a-dia.

O céu está claro e a lua quase mergulhada por trás dos morros. Chegando cedo irão todos esperar no eito o sol nascer, observando as estrelas se apagarem enquanto um azul escuro vai aos poucos clareando, antes que as nuvens mais altas comecem a avermelhar. Mas por um bom tempo não receberão o calor do sol porque a cerração comum do outono, que vem do Rio Paraíba vai baixar.

Enquanto isso, na sede da fazenda, os serviços prosseguem. Dona Claudina, a mulher do fazendeiro Antonio Barroso também acordou cedo e vai até perto do fogão. A velha escrava cozinheira, mesmo sendo de confiança, com vários anos de convivência, toma à benção respeitosamente.

No curral os retireiros começaram a juntar sem dificuldades as vacas que respondem aos chamados de seus bezerros famintos, que passaram a noite longe de suas companhias, presos no curral, enquanto elas pastavam nas imediações. A ordenha logo começa.

Vindos do paiol, dois escravos carregam cada um dois sacos de milho, com duas arrobas (30 quilos) cada, até o moinho de pedra. Abrem o registro d’água e o põe para trabalhar. Outra dupla de escravos vai ao engenho de café, procede do mesmo modo, desviando a água para a roda dos pilões. Logo dos pilões saem o som compassado e do moinho um chiado constante que vai prosseguir o dia inteiro na mesma toada.

A cerração baixou cobrindo tudo. O fazendeiro Antonio Barroso também se levantou, vai até a varanda, espreguiça e olha em direção à pequena venda que ainda está fechada. Mas ao seu lado, na cobertura baixa, nota uma tropa de mulas composta de sete animais. Um tropeiro passou a noite ali. Chegou de madrugada, sem fazer alarde. Observa um menino passando e dá ordem:
- Tiãozinho, vá lá convidar o tropeiro para tomar café. Veja se ele precisa de milho para os animais. Você sabe quem é?
- É o seu Serpa. Chegou às duas da manhã, meu pai disse. Os cachorros deram sinal.

Num dos quarto da sede, chamada sala de costura, uma mucama, escrava que faz papel de dama de companhia da sinhá, distribui as tarefas do dia para cinco meninas, de 10 a 14 anos:
- Veja lá se não vai morcegar hoje igual foi ontem, Mariazinha. Quero o bordado da toalha todo pronto às cinco da tarde. E no capricho, nada de serviço matado. Senão você não escapa de meia-dúzia de bolos. Você sabe que a sinhá não gosta de ver choro, mas depois quem agüenta cara feia sou eu! Ficar de castigo no caroço de milho já não está adiantando mais...

Depois da caneca de café com leite, o major toma um pouco de café puro e acende seu primeiro cigarro de palha do dia e segue baforando em direção ao tropeiro que prontamente atendeu seu convite.
- Chegaste tarde ontem, Seu Serpa!
- Sim, major. O caminho do porto das Caixas está cada vez pior...
- Mas o tempo está firme, não tem chovido...
- É o movimento de tropa, major. Um sobe e desce de animais sem parar por essa serra... Mulas carregadas, nos dois sentidos: descendo com o café e subindo com ferramentas, farinha e caixas grandes.
- É verdade, só aqui da fazenda temos dez tropas de sete animais viajando constantemente.
- Os caminhos precisam de melhoria, major. O Governo precisa fazer alguma coisa...

O major segue até o pequeno Armazém de Secos e Molhados, ao lado do atalho feito pelo Capitão Tira-Morros na estrada do Caminho Novo. O caixeiro que toma conta para ele do dia-a-dia do negócio, já providenciou a limpeza e arrumação da bagunça que os freqüentadores da noite anterior deixaram. Estava limpando as garrafas que sempre empoeiravam quando o patrão chegou.

- Bom dia, major. O movimento ontem foi grande.
- Fiquei sabendo. Até que horas atendeu?
- Esperei dar meia-noite para fechar. Se continuasse aberto ainda atenderia mais tropas chegando...
- Tudo vai muito bem. A serraria não pára de receber encomenda, o movimento dos tropeiros nos faz trabalhar até de madrugada, o café cada vez pede mais desmatamento... Está faltando é mão-de-obra! As últimas matas azuladas de longe, indicativas de madeira de qualidade, já estão acabando... Logo vai ser apenas o verde escuro dos pés de café.

No eito, quase oito horas da manhã, da panela de ferro no fogão improvisado em plena lavoura de café emanava o cheiro adocicado do feijão preto fervendo com miúdos de porco. O angu também estava no ponto. Os escravos, de longe, não paravam de puxar com as mãos ágeis os grãos vermelhos do café maduro. Enchiam os cestos de taquara trançado (jacás) que eram despejados sobre esteiras, formando montes.

Emilio observa que cada escravo tem uma rua, com duas fileiras de pés de café para colher, sempre despejado no seu monte próprio, devidamente marcado. Os casais colhiam café em ruas juntas, mas a tarefa era tomada em separado e eram auxiliados, nas varreduras, pelos filhos menores. Cada escravo tem sua cota diária, estipulada em função do rendimento da lavoura, devido às condições climáticas. Como havia chovido na quantidade e na hora certa, a colheita na fazenda do Cantagalo terminaria no final de maio.

Às oito em ponto um sinete bateu. Os escravos vieram logo em direção à panela de feijão, fazendo fila. Naquela fazenda a alimentação era farta, ao contrário de outras onde os escravos trabalhavam o dia todo e passavam fome.

Uma outra característica do casal de fazendeiros é a fé católica e um reconhecido bom coração de dona Claudina, que foi transmitida a sua filha Mariana. Não havia na fazenda do Cantagalo nem em qualquer outra da propriedade do casal, tronco nem instrumento de tortura, embora cada feitor andasse com um bacalhau (um chicote de tiras de couro trançadas) dependurado na cintura, pronto para ser usado se necessário. A disciplina era a primeira exigência, quando um escravo não se comportava bem era advertido; se reincidente incorrigível era vendido aos fazendeiros da região do Vale do Paraíba, para os lados de Vassouras. Conforme a infração cometida, havia uma hierarquia. Com toda certeza, alguns escravos preferiam dez vezes a quantidade de bolos (castigo físico considerado leve usado na fazenda) do que serem vendidos para alguns fazendeiros de café do Vale do Paraíba.

Comum nas fazendas de café do Vale, os escravos eram de diversas etnias, evitando-se parentesco. Logo se identificava sua nação como os Congos, Moçambiques, Benguelas e Cabindas, usada muitas vezes como sobrenome. Os africanos recém importados eram chamados boçais, por serem inicialmente ignorantes da língua portuguesa. Depois passava a ser chamado de negro. Os nascidos no Brasil eram chamados de crioulos.

Com o sol quente, no terreiro da fazenda, os meninos também trabalham, revolvendo os grãos que secam com rodos de madeira. No outono o tempo é firme, não há perigo de chuvas repentinas que obrigam recolher depressa para o paiol os grãos já secos.

Nos alpendres, junto à cozinha da fazenda, um grupo de escravas velhas remenda os jacás, as redes e as esteiras, enquanto pitam cachimbos de barro. Outras mais afastadas lavam roupas nos grandes tanques de pedra ao lado da senzala, enquanto cantam e conversam em voz alta.

Na lavoura, os escravos da colheita só podem fumar após o almoço durante o horário de meia-hora, sendo proibido acender fogo junto aos cafezais – com o tempo seco qualquer descuido pode tocar fogo na lavoura. E aí, que prejuízo! Em algumas fazendas o responsável pode vir até a morrer debaixo de castigo. A conta é simples: quantos mil réis vale o escravo? Quanto foi o prejuízo que causou? Sua vida paga? É preciso sempre dar exemplo. Disciplina é a regra número um.

Para o feitor a cozinheira preparava na cuia o angu do fundo do tacho, o feijão, a couve e os melhores torresmos. Tinha direito também a uma sobremesa, uma banana da Terra ou de São Tomé assada nas brasas. A cozinheira fingia não ver que o feitor antes de almoçar tomava uma talagada da cachaça produzida na fazenda. Apenas ele, embora todos os escravos homens tivessem o mesmo desejo. Privilégio de feitor. Para os outros, cachaça só aos domingos ou dia santo.

Na cozinha da fazenda o almoço está pronto às dez e meia e as panelas ficam no fogão aguardando a ordem da dona de casa. Quando se tem convidado de fora, almoça-se na sala grande, com vista para o pátio; nos dias comuns os patrões podem comer na própria cozinha, sentando-se em tamboretes.

Neste dia o major tinha por companhia o mascate Salim. Os turcos, como eram apelidados, embora em grande parte fossem sírios e até italianos, eram simples, respeitosos, bons, amigos das crianças, honestos e destemidos, palmilhando, sem armas, por caminhos solitários, com mercadorias de valor às costas até alcançarem a porteira das fazendas. Mal chegados às varandas ou salas de visitas, que alvoroço para a criançada! As donas de casa, as filhas moças, as mucamas, curiosas e impacientes, de pé ou de cócoras, aguardam o momento da abertura dos baús e canastras.

Quase sempre a mesma rotina se repetia em todas as fazendas: exposta as mercadorias, começam as compras, sempre variadas. Um corte de chita para cada uma das filhas, alguns metros de morim para camisas do marido, rendas, sabonetes, vidros de óleo, pequenos presentes para as madrinhas de seus filhos, mais outros objetos para afilhados e sobrinhos; agulha, dedal, botões de osso e madrepérola, carretéis de linha. Chegada a vez dos brinquedos, um para cada filho menor, um para cada neto. Estão terminadas as compras, o mascate faz a soma e vai receber a importância quando uma das filhas lembra que a mucama não tem um vestido bom para sair. Escolhe um corte de padrão diferente e mais barato. E a cozinheira? Também deve ganhar um vestido; é preciso que não haja descontentamentos. Reabrem-se as compras: pentes, pequenos espelhos, lenços de chita para cabeça, miçangas, um objeto para cada uma das que trabalham em casa ou no terreiro. Alguém lembra uma vizinha que já mandou dois presentes e não recebeu nenhum, ou que já está próximo o casamento ou aniversário de outra. São compras mais difíceis e mais caras. A seguir o mascate recebe as mais diversas encomendas para a outra vez e de todas, sem livro de notas, dará cabal desempenho ao voltar meses depois.

Na casa-grande, depois do almoço, os patrões e os visitantes mais chegados procuravam dormir. É um hábito simples, nem sempre praticado, muito distante da tradicional siesta espanhola. Mesmo nos meses considerados de inverno, por volta do meio-dia o sol esquenta. Portanto, das onze às treze horas é um silêncio completo, todos serviçais de casa procuram andar nas pontas dos pés. No quintal os animais também procuram sombras. Com o sol quente é como se fosse plena madrugada e um silêncio paira sobre a fazenda.

Depois deste descanso, cada um volta ao seu posto de trabalho, uma preta velha torra café, outra, defronte de um grande tacho bate sabão; fervem os tachos de inhame e milho para os porcos, ferve a do açúcar mascavo para clarificar. Pretas velhas fiam, em teares de madeira, os fios de algodão para a roupa dos escravos. Ninguém fica à toa.

Na roça, ao meio-dia, os escravos fizeram outra pausa para um café simples, quinze minutos de descanso para fumar. É preciso que cada um cumpra sua cota. O feitor está autorizado a castigar aqueles considerados malandros. Nas fazendas de café do Vale do Paraíba a disciplina rígida é considerada prova de competência do fazendeiro.

Chegando o fim da tarde, os carros de boi são carregados com o café dos montes. O feitor anda pelas ruas incentivando os escravos que estão atrasados com suas cotas. Alguns se desesperam, pois se por alguma razão sua rua foi menos produtiva, dificilmente consegue convencer o feitor a perdoar o castigo e deixar para cumprir a meta no dia seguinte.

Pior que a dor é apanhar na frente dos companheiros. Ainda mais quando são bons colhedores, têm dedos ágeis, treinados para varrer com rapidez os grãos vermelhos e amarelos que caem sobre as redes, mas que, por falta de sorte ou praga de algum companheiro de olho de secar pimenteira, estão passando por uma fase ruim.

Na fazenda, depois que o sol amainou, ao lado da venda, aproveitando a água farta que vem do córrego que atravessa a fazenda, várias tropas de mula espalhadas são reunidas para retomarem a jornada. Mas as conversas dos tropeiros reunidos em torno do balcão, passando para o caixeiro e outros freqüentadores as novidades que ouviram pelo caminho, em cada rancho que pernoitaram, estão na lembrança de cada um, pois será repetida como um jornal oral. As notícias correm pelo interior na velocidade das tropas, cinco a sete léguas por dia (30 a 42 km). As últimas daquele dia são:
- Não param de derrubar matas para plantar café. O serviço aumenta cada vez mais.
- Para nós, tropeiro, está muito bom assim, quanto mais serviço melhor. Precisamos é de melhores caminhos.
- Não sei o que vai acontecer quando vierem as chuvas de dezembro, janeiro. Os atoleiros vão paralisar tudo.

Na varanda, pitando seu cigarro de palha, o major ouvia o chiado dos carros de boi ao longe. Serviam estes rudimentares e pesados veículos, fabricados na própria fazenda, para o transporte de qualquer coisa. A escolha da madeira era variada: o cedro para a mesa; óleo vermelho ou sucupira para as cambotas; os eixos de madeira dura, jacarandá, ipê ou cabiúna; cerne da garapa para os mancais, que atritando com os eixos produziam a catinga ou chiadeira. Quanto mais carregado o carro, mais alto o som. Ouvindo ele antes da dobra do morro, o Major sabia que a colheita tinha sido farta.

O sol já estava declinando e a Sinhá, na varanda, fechou sua caixa de bordados. Olhou em direção à senzala e viu, sob a grande e velha árvore de Jacarandá (“que algum dia irá valer mais do que toda fazenda” prognosticou um visitante estrangeiro), sua velha comadre D. Lurdinha, rodeada de crianças contando histórias. Era uma encostada ou de casa, pessoa que por alguma razão perdera tudo e, sem parentesco algum, viera morar na fazenda. No caso de D. Lurdinha, o marido, possuía um pequeno sítio para os lados de Queima-Sangue, mas deu para beber e perdeu tudo nas jogatinas em Vassouras. Foi encontrado morto, com rosto enterrado em uma poça de lama. Morte natural ou assassinato? Nem havia se passado uma semana depois do enterro, chegou alguns homens mal-encarados, com papéis assinados, notas promissória de dívida de jogo e tomaram tudo. Bateu na fazenda da Sinhá pedindo abrigo por uns dias, pois tinha escrito carta para os parentes pedindo ajuda e ficaria aguardando a resposta. Enquanto esperava passou a contar histórias para as crianças, histórias de saci, mula-sem-cabeça, caboclo d’água, procissão das almas e muitos casos de fantasmas. Todo dia inventava uma história nova, a criançada prestava toda atenção, dormiam obedientes aos pais, temerosos... Foi ficando e, como era comum em muitas fazendas do Vale do Paraíba, virou da casa. Os parentes nunca responderam ou talvez a carta nunca tenha sido enviada.

Enquanto os escravos descarregavam os carros de boi, o feitor entrou na varanda e respeitosamente tirou o chapéu. O Major convidou-o a sentar-se, enquanto esperavam pelos outros encarregados. Uma menina da cozinha trouxe café quente e broa de milho. Enquanto fumavam iam combinando o serviço para o dia seguinte, pois numa fazenda de café nada era improvisado. Quando os escravos acordavam os feitores já estavam com as tarefas todas demarcadas pelo planejamento do dia anterior.

Antes do sol se esconder atrás das montanhas, deixando o céu avermelhado indicando tempo frio, os escravos recebiam o jantar, a última refeição. Agora, ao contrário de durante o dia, pelo menos naquela fazenda, cada um poderia comer com seu grupo de amigos e parentes. Os casais se reúnem em torno dos filhos. Fumavam e sempre aparecia uma sanfona velha e um canto de lamento brota no meio deles, acompanhado pela batida cadenciada de um atabaque. Na fazenda do major Antonio Barroso a cantoria era permitida, desde que de músicas respeitosas, de preferência cânticos religiosos.

Depois do jantar, oito em ponto, já é noite fechada e um sino bate, avisando ser a hora do silêncio. Da varanda Emilio observa que as portas das senzalas são fechadas por fora e mesmo na sede as lamparinas dos alojamentos dos serviçais são apagadas. Todos vão dormir com os corpos cansados, depois de mais um dia comum na fazenda.

Apenas a sinhá, o major e seus hóspedes permanecerão acordados algumas horas mais. Ela prosseguindo na leitura de um romance em francês, idioma que deve conhecer, mesmo que superficialmente para não fazer feio nos encontros sociais na Corte e, quem sabe, é o desejo secreto de todos os prósperos fazendeiros, quando for contemplada com algum título de nobreza. Primeiro Barão, seguindo de Visconde, Conde e Marquês; nesta escala o último era Duque, mas sem referência de quem tenha sido contemplado.

Em determinados momentos, os hóspedes experientes procuram um canto reservado para conversarem entre si, fumando, deixando o major a sós. Este destranca a gaveta da escrivaninha de jacarandá e puxa um livro de anotações contábeis. Precisa verificar os números do seu comissário.

Durante todo o período áureo das fazendas de café do Vale do Paraíba, entre o produtor, o fazendeiro e o exportador, estava o comissário, que recebia a remessa de café da fazenda e a vendia ao ensacador e este ao exportador. Entre 1821 e 1830 o café correspondia a 18,4% das exportações totais do Brasil, enquanto o açúcar equivalia a 30,1%. Já na década seguinte 1831/1841 o açúcar passou a corresponder a 24% enquanto o café passou a 43,3%, e assim o produto foi num crescimento até o final do século quando chegou a corresponder a 64,5% das exportações, enquanto o açúcar baixou até 6,6%. Depois de 1871 o Brasil chegou a ser responsável pela metade da produção mundial do café. A firma que representava o Major tinha seu escritório e armazém em um grande casarão de construção antiga e sólida, paredes de grossa espessura dividido em andar térreo e sobrado, bem próximo do porto do Rio de Janeiro, no chamado Cais do Pharoux – nome de um hotel localizado em frente. No primeiro andar eram empilhados os sacos de café, tendo em frente, próximo à porta da rua, a mesa onde eram colocadas, sobre folhas de papel azul, as amostras de café. Sentado, ao lado da mesa, o “plantão”, caixeiro responsável para atender, à qualquer hora, um possível comprador. No sobrado, no salão da frente funcionava o escritório da firma; aos fundos, os quartos de hóspedes, empregados e a cozinha.

Cada comissário tinha sua zona preferida ou onde se encontrava o maior número de fregueses. A comissão pelas vendas era de 3%. Nem sempre andava o lavrador em débito com seu comissário. Mudavam-se constantemente as situações de devedor e credor, fechando-se as contas no final de cada semestre. Se o saldo era a favor do lavrador, providenciava a compra de apólices ou ações de companhias ou retinham o capital e pagavam juros de 5 a 7%. Se os comissários eram merecedores de confiança, preferiam muitas vezes os fazendeiros deixar o saldo em suas mãos, rendendo juros.

O mecanismo das transações comerciais entre fazendeiros e comissários era simples: recebiam as remessas de café do interior, procuravam vende-las pelo melhor preço, descontavam módicas comissões, forneciam recursos em forma de ordem de pagamento. Estas ordens de pagamento eram descontadas nos negociantes das cidades e das vilas e muitas delas chegavam às mãos de destinatários com duas ou mais transferências – como um cheque ao portador. Se o saque era vultoso, resultado da compra de escravos, propriedades ou dotes a filhas que se casavam, os fazendeiros davam aviso prévio aos seus comissários ou faziam consulta sobre a possibilidade de ser cumprido o saque e aguardavam a resposta que era rápida e sempre a mesma: receberam a consulta e aguardavam a apresentação da ordem para pronto pagamento. Funcionavam, portanto, como verdadeiros bancos regionais.

No Rio de Janeiro as portas das casas comissárias estavam sempre abertas para hospedarem os fazendeiros e suas famílias, por sua vez, nas fazendas, eram os comissários recebidos com fidalguia. Fazendeiros e comissários... a prosperidade ou ruína de uns e outros andavam sempre ligados.

Já são quase dez horas da noite. Apenas na venda da fazenda a luz azulada dos lampiões alimentados com óleo de mamona produzido ali mesmo irradia sua claridade sobre a estrada prateada pelo luar fraco da minguante. Em vôos rasantes e silenciosos, os caburés-de-orelha, as corujinhas do mato, perseguem as mariposas atraídas pela luz, respeitando o sossego necessário após um dia cansativo numa fazenda de café de Vale do Paraíba.

Do tempo em que passou observando o dia-a-dia na fazenda do major Antonio Barroso, Emilio retirou lições que seriam úteis por toda sua vida. Restava agora aprender sobre técnicas construtivas. O mestre de obra português foi logo explicando de boa vontade. Originário também da região norte de Portugal, vez ou outra utilizava uma expressão galega. Sua fala acelerada parecia, entretanto a Emilio de mais difícil compreensão do que o sotaque mais suave dos brasileiros – originais dos tempos de Pedro Álvares Cabral, segundo diziam.

Na construção se adotaria técnica mista: fundação de granito e paredes de taipa de pilão e pau a pique. A chamada taipa de pilão é um processo antigo de construção, usada pelos jesuítas nas primeiras edificações na Província de São Paulo. Abre-se, bem junto ao local da obra uma grande vala rasa, onde a terra peneirada é misturada com água, fibras vegetais, sangue de gado, crina de animais e estrume de gado. Socava-se então com os pés ou pilão, até se obter uma compactação bem firme. Para a casa do major a argila seria recolhida nos açudes secos, formados pelas cheias do Paraíba, localizadas a menos de 500 metros do local. Em seguida o barro seria despejado em formas da largura da parede e compactado com um pilão de madeira, até que o som emitido tivesse um tom metálico, indicando uma mínima quantidade de vazios. Os vão das portas seriam deixados nos locais determinados e as paredes subiam até a altura do peitoril das janelas, cerca de 90 cm. A partir daí seria utilizada a técnica da taipa de mão, ou pau a pique. Neste caso uma armadura interna de madeira, compostas por peças grossas de madeira verticais formando os pilares e ripas finas amarradas horizontalmente, formando uma grade. Dois trabalhadores, um de cada lado, com as mãos iam preenchendo os vazios. Como este tipo de construção de terra é sensível à ação da água, e sendo o Rio Paraíba imprevisível, o major planejou um grande alicerce de blocos de granito, perfeitamente assentados que além de impermeabilizar a construção dariam um alinhamento perfeito. Um exímio canteiro seria fundamental nesta primeira etapa.

Emilio percebeu que teria um ano de trabalho pela frente. Em poucos dias localizou na fazenda do major as jazidas de granito onde a exploração e o transporte fossem mais fácil e começou a preparar uma turma de operários para a função de auxiliares. O major recomendou que fosse usado o mínimo possível de mão de obra escrava, fundamental para os trabalhos na lavoura de café que duravam todo o ano. Foi-lhe dada autorização para escolher, nos limites da fazenda, uma casa onde iria querer morar, por prazo indeterminado. Emilio lembrou-se de uma casinha com a pintura bem descascada, que parecia abandonada, na estrada que interligava as sedes das fazendas Cantagalo, onde vivia o major Antonio Barroso e Dona Claudina e a fazenda da Boa União, que lhes fora dada como dote de casamento, pertencente à filha do casal, Mariana e ao sobrinho José Antonio Carvalho, o major Carvalhinho.

- Aquela casa mesmo? – indagou o major Antonio Barroso admirado.
- Sim, por que não? Pareceu-me abandonada.
- Sim está fechada há anos. O pessoal tem medo de morar lá... Mas, se realmente quiser, a casa é sua.

Com auxilio de dois homens que trouxe das obras da ponte da Vila de Paraíba do Sul, logo Emilio derrubou o matagal que crescia em volta da casa, substituiu as telhas quebradas e recuperou portas e janelas. Com uma caiação a casa ficou habitável novamente. Os móveis internos, muito simples, foram também recuperados e em menos de uma semana do velho fogão brotou fogo e uma chaleira de café fumegante espraiou o aroma de café fresco por todos os lados. Deve ter ido longe, pois logo Emilio ouviu um bater de palmas tímido e uma voz feminina chamado:
- Ô de casa...
Emilio foi até a porta e deparou com uma preta idosa, de cabelos totalmente brancos com um cachimbo com fornilho de barro apagado nas mãos.
- Pode entrar minha senhora – convidou respeitosamente.
- Obrigado meu branco. Senti o cheirinho de café fresco. Posso fazer uma boca de pito?

Emilio não entendeu a expressão regionalista, mas concluiu que ela estava com vontade de tomar café antes de fumar.
- Claro, acabei de passar. É café aqui da fazenda mesmo.

A velha recebeu a caneca de café nas mãos e sorveu o líquido negro com satisfação, fechando os olhos. Depois foi até o fogão e retirou um galho seco, onde com uma brasa na ponta que usou para acender o cachimbo. Seguiu até a porta e soltou longas baforadas. Emilio ficou em silêncio admirando a satisfação que a velha preta parecia estar tomada.
- A senhora mora perto?
- Sim, meu branco, muito perto. Tenho visto recuperando a velha casinha. Foi bom ter vindo, porque senão ela iria desmoronar. Quando o telhado cai, logo a água da chuva destrói as paredes de barro.
- É verdade.
- Na sua terra não, as casas de pedra resistem muito mais tempo, não é?
- Sim. Mas aqui no Brasil, parece que não apreciam muito as casas de pedras como as da Espanha e do norte de Portugal. A senhora parece ter um bom conhecimento...
- Agente aprende com a idade, moço. Mas, está chegando minha hora. Outro dia volto para tomar este café tão bom.

Emilio foi até o fogão onde colocou a chaleira sobre a chapa de ferro, mas não diretamente no fogo e voltou-se para despedir da velha senhora. Ficou admirado por ela ter saído tão silenciosamente. Foi até a porta e não mais a viu. Correu toda a volta da casa também sem sucesso. Ficou admirado pela velocidade da velha em desaparecer na curva da estrada.

A MULA DO OURO - Capitulo 4

Capítulo 4
Aristocracia Rural


Outro fato que deixou Emilio também admirado ocorreu quando ele estava trabalhando preparando canteiros para uma pequena horta. Um muladeiro, profissional que comercializa mulas e burros para tropas e serviços internos nas fazendas, conduzindo uma tropa de animais novos parou repentinamente e ficou olhando em silêncio para a casa. Emilio interrompeu o trabalho e observou quando o homem retirava o chapéu e o cumprimentava respeitosamente:
- Bom dia. Vejo que deu um belo trato na casa da Donana. Estou falando com o espanhol que foi contratado pelo major Barroso, não estou?
- Emilio Prieto a seu dispor – respondeu levando o indicador até a aba do chapéu.
- Sou Valenciano. Posso apear para uma boca de pito?
- Claro. Tenho café no fogão e uma cachacinha de primeira!
- O café é bom, mas a cachaça não presta não. Vou trazer outra para o senhor na próxima viagem a Minas.
- Não bebo aguardente não, prefiro vinho.
- Posso trazer então do Rio de Janeiro um bom vinho do porto português. Viajo o tempo todo entre Vila Rica e a Corte.
- Vou aceitar com gosto. Há um ano não tomo vinho.

Este foi o início de uma longa amizade. O muladeiro Valenciano abastecia os tropeiros com animais criados em Minas Gerais e era um bom comerciante. Sua área de influência era ao longo do Caminho Novo, tanto pelo traçado antigo, passando por Vassouras e Pati do Alferes, indo terminar nas margens do rio Iguaçu, como pelo Caminho das Tropas, que passava pela Serra da Estrela e terminava no porto de mesmo nome, no fundo da baía da Guanabara.

Certo dia, estando bem adiantado o serviço de fundação da nova sede da fazenda do Cantagalo, Valenciano informou a Emílio:
- Sei de alguém que está precisando muito de seus serviços. Vai pagar muito bem.
- Tenho compromisso com o major Barroso.
- Ele vai concordar. Já dei um toque. É serviço para um Teixeira Leite de Vassouras, da mesma linha política, do partido conservador. Pagam muito bem e estão loucos atrás de um bom canteiro.
- É uma obra igual à do major?
- Não, coisa menor. Mas o homem precisa porque seu baronato está para sair a qualquer hora. Mas a sede da fazenda é muito acanhada e o pessoal da Corte sempre faz uma inspeção local, antes de o decreto ser assinado. Você vai orientar o serviço, porque mão-de-obra ele tem de sobra, pois comercializa mais escravos do que café. Dá muito mais dinheiro!

Depois de um curto entendimento com o major Barroso, Emilio estava pronto para seguir para a fazenda, entre as vilas de Pati do Alferes e Vassouras, numa missão que esperava levar no máximo três meses. Dormiu na noite anterior um pouco sobressaltado e acordou antes do sol raiar. Estava arriando sua mula pedrês para a longa viagem de dois dias de cavalgada, quando sentiu uma presença nas suas costas.
- Bom dia, meu branco. Acordou cedo?

Emilio assustou-se, mas logo reconheceu a preta velha que há bastante tempo não aparecia. Ofereceu logo café, que foi de pronto aceito. Ela tomou uma caneca inteira, acendeu o cachimbo e falou coisas estranhas.

- Meu branco vai ter boas experiências nesta viagem.
- Como? Vou conhecer a mulher amada?
- Não agora. Vai ver é a minha gente lutar, ganhar e perder. Mas tenha cuidado para não se envolver na guerra. Olhe, olhe e não veja nada, é meu conselho.
- Vou deixar a porta aberta, minha velha. Pode se servir à vontade de café, de qualquer coisa. Mais tarde a menina da limpeza, que vai cuidar da casa na minha ausência, vai chegar e se encarrega de trancar a casa. Dá-me licença que a viagem é longa – disse subindo na montaria.
- Que Deus lhe acompanhe, meu branco!

O serviço encomendado pelo Coronel Antonio Teixeira Leite não era realmente difícil. A jazida de granito estava relativamente próxima e a mão-de-obra fornecida era abundante, embora como sempre despreparada para serviços de cantaria. Emilio logo identificou os negros com mais jeito e logo os blocos de granito estavam sendo cortados de acordo com a técnica. Deu tempo então para conhecer um pouco mais da vida social da região, que de certa forma diferia bastante do que conhecia nas fazendas do major Antonio Barroso, especialmente o resultado do julgamento do fazendeiro Manuel Vieira dos Anjos, acusado de assassinar quatro escravos de sua propriedade.

Embora o juiz de Vassouras, José Pinheiro de Souza Werneck, tenha aceitado a denúncia formalizada pelo promotor público Lucidoro Francisco Xavier, sobre as mortes de quatro pessoas, espancadas barbaramente com pauladas pelo senhor de escravo, sendo eles: Antonio Congo, João Cambina, Antonio Ângelo e Maria Congo e localizados os cadáveres enterrados em cova rasa próximo da propriedade, o Júri Popular de 23 de janeiro de 1838 inocentou o acusado. Ele ainda alegou em sua defesa que as pessoas tinham morrido de causas naturais e que não foram sepultados em um cemitério dos escravos, atrás da igreja, por não terem sido batizados.

Não fazia ainda um mês de sua chegada à região quando Emilio tomou conhecimento da reincidência dos crimes do fazendeiro Manuel Vieira, com a morte de outro escravo, também por espancamento. Mas desta vez foi diferente, todos os 300 escravos de sua senzala rebelaram-se e sob a liderança de um negro chamado Manuel Congo, resolveram fazer justiça com as próprias mãos. No dia 13 de novembro de 1838 invadiram a fazenda chamada Maravilha, de Manuel Vieira, mataram o cruel feitor, atearam fogo ao engenho, destruíram a sede e libertaram os escravos. Refugiaram-se todos na floresta de Santa Catarina, a caminho da Serra da Taquara, decidindo criar uma comunidade livre, exclusivamente de escravos, chamada quilombo.

O Quilombo de Manuel Congo logo alcançou 400 membros, através de incursões de libertação de escravos das senzalas das fazendas da região, praticando saques a viajantes das estradas para captura de arma de fogo e alimento. Manuel foi declarado rei e sua companheira Mariana Crioula, ex-mucama de Francisca Xavier, mulher do senhor de escravo, foi nomeada rainha.

Foi na fazenda de Antonio Teixeira Leite que um grande número de fazendeiros se reuniu, observado à distância por Emilio. A Guarda Nacional de Vassouras, comandada por Laureano Correia de Castro, com 160 homens bem armados foram enviados à floresta Santa Catarina para extinguir o quilombo. Na véspera do ataque, dormiram no que restava da sede da fazenda Maravilha. Mas eles não sabiam que mesmo lá estavam sendo vigiados e observados pelos guerreiros quilombolas. Estrategicamente, as casas dos arredores da comunidade quilombola foram abandonadas, tentando assim, trazer o adversário para dentro da Floresta de Santa Catarina, terreno conhecidos dos negros, que aplicaram uma tática de guerrilhas e terror nos soldados da Guarda Nacional.

A debandada da tropa foi grande, sendo muitos mortos na fuga e outros abandonando as armas, fugindo sem rumo, mato à dentro. Os negros, que também estavam armados e bem municiados pelos saques anteriores, celebraram esta primeira grande vitória.

Nova reunião de fazendeiros foi convocada, com a presença de alguns sobreviventes, tachados de heróis:
- É preciso agir com energia! – repetiam todos.
- Os negros das outras fazendas estão comemorando e fazendo músicas contando as glórias de Manuel Congo. Proibi a cantoria na minha propriedade, mas não adianta!
- Temos que agir com rigor. Dar exemplo!
- Vamos convocar o Exército Imperial! – foi uma conclusão unânime.

Menos de um mês depois, em 11 de novembro, uma tropa profissional comandada por Luis Alves de Lima e Silva atacou o quilombo, com ordens de massacre exemplar, sem fazer reféns e sem negociação.

Os sobreviventes foram castigados a açoites e depois entregues aos seus donos, que continuaram o suplicio por conta própria nas suas fazendas. Os líderes Justino Benguela, Antonio Magro, Pedro Dias, Belarmino, Miguel Crioulo, Canuto Moçambique e Afonso Angola receberam cada um 650 chibatadas, distribuídas em 10 dias. Depois foram marcados a ferro. Manoel Congo, ferido em combate foi mantido vivo, para ser julgado.

Quando Emilio deixou a região, depois de concluído o serviço, ele estava trancafiado na cadeia de Vassouras, certo de que seria enforcado. A preta velha tinha razão, aprendera naquele curto tempo em Pati do Alferes mais sobre a vida dos escravos nas fazendas de café do que todo o período que passara em Paraíba do Sul.

Quando Emilio retornou da agitada estada em Pati do Alferes e chegou a sua casa, encontrou-a limpa, com a horta bem cuidada e flores nascendo no pequeno jardim. A menina que havia tomado conta da casa tinha feito realmente um bom trabalho, concluiu. Procurou seu pai para pagá-lo, um preto forro, mas este fez cara de espanto e nada quis receber. Emilio insistiu, mas o homem falou que não poderia receber nada pelo serviço da filha.

Estava voltando pela estrada quando avistou uma pequena tropa de animais e reconheceu de longe o chapéu de palha, de abas muito largas do muladeiro Valenciano. Esporeou seu animal e convidou o amigo para um café em sua casa.
- Foi uma viagem inesquecível, Valenciano.
- Eu soube da confusão. Você chegou a conhecer o Manuel Congo?
- Não, fui aconselhado a observar de longe. Mas acompanhei todo o plano de ataque ao quilombo. O oficial que o Exército Imperial, o tenente-coronel Luís Alves de Lima e Silva, era muito bom. Os negros não tinham mesmo como resistir.
- Sabe que este oficial é daqui da nossa região?
- Nasceu aqui?
- Não, pelo que eu sei nasceu no Porto Estrela, na raiz da serra. Mas é sobrinho do major Joaquim Hilário, o dono da fazenda Serraria, que é irmão da sua mãe. Da parte de pai são todos oficiais do Exército e da parte mãe são fazendeiros.
- Conheço-o, é vereador da Vila de Paraíba...
- Não é só isso, foi quem propôs e é o maior defensor da construção da ponte, na Vila de Paraíba do Sul, onde trabalhaste.
- Não sabia...
- Você precisa aprender mais, Emilio. Aqui nesta terra se aprende é conversando, não tem livro, não tem jornal. Eu, por exemplo, converso com todo mundo. Escuto um monte de mentira toda hora. Então é preciso ir filtrando, indagando daqui, dando uma informação ali, pegando outra lá. Sou mineiro, conversador de cozinha, de beira de fogão, de balcão de venda...
- Realmente, tenho poucos companheiros de conversa. Na Espanha, na função que eu fazia quando jovem, o pastoreio de ovelhas, é uma função solitária, tinha tempo de sobra para ler, mas aqui não. É só serviço e guardar dinheiro, serviço e guardar dinheiro...
- Vou te dar dois conselhos fáceis de seguir, porque a solução está perto. Para saber de política procure o genro do major Antonio Barroso, o major Carvalhinho. Na questão de dinheiro, onde aplicar, fale com o filho do major, que se chama também Antonio Barroso.
- Conheço os dois só de vista.
- Vou falar com eles antes, preparar o terreno, porque aqui no Vale do Paraíba, aonde toda água da margem esquerda vem de Minas, só se faz reunião depois de tudo combinado, porque mineiro não dá conversa a estranho!

As obras da casa do major Antonio Barroso estavam seguindo num bom ritmo. Depois que os quatro lados da casa foram demarcados, formando um quadrado com 30 metros de lado, com faces orientadas para os pontos cardeais, foi só subir as paredes grossas, de um metro de largura. A base de pedra, responsabilidade de Emilio tinha a forma de U, com a parte aberta para o lado do rio, que passava nos fundos. Na frente seria construída uma grande escada, que se elevaria mais de 3 metros, para abrigar em baixo, a guisa de porão, cômodos para as atividades de apoio, como armazenagem de alimentos, guarda de arreios, de ferramentas e um pequeno escritório onde pessoas que não gozavam da intimidade necessária para serem convidadas a subir até a varada, ali em baixo seriam atendidas. Na Espanha, nas casas rurais, esta área inferior estava geralmente destinada a abrigar os animais durante o inverno. Seus corpos juntos e o estrume em decomposição geravam gases quentes que subiam, aquecendo a parte superior, onde as pessoas residiam.

Não passara mais do que duas semanas da conversa com o muladeiro Valenciano e o Major Carvalhinho foi quem procurou Emilio. Numa tarde, parou seu belo cavalo baio, um manga-larga marchador diante da casa, quando ele trabalhava nos canteiros do jardim e o convidou para o almoço no próximo domingo, quando poderia conhecer pessoas da região. Além disso, estava precisando também de um pequeno serviço de fundação na fazenda Boa União.

No dia marcado para a visita, Emilio acordou cedo. Estava preparando seu café quando percebeu as palmas suaves e o conhecido: “Ô de casa!”.
- Há quanto tempo não vejo a senhora!
- Eu tenho visto o branco de longe, mas hoje resolvi fazer uma boca de pito.
- Sabe, a senhora tinha razão. A viagem a Pati do Alferes e Vassouras me ensinou muito sobre a vida dos escravos nas outras fazendas. Os que trabalham aqui, realmente, têm outro tratamento...
- O branco ainda precisa aprender, saber mais. Só para testar, hoje no encontro com as autoridades, com muito jeito, na hora certa, puxe assunto do Haiti.
- Haiti? No Caribe?
- Não sei bem onde fica. Pergunte sobre o que acham eles do Haiti.
- Interessante... Às vezes eu penso que cada vez entendo menos este pessoal por aqui. A senhora sabe que a menina que cuidou da casa não quis receber nada? O pai falou que eu não devia nada para ele. Que favor eu fiz a esta gente?
- Ele agiu certo, meu branco. Gente direita.

Como Emilio não sabia quem iria encontrar no almoço de domingo na sede da fazenda da Boa União, vestiu-se com sua melhor roupa e passou banha de porco em sua bota de cano alto. Vestia um terno branco e colocou um laço verde em volta do pescoço. O chapéu claro fazia reluzir seus olhos esverdeados, dando destaque à barba ruiva de um homem de 24 anos. Ao olhar-se no espelho e dar conta de sua idade, relembrou que há sete anos saíra de casa. Pensou no seu irmão. O que teria acontecido com Juan e Maria? Qual foi a reação de Maria quando soube que naquele dia quem esteve com ela foi Juan e não ele?

A viagem da casa de Emilio até a sede da fazenda da Boa União foi curta, menos de trinta minutos de montaria com boa cavalgadura. Ao chegar, por volta de dez e trinta da manhã, Emilio percebeu que várias pessoas já se encontravam na varanda, sentados em cadeiras de palhinha. Amarrou seu animal sob uma mangueira e caminhou lentamente até a grande varanda que contornava toda a sede, de construção baixa, com apenas quatro degraus de altura. Ao pisar o primeiro degrau, respeitosamente tirou da cabeça o chapéu.
- Vai se chegando, entre espanhol – logo gritou o major Carvalhinho.

Emilio entrou na varada, ficou de pé ao lado do major que foi logo emendando:
- Vou apresentar você aos nossos amigos. Começando pela direita, primeiro o Seu Mamede, o guarda-livros de nosso Comissário, no Rio de Janeiro; ao seu lado, você já conhece, pois mora com os pais, meu primo e cunhado Antonio Barroso. Estes dois conversam o tempo todo sobre números... Continuando, temos o Quincas, sobrinho do major Hilário e primo do tenente-coronel Luis Alves, que deve ter conhecido no período em que passaste em Pati do Alferes, não foi? Finalmente, o último você já conhece bem, é o nosso amigo Valenciano.

À medida que ia sendo apresentado às pessoas, Emilio estendia as mãos e retribuía os geralmente fortes apertos. Foi-lhe oferecida uma cadeira de palhinha que estava vazia, ao lado da cadeira de Valenciano, como se esperando por ele. Sobre a mesa havia garrafas de aguardente, conhaque português e uma grande jarra de refresco. Convidado a servir-se, Emilio preferiu o refresco. Se tivesse vinho, faria esta opção, mas no Vale o vinho era servido apenas em ocasiões muito especiais.

- O amigo não bebe?
- Bebo pouco. Sou fraco para esta cachaça forte daqui.
- Um cigarrinho aceita?
- Também não fumo, muito obrigado. Nunca fumei na vida, mas a fumaça não me incomoda.
- Então, jogou em Vassouras?
- Também não senhor. Mas soube que lá havia sim, muita jogatina, verdadeiros cassinos.

Ao longo da conversa, que girava em torno da política nacional, Emilio pode ir aos poucos formando uma idéia da situação brasileira. Como estrangeiro ouviu calado o tempo todo, pois considerava que não teria conhecimento necessário para expressar uma opinião. Fazia, entretanto, uma análise complementar às conversas que havia tido durante sua longa travessia do Atlântico com o capitão do navio, apaixonado pela história. Soltando uma grande nuvem de fumaça do cigarro de palha, o filho do major Hilário emendou:
- O primo acabou com a revolução da Balaiada, lá no Maranhão.
- Que revolução foi essa?
- Uma confusão da Guarda Nacional. Sei que todos nós, os fazendeiros, somos oficiais da Guarda Nacional criada pelo Conselheiro Feijó, para defender o Império de uma retomada pelos portugueses, mas às vezes a falta de uma autoridade central gera muita confusão. Vejam o exemplo: tudo começou quando a Guarda foi utilizada para retirar da cadeia o irmão de um fazendeiro, também oficial, chamado Raimundo Gomes. Juntou às forças que comandava um bando de escravos, começaram a revolta no interior do Maranhão, passando por cima das autoridades civis e do poder judiciário. Rapidamente conseguiram reunir, vejam bem, mais de três mil homens. Ai perdeu o controle, e o bando passou a ser liderado por Manuel Francisco Ferreira, o balaio, que falava em separar o Maranhão do resto do Império.
- Balaio?
- Sim, fabricar balaios era seu oficio original, antes de se tornar líder. Era um revolucionário, conquistou fácil a Vila de Caxias, a segunda vila mais habitada da Província do Maranhão. Mas o primo Luís foi lá e deu um jeito naquele bando de escravos.
- As lições de Vassouras e Pati do Alferes ajudaram... – interrompeu Emilio.
- Certamente. Ele sabe como combater esses escravos rebelados, que não têm um mínimo de estratégia militar.

Emilio hesitou, não sabendo se estava na hora. Mas, como houve um silêncio enquanto todos levavam os copos de aguardente aos lábios, falou como se estivesse pensando em voz alta:
- São as lições do Haiti?

Todos olharam em sua direção. Emilio ficou encabulado, mas manteve a firmeza. O major Carvalhinho puxou um pigarro, recostou-se na cadeira e indagou:
- O espanhol conhece bem a história desta revolta de escravos?
- Não, não conheço não senhor. Na Europa se ouviu falar pouco dela. Gostaria até de saber mais detalhes...

Então tinha sido uma revolução de escravos, pensou Emilio. O que poderia um fato tão distante deixar todos tão assustados?
- Bem, já está fazendo 35 anos. Aconteceu em 1804, quando a escravidão negra foi abolida na ilha. Os negros, sem saber como administrar a liberdade, se rebelaram, assassinaram quase todos os brancos. Depois, nem o exército de Napoleão conseguiu domina-los mais. Mesmo condenado à morte na França, o líder Toussaint continuou a revolta. É o que acontece quando a diferença numérica é muito grande. Lá no Haiti, 90% da população eram negros, contra apenas 10% brancos.
- É o risco que corremos aqui também – murmurou Quincas Hilário.
- Não se pode dar trégua. Veja só que mau exemplo. Uma colônia rica na produção de açúcar, rum, com o mercado francês garantido... tudo perdido para os negros ignorantes – emendou Antonio Barroso.
- Como disse, tudo por conta da diferença numérica – afirmou o major Carvalhinho.

Todos ficaram uns instantes em silêncio e o major emendou:
- Sabia espanhol, que assim foi criado o primeiro país africano no Novo Mundo? Corremos o mesmo risco. Veja só na própria Corte. Andando pelas ruas não se tem a impressão de estar na África?
- Em São Salvador, na Bahia é a mesma coisa...
- Mas os negros do Haiti estão pagando caro – interrompeu Antonio Barroso – o isolamento econômico e político foi decretado por todos os países onde o braço escravo é indispensável. Quero ver é eles irem para frente. Pensam que só a força física resolve. O futuro deles será a miséria e aí, o que fizeram com seus antigos donos, vai ser lembrado com tristeza e não comemoração. Agora falar nisso aqui atualmente é um tabu. Os negros têm mania de ficar ouvido conversas pelas gretas. São ignorantes e podem pensar em repetir o que não deu certo.
- Isto, de ouvir conversas, até dá para controlar. Acho que o maior problema é a educação. É loucura deixarem que os negros aprendam a ler e a escrever. No caso do Haiti, por exemplo, o Toussaint aprendeu tudo nos livros, já que os franceses liberavam tudo, e depois praticou as lições aprendidas por conta própria.
- Bom. Então, vamos mudar de assunto? – convidou o major Carvalhinho.

Enquanto a conversa desviava para os preços da arroba de café, do açúcar e dos muares, Emilio ficou em silêncio meditando se deveria ter tocado na palavra que a velha preta havia sugerido pela manhã, diante das reacionárias manifestações que acabara de ouvir. Estava, pois, distraído, quando ao virar o rosto em direção à porta de entrada da casa vislumbrou na soleira uma mulata alta e esguia que o observava atentamente. Seus olhares se cruzaram e ele sentiu como se uma descarga elétrica percorresse seu corpo. Apenas uma vez na vida, há mais de oito anos, sentira sensação semelhante, quando um raio de sol fez cintilar os olhos azuis de Maria, na sua antiga Galícia, numa tarde na sala de aula na vila de A Veiga. Mas logo a mulata retirou-se, como se houvesse sido chamada.
- Espanhol? Espanhol? – repetiu duas vezes o major Carvalhinho.
- Desculpe, me distraí.
- Estava querendo lhe falar sobre o tal serviço. Pretendo montar aqui na fazenda, na beira do Caminho Novo, um Armazém de Secos e Molhados. O meu tio vai desativar o armazém dele na fazenda do Cantagalo e vamos então pegar toda a freguesia.
- Onde quer construir?
- Ali junto à touceira de bambu-gigante – afirmou apontando o cigarro aceso na direção.
- Sim, estou vendo. O local parece bom, plano, bem ao lado do riacho.
- É para facilitar os tropeiros, que serão nossos principais fregueses. O pasto em frente está sempre verdejante e, com boa cachaça, todos vão querer pernoitar aqui.
- É preciso então é prevenir as enchentes.
- Exatamente! Não dá para fazer alicerce com adobe de pilão. Será preciso granito, como meu tio está construindo na sede da fazendo do Cantagalo. Senão na primeira tromba d’água de janeiro nas cabeceiras do córrego dos Puris, o meu armazém vai descer correnteza abaixo...
- Pretende uma construção grande?
- Inicialmente não, mas podemos reservar área para crescer, de acordo com o movimento. Pensei começar com uma fachada de doze metros por seis de lado, para o corpo principal. Nos fundos vamos construir uma dúzia de quartinhos, coisa de três por três metros cada, para abrigar os peões. Mas sem cama, apenas com ganchos para suas redes.
- A área a ser revestida então é pequena. Não será um serviço muito difícil não, pode estar certo – arrematou Emilio.
- Sim. Como o trabalho na fazenda do Cantagalo corre bem, creio que meu tio vai concordar liberá-lo. Caso você queira pegar o serviço, claro.
Ao pensar na possibilidade de rever a mulher que por alguns instantes acabara de avistar, Emilio logo respondeu:
- Posso começar a trabalhar no momento que o senhor desejar!

Pouco antes de o almoço ser servido a esposa do major Carvalhinho apareceu na varanda, sendo reverenciada por todos. Foi quando Emilio teve a primeira visão de Mariana Claudina Barroso de Carvalho, uma mulher com idade dois anos inferior à sua, de voz suave e olhar doce, mas que irradiava autoridade. Um grosso colar de ouro, onde se destacava um grande crucifixo de marfim, reluzia sobre o vestido fechado no pescoço de cor azul escura, estampando sua religiosidade.
- Este aqui é o canteiro espanhol que vai nos ajudar na obra do armazém, Mariana – apresentou o major Carvalhinho.

A senhora sorriu gentilmente e estendeu suas mãos macias.
- Você vai gostar de conversar com ele, pois sabe bem francês segundo me disse o Valenciano.
- Estudei quando criança. Mas, depois que cheguei, não pratico, pois quase não tenho mais lido.
- Tenho uma boa coleção de romances atuais de autores franceses. O senhor deve saber, antes da chegada de D. João VI, a impressão de livros na Colônia do Brasil era proibida. Até hoje temos poucos escritores. Mas sempre importamos livros franceses à vontade. Tenho bons romancistas atuais, como Vitor Hugo, Balzac...
- Não conheço estes autores não senhora. Lia mais os filósofos franceses, em livros emprestados por um tio que morava na cidade de Ourense e que pegava na biblioteca pública de A Veiga.
- Pois antes de sair o senhor pode escolher e tomar emprestado quantos quiser. Depois, quando tiver tempo, eu mesmo gostaria de praticar um pouco a conversação. Desde que sai do colégio interno de freiras no Rio também não falei mais francês.
- Aqui na região, as pessoas falam mais é a língua de boi e cavalo – comentou pilheriando o major Carvalhinho.
- Será um grande prazer, minha senhora.

Apesar dos esforços em esticar o olhar para dentro da casa, durante toda refeição, Emilio não mais avistou a morena esguia. Já quase no fim houve um acontecimento que intrigou a todos, mas a ele especialmente. O homem que estava sentado a seu lado, Mamede, o guarda-livros do comissário lhe perguntou sobre seus amigos na cidade.
- Não tenho amigos aqui não. Eventualmente converso com uma senhora negra, muito simpática...

Neste instante ouviu-se o som de vidro se quebrando. Todos interromperam a refeição, especialmente o major Carvalhinho que correu para a janela, cujo vidro rachara. Pegou do chão um seixo rolado branco, do tamanho de um ovo de galinha e indagou enquanto olhava para fora:
- Alguém viu quando jogaram?
- Que ousadia destes crioulinhos! – comentou o guarda-livros.

A MULA DO OURO - Capitulo 5

Capítulo 5
O Jovem Imperador


Emilio ficou aguardando a ordem de começar o serviço para o major Carvalhinho. Numa tarde de sábado, quando após o almoço por ele próprio preparado, estava sob a sobra de uma árvore, lendo um dos livros emprestados pela esposa do major Carvalhinho, foi surpreendido pela passagem de Valenciano na sua porta.
- Pensei que estivesse para os lados de Minas, homem.
- Estive lá sim, mas voltei rápido. Fiquei mais tempo foi na Corte. Temos grandes notícias.
- De política ou de economia?
- Dos dois. A coisa está fervendo dos dois lados. Acho que vão antecipar a maioridade do nosso Imperador. É um movimento dos liberais, mas está ganhando força até junto aos conservadores. Ou o Brasil faz isso ou o antigo império português vai acabar fragmentado como o espanhol. Logo, logo surge por aqui um Simão Bolívar também, para dividir este grande Brasil.
- Pode ser. E a economia, qual a novidade?
- O trem vai chegar.
- Trem?
- Sim a força do vapor. A água fervente vai pode acabar com a força do escravo e dos animais. Isto para mim, que vivo de abastecer os tropeiros, será a perdição.

Emílio ficou em silêncio alguns instantes, em dúvida sobre a questão que faria, mas se animou:
- Valenciano, há uma coisa que gostaria de perguntar a você, que sabe de tudo, mas estou um pouco sem jeito.
- Fale homem!
- Naquele domingo, na fazenda do major Carvalhinho, eu avistei uma morena esguia...
- Só pode estar falando da Camila.
- Você a conhece?
- Claro. Eu que a trouxe, juntamente com a mãe, a Tônia, para ser aia da Dona Mariana Claudina. Como o major viaja muito, nas suas andanças atrás de políticos, ela me encomendou uma dama de companhia. As comprei em Minas Gerais, em São João Del Rei e as revendi para o major Carvalhinho.
- São escravas?
- Sim, mas não parecem. Vou contar a história delas, que é muito triste.

Enquanto Valenciano ia relatando o drama particular, Emilio formava na mente as imagens. Um português, que chegou tardiamente a Minas Gerais à procura de ouro, depois de algumas tentativas nos morros e córregos já muito explorados, resolveu montaram um pequeno comércio. Adquiriu alguns escravos de um lote novo de africanos, entre elas uma que veio da Guiné, a Tônia. Passou alguns anos e se afeiçoou dela e ela dele. Quando Tônia ficou grávida, resolveu que iria dar-lhe alforria, para que a filha nascesse livre. Porém, por causa de uma briga tola entre dois bêbados em seu armazém, foi mortalmente ferido por um tiro de garrucha disparado acidentalmente. Como não tinha herdeiros conhecidos, os bens foram vendidos em leilão e o dinheiro depositado em juízo, até que algum herdeiro fosse encontrado. Tônia, grávida de sete meses, foi arrolada, juntamente com outros dois escravos, como bem. Quem a arrematou foi uma velha e rica senhora viúva que precisava de uma cozinheira. Como a Tônia tinha fama de fazer bons petiscos no armazém do português, foi muito disputada. Quando a menina nasceu, uma mulata bem clarinha, porém com os olhos negros como a mãe, não puxando os olhos azul água do pai português do norte, a velha prometeu que lhe daria alforria. Tônia ficou feliz, pois pelo menos sua filha estaria livre do jugo da escravidão. Mas o destino foi cruel. A velha deixou que os anos passassem sem cumprir a promessa. Matriculou a menina na escola para que ela aprendesse a ler e a poupasse de esforçar a vista já cansada. Chegou até pagar professor particular para que a menina logo desenvolvesse na leitura. Nem mesmo ao morrer, vítima de um derrame repentino, deixou algo escrito ou a carta de alforria prometida. O único filho desta senhora, que morava na Corte, nem se deu ao trabalho de verificar o que herdaria. Indicou de lá um representante legal e deu ordem para que os bens fossem vendidos em leilão público e o dinheiro apurado enviado para a Corte. Passando na ocasião pelo local, como havia recebido a encomenda de conseguir em Minas uma dama de companhia que soubesse ler, fosse educada e regulasse idade com a fazendeira Mariana Claudina, não perdeu tempo e arrematou as duas, mãe e filha. Sabia que não deveria separar as duas. Ganhou um bom dinheiro na transação e foi elogiado: uma ótima cozinheira chegou à fazenda da Boa União e uma dama de companhia amável passou acompanhar de perto e de total confiança os passos da fazendeira, que apesar de casada há quase dez anos não conseguiam ter filhos. Infelizmente, a chance que as duas tiveram na vida de conseguirem as cartas de alforria por duas vezes, o destino não quis que acontecesse.

Menos de um mês depois deste encontro, Emilio começou os trabalhos na fazenda do major Carvalhinho. Todo o dia acordava cedo e seguia em direção à fazenda com o coração cheio de esperanças; mas, voltava para casa frustrado. Quando tinha que devolver os livros à Dona Claudina esperava que ela estivesse a sós na varanda, o que acontecia às tardes, quando a encontrava bordando. Seus encontros não duravam mais de meia hora, o tempo todo falando em francês, como ela queria. Camila, entretanto, nunca estava presente. Resolveu então tentar outra tática, iria mais cedo. Quando seu relógio de bolso indicou ser treze horas e reinava um grande silêncio na casa, foi até a porta da cozinha e bateu palmas de leve. Uma escrava veio atender e ele disse que gostaria de entregar o livro emprestado pela Sinhá, já que naquele dia teria um compromisso, necessitando sair mais cedo.
- Sinhá está descansando. Mas vou chamar minha filha.

Emilio concluiu que havia falado com a escrava Tônia e sua filha só poderia ser a mulher que esperava rever.

Quando Camila apareceu na porta da cozinha, Emilio retirou o chapéu respeitosamente. Ela arregalou os olhos, admirada, pois não lembrava de haver recebido tal tratamento de outro homem branco.
- Estou devolvendo o livro, é de Honoré de Balzac... Tem continuação, seria possível...
- Sim, eu pegarei para o senhor, Sinhá deu ordem para atendê-lo quando quisesse.
- Está em francês...
- Leio francês.
- Lê?
- Sim, e a continuação é melhor do que a primeira parte – respondeu sorrindo.
- Parle pá français, certamanit?
- Oui!

Emilio entabulou algumas frases em francês sobre o livro que acabara de ler. Percebeu que a pronúncia de Camila deixava a desejar. Com toda certeza tinha pouca prática de conversar no idioma, mas demonstrava conhecer bem o vocabulário, caso típico de autoapredizagem. Emilio sorriu diante da situação: uma escrava mulata no Brasil falando francês com um estranho sotaque e discutindo literatura. Percebeu, todavia, que ela estava interessada na conversa, com toda certeza tentando captar a pronúncia exata das palavras que estava habituada apenas a ler.
- Terei que passar a devolver os livros sempre neste horário. Tem problema para você?
- Não, sinta-se à vontade. Fico sempre à toa, lendo enquanto Sinhá está descansando.
- Ótimo – deixou escapar Emilio sorridente, no que foi correspondido por Camila.

Na véspera do feriado de sete de setembro de 1839, quando em todo Império seria comemorado o “dia da independência”, quando Emilio estava preparando seu café, percebeu a presença da preta velha antes mesmo de ouvir suas palmas e o suave: “Ô de casa!”.
- Há quanto tempo a senhora não vem fazer a boca de pito?
- É, tem bastante tempo...
- Pode pegar o café no fogão e fique à vontade. As coisas têm corrido bem...
- Sei disso – sorriu soltando baforadas de fumaça de seu cachimbo.
- Sabe?
- A gente vai ficando velha e sabendo cada vez mais das coisas que se passam em volta. Um dia vai saber como é.
- Tenho feito bons amigos...
- Amigas também.
- Sim. Amigas também...
- Mas o que devo o prazer de sua visita, depois de tanto tempo?
- Estava passando por aqui, senti o cheiro do café recém-coado...
- Ora, deve ter outro motivo. A senhora sempre acerta o que está me preocupando.
- É sorte de gente velha em acertar os palpites. Mas, vou te dar um conselho: tire logo de seu esconderijo os mil réis que está recebendo do major Antonio Barroso. Tem gente já de olho. Por aqui há muita gente ruim, meu branco.
- Como vão descobrir o esconderijo, é muito difícil.
- Nada é difícil para esta gente. Siga o conselho do Valenciano e consulte o filho do major Antonio Barroso. Ele pode guardar o dinheiro para o branco e até pagar juros.
- Verdade?
- Sim, fale com ele...

Neste instante a velha cambaleou, como se estivesse zonza. Emilio correu em sua direção e segurou-a pelo braço, conduzindo até um tamborete de três pés. Ela sentou-se, fechou os olhos e murmurou: “Libertou”.
- Quem? O que foi?
- Manuel Congo. Acabou de ser enforcado.
- Agora?
- Sim, exatamente agora, lá na Vila de Vassouras. Sua mulher foi obrigada a assistir, junto com o filho. Está chorando... Mas os outros todos estão rindo.
- A senhora está imaginando?
- Sim, meu branco, eu estou imaginando.

Depois, arregalando bem os olhos, levantou-se e encheu outra caneca de café fumegante. Deu mais umas baforadas e caminhou para a porta, olhando para trás quando Emilio a indagou:
- Sabe, até hoje eu nunca perguntei o nome da senhora.
- Ana. Ana de Guiné. Ou então Donana, como sou mais conhecida.

Uma chama crepitou no fogão, Emilio voltou-se para olhar e quando virou o seu rosto em direção à porta a velha já tinha ido embora, sorrateira e ligeira como sempre.

No dia seguinte, mesmo sendo sete de setembro, Emilio retirou todas sua economia do esconderijo, colocou o dinheiro em um saco usado para transportar café e foi até à fazenda do Cantagalo, onde com toda certeza encontraria o filho do major Antonio Barroso. A conversa foi rápida, ele ficou surpreso com a quantidade de dinheiro que Emilio havia juntado, devidamente justificado por uma vida simples e sem vícios.
- Na Espanha nós sofremos muito com o inverno, com a terra seca, por isso os espanhóis são muito econômicos.
- Pão-duro quer dizer – corrigiu o filho do fazendeiro.
- Não conheço esta expressão...
- Estão certos. Um país só desenvolve quando existe poupança que pode ser bem aplicada. A sua será bem aplicada, tenha certeza, espanhol.

Como operário especializado, Emilio sempre conseguia impor o preço pelo valor do seu serviço, razão pela qual aprimorava cada vez mais a qualidade do trabalho. Ficou, admirado com a taxa de 5% ao ano que o filho do fazendeiro afirmou que conseguiria pela aplicação. Recebeu promissórias nominais como recibo, assinou o livro caixa de registro e voltou satisfeito para casa. Ao entrar, seus olhos treinados para detalhes, acostumados a perceber os veios nas pedras de granito onde a cunha deveria ser inserida, notou que alguns livros estavam ligeiramente fora de posição, os dois quadros na parede um pouco inclinados. Foi até o fogão, sob o monte de lenha que ficava perto do fogo para secar, sob o qual um tijolo deslocado escondia um pequeno cofre, também parecia revirado. Ou seria impressão, devido à advertência de Donana, que seu esconderijo fora realmente descoberto?

Os meses de primavera e verão daquele ano seriam lembrados mais tarde por Emilio como os mais felizes de sua vida, pelos freqüentes encontros com Camila. Embora fossem com tempo marcado, sempre entre as doze e trinta e quatorze horas, sob o olhar nem sempre aprovador da escrava Tônia, sua mãe, esta hora e meia de conversas parecia durar muito menos. Provocava sua admiração os dentes alvíssimos e a inteligência da mulata, que rapidamente aprendia a pronunciar corretamente o francês, imitando-o sorridente. De vez em quando, quando voltava para casa, Emilio se perguntava: estaria se apaixonando outra vez?

Quando terminou o verão, Emilio foi convocado para uma reunião na sede da fazenda do Cantagalo. Sobre a grande mesa de refeição os rolos de setenta desenhos feitos pelo major Júlio Koeller. Era uma cópia do projeto que ele acabara de apresentar à Assembléia Fluminense de uma nova estrada, ligando o Porto da Estrela, atravessando a Serra Estrela pelo Caminho das Tropas até Paraibuna. Do lado da Província de Minas Gerais, outro oficial alemão, o major Henrique Halfeld também concluíra o seu projeto, melhorando o traçado da Estrada Real, da ponte de Madureira, em frente à grande Pedra de Paraibuna até a cidade de Barbacena, na Borda do Campo, no alto da Serra da Mantiqueira.
- Esta obra vai ajudar a resolver nossos problemas de escoamento – concluiu o major Antonio Barroso.
- Neste ano – afirmou o filho do major, consultando suas anotações – o café brasileiro vai representar 40% da produção mundial. E o a Província do Rio de Janeiro, responde por mais de 70% da produção nacional.
- Haja tropa de mulas, também – ponderou o major Koeller.
- Se não fosse estas revoltas nas Províncias, tudo estaria uma maravilha... A maioridade de D. Pedro II é a única solução para unificar o país. É uma idéia do Partido Liberal, mas tem sentido. O nosso Coronel Luiz Alves de Lima, atualmente o Presidente da Província do Maranhão, acabou com a Balaiada, mas se continuar assim vai ter que seguir para o Rio Grande do Sul, para dar fim na República Rio-Grandense.

No mês de julho, aconteceu o ato chamado pelos adversários políticos, membros do Partido Conservador, de o Golpe da Maioridade. Segundo eles, uma manobra do Partido Liberal destinada a assumir o poder, contando com a inexperiência do jovem imperador de apenas 15 anos, que indagado respondeu: “Quero-a já!”.

O major Carvalhinho fez questão de ler para todos os presentes o teor da declaração liberal:

A Assembléia Geral Legislativa do Brasil, reconhecendo o feliz desenvolvimento intelectual de S.M.I. o Senhor D. Pedro II, com que a Divina Providência favoreceu o Império de Santa Cruz; reconhecendo igualmente os males inerentes a governos excepcionais, e presenciando o desejo unânime do povo desta capital; convencida de que com este desejo está de acordo o de todo o Império, para conferir-se ao mesmo Augusto Senhor o exercício dos poderes que, pela Constituição lhe competem, houve por bem, por tão poderosos motivos, declará-lo em maioridade, para o efeito de entrar imediatamente no pleno exercício desses poderes, como Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.

- Isto é manobra dos liberais – afirmou o major Antonio Barroso.
- Se for, vão dar com os burros n’água – emendou o major Carvalhinho – o menino tem gênio, puxou pelo pai, D. Pedro I e pela avó, Dona Carlota Joaquina. Mas é dissimulado, sabe o que quer e é inteligente como a mãe, a Imperatriz Leopoldina, da Áustria. O menino é muito aplicado nos estudos e sempre teve ótimos professores. Fala alemão e francês desde criança. Tenho fontes seguras a respeito disto. Os liberais vão quebrar a cara se estão pensando em manipulá-lo!

Aprovado o ato, a coroação do monarca aconteceu no ano seguinte, em 18 de julho de 1841, no mesmo dia em que o coronel Luiz Alves de Lima e Silva recebeu o título de Barão de Caxias. Retornou vitorioso ao Rio de Janeiro, eleito deputado pela Província do Maranhão e torna-se a partir daí o poderoso braço direito do jovem Imperador, enquanto durou o II Reinado.

Para Emilio, estas reviravoltas políticas pareciam-lhe estranha comparada com a relativa disciplina espanhola na administração do poder. Mas, não estava disposto a gastar energias em entender o que se passava com a política à sua volta, se isto fosse roubar a atenção que precisava dispensar à sua bela Camila. Porém, os seus interesses em alongar cada vez mais as conversas na hora da sesta, já tinham ultrapassado a cozinha.

Certa tarde Mariana Claudina manda aviso que o convocou a sua presença. Emilio vai encontrá-la na varanda da sede da fazenda Boa União, onde esperou com o chapéu nas mãos. Ela não demorou em considerações pois após um cumprimento formal disse:
- Senhor Prieto, tenho ouvido rumores e gostaria de sua confirmação. É a respeito de minha mucama, a Camila...
- Tenho por ela uma grande admiração, senhora...
- Mas o senhor há de convir, trata-se de uma negra, escrava. Um homem branco, de posses como o senhor, poderia...
- O coração tem razões que a razão desconhece...
- Isto está sempre escrito nos romances, mas na vida real...
- A senhora é contra?
- Não se trata disto. Gosto muito de Camila, é minha fiel companheira. Não gostaria de vê-la sofrer.
- Minhas intenções são exatamente iguais. Não quero vê-la sofre e gostaria de dar-lhe mais felicidade, uma vida de liberdade, um futuro...
- Vejo que está apaixonado, senhor Prieto. Sei que Camila está vivendo o mesmo sentimento. Vá lá, tem minha autorização para um namoro e noivado.

Emilio não conseguiu conter o sorriso de felicidade. A fazendeira continuou:
- Mas, deverão ter uma rotina, sem encontros furtivos. Poderá vir aos sábados à tarde e ficar com ela até anoitecer e também participar das nossas missas aos domingos, pela manhã.
- Sim senhora, de acordo.
- Bem, agora vou chamar meu marido, o major José Antonio que anda muito preocupado com a morosidade de sua obra do armazém que nunca termina. Agora, com o meu consentimento de se encontrar com Camila a obra vai terminar logo, não é? – concluiu com um sorriso maroto.

Emilio aguardou a chegada do major Carvalhinho que, além de exigir pressa pediu um favor especial: gostaria de ter um caixeiro português para trabalhar no seu novo Armazém.
- Os portugueses e é que têm vocação para o comércio. Andei pesquisando na Corte, só vai para frente comércio que tem à frente um português. Nós brasileiros somos da terra, da lida com os animais, com os escravos e eles são bons no comércio.

Emilio prometeu escrever para seu antigo mestre Ribeiro de Sá, que morava em Penafiel, a pouca distância da cidade do Porto, pedindo seu auxílio. O major Carvalhinho ficou satisfeito.

O verão de 1842 foi extremante chuvoso na região paulista, acima da vila de Paraíba do Sul. O rio subiu muito de nível, saiu do leito e arrancou árvores grossas nas suas margens que, descendo em fortes corredeiras, enganchou-se nos pilares em construção da ponte, destruindo trabalho de anos. Os fazendeiros da margem esquerda ficaram apavorados, pois todo transporte pelo Caminho Novo começou a ficar prejudicado, pois as barcaças utilizadas sofreram também danos com as fortes chuvas.

Mas não foram apenas no aspecto econômico os problemas daquele ano. Adotando decisões centralizadoras, orientadas pelo Partido Conservador, o jovem imperador desagradou os liberais – confirmando a previsão política do major Carvalhinho.

Em março o Barão de Caxias foi investido no cargo de Comandante das Armas da Corte e, após o levante iniciado na Província de São Paulo, suscitado pelo Partido Liberal, D. Pedro II o nomeia Vice-Presidente da Província revoltosa, dando-lhe carta branca de ação na missão de pacificar a região. O barão de Caxias usaria a tática de manobras bem sucedidas anteriormente, que minimizavam os prejuízos e rapidamente curavam os ressentimentos. Reunia grande força bélica, cercava os revoltosos e, humildemente, oferecia a paz. Os fanáticos geralmente faziam algumas exigências orgulhosas, como afastamento das tropas, que Caxias de pronto atendia. Oferecia perdão aos abusos cometidos e até indenizações. Conseguia a paz sem muitos esforços e até, em certos casos, a adesão de antigos rivais. Apesar de fortemente armado diante da força adversária, sempre preferia o caminho da negociação e diplomacia. Era um pacificador, embora algum líder tenha pagado com a própria vida, dependurados com a língua para fora numa corda de enforcamento, quando foi necessário um tratamento exemplar, caso dos líderes da revolta da balaiada no Maranhão e do quilombo de Manuel Congo, em Pati do Alferes.

Mas, nesta revolta, os paulistas não estavam sozinhos, pois logo o movimento de rebeldia insurgiu também na Província de Minas Gerais, sob a liderança de Teófilo Otoni. Enquanto Caxias seguia para São Paulo, os mineiros liberais atearam fogo à Imperial Ponte de Madureira, na divisa das Províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro, interrompendo o transporte de tropas – exatamente no período de escoamento da safra.

Pacificado São Paulo, Caxias seguiu para Minas Gerais com suas tropas. Ocupou na Vila de Paraíba do Sul o morro conhecido como Pedra da Tocaia, de onde se tinha uma estratégica posição do Caminho Novo e ocupou também o alto da Pedra de Paraibuna, para conter um eventual avanço das tropas de Minas em direção à Corte e partiu para o ataque. Os revoltosos concentrados em Barbacena, recuaram para o interior da Província e a batalha final deu-se na Vila de Sabará. O processo de cerco e rendição repetiu-se como em São Paulo, conseguindo a paz, embora gerando ressentimentos que nunca cicatrizaram.

O major Júlio Koeller foi chamado para reparar a ponte, viabilizando a implantação pelo major Carvalhinho e seu sogro, de uma serraria de grande capacidade a meio caminho entre as sedes da fazenda Boa União e do Cantagalo. A região de sua fazenda, entre os rios Piabanha, Paraibuna e Paraíba do Sul sempre foi rica em madeira nobre. Nesta reforma mudou o projeto original da ponte, que tinha o tabuleiro coberto, para reduzir os custos e acelerar os trabalhos. A falta da ponte exigia que as tropas de mulas atravessassem as águas revoltas do Rio Paraibuna sobre as pedras, junto dos sólidos pilares de granito, única parte que sobrou do incêndio. Algumas rolaram rio abaixo, como algumas carregadas de ouro, segundo a lenda, antes da ponte existir.

Conseqüência indireta desta revolta e da instalação da serraria foi o acidente fatal que provocou a morte de um escravo, quando uma tora de mais de dois metros de diâmetro rolou sobre ele. Nos últimos minutos de vida rogou a São Sebastião, pedido que aliviasse sua dor. Depois que morreu uma cruz, fabricada com a madeira da tora que o matou foi erguida próximo da serraria. Todas as segundas feiras encontrava-se velas acesas em sua volta e alguns negros mais antigos chegaram a pedir que o major autorizasse a construção de uma capela, devota a São Sebastião também. Mas o major tinha outras preocupações.

Foi ainda em 1842 que chegou para trabalhar na casa comercial do major Carvalhinho, com 13 anos de idade, Miguel Ribeiro de Sá – neto do mestre canteiro português de Emilio. Sentindo-se seu padrinho, este logo cuidou de familiarizá-lo com a política do novo país, que estava em polvorosa.

O Imperador Pedro II, diante do sucesso de Caxias na Revolta Liberal em Minas Gerais e São Paulo, resolveu enfrentar a mais antiga rebelião do Império, que ameaçava dividir a nação: a Revolta Farropilha, que se iniciou em 1835, quando o jovem imperador era um menino de nove anos e tinha como tutor José Bonifácio. Nomeou no mesmo ano o Duque de Caxias, promovido a Marechal de Campo com menos de quarenta anos, como Presidente da Província do Rio Grande do Sul e o encarrega da missão de extinguir a República Rio-Grandense, como se auto-denominavam. Caxias partiu imediatamente do Rio de Janeiro para uma missão militar e diplomática das mais difíceis, pois os dois grupos rivais que lutavam entre si no Sul estavam unidos na luta contra o Império.

O ano de 1843 iniciou bem mais suave. O jovem Imperador de 18 anos consegue num acordo casamento na Corte européia, com uma prima distante, Tereza Cristina Maria de Bourbon-Duas Sicílias, nascida em Nápoles, em 30 de maio de 1822 – portanto dois anos mais velha que ele, nascido em dois de dezembro de 1825. Casam-se por procuração em Nápoles no dia 30 de maio de 1843 e em pessoa no Rio de Janeiro em quatro de setembro do mesmo ano.

O major Carvalhinho, sempre afinado com a política de bastidores da Corte, cochichou:
- Quase que o homem desiste do casamento...
- Por quê? – quiseram saber seu tio e primos.
- Dona Tereza Cristina era diferente da mulher do quadro que ele recebeu. Uma jovem linda, posando diante do vulcão Vesúvio soltando rolos de fumaça.
- Foi enganado, então?
- Creio que foi, digamos... uma inspiração do artista que a pintou. O Imperador se apaixonou pela mulher do quadro. Quando viu a princesa...
- Ela é feia assim?
- Era gordinha, baixinha e mancava de uma perna...
- Ele, um rapaz alto, barba escura cerrada, tão culto e vistoso...
- Dizem que só consumou o casamento quando o seu amigo, o mordomo Paulo Barbosa disse que ele deveria cumprir sua obrigação, pelo bem do país...
- Será mesmo verdade?
- É o que dizem, mas na Corte, vocês sabem, rola fuxico o tempo todo.

Resolvido este problema de sucessão, mais político do que amoroso, o jovem Imperador parte para novas conquistas. Tinha para isto bons auxiliares. Dentre estes personagens históricos importantes e de inteira confiança do jovem Imperador, um que mesmo não tendo a mesma visibilidade de Caxias, destaca-se é o Mordomo Imperial Paulo Barbosa da Silva, que cuidava mais do que do dia-a-dia dos Palácios da Quinta da Boa Vista e do Paço a Cidade. O major Carvalhinho prevê:
- O Imperador é corajoso. Mandou Caxias para o Rio Grande do Sul e vai agora enfrentar o nosso tabu: a Síndrome do Haiti.
- Como? – quis saber seu primo e cunhado Antonio Barroso.
- Vai branquear o Império. Estou bem informado. Paulo Barbosa já convenceu o Imperador Pedro II a quitar logo a dívida que seu pai fez e está em litígio na justiça, relativo à compra da fazenda do Córrego Seco. Juntamente com o major Júlio Koeller projetou um grande Palácio de Verão aqui na serra, bem na rota do Caminho das Tropas. Ao redor deste palácio será instalada uma colônia agrícola, mas não de negros, mas de lavradores alemães. Vão cultivar maçãs, peras, pêssego e outras frutas da Europa.
- Alemães?
- Sim, por incrível que pareça.
- Tem dedo do Koeller aí, sem dúvida. Vai trazer seus patrícios...
- Certamente!
- Mas ele não saiu mal com os orçamentos da ponte de Paraíba que nunca acabou? Não está respondendo processo, acusado de desfalque?
- Sim, mas isto é briga com o Presidente da Província do Rio de Janeiro. Com o Governo Imperial ele está muito bem. O Imperador quando gosta de uma pessoa passa por cima de tudo, você sabe.
- Tem mais novidades?
- Sim. Esta você não vai acreditar, mas é de fonte segura. Já foi escolhido o nome da nova vila que será criada por decreto.
- Qual?
- Petrópolis, a Cidade de Pedro.
- Como?
- Petro, de Dom Pedro e Polis, de cidade em grego.
- Será possível? Daqui a pouco teremos também Teresópolis, a cidade da Imperatriz Tereza Cristina?
- Não ouvi falar disso, mas pode ser. Quem sabe no futuro?

A MULA DO OURO - Capitulo 6

Capítulo 6
Nascimentos



O sentimento de otimismo provocado pelas ações tempestivas, mas corretas do jovem Imperador estimularam o major Antonio Barroso, que resolveu acelerar as obras de sua nova sede da fazenda do Cantagalo. Com a construção da nova Cidade Imperial na região serrana, tudo em sua volta ganharia importância política e valorização imobiliária. Portanto, construir a maior e mais luxuosa sede de fazenda de café de todo o vale do Rio Paraíba do Sul deixava de ser um capricho para se tornar um grande trunfo.

Emilio foi convocado para uma reunião na sede da Fazenda da Boa União, já que por algum tempo a sede antiga da fazenda do Cantagalo seria demolida enquanto a nova estava sendo priorizada. O major passaria a morar na fazenda da filha, na Boa União, juntamente com o filho. Emilio recebeu uma nova e importante missão, já que sua parte, anteriormente restrita à fundação de pedra já estava concluída. Foi contratado, por empreitada e não com salário fixo, para cuidar de todo o revestimento. O major Antonio Barroso exigia mármore importado de Carrara, nas cores preta e branca, não importava o custo. Deu prazo: que tudo ficasse pronto em um ano.

Terminada a reunião, quando contou a novidade para Camila, prometendo que esta obra finalizada significaria a certeza do casamento, pois teria os recursos suficientes para comprar sua alforria, da mãe dela e até uma pequena gleba de terra, ela sorriu abertamente, com os olhos umedecidos de emoção. Finalmente ficava claro que teriam a alforria de qualquer forma, não mais como uma promessa distante, como um possível presente de casamento da Sinhá, mas pelos recursos financeiros do noivo que também libertaria sua mãe, para ela o maior presente de casamento.

Neste dia de grande alvoroço na fazenda da Boa União, os dois ficaram mais livres e foram para a penumbra de uma mangueira frondosa. Estavam juntos há anos. Embora sem alianças, era como se fossem noivos e, portanto, tinham as intimidades naturais. Emilio recostou-a no tronco e enfiou as mãos sob sua blusa de cetim, sentido na palma da mão seus mamilos intumescidos. Camila arfava e o beijava com volúpia. Não sabiam eles, entretanto, que não muito distante, um olhar ávido os observava atentamente.

Como se fosse uma duradoura primavera, os anos que se seguiram ao casamento do jovem Imperador viram surgir vários nascimentos, de cidades, empreendimentos e pessoas - desejadas ou não.

O major Carvalhinho, sempre atento às últimas novidades da política, confidenciou entre o grupo que conversava na varanda da fazenda da Boa União:
- O Imperador cumpriu a obrigação: já embarrigou a Imperatriz. A criança vai nascer no início do próximo ano.
- O homem é dinâmico, sem dúvida.
- Na política também. Mas vai mexer em caixa de marimbondos, cutucar a onça com vara curta... Dessa vez serão os atacadistas ingleses.
- O quê?
- É, isso mesmo. Ouvi dizer que não vai renovar o Acordo de Comércio e Navegação com a Inglaterra, assinado pelo seu pai em 1827 e que vence neste ano de 1844, que na verdade é o mesmo Acordo de 1810, assinado por seu avô depois que chegou ao Brasil, que era uma ratificação do acordo de 1807, chamado de “Convenção Secreta de Londres”. Foram estes acordos que acabaram com 300 anos de monopólio de portugueses no comercio internacional.
- Na verdade trocou-se apenas de nacionalidade o monopólio, de português para inglês.
- Não vai dar problema com a importação da mão-de-obra da África? Estes acordos não prevêem o fim de tráfico negreiro? Até agora foram cláusulas, como se diz: “para inglês ver”. Mas e depois, quando os ingleses perderem os privilégios, como vai ser?

Tanto na fazenda da Boa União como na do Cantagalo, assim como nas demais produtoras de café do Vale do Paraíba, o sentimento de otimismo era total. Tropas de mula congestionavam os caminhos, descendo com café e subindo com material importado, já que a produção nacional era acanhada.

O jovem Miguel Ribeiro de Sá, um rapagão de que apresentava corpo e altura desproporcional à sua idade, demonstrou grande talento para o comércio. De olhos azuis e cabelo claro, encantava a todos com seu sotaque lusitano e participação em igualdade de condições nas brincadeiras dos peões e tropeiros. Tinha também muita sorte no carteado, que depois que a venda fechava as portas, às oito da noite, continuava madrugada adentro, com um número restrito de jogadores. Mas no dia seguinte, cedo estava de pé, limpando tudo, já que dormia no próprio armazém.

Acordando cedo, vendo-o trabalhar com a vassoura na porta da frente, o major Carvalhinho comentou com seu feitor:
- O menino leva jeito para o comércio e é muito trabalhador.
- Sim, todos gostam dele.
- Não tem defeito?
- Quase nenhum.
- Quase?
- Bem, já que o senhor está perguntando...
- Fale homem, preciso saber de tudo.
- Ele não pode ver uma crioulinha.
- Como é?
- Pois é major Carvalhinho, uns peões aí viciaram o moço.
- Com quem?
- Com estas raparigas que acompanham as tropas, subindo e descendo. Elas se encantam do sotaque dele, com os olhos azuis e sei lá mais com o que...
- E com as mulheres da fazenda?
- Tem sido muito respeitador. Eu estou de olho porque tenho filha moça, o senhor sabe. Mas, mulher é bicho danado: é fogo de morro acima, enxurrada de morro abaixo e mulher quando quer dar ninguém segura!

Agosto, mês do desgosto, mês de ventania, de chuva de granizo, de cachorro doido. Na Corte, em 12 de agosto, o Senador do Império e Ministro da Fazenda Manuel Alves Branco, depois de longas ponderações com o jovem Imperador de 19 anos, assina as normas tarifárias que seriam conhecidas como Tarifa Alves Branco. As taxas aduaneiras foram aumentadas e uniformizadas em 30% para produto importado sem similar nacional e 60% para os produzidos no país – poucos é verdade. Os principais prejudicados com a medida drástica foram primeiramente os industriais ingleses, que tinham o privilégio tarifário de apenas 15% de taxa alfandegária, enquanto os outros países pagavam 24%; em segundo lugar os comerciantes do mercado internacional (a maioria ingleses) que viram suas importações se tornar menos competitivas, diante de alternativas nacionais. Por outro lado, surgiram chances de uma industrialização local, colocando em dúvida a chamada “vocação agrícola” do Brasil. Para os industriais americanos que disputavam o mercado com os ingleses na América do Sul a padronização da nova taxa criou grandes oportunidades já que, como grandes estimuladores do consumo de café, ao invés do chá inglês, tinham os maiores saldos comerciais. Porém, o maior beneficiário foi o próprio Governo Imperial, que viu sua arrecadação crescer vertiginosamente, consolidando financeiramente a centralização do poder no Rio de Janeiro, província responsável pela maior geração de riqueza, o café. Isto inviabilizou de imediato qualquer tentativa de fragmentação política, pois todas as outras províncias dependiam dos recursos financeiros centralizados na Corte.

Uma tempestade de granizo surpreendeu uma pequena comitiva que subia a Serra Estrela numa tarde de novembro. Na carruagem que trazia Dona Mariana Claudina e sua mãe, após a consulta em um médico na Corte sobre a sua esterilidade sem cura. Com o rio Quitandinha botando água para fora, acharam melhor esperar para continuar a viagem no dia seguinte, pois a situação ficaria ainda mais perigosa à noite.

Nesta parada mãe e filha tiveram tempo de conversar sobre outros temas, que nem sempre tinham o isolamento necessário para fazê-lo, entre eles o futuro de Camila.
- Ela gosta mesmo do espanhol, filha?
- Acho que os dois estão apaixonados.
- Mas é um casal tão diferente...
- Deve ser isso que atrai um para o outro.
- Ela, como toda mulata nova, é muito fogosa, muito mulher, atiça os homens, dá para perceber... Ele me parece muito tímido, sempre falando baixo, educado... Diferente dos homens daqui, sempre brutos, autoritários, valentes...
- Eles conversam sobre literatura o tempo todo. Vivem falando dos livros que leram do que de qualquer outro assunto. Creio que o lado intelectual dele é que atrai Camila. Ele é um homem muito sensível, sentimental.
- Sim. Tomara que ela saiba valorizar isso...

As pedras de gelo e a ventania não ficaram restritas ao alto da serra, a chuva desceu pelo Vale do Rio Piabanha fazendo estragos. As tropas que chegavam assustadas à fazenda da Boa União relatavam o que viam. O major Carvalhinho chamou seu sogro e cunhado para ouvirem os relatos e mandou recado para ver se houve estrago na fazenda do Cantagalo. Os homens ficaram até tarde na varanda aguardando as tropas chegarem com notícias. Enquanto uns fumavam sem parar outros aproveitavam para aquecer o frio súbito com a boa cachaça.

Tônia, na cozinha, fritava torresmo e lingüiça sem parar, pedindo à filha que ajudasse a atender os homens na varanda. Excitados com as notícias, eles falavam cada vez mais alto. No final da noite todos estariam embriagados.

Como sempre acontece depois das tempestades nos trópicos, o dia amanheceu sem uma nuvem no céu e o sol logo derreteu o gelo que resistiu a madrugada toda sobre o capim. Era quase meio-dia quando a comitiva de Mariana Claudina chegou à fazenda da Boa União. Camila as estava esperando na varanda. Ajudou a descer as malas e leva-las para o quarto da Sinhá.
- Está triste, Camila?
- Não senhora.
- O estrago aqui não foi nada comparado com o que vimos na serra. Árvores derrubadas, pontes arrasadas... Aqui parece até tudo normal.
- A chuva chegou fraca aqui, é verdade. Mas trouxe mais estrago do que a senhora possa imaginar...

Os efeitos da Tarifa Alves Banco surgiram logo. Tanto o major Carvalhinho, afinado com a política, como seu cunhado Antonio Barroso, com as notícias de economia acompanha tudo com atenção:
- Dizem que o gerente dos ingleses, o Irineu Evangelista de Souza, está com vários projetos de industrialização.
- É preciso mudar mesmo, o nosso é ainda herança portuguesa.
- Ouvi dizer que vai investir também na indústria, depois que foi recebido pelo Imperador.
- Eu não acredito numa indústria nacional não. Nossa vocação é a lavoura...
- Não sei não. O Imperador lê todo jornal americano que chega dos navios, tem especial gosto por novidades – sabe que comprou, aos quinze anos, por 250 mil reis uma das primeiras máquinas fotográficas que apareceu no Império? Então, vai querer seguir aqui o modelo de progresso dos Estados Unidos.
- Sim, mas nós não temos a força do vapor. Não temos reserva de carvão mineral para produzir coque. Não dá para o Brasil substituir a mão-de-obra escrava pelas máquinas a vapor. Nosso modelo não vai mudar tão cedo.

Emilio, por conta de seu contrato com o major Antonio Barroso, para adquirir o mármore necessário, passou a viajar com freqüência para a Corte, chegando a visitar a Província do Espírito Santo, onde se supunha existir pedras com a mesma qualidade das italianas. Por esta razão, provavelmente, passou a sentir Camila mais triste. Esta também foi a percepção de Mariana Claudina, que perguntou certo dia:
- Você não parece uma noiva às vésperas do casamento, Camila. Andas triste pela casa, nem lendo vejo você mais. O que está passando? É a ausência de Emilio?
- Ando muito confusa sim, Sinhá.
- Mas você vai mudar de vida, conseguirá a alforria...
- Talvez não Sinhá, nosso destino está traçado lá no céu, aqui na terra não adianta querer mudar o que está escrito.
- E o Emilio, Camila? Ele gosta tanto de você...
- Ele é muito bom para associar a vida dele à de uma simples escrava...

Toda fazenda Cantagalo na Vila de Paraíba do Sul acordou mais cedo naquele mês de maio de 1845. Desde antes do alvorecer os escravos pintavam os moirões de cerca e capinavam a estrada que vinha da vila de Paraíba do Sul, seguindo o rio até à mais nova mansão construída nas suas margens, o casarão do major Antonio Barroso Pereira, sede da fazenda do Cantagalo, inquestionavelmente o mais rico fazendeiro de toda região.

No mês de maio sempre baixa uma cerração espessa que cobre o rio e as margens e só vai embora depois das oito horas, quando o sol esquenta. Por isso era difícil vigiar o trabalho espalhado, obrigando os feitores a andarem de um lado para outro.

Visitas muito importante estavam para chegar para o almoço: nada menos que o Imperador D. Pedro II, a Imperatriz dona Tereza Cristina e toda sua comitiva. Pernoitaram todos na Vila de Petrópolis, na habitação construída pelo major Júlio Koeller, enquanto o novo Palácio de Verão não tinha de condições de abrigar os monarcas. Acordaram às três da manhã, seguindo a comitiva pelo caminho conduzindo archotes. Iriam passar pela fazenda do Padre Corrêa, o povoado de Cebolas, atravessando em balsas o Rio Paraíba do Sul, pois a ponte em obras desde 1835 não ficara pronta. Estava prevista também uma homenagem organizada pela Câmara de Vereadores da vila que tinha o mesmo nome do rio. O almoço seria na residência do mais importante fazendeiro de café, o major Antonio Barroso, onde descansariam até à tarde, quando seguiria uma incômoda cerimônia de beija-mão na sede do solar. Depois do pernoite, uma nova jornada pelo Caminho Novo, até a fazenda de São Mateus, do coronel José Inácio, na Vila de Santo Antonio do Paraibuna, que colhia dezoito mil arrobas de café por ano e recebera as primeiras mudas diretamente das mãos do avô do Imperador, D. João VI, há mais de 25 anos.

No trecho fluminense a comitiva seria guiada pelo major Júlio Koeller, que cederia a vez, no lado mineiro, para Henrique Halfeld. Era a primeira visita do Imperador à Província de Minas Gerais, uma forma, segundo seus conselheiros políticos de acabar de vez com qualquer reminiscência desfavorável provocada pela sufocação da revolta dos liberais mineiros, há apenas três anos, em 1842.

Na cozinha o trabalho também era incessante. Tônia veio da fazenda da Boa União para comandar dezenas de outras escravas na cozinha da fazenda do Cantagalo. Ao seu lado a filha Camila, grávida, esquentava um bule de café.

A grande construção de dois andares, em forma de “U”, recém pintada de branco, as escadas de granito cinza e o piso de mármore carrara brilhando ao sol, destacava-se imponente diante do fundo de montanhas verdejantes. Os fundos do casarão, face sul, parte aberta do “U”, dava para o rio, bem de frente da Cachoeira do Cantagalo. Nesta época de pouca chuva, o rio descia abruptamente um metro e meio, formando uma cachoeira sonora.

- Vá logo levar este café para os homens na varanda, Camila.
- Sim, mãe. E depois, posso atender à D. Mariana?
- Sim.
- Mãe, é muita responsabilidade cozinhar para o Imperador. Será que ele vai gostar de sua comida?
- Faço o que sei. Se me chamaram da cozinha da fazenda Boa União para preparar a bóia do imperador, deve ser porque a minha comidinha mineira é boa! Vá logo, filha, leve o café e esta broa de milho. Vá logo!

Na varanda o major Barroso andava de um lado para outro, soltando baforadas de seu cigarro de palha e batendo firme no piso de mármore com o salto das botas de cano alto, pretas e lustrosas. Aos 53 anos, corpulento, sem barbas, com as melhores roupas, parecia impaciente. Ao seu lado aliados habituais: o genro major Carvalhinho, o filho Antonio e o vizinho Hilário.

- Não estou gostando nada dessa cerração. Ontem de madrugada o sereno foi forte e está muito úmido. Com esta friagem, vai custar subir a cerração.
- Será que para os lados de Cebola está assim também?
- Não. Serra acima o nevoeiro fica menos espesso. Pior é mesmo nas margens do rio. Não posso ficar mal com o Imperador, tudo tem que estar certinho... Afinal de contas, se não fosse o avô dele, D. João VI, em 1817, isto aqui seria ainda o brejo abandonado, como a família dos Paes Leme queria manter. No entanto, graças a ele conseguimos a sesmaria requerida por meu pai e posso dizer com orgulho, que desde as Três Barras, no encontro dos rios Paraíba do Sul com o Piabanha e o Paraibuna, até a foz do Rio Novo, todas as terras concedidas foram exploradas e estão bem aproveitadas, gerando riqueza para o Império.
- Vejo que o amigo está treinando o discurso... – comentou sorridente o coronel e também fazendeiro Hilário.

Camila chegou com uma bandeja do café e da broa de milho. Os homens pararam a conversa, e aguardavam em silêncio serem servidos. Camila, humildemente, encheu cada xícara de louça e serviu, fazendo mesura com a cabeça. Quando terminou e se retirou os quatro homens na varanda voltaram a conversar.

- Está desmatando para os lados de Bemposta, major?
- Sim, mas aproveitando toda a madeira de lei antes de tocar fogo e formar as roças para café.
- Pelo jeito na fazenda ainda tem muito ipê, peroba e até jacarandá, não é mesmo?
- Sim. Graças às obras em Petrópolis a nossa serraria não pára de trabalhar.
- Isto exige cada vez mais braço escravo, não é major?
- Este é o problema. O preço das peças aumenta cada vez mais. Já temos, juntando todas as quatro fazendas, mais de um milheiro de escravos. E vamos ter que importar mais. O café também subindo de preço está despertando muita cobiça, todo mundo quer ser fazendeiro. Acham que é só tocar fogo no mato, preparar a roça, plantar café e colher mil réis...

Após deixar a varanda, Camila desceu a grande escadaria e seguiu pela lateral oeste, evitando passar por dentro da casa, pois o assoalho de tábuas corridas de ipê amarelo estava polido para receber o Imperador. O nevoeiro espesso fazia a umidade se condensar em gotículas, tornando as pedras escorregadias. Seu pé descalçado, como de todas as escravas, deslizou na pedra molhada pela cerração e ela caiu de lado. Sentiu seu filho no ventre dar um forte solavanco, chutando sem parar. Ergueu-se com dificuldade, ficando de joelhos, pois estava sem forças para ficar de pé. Os braços esfolados nas pedras ardiam. Passou a mão entre as pernas e sentiu minar água. Estava zonza, a cerração parecia ficar cada vez mais espessa. Antes de desfalecer pensou: “não está na hora de meu filho nascer!”.

Tônia, estranhando a demora da filha, incumbiu uma escrava nova de vigiar o derretimento da banha de porco e saiu na cerração. Tão logo seus olhos já cansados de 60 anos de idade localizaram o vulto da filha estendida no chão de pedra correu em sua direção. Sentiu Camila fria, desfalecida, com os braços sangrando. Forçou a vista e vislumbrou um escravo caminhando próximo com uma enxada nas costas. Gritou-lhe e logo estava sendo ajudada. Camila despertou com tapas no rosto e caminhou lentamente para a cozinha, amparada de um lado pela mãe e de outro pelo negro. Dona Mariana foi logo avisada do acidente.

- Dê-lhe um café bem forte e quente, Tônia. É muito perigosa uma queda neste estado – comentou docemente dona Mariana.
- Sinhazinha tem razão. Não sei como foi acontecer isso.
- Vamos pedir a Nossa Senhora, com fé, que ajude Camila – disse fazendo o nome do pai, enquanto balbuciava uma prece em voz baixa.
- Ela parece muito fraca, Sinhazinha...
- Leve-a ao quarto vazio ao lodo do meu. Ela precisa descansar.

Enquanto todas as mulheres da casa se solidarizavam com Camila, os homens preparavam-se para partir. Quatro cavalos arreados aguardavam no pé da escadaria. O garanhão branco, do major Barroso, nervoso, raspava o casco nas pedras. Ao avistar a mula pedrês, montaria de Emilio, o major concluiu que ele deveria estar no pequeno escritório dos capatazes, na parte inferior da casa. Considerando o esforço que havia feito para concluir a obra a tempo da visita do Imperador, deu ordem para ele fosse chamado. Logo cinco cavaleiros seguiam em direção à Vila de Paraíba do Sul. O cavalo do major Antonio Barroso e do coronel Hilário iam à frente, seguido pela dupla de cavalos do filho e do cunhado, e por último o animal do mestre canteiro Emilio Prieto, como se numa hierarquia social.
- A que horas está prevista a chegada do Imperador à Vila? – perguntou Hilário.
- Entre onze horas e o meio-dia. Mais uma hora de discurso, meia hora de viagem de volta até a fazenda, provavelmente até duas, duas e meia da tarde já estejamos almoçando. Achei inútil esta parada na Vila. Foi politicagem do major João Gomes de Avelar...
- Acho que ele não ficou muito satisfeito com a aceitação de hospedagem na fazenda do Cantagalo por parte do Imperador.

Durante a cerimônia na Câmara de Vereadores a figura do Imperador se destacava. Alto, peito estufado em posição autoritária e com os olhos claros e barba escura cerrada, tinha uma aparência mais velha do que os vinte anos de idade que realmente possuía. À sua volta uma comitiva de 12 pessoas, além da Imperatriz e suas duas damas de companhia. O Imperador tentava disfarçar a impaciência pelas saudações e elogios dos súditos de Paraíba do Sul, Vassouras e Pati do Alferes que foram convidados para a solenidade. O discurso do major Avelar, Presidente da Câmara, foi o mais longo. Na resposta à saudação, D. Pedro II foi extremamente comedido, em menos de cinco minutos discursou. Sua voz fina e estridente, de certa forma não combinando com seu porte físico, decepcionando quem o assistia pela primeira vez. A postura, entretanto, era de um governante que irradiava autoridade.

Na viagem de Paraíba do Sul até a fazenda Cantagalo, percurso de quase uma légua, a comitiva andou devagar, pois a Imperatriz Tereza Cristina reclamou do trecho da estrada de Petrópolis até Santo Antonio da Encruzilhada, que estava muito esburacada, dando-lhe dores nas costas. Na carruagem imperial, D. Pedro durante todo o trecho segurava um livro nas mãos. Às vezes tirava os olhos da leitura e acompanhava o perfil das montanhas e o Rio Paraíba à sua direita, que por causa do tempo seco estava com as águas prateadas, como de figuras européias onde a paisagem refletia. Se a visita imperial estivesse sendo realizada no tempo das águas, quando tinha o rio tinha a cor de barro, o contraste de estar num país tropical, mas com cerimonial europeu, ficaria mais evidente.

Ao se aproximar da casa, cuja pintura branca destacava-se contra o verde escuro da mata fechada da margem direita do rio, o Imperador bateu levemente com os dedos, avisando que o cocheiro parasse. Admirou a propriedade e deteve-se especialmente sobre os dois pilares de granito na entrada do terreno onde a casa estava edificada, em forma de obelisco. Seu ajudante de ordem logo esporeou o animal na direção da carruagem e recebeu a ordem do Imperador:
- Quando o relógio marcar dezesseis horas, aproveite a luz do sol e providencie uma fotografia desta residência. Pode usar o equipamento que eu trouxe.
- Sim, majestade.
- Evite que apareçam pessoas na varanda, quero a fotografia apenas da residência, um belo exemplo da opulência do café!

Quarenta e cinco minutos depois do encerramento dos discursos na Câmara de Vereadores a comitiva já estava alojada nos 16 quartos da casa, da ala leste, que eram mais frescos, pois não recebiam o sol da tarde. Os proprietários ficavam com os quartos da ala oeste, geralmente mais quente ao anoitecer. Após os cumprimentos formais, a Imperatriz pediu um prazo de meia hora para descansar nas acomodações especialmente preparadas, acompanhada do Imperador. Os demais membros da comitiva dirigiram-se para a grande varanda frontal revestida de ladrilhos de mármore preto e branco, onde uma mesa de quitutes e bebidas diversas os esperava. Aproveitando uma folga, dona Mariana aproximou-se do marido, pedindo sua atenção para uma conversa segredada:
- Houve um acidente com a escrava Camila, hoje pela manhã.
- Como? O que aconteceu?
- Teve um tombo feio. Está deitada junto ao quarto de Claudina. Estamos com medo que venha perder a criança...
- Não pode... Deve estar ainda de oito meses.
- Ninguém sabe...
- Já chamaram alguma parteira?
- Não chamamos ninguém ainda, ela está perdendo um pouco de sangue.
- A bolsa rompeu?
- Não. Mas a criança pula muito na barriga, dá para sentir.
- Mande chamar dona Sebastiana, lá na Colônia. É uma boa parteira e sabe o que fazer. Não podemos perder esta criança...
- Por que não? Vai ser mais um escravo da fazenda...
- Onde está sua caridade, mulher! Ou melhor, pense em termos financeiros. Hoje uma boa peça está por mais de um conto de réis.
Dona Claudina afastou-se para atender as ordens do marido. Chegou depois junto da filha e segredou:
- Nunca vi seu pai tão interessado na saúde de um escravo que ainda nem nasceu!
- Deixe disso mãe! Só porque não sabemos quem é o pai da criança. Não fique dando ouvido a mexericos das escravas velhas.

Após o lauto almoço, que se estendeu até às quatro horas da tarde, o Imperador ficou na varanda cercado de autoridades convidadas, enquanto a Imperatriz recolheu-se, pois sentira a viagem e reclamava do calor que fazia. Todos ficaram em silêncio em volta do Imperador, até que o major engenheiro Júlio Koeller, tomou a palavra:
- Como vossa majestade testemunhou, o traçado da Estrada Real, ou Caminho Novo, passando por Cebolas é muito acidentado. Existe a possibilidade de outra rota, mas implica em muito corte em rocha, na serra do Taquaril.
- Vossa Majestade pode perceber que, com a produção de café aumentando a cada dia, o governo deve dar prioridade aos investimentos em estradas – afirmou com suavidade o coronel Hilário.
- Felizmente, Imperador, a nova tarifa Alves Branco está reforçando os cofres púbicos – emendou o filho do major Antonio Barroso.

O Imperador ouvia em silêncio e comentou:
- Temos muitas prioridades... Algumas, realmente só dependem de investimentos públicos. Para as estradas, que são complemento das fazendas, os investimentos poderão ser feito por particulares. Temos projetos de ferrovias concedidos...
- Mas quando teremos finalmente os trens? Desde 1835 temos a concessão dada ao médico Thomas Crochrane pelo Regente Feijó. É uma ferrovia importante, que vai ligar a Corte às Províncias de Minas Gerais e São Paulo... – afirmou novamente o jovem Antonio Barroso, que parecia satisfeito em demonstrar seus conhecimentos de economia para a comitiva imperial.
- Esta concessão foi mais um erro de Feijó – vaticinou o coronel Hilário, aproveitando a oportunidade de criticar um membro do Partido Liberal – O inglês não tem recursos...
- Por que foi dada, então? – perguntou o major Carvalhinho, já sabendo a resposta.
- Provavelmente por causa de compromissos com o Almirante Crochrane, seu pai – comentou Hilário.
- Vossa Alteza sabia que este inglês montou um circo de cavalinhos? Passou por aqui, na Vila de Paraíba do Sul, antes de seguir para a Vila de Vassouras. Ergueu a lona no terreno do lado da igreja matriz e fez as apresentações com os cavalinhos, atraindo gente de todo o tipo e no final falou sobre as vantagens de comprarem as ações da sua companhia para o povo.
- Alguém comprou? – perguntou um ajudante de ordem do Imperador.
- Não, ninguém comprou. Onde já se viu, usar circo para oferecer papéis. Será que na Inglaterra é assim?

Todos sorriram. Apenas o Imperador manteve a seriedade, parecendo estar com o pensamento distante daquela conversa fútil.

Repentinamente, um choro forte de criança recém-nascida, pareceu despertar o Imperador e surpreendeu a todos. O som vinha da ala oeste da casa. Camila deu a luz, concluiu o major Antonio Barroso.

A Imperatriz Tereza Cristina, que estava descansando acordou sobressaltada. Havia deixado em Petrópolis, aos cuidados de suas amas de leite, seu filho de apenas três meses, o príncipe Dom Afonso, que nascera em 23 de fevereiro daquele ano de 1845. Reagindo como qualquer mãe, deixou de lado o protocolo manifestou vontade de conhecer a criança recém-nascida.

- Mas é filho de uma escrava, alteza.
- Escrava? Aqui na mansão?
- É da mucama da filha do fazendeiro – sussurrou uma de suas damas de companhia.
- Quero ver assim mesmo – decidiu a Imperatriz.

As senhoras rodearam a criança que tentava sorver o leite ainda inexistente de Camila. A Imperatriz aproximou-se e perguntou:
- É menina ou varão? - ao invés de "fêmea" ou "macho", tratamento dado aos escravos que nasciam.
- É um menino, alteza – respondeu Mariana Claudina.

A Imperatriz desatou um dos cordões de ouro que usava, onde existia uma pequena medalha e disse:
- É uma imagem de minha terra, a Itália, de minha santa de devoção: Nossa Senhora da Piedade, Pietá. Que ela tenha piedade e zele por essa criança... – disse oferecendo o colar a Camila que estava pálida e com os olhos lacrimejantes.

Todos os presentes abaixaram as cabeças, fazendo uma reverência. Camila, atordoada pela perda de sangue, aconchegava a criança nos braços, rezando em silêncio, pedindo que Deus lhe desse, naquele momento, apenas o leite necessário para amamentar seu filho. O filho do pai desconhecido por todos – menos por ela.

No dia seguinte, os membros da comitiva despertaram, como de costume neste tipo de jornada, às três horas da manhã. Partiram enfrentando o nevoeiro que nas manhãs de maio, nascia do rio devido ao choque térmico entre a temperatura do ar e da água fria e, condensando-se em gotículas minúsculas se esparramava pelas margens, deixando tudo envolto em um manto branco. O Caminho Novo estava sinalizada, com moirões e pedras, caiados de branco.

Antes de cruzarem a ponte de Madureira, em Monte Serrat, que separa as Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sob a proteção do grande maciço de granito de 450 metros de altura, quase em prumo, D. Pedro II deu ordem para que sua carruagem parasse. Olhou atentamente em volta e mandou chamar o coronel Hilário, que acompanhava a comitiva e ficara mais perto da carruagem real quando o Caminho Novo estava cortando suas terras. O Imperador desceu do veículo, Hilário colocou-se ao seu lado pronto para responder qualquer pergunta.

- Foi esta ponte que os mineiros do partido liberal atearam fogo em 42?
- Sim majestade. Ela era coberta. Na reforma o Major Koeller suprimiu o telhado. Os pilares eram de blocos de granito, foram bem construídos e nada sofreram, mas todo o madeiramento foi perdido.

No meio da ponte, autoridades da Província de Minas, inclusive o coronel José Inácio, proprietário da fazenda São Mateus, onde D.Pedro II ficaria hospedado aguardavam a comitiva. D. Pedro II fez questão de descer de sua carruagem e atravessou a ponte a pé até ao centro. Cumprimentou a todos e despediu-se dos anfitriões da Província do Rio de Janeiro, que não seguiriam para Minas Gerais.

À frente da comitiva mineira estava o alemão Henrique Halfeld, já conhecido do Imperador, pois recebera elogios de Caxias por sua participação ao lado do império na Revolta Liberal de 1842. Halfeld, desde 1836 havia sido nomeado engenheiro da Província de Minas Gerais e designado para construir a Estrada do Paraibuna, ligando Vila Rica (capital da província) até a ponte que acabavam de atravessar. Alto, com farto bigode um tanto grisalho aos 48 anos, apresentou ao imperador um jovem atarracado engenheiro de barbas cerradas, de 24 anos, que mais tarde se tornaria um grande amigo: Mariano Procópio Ferreira Lage, recém-chegado da Europa com idéias desenvolvimentistas.

Koeller cumprimentou efusivamente Mariano, também seu conhecido. A estes quatro personagens estaria interligada a história da chegada do grupo de colonos alemães para povoar a cidade de Petrópolis, por sugestão de Paulo Barbosa da Silva, o Mordomo Imperial, já que neste mesmo ano, em janeiro, tinha sido iniciada, sob a direção de Koeller, as obras de construção do palácio de verão do imperador.

Logo que cruza a ponte sobre o Rio Paraibuna, o Caminho Novo passa em frente às edificações do Registro, onde existe um hotel, estrebarias e armazéns, dando conforto aos viajantes, enquanto se examina a documentação de liberação de passagem de uma província para outra. Da ponte até ao povoado de Simão Pereira, olhando à esquerda permite-se uma grande visão lateral do maciço de Paraibuna. A Imperatriz, que acompanhou todo o trajeto sem maiores comentários, pois o marido parecia mais concentrado na leitura que trazia desde Petrópolis do que na paisagem, não conseguiu conter a admiração e comentou:
- Eu já tinha visto desenhos e até fotografias desta pedra, mas ao vivo é muito mais imponente. Parece uma pirâmide do Egito!
- É mais uma esfinge, dona Teresa, indagando aos viajantes: “decifra-me ou te devoro”.

A Imperatriz sorriu, concluindo que o livro em francês que o marido tinha nas mãos provavelmente falava das manobras de Napoleão Bonaparte no Egito, pesquisas sobre interpretação de hieróglifos ou mesmo as últimas novidades sobre os mistérios do embalsamamento de múmias. Percebeu que o marido estava bem humorado e comentou:
- Ontem nasceu um verdadeiro brasileirinho.
- Ouvi o choro. Era mesmo filho de escrava?
- Sim.
- Ali, bem na casa grande, num dia de visita como a nossa?
- Foi um parto prematuro, disseram. A mulher é ama da filha do major Barroso, nosso anfitrião e se acidentou antes da nossa chegada. Uma mulata muito bonita que gerou uma criança mais clara ainda.
- O Brasil vai ser o país da miscigenação, mistura de raças...
- Falam que só de gente vira-latas, como os cachorros...
- A Imperatriz tem ouvido opinião de radicais, provavelmente os que defendem o casamento entre primos...
- Nós somos primos, D. Pedro!
- É verdade – sorriu o imperador, segurando a mão da mulher, uma intimidade raramente vista, principalmente durante suas viagens, quando o povo procurava o tempo todo enxergar através das cortinas, quem estava no interior das carruagens fortemente protegida.

A MULA DO OURO - Capitulo 7

Capítulo 7
Petrópolis



Enquanto a comitiva imperial subia, seguindo a estrada reformada, mas simplesmente carroçável e cheia de solavancos, que acompanhava a o Rio Paraibuna pela margem esquerda, os cavalheiros que os acompanharam no lado fluminense, desciam a estrada que seguia o rio pela margem direita.

Major Barroso vinha à frente, ladeado pelo coronel Hilário, o filho e o genro formavam uma parelha e o mestre Pietro estava ladeado pelo engenheiro alemão Júlio Koeller. Viajavam em trote ligeiro, esporeando seu animais como se cada um quisesse logo retomar à rotina quebrada pela visita do monarca e os últimos acontecimentos inesperados. Se fosse possível adivinhar o pensamento de alguns deles só havia uma imagem: o menino recém nascido, filho de Camila e de um pai que cada um supunha conhecer, sem ousar dizer o nome.

O major Koeller, quando Emilio passou em frente à sua casa e retirou o chapéu para despedir-se de todos, também parou e avisou que desejava ter uma conversa em particular com o mestre canteiro e mais tarde seguiria para a fazenda do Cantagalo. Emilio o convidou a entrar em sua casinha simples e começou a preparar um café.

- Recebi, ontem, uma ordem do mordomo Imperial que não tenho como recusar. Envolve você, mestre Emilio. Sei que gostas da região, está entre amigos mas...
- Estou às suas ordens, major.
- Estamos precisando de canteiros nas obras do palácio em Petrópolis. Seu trabalho no solar do major Antonio Barroso não passou despercebido, creio que nem mesmo ao Imperador, que sabe valorizar a qualidade.
- Eu gostaria mesmo de me afastar daqui. Creio que minha missão está terminada.
- Verdade? Pensei que você fosse se radicar aqui, na fazenda do Cantagalo ou da Boa União. Não sabe como fico contente com esta decisão!

Aproveitando a primavera no Mar do Norte, cruzou o Oceano Atlântico a bordo do Virginie, procedente de Dunquerque, a primeira leva de 161 colonos para Petrópolis. Chegaram no dia 13 de junho de 1845, ficando acomodados em Niterói, debaixo de uma cobertura próxima às obras de uma igreja. Dias depois foram levados para o Arsenal de Guerra da Corte. O que era uma solução transformou-se num problema logo relatado por Paulo Barbosa ao Imperador no despacho diário:
- Aportou hoje, majestade, os trabalhadores alemães que o senhor Aureliano de Sousa e Oliveira Coutinho, presidente da Província do Rio de Janeiro contratou com a firma Charles Delrue & Cia.
- Sei, sei... Os 200 casais.
- Deveriam ser casais sim, majestade. Mas vieram 161 pessoas de 12 ou 14 famílias: pais, avós, cunhados, tios e primos.
- São os lavradores para a Colônia Agrícola de Petrópolis?
- Não especificamente, majestade, as profissões que consta da relação – afirmou consultando uma lista – diz o seguinte: carvoeiros, sapateiros, pasteleiros, músicos, dançarinos de corda-bamba...
- Como pode isto acontecer? Não deveriam ser agricultores experientes?
- Apurei majestade, que a firma Delrue, encarregada de traduzir para o alemão a carta dirigida pelo Presidente da Província ao governante daquele país, na qual figuravam as condições de emigração, confundiu tudo. Acredito que, por desconhecer o idioma, Aureliano Coutinho tenha assinado em alemão na base da confiança. A frase que pedia originalmente 200 casais foi substituída, intencionalmente ou não, por 200 famílias.
- Vamos ver essa gente. Onde estão?
- Aqui próximo do Paço, no Arsenal de Guerra, na Ilha das Cobras.

Dom Pedro II chegou ao local acompanhado por uma comitiva a qual logo se juntou oficiais em garbosos uniformes. Reuniu o grupo e em bom alemão lhes deu as boas vindas. Paulo Barbosa sentiu-se aliviado, pois nunca sabia exatamente qual seria a reação do imperador diante do inesperado. Geralmente era prudente e reflexivo, outras vezes, como se o sangue impetuoso de seu pai, Pedro I, fizesse valer, revelava-se destemido.

Prometeu donativo do próprio bolso e disse que partiriam logo, com apoio da Casa Imperial, para a missão de povoar a nova cidade que estava sendo construída no alto da serra Estrela, em Petrópolis. Deu ordem para que cada casal recebesse, além da soma em dinheiro para o início da lavoura, 5.000 braças quadradas (cada braça mede 2,20 m) de terra, aforadas com prazo de cinco anos.

- Unser Kaiser (nosso imperador) – ouviu-se em uníssono de todos os colonos, o que arrancou um sorriso do Imperador.

Do Arsenal de Guerra os colonos partiram em pequenas barcas chatas, atravessando a baía da Guanabara durante uma hora por causa do vento favorável de popa que soprava do mar, até o Porto da Estrela. Desembarcaram seus pertencentes de mão, deixando que os volumes maiores fossem transportados até grandes carros rústicos, de madeira grossa, tracionados por parelhas de bois fortes para vencer a serra. Seguiram todos a pé, fazendo escala na Fábrica de Pólvora, no meio do caminho.

Do porto até a fazenda do Córrego Seco, destino final, aonde o grupo chegou no dia 29 de junho, ao longo de toda a serra, a vegetação da mata atlântica estava luxuriante. Todos ficavam admirados com a mata fechada, com dezenas de espécies vegetais convivendo em harmonia, disputando os raios de sol. Paisagem muito diferente das florestas coníferas do clima frio de onde vieram, onde poucas espécies convivem em simbiose. Nos países tropicais, com calor e chuva abundante, a diversidade animal e vegetal deslumbra até os mais experientes naturalistas, que sempre têm a chance de descobrir novidades, a principal razão pela qual a natureza dos trópicos atraía os cientistas da chamada História Natural.

Koeller, que havia feito o plano urbanístico do centro de Petrópolis, aguardava a chegada do grupo com ansiedade. Havia organizado os bairros, onde as glebas seriam distribuídas aos colonos, organizados em grupos, de acordo com sua região de origem. Sobre uma planta da Alemanha, tomando o córrego que corta o centro de Petrópolis, como o Rio Reno e o córrego que vem do alto da serra como o Rio Mosel, distribuiu os lotes de acordo com o posicionamento original de cada família. Os bairros assim formados teriam o nome de cada região. Manteve um costume europeu de posicionar a fachada dos lotes para os rios, em cujas margens implantou estradas, completamente diferente dos costumes locais, onde os fundos das casas, os currais e chiqueiros ficavam próximos do rio.

Não houve discussão por melhores terras – já que para eles tudo era desconhecido. Sorridentes partiram cada família para seu próprio lote, conservando quando possível seus vizinhos originais, como na Alemanha. Os Burger, os Kling e os Weitzel três famílias vizinhas na Alemanha, que viajaram sempre juntas no navio, iriam morar também próximas uma das outras na nova terra no Brasil. Major Koeller conversava com naturalidade com seus patrícios e nenhum som em português se ouvia naquelas conversas animadas, cheias de otimismo.

Enquanto as terras estavam sendo distribuídas serra acima, como se dizia, D. Pedro II dava andamento aos os preparativos para a viagem que faria às províncias do Sul. Pela boa repercussão da viagem a Minas e a confusão com o contrato de Delrue, queria conhecer melhor a experiência promovida por sua mãe, a Imperatriz Leopoldina, quando atribuiu ao Major Johann Von Schaeffer, a difícil missão de angariar colonos e contratar soldados alemães para os Batalhões de Estrangeiros do Brasil. Pediu um relatório detalhado ao mordomo Paulo Barbosa sobre como andava a situação no Sul.

- Pelo que apurei, majestade, o Império do Brasil concedeu ao Major Schaeffer, uma procuração que o nomeava "Agente de Afazeres Políticos do Brasil". Mesmo assim ele encontrou dificuldade em contratar soldados na Alemanha. A exportação de soldados era proibida, desde o Congresso de Viena em 1815. As grandes potências européias vencedoras da guerra contra Napoleão (Prússia, Inglaterra, Áustria e Rússia) não permitiriam o surgimento de um outro "Napoleão" em qualquer parte do mundo.
- Um Napoleão no Brasil?
- Talvez achasse que seu Augusto pai fosse um candidato a Napoleão. Afinal de contas expulsou os portugueses... – disse sorridente.
- Continue o relatório...
- Enquanto que em algumas regiões alemãs havia a proibição, em outros existia o direito dos cidadãos à emigração, principalmente na Renânia. Ali, pela proximidade com a França, a destruição provocada pela guerra havia sido maior. Com a oferta pelo Governo brasileiro de terras, ferramentas, gado, sementes, auxílio financeiro nos dois primeiros anos e isenção de impostos nos primeiros dez anos, a missão de Schaeffer teve sucesso.
- Quantos vieram?
- Nos 27 embarques organizados por Schaeffer no período de 1824 a 1829, chegaram ao Rio de Janeiro cerca de 5.000 colonos e outros tantos soldados – respondeu Paulo Barbosa consultando o final do texto.
- Prossiga...
- Da Renânia até Hamburgo a viagem era feita em diligências que demorava cerca de quatro semanas. Em Hamburgo eram os emigrantes submetidos a uma quarentena e ao exame da documentação, entre eles o "Certificado de Cidadania Brasileira", com renúncia expressa da cidadania alemã, fornecido por Schaeffer.
- Já vinham nacionalizados?
- Sim, as autoridades alemãs não queriam que emigrantes arrependidos voltassem para sua terra natal.
- Era uma ida sem volta?
- Sim. O embarque se dava quando o navio estava pronto, ou seja, devidamente adequado para o transporte de pessoas.
- Como assim?
- Os veleiros utilizados, majestade, foram construídos originalmente para o transporte de mercadorias. Na reforma recebiam beliches instalados na coberta da embarcação para acomodar os passageiros. O primeiro veleiro, o Argus saiu de Hamburgo, deixe-me ver a transcrição do Diário de Bordo... em 27 de julho de 1823. Foi assolado por fortes tempestades que sopravam para o Oeste. Depois de perder o mastro central atracou no porto holandês de Texel. Durante as reformas, 26 passageiros abandonaram a embarcação, fugiram com medo de prosseguir a viagem. No dia 10 de setembro reiniciou-se a viagem, que não foi mais feliz que a primeira. Nova tempestade os obrigou a arribar na Ilha de Wight, ainda na Holanda.
- Desistiram mais alguns?
- Não, nada consta. Se já não fossem cidadãos brasileiros provavelmente teriam todos desistidos – afirmou sorrindo o mordomo.
- Prossiga...
- Depois de 15 dias, inicia-se a terceira partida, mas um forte furacão obriga a embarcação a atracar no Porto de Biscaia, na Espanha e mais tarde nas costas da África, onde após muitas delongas conseguiram fazer uma ancoragem segura na Ilha de Tenerife. Partiram então para cruzar de vez o Oceano Atlântico no dia 8 de novembro para chegar no dia 7 de Janeiro de 1824 ao Rio de Janeiro. No total o Argus trouxe, 284 pessoas, sendo 134 colonos e 150 soldados. Depois seguiram para o Sul, porto final que Vossa Alteza irá visitar.
- Tudo indica que se adaptaram ao Brasil?
- Sem dúvida, majestade.
- Todos são da mesma região.
- Sim, pois 50% dos imigrantes são provenientes da Renânia, mas precisamente do Hunsrück, quadrilátero compreendido entre os Rios Reno, Mosel, Nahe e Saar.
- A vida melhorou para eles?
- Sim, os camponeses que tiveram de abandonar o campo para combater na guerra napoleônica, depois que esta terminou, não encontravam trabalho nas suas aldeias de origem, já repletas de artesãos desempregados. Na Europa as indústrias estavam num processo acelerado de substituição da mão-de-obra humana pelas máquinas a vapor, que produziam mais e melhor, como a Inglaterra bem demonstrou e serviu de exemplo para todos os outros países da Europa. Então, por não encontrarem ocupação nas cidades, a emigração era a única saída para dias melhores.
- Obrigado, Paulo. Bom relatório, detalhado e preciso – afirmou o jovem Imperador, dispensando seu mordomo de confiança para retomar a leitura do livro sobre egiptologia que tinha sobre a escrivaninha.

Bem afastado dali, um homem triste observava na correnteza cristalina do Córrego do Puris pequenos peixes multicoloridos, os barrigudinhos que sempre indicam água pura. Relembrava os rios gelados e cristalinos da Galícia. Sentiu um aroma familiar e quando olhou para o lado percebeu Donana ao seu lado.

- Que susto Donana!
- Está triste o meu branco?
- Sim, de certa forma. Mais uma vez o que eu achava que iria acontecer mudou de repente.
- Não é a primeira vez?
- Não. A situação se repete. Vem uma grande tempestade, a natureza volta ao normal, mas meu coração fica despedaçado. Vou partir para outra região deixando uma frustração amorosa...

Donana caminhou até a margem do córrego, abaixou-se e pegou uma bola de esterco de gado seca e atirou-a na corredeira. A massa leve batia nas pedras, oscilava, às vezes ficava girando em círculos em algum redemoinho, mas muito leve, seguia em frente, descendo o córrego. Em silêncio Emilio acompanhou o esterco até ele sumir numa curva. Quando se virou para encontrar a mulher ela tinha desaparecido, como um fantasma.

Agosto, mês do desgosto, mês de ventania, de chuva de granizo, de cachorro doido. Em oito de agosto de 1845, cerca de um ano depois da aprovação da Tarifa Alves Branco, em Londres o parlamento britânico aprovava a chamada Bill Aberdeen. Esta medida unilateral, proposta por George Hamilton-Gordon, lorde Aberdeen, dava direito à Marinha Inglesa de aprisionar qualquer navio negreiro suspeito de fazer tráfico de escravos para o Brasil especificamente e fazer seus tripulantes a responderem por crime de pirataria diante do almirantado ou qualquer tribunal do vice-almirantado dos domínios britânicos em todo mundo.

Quando os vigias dos navios negreiros brasileiros no alto do oscilante mastro central avistavam algum navio inglês o comandante tinha duas alternativas: trocar suas bandeiras e tentar convencer os oficiais ingleses de que a carga era para outro país, Sul dos Estados Unidos ou Cuba, por exemplo, ou adotar uma medida drástica: jogar ao mar todos os escravos, independente do sexo e idade, ainda acorrentados para afundarem mais rápido e começar a limpar os porões. Nem sempre esta tentativa de enganar os oficiais ingleses dava resultado, pois qualquer prova material de que a embarcação estava transportando cativos para o Brasil era suficiente para apreensão da embarcação e abertura do processo. Não havia como desafiar a mais poderosa potência marinha do mundo no século XIX.

O Imperador Pedro II soube da medida quando estava no Sul, mas não lhe deu muita importância, já que tinha outra estratégia. Segurando uma pequena rocha de carvão mineral, procedente da região onde se localizava a Vila de Criciúma, o Imperador ouvia atentamente as descrições sobre o projeto de aproveitamento da força do vapor no Brasil.

- A concessão de onde este carvão de pedra foi retirado, alteza, solicitada pelo Senador do Império e Felisberto Caldeira Brandt Pontes, o marques de Barbacena.
- Ele sempre defendeu o uso da força do vapor, não é?
- Sim. Em 1810 chegou a adquirir na Inglaterra uma bomba a vapor, mas o fabricante Walsh & Bolson recusou-se a enviar técnicos para fazer a instalação e treinar pessoal no Brasil. Porém, dois anos mais tarde seu cunhado, Pedro Antonio Cardoso, conseguiu importar um motor a vapor para o engenho Boa Vista, em Itaparica, na Bahia.

O Imperador nada comentou e continuou a rolar a pedra nas mãos ouvindo:
- Mesmo sem apoio oficial o marques de Barbacena nunca perdeu o entusiasmo na força do vapor, mesmo lutando durante 30 anos sem sucesso. Até morrer, em 1842 aos 70 anos, continuou defendendo a idéia de que o Brasil poderia repetir a Revolução Industrial que, nascida na Inglaterra, espalhou-se por toda Europa e chegou aos Estados Unidos. Onde, devido às grandes jazidas de carvão de pedra dos Montes Apalanches, transformou-se de uma simples e dispersa povoação inglesa, vários estados independentes, em uma união, de estados, uma potência econômica e industrial emergente, chamada Estados Unidos da América.
- Não consigo compreender por que estas jazidas de carvão mineral de Santa Catarina ainda não foram exploradas? – perguntou o Imperador.
- Possivelmente o movimento farroupilha atrapalhou. Vamos recordar que a Vila de Laguna esteve nas mãos de revolucionários. O italiano Garibaldi teve a audácia de proclamar a criação de uma República Juliana. Quem teria coragem de investir num clima de guerra desses?
- Realmente... – concordou o Imperador.
- Além disso, alteza temos a corrente de políticos conservadores que insistem ser a vocação brasileira a lavoura, vendo o Brasil como um celeiro do mundo. Mas, graças ao nosso Marechal Conde de Caxias, que conseguiu pacificar a Província do Rio Grande do Sul, hoje podemos todos nós, alteza, respirar aliviados e esperar por dias melhores. A maior prova é sua presença aqui em Nossa Senhora do Desterro, que pode ser considerada um símbolo de uma nova era de progresso para...
- Sem discursos, sem discursos – cortou o Imperador em tom de brincadeira.
- Permita-me, alteza, apenas mais um adendo. Agora para elogiar a estratégia de nosso Pacificador. Foi brilhante ao evidenciar que o inimigo do Império não eram os brasileiros que combatiam entre si, mas sim os soldados do Presidente Manuel Oribe do Uruguai e Juan Manuel Rosas da Argentina, com a idéia de unificar seus países e depois anexar a Província do Rio Grande do Sul, criando a grande nação do Rio da Prata. Posso ler a declaração do Marechal para o senhor? – perguntou o conselheiro retirando do bolso da casaca um pedaço de papel. O Imperador assentiu com a cabeça, embora já conhecesse o texto.
- Diz assim o Manifesto Cívico: Lembrai-vos que a poucos passos de vós está o inimigo de todos nós, o inimigo de nossa raça e de tradição. Não pode tardar que nos meçamos com os soldados de Oribe e Rosas; guardemos para então as nossas espadas e o nosso sangue. Abracemo-nos para marcharmos, não peito a peito, mas ombro a ombro, em defesa da Pátria, que é a nossa mãe comum. Lindo!
- Sim. Mas nos custou caro...
- Ora, Majestade, com os cofres do Império cheios pelas exportações crescentes do café, que não cai de preço, e dos efeitos das novas taxas de importação, o que custa pagar mais caro pelo charque gaúcho?
- Bem, chega de revoluções. O que sabem sobre a colonização alemã e italiana na região?
- Bem Imperador, a primeira colônia européia na Província de Santa Catarina, em São Pedro de Alcântara, foi em 1829. De Bremem, na Alemanha, vieram 523 colonos católicos. Depois, no mesmo ano, a Sociedade Colonizadora de Hamburgo, ocupou parte da área relativa ao dote da princesa Francisca Carolina Joana de Bragança...
- Mana Chica... – interrompeu o Imperador
- Pois é, Alteza. Ao casar-se em 1º. de maio de 1843 com o Príncipe de Joinville François d’Órleans e seguirem para Europa deixaram o grande patrimônio recebido como dote de casamento para a expansão colonial na região sul...
- Preparastes bem a lição, conselheiro... – interrompeu mais uma vez o Imperador que estava de bom humor.
- Teve ainda a colônia Nova Itália, de 1836, no vale do rio Tijucas, com imigrantes provenientes da Ilha da Sardenha...
O Imperador fez um sinal que estava enfadado encerrando a reunião. Os conselheiros então o deixaram às sós, com seus livros.
Quando voltou à Corte em 26 de abril de 1846 após a longa viagem às Províncias do Sul, a Imperatriz estava grávida de seu segundo filho. Sempre atualizado com as novidades políticas, o major Carvalhinho logo comunicou ao seu cunhado:
- O jovem Imperador não perde tempo, vamos ter outro príncipe para fazer companhia do dom Afonso...
- Ele deveria estar preocupado era com o tráfico de escravos depois da Bill Aberdeen. Vamos ter problemas – cortou Antonio Barroso, o filho do major.
- Ora, por quê?
- Vejam estes números oficiais: 1842 o Império importou 17.435 escravos; 1843 foram 19.095; 1844 totalizaram 22.849; no ano passado 19.453; pois neste ano, pelas minhas projeções, chegaremos a mais de 50 mil. Você acha que os ingleses não irão reagir? Proíbem e nós aumentamos o tráfico!

Bem instalado em Petrópolis, onde o clima era semelhante ao de sua aldeia na Galícia, devido à altitude de quase mil metros acima do nível do mar, Emilio gozava de prestígio junto ao engenheiro Júlio Koeller. Este havia sido nomeado em janeiro Diretor da Colônia e corriam os papéis para ser nomeado Superintendente da Imperial Fazenda de Petrópolis. Por sua vez, Koeller faria a doação da sua fazenda de Quitandinha a D. Pedro II, que possuía uma acomodação simples, mas que lhe permitia acompanhar o andamento das obras de construção do Palácio de Verão.

Em julho, após um período de longa negociação para não conflitar com a Igreja Católica, mas expressamente autorizado pelo Imperador, foi realizada em Petrópolis, na chamada Praça da Confluência, a primeira cerimônia protestante dos colonos alemães, um culto dirigido pelo pastor Lallemant. Esta liberdade de credo religioso seria um símbolo importante, indicando que não se daria mais preferência a colonos católicos que quisessem imigrar para o Brasil. E o Imperador tinha autoridade para isso, pois sendo a religião católica apostólica romana oficial, competia-lhe nomear os bispos e autorizar a contração de padres que recebiam salário dos cofres públicos.

O idioma alemão foi uma grande barreira inicial para Emilio, já que os colonos tinham grande dificuldade com o português. Porém, como teve de contratar e treinar novos oficiais pedreiros para atender o cronograma fixado pelo engenheiro Koeller, em seis meses já conseguia entabular conversações simples.

De acordo com o plano de Koeller, cada família de colono recebia uma gleba para desmatar e começar a plantar. No início as árvores frondosas assustavam os alemães que passaram a trabalhar em equipe, fazendo derrubadas e erguendo casas, com as próprias mãos, sem ajuda do braço escravo. Não havia uma preocupação efetiva com a produção destinada à comercialização, sendo priorizada à de consumo próprio e a edificação de casas e instalações, preferencialmente com a própria madeira retirada do local. A cidade era um grande canteiro de obras devido à urbanização apressada.

Na planta da cidade foram marcadas as ruas, praças, lotes a serem distribuídos aos colonos, edifícios públicos e religiosos. Previa-se a canalização dos rios e uma reserva no alto das montanhas e colinas, tendo em vista a grande precipitação atmosférica no verão. Emilio, além das funções de cantaria nas obras do Palácio de Verão, a pedido de Koeller supervisionava também a construção de canaletas e bueiros que faziam parte do sistema de drenagem da Estrada da Estrela, fundamental para impedir que a erosão provocada pela água descendo pelas íngremes encostas não destruíssem a estrada. A vegetação natural da Mata Atlântica, com várias espécies vegetais diferentes vivendo em simbiose criava uma proteção natural que foi capaz de preservar as serras durantes milhões de anos, mas uma simples abertura de estrada a destruía, criando um ponto frágil.

Aos domingos, os operários alemães concentravam-se em mutirões para cuidar dos serviços de suas respectivas propriedades. Enquanto os homens trabalhavam as mulheres preparavam um grande almoço coletivo, com comidas típicas alemãs, baseada em carne de porco, repolho e vinho – tornando-se além de uma jornada dura de trabalho uma reunião festiva. Emilio foi convidado para participar de uma delas, nas encostas da nascente do Rio Piabanha, local portando denominado Mosela. Percebia em todos eles um forte sentimento de fraternidade; todos pobres e individualmente fracos, mas enfrentando juntos uma natureza adversa, tornavam-se ricos e fortes.

Emilio teve sua reflexão interrompida por uma mulher chorando e homens correndo. Acompanhando-os foi até a propriedade de um vizinho, o alemão Karl Kling que, havia se acidentado gravemente. Cortava uma grande árvore que seria transformada em tábuas para sua casa e se protegeu do lado oposto ao corte, para onde a árvores cairia. Entretanto, a vegetação luxuriante da Mata Atlântica não he deixou ver que a copa da árvore estava entrelaçada de cipós. Ao cair a árvore foi detida, girou no próprio eixo e caiu exatamente no local que ele considerava seguro. Muito ferido foi conduzido até o centro do povoado em uma carroça, mas não resistiu. Karl Kling, desta forma, poucos meses depois da chegada, foi o primeiro colono a inaugurar o pequeno cemitério, ficando sua sepultura no corredor central logo na entrada. Deixou mulher, duas filhas, um rapazola chamado Magnus.

No dia seguinte Emilio contou ao major Koeller o drama que havia presenciado num domingo que tinha tudo para ser festivo. Foi autorizado por este a contratar o rapaz, a viúva e as filhas como operários dos serviços na estrada, como forma de angariarem uma renda já que a contratação na Alemanha nada previa de indenizações para o caso de acidentes no Novo Mundo.

Mas não foi apenas com os colonos que a implantação da nova povoação na serra gerou vítimas fatais de acidentes fortuitos. A que mais efeito gerou na vida de Emilio aconteceu com o próprio Koeller, também num domingo, em 21 de novembro de 1847. Neste dia ele havia convidado amigos para um almoço em sua chácara. Na confraternização resolveram fazer uma prova de tiro ao alvo, convidando os amigos a participar, inclusive alguns inexperientes. Koeller dispara primeiro e corre para verificar onde a bala atingira o alvo, exatamente no momento em que o amigo inexperiente resolve atirar também. Preocupado em sair da linha de tiro do amigo, Koeller desvia-se para o lado, mas a arma disparada acerta-o sob o braço. Socorrido às pressas, Koeller resiste até as nove horas da noite, quando morre aos 43 anos, vítima de uma hemorragia não contida.

Águas do Mosel petropolitano, ou Rio Piabanha abaixo, a rotina das fazendas de café e o vai e volta das tropas de mulas pelos caminhos esburacados não cessava. Na fazenda Boa União pairava invisível, uma nuvem de mistério. Num domingo, quando os homens depois de grande consumo de aguardente dormiam no calor da tarde, a fazendeira Mariana Claudina e sua mãe, sozinhas na grande varanda da sede da fazenda voltaram a tocar na velha questão. A mãe perguntou:
- Tuca já fez um ano, está até andando. Será que herdou os olhos verdes do pai?
- Se tivesse herdado só do pai, este só poderia ser o espanhol Emilio ou o português Miguel. Mas Tônia confirmou-me várias vezes, que o pai de Camila, um português, tinha também os olhos claros. Herdando Tuca os olhos verdes do avô, o pai poderia ser outro homem, inclusive um dos outros três homens que estavam aqui na fazenda naquela noite de tempestade de granizo que nos prendeu em Petrópolis.
- Quem?
- Ora, mamãe, é duro admitir, mas eles eram: o papai, meu irmão e o meu marido.
- Camila nunca disse nada?
- Nada, é um túmulo. O espanhol talvez seja o grande inocente, já que era quase noivo e não teria razão alguma em assumir a paternidade.
- Comeu a merenda antes do recreio, não é?
- Expressão de baixo nível, mamãe!
- Desculpe filha, mas eu ainda acho que o espanhol não quis assumir.
- Ele estava totalmente concentrado na escultura daqueles dois marcos de pedra, os obeliscos que a senhora tem na entrada da fazenda de Cantagalo, uma sugestão do major Carvalhinho que disse, acertadamente, que iria sensibilizar o Imperador.
- Mas consta que ele foi chamado para vir aqui naquela noite...
- Sim, mas ninguém o viu chegar.
- Se veio, fez a arte dele e voltou no mesmo pé, sem deixar rastro...
- Mas Camila, logo depois rompeu com ele de maneira radical. Sei que sofreu muito com isso, mas pode ter feito por amor, para protegê-lo de uma falsa paternidade.
- Estes sentimentos nobres só acontecem em romance, minha filha.
- Os romances imitam a vida e as vidas imitam os romances, minha mãe.
- Bem, temos então duas alternativas: ao descobrir a gravidez, provavelmente por puro romantismo, desses de literatura, tomou como questão de honra proteger o inocente, o próprio Emilio. Ou então, ao ser vítima de agressão física, de estupro do próprio noivo, passou a odiá-lo. Duas razões para explicar o rompimento com Emílio ou entregar quem foi o autor.
- Ela só pensa agora na proteção do filho, sinal que o pai é poderoso... Mas, deixemos isto de lado, convenhamos, Tuca é uma criança que deu alegria a esta casa sem crianças...
- Pode ser coisa de um adolescente de cabeça oca, como o Miguel, um rapaz que tem fama...
- Sim, mas ele não é cabeça oca não. É muito responsável e sabe muito bem com qual mulher pode se envolver... A senhora deve admitir minha mãe, embora isto possa ser muito duro, que o pai de Tuca pode ser um dos nossos. Não seria a primeira vez. Aliás, se a senhora olhar em volta, para os nossos vizinhos fazendeiros, verá que o casamento é muito mais uma questão de negócio familiar do que de sentimentos...
- Vejo que os romances estão influindo também no seu pensamento.
- É a realidade. Quantas histórias a senhora não tem conhecimento, de escravas de casa, de confiança, que se tornam amante dos seus donos, enquanto a esposa verdadeira finge nada ver? Não preciso citar nomes.
- Mas na nossa família...
- Isto não seria tolerado, é claro, até por questões religiosas. Mas as moças como eu, filhas de ricos fazendeiros, não têm a liberdade de escolher com quem casar, pois antes dos quinze anos já estão comprometidas com um primo.
- É o costume, é a nossa cultura, Mariana.
- Naquela noite, como ficamos sabendo, houve muita bebedeira. A Camila, uma mulher de 26 anos, saudável, excitada pelo noivado poderia despertar um desejo latente de qualquer homem, principalmente quando o excesso de cachaça afoga o juízo.
- Foi um estupro, então?
- Tenho certeza. Foi uma cena violenta, que provavelmente envergonhou o próprio pai, se não Camila teria se tornado amante dele, como é o costume no Vale do Paraíba. E nós, as mulheres da casa, fingiríamos nada saber.
- Legalmente o menino, filho sem pai conhecido de uma escrava, é também um escravo. Um escravo seu.
- Enquanto eu puder não irei tratá-lo como tal, em solidariedade a Camila, uma pessoa de bom coração e dedicada. O menino terá sempre a minha proteção. Mas a senhora tem razão, legalmente é um escravo.
- Não percebi nenhum sentimento de rejeição a ele por parte dos, digamos, suspeitos... Até ao contrário, percebi no dia do acidente, no dia da visita do Imperador, uma grande preocupação do seu pai para com Camila. Depois, um carinho com o menino, que foi batizado de Antônio, que virou Toninho, depois Tuca...
- Ora mamãe, os três se chamam Antônio...
- Você não se interessa em descobrir a verdade?
- Para quê? É um ser humano, uma criança. Quem foi o pai é que deveria se apresentar. Se não o faz é porque não tem coragem. Camila, por proteção ao filho, nada diz. Ele, então, o Tuca, é único inocente nesta história toda.
- Pois eu, Mariana, não sossegarei enquanto não descobrir a identidade do verdadeiro pai desta criança inocente!

A MULA DO OURO - Capitulo 8

Capítulo 8
Grandes Empreendimentos


Na família Imperial o ano de 1847 foi também de tragédias. O filho primogênito Afonso Pedro de Alcântara, o príncipe herdeiro da coroa, foi encontrado morto em seu berço no dia 11 de junho, um mês frio, quando a Febre Amarela que todo verão assustava o Rio de Janeiro está contida. Outra frustração se seguiu quando, no mês seguinte, a 13 de julho, nasce uma outra menina Leopoldina, para fazer companhia à irmã Isabel, de quase um ano de idade, pois nascera a 29 de julho do ano anterior.

No início de 1848 o Imperador, sem a companhia da mulher, resolve fazer outra viagem pelas fazendas da Província do Rio de Janeiro, de onde vinha 2/3 de todo o café produzido pelo Brasil e era o sustentáculo político e financeiro de seu governo. A viagem começou em fevereiro, mês de calor e de chuvas. Nesta viagem D. Pedro II não se hospedaria na fazenda do major Antonio Barroso, optando pelo rival político deste, o major João Gomes Ribeiro de Avelar. O roteiro previa saída de Petrópolis às três horas da manhã, passagem por Sumidoro e pernoite na fazenda do major Avelar, Presidente da Câmara de Vereadores da Vila de Paraíba do Sul. Era uma atitude bem típica de D. Pedro II, “uma batida no cravo outra na ferradura” – no dito do Vale do Paraíba. Dali seguiria em direção à Vila de Vassouras, hospedando-se na fazenda de Francisco José Teixeira Leite, descendo depois pelo Caminho Novo original até as margens do rio Iguaçu, seguindo por estrada até o Palácio de São Cristóvão.

Convidados para estar presente no beija-mão que aconteceria na mansão do Avelar na Vila de Paraíba, com presença obrigatória de todos os políticos locais, o major Carvalhinho recebeu seu cunhado na fazenda da Boa União para uma conversa solicitada por ele. Este chegou trazendo alguns livros de anotações, o que levou o major de antemão concluir que falariam de números.

- Mas quais as conclusões que você chegou depois de tanto estudo e conversa na Corte que pode nos interessar ou que é bom sabermos para enriquecer a visita do Imperador na região?
- Vamos lá. Na atividade comercial, primo, quando a oferta é abundante o preço cai.
- Lógico.
- Pois isto não está acontecendo com dois produtos finais de nossa atividade de fazendeiros. No café, aumentamos cada vez mais a produção e o preço continua subindo. A mão-de-obra negra, apesar do aumento da oferta, o preço está mantido, não caindo. Veja estes dados atualizados. Como lhe falei, em 1845 foram importados 19 mil, no ano seguinte 50 mil, em 1847 entraram no Brasil 56 mil, neste ano vai chegar a 60 mil.
- Realmente, este excesso de oferta deveria ter feito o preço, tanto do café como do escravo cair. Interessante...
- E olhe que os ingleses, sabendo disto, estão apertando o cerco cada vez mais. Lorde Aberdeen, o pai da lei de repressão, deve estar furioso, pois sua medida teve efeito contrário, ao invés de acabar com o tráfico de escravos da África para o Brasil aumentou. Nos últimos cinco anos anteriores a importação ficava na média de 20 mil negros. Depois que aprovou a medida de repressão ao tráfico multiplicou-se por três.
- E qual a conclusão que chegaste para explicar isto?
- A presença dos americanos substituindo os ingleses no nosso comércio.
- Como?
- Muito fácil de entender. Antes da tarifa Alves Branco, apesar de todos os acordos assinados com a Inglaterra, tanto por D. João VI em Portugal como no Brasil e ratificado por seu filho o Pedro I, em todos eles, havia cláusula propondo a redução do tráfico. E o que acontecia? Nada. Os ingleses faziam vista grossa. Tinham tarifas privilegiadas de importação de seus produtos industrializados; seus súditos passaram a dominar o mercado atacadista, substituindo os portugueses; o cidadão inglês fizesse o que fizesse, não poderia ser julgado por um juiz brasileiro, mas sim um togado inglês, usando cabeleira postiça e segundo as leis inglesas...
- Realmente era um paraíso comercial.
- Por que então, de repente tudo muda?
- Sim. Qual foi o foco da mudança?
- A subida ao trono de D. Pedro II aos 16 anos.
- Não é possível. Um menino não faria esta revolução.
- Claro que ele sozinho não. Mas deu apoio às mudanças. E, quando não renovou os tratados especiais com os ingleses, autorizando a implantação da tarifa Alves Banco, favoreceu aos americanos. E aí, é bom citar, existem dois americanos. O Ianque, do Norte, com suas indústrias instaladas próximas das reservas de carvão de pedra, e equipamento mais moderno e de fabricação própria, têm esses custos industriais menores do que os ingleses, que dependem de algodão importado. Os Sulistas, com grandes plantações baseada, como nós na mão-de-obra cativa, produzem principalmente algodão, base da sua indústria têxtil inglesa, para seu próprio país e para exportação, enquanto os ingleses têm que buscá-lo do outro lado do mundo, na sua colônia da Índia.
- Onde o Brasil entra nesta história.
- Com um grande mercado importador, substituindo os produtos ingleses pelos correspondentes americanos. Sem subsídio tarifário de antigamente os ingleses não conseguem competir com os americanos. Mas, para que isto seja possível, isto é, que o Brasil possa pagar estas importações, os americanos compram cada vez mais café do Brasil. Os números que o nosso Comissário no Rio de Janeiro me passou da movimentação americana não deixa margem a dúvidas...
- Parece que sua análise está muito boa, mas sendo prático, focalizando a situação aqui da Vila de Paraíba do Sul, como ganhamos dinheiro com isto?
- Ótimo! Você agora tocou no ponto! Não será produzindo mais café, como os fazendeiros nossos vizinhos que nem mais respeitam a distância mínima das ruas de café, nem especulando com a mão-de-obra escrava como os investidores da Corte. Será facilitando as coisas para eles, os lavradores.
- Como?
- Produzindo comida para os escravos, ora. Os fazendeiros nossos vizinhos não vão querer deslocar mão-de-obra de cafezais para plantar milho, arroz, feijão, criar porcos e fabricar lingüiça, cachaça... Os escravos de ganho na Corte já não produzem alimento nenhum mesmo. Portanto, meu caro primo, deveremos transformar a fazenda Boa União, assim como iremos fazer na fazenda do Cantagalo, na maior pocilga que a Província do Rio de Janeiro já viu.
- Não vamos mais plantar café?
- Vamos manter o que já temos. Mas investir principalmente numa lavoura alternativa, diversificar a produção agrícola voltar-se mais para os gêneros alimentícios. Investir na pecuária, criar porcos, produzir lingüiça, lombo salgado, chouriço. Investir mais na serraria.
- Plantar, criar e industrializar?
- Sim. E aproveitar as tropas de mulas que descem com café e sobem com meia carga para transportar a nossa produção para os nossos amigos fazendeiros como nós. Eles vão nos agradecer, pois não precisam desviar a mão-de-obra do café...
- Parece um bom plano. Mas será que o tio Antonio, seu pai, vai concordar? Vamos ter que fazer uma reunião.
- Por isso estou conversando com você. Nós mineiros... Aqui no Vale do Paraíba, mesmo quem nasceu aqui na Província do Rio de Janeiro é mineiro por causa do custe, da cultura e, portanto, só faz reunião depois de tudo bem combinado.
- Você está me saindo um político...
- Eu já tive este tipo de conversa com meu pai ontem, lá na fazenda do Cantagalo. Ele não foi contra. Agora, depois de conversar com você, poderemos reunir os três.

Durante o encontro com os fazendeiros na mansão do major Avelar, a idéia de Antonio Barroso foi testada com fazendeiros vizinhos, verificando-se que ninguém havia pensando em algo semelhante. Ficaram inclusive satisfeitos, pois não precisariam eles próprios deslocar mão-de-obra da lavoura de café para a subsistência da fazenda.

Quando os três Antonios se aproximaram do Imperador para beijar-lhe a mão, surpreenderam-se, quando ele, parecendo ignorar o luxo da mansão onde se hospedara três anos antes, lhes fez uma pergunta muito específica:
- Os obeliscos egípcios na entrada da fazenda Cantagalo continuam de pé?

No retorno fizeram questão de entender melhor a escultura preparada pelo mestre canteiro Emilio que tanto interesse despertou no Imperador, no que foram ajudado por Mariana Claudina, após consultar alguns livros. Como ela explicou, cerca de dois mil anos antes de Cristo, o Faraó Senusret I, mandou construir um monumento de pedra em forma de pirâmide, com pequena base quadrada, mas grande altura. Como era uma obra de construção relativamente barata, foram copiados por vários outros faraós, reis e simples governante. Tinha a função de engrandecer a autoridade que a mandara construir uma grande obra ou ressaltar algum fato político. Eram feitos de granito, onde constavam inscrições alusivas ao evento que desejavam celebrar, como um marco eterno, capaz de resistir aos efeitos do próprio evento. Como obra de arte um obelisco é considerado o último raio de sol para os homens.

Depois de ler a explicação para seu pai, marido e irmão, Mariana Claudina ficou pensado no que o espanhol estaria querendo dizer quando resolveu esculpir os dois obeliscos na entrada da propriedade. Pelo que se lembrava de ouvir o pai comentando, lhe fora solicitado um simples marco na porteira da fazenda. Por que fazer um obelisco de inspiração egípcia?

No ano de 1848, em 19 de julho, o Brasil ganharia seu novo Príncipe Imperial, o mais novo dos três filhos do Imperador Pedro II e da Imperatriz D. Tereza Cristina, o que dava tranqüilidade aos monarquistas, pois, de acordo com a Constituição Brasileira de 1824, estava garantida a linha sucessória. Foi ano também que estourou mais uma revolta separatista, na Província de Pernambuco, a Revolução Praieira, o que gerava intranqüilidade aos monarquistas, por tratar-se de um movimento liderado pelo Partido Liberal. Foi cogitado o envio do Conde de Caxias, senador perpétuo pela Província do Rio Grande do Sul. Achou-se, porém que não seria necessário, era uma guerra pequena para o grande Caxias.

O major Carvalhinho, sempre afinado com a política, marcou uma conversa com seu primo na varada da fazenda Boa União num domingo, na parte da tarde. Tinha informações interessantes para repassá-lo. O primo foi ao encontro carregado de livros de anotações, gerando logo a indagação:
- Já sei, vai demonstrar que o tráfico de escravos continua aumentando...
- Isto todo mundo já sabe. Neste ano vamos chegar a 60 mil escravos importados da África, apesar dos ingleses.
- Por que trouxe os livros, então?
- Fale você primeiro. Depois eu completo.
- Bem, é alguma coisa que vai deixar o tio Antonio muito aborrecido. Decorreu da viagem do Imperador na região.
- O que é? Está me deixando curioso.
- O major João Gomes Ribeiro de Avelar, em outubro deste ano, vai receber o título de Barão de Paraíba.
- Não é possível! O que fez para merecer? Nós temos que conseguir um título também para o major Antonio Barroso Pereira, o maior fazendeiro desta região.
- Deixe que desta parte política eu cuide, fique tranqüilo. Mas, diga-me, por que tantos livros?
- É sobre a experiência do Senador Vergueiro?
- Aquele português Nicolau Pereira Vergueiro, na política desde antes da independência?
- Ele mesmo. Conseguiu empréstimo do Governo Imperial e mandou vir para trabalhar na sua fazenda em Ibicaba, na vila de Campinas, na Província de São Paulo, 80 famílias de alemães. Criou o chamado Sistema de Parceria. Montou um firma que financia a viagem e as despesas de instalação, com juros de 6 a 12% ao ano com prazo de até quatro anos para amortizar.
- Me parece uma boa idéia.
- Mas está dando errado!
- Como?
- O pobre do imigrante chega, fica logo endividado, pois sem dinheiro é obrigado a comprar apenas no armazém da fazenda, onde tem crédito, pagando muito mais caro por isso. Recebe terra para cultivar café e plantar qualquer coisa para vender. No final o lucro é rateado, meio a meio, entre o Senador e o Colono. Depois de muito trabalhar, quando faz as contas, descobre que ainda continua devendo.
- É uma escravidão branca, então?
- Sim. Mas como eles não são analfabetos como os negros, vão logo botar a boca no mundo, reclamando junto aos seus governos que foram tapeados...
- Isto pode até acarretar proibição de emigrarem para o Brasil.
- Certamente! Não são como os negros da África, que já são vendidos como escravos lá, não têm a quem recorrer. Mas, sabe quem irá se beneficiar desta situação?
- Não consigo imaginar. Quem?
- Os Estados Unidos, lógico.
- Você está exagerando, primo. Outra vez coloca os Estados Unidos na nossa vida?
- Já que na Europa a situação econômica está difícil, o Novo Mundo é uma esperança. Porém, com estes espertinhos que temos aqui, como o Senador Vergueiro, logo nossa imagem como nação de oportunidade para os imigrantes ficará prejudicada. Ninguém mais vai querer migrar para o Brasil, todos vão preferir os Estados Unidos, até por uma questão de clima.
- O braço escravo africano uma hora vai acabar, não é?
- Claro, os ingleses já estão chegando a invadir nossos portos para inspecionar navios, porque em alto mar, não conseguem acompanhar os barcos negreiros. Seus galeões, equipados com armamento pesado para abordagem e até afundar se for preciso, são muito lentos. Não competem com as fragatas dos traficantes. Os barcos mais leves são imbatíveis na navegação à vela.
- Sei que já existe protesto diplomático brasileiro devido a esta quebra de soberania nas águas territoriais brasileiras pela esquadra inglesa.
- E não vai adiantar, porque os barcos leves permitem a criação de portos clandestinos até nos rios que deságuam nas baías.
- Sei disso. O Souza Breves, aqui de Piraí, está se tornando o maior fazendeiro da província e também no maior traficante de escravos, pois tem um porto próprio na baía de Sepetiba.
- O que fazer? Se os colonos não são uma boa solução, os ingleses vão endurecer o jogo...
- É aí que eu gostaria de lhe mostrar minhas pesquisas. Nas Províncias do Nordeste, como Bahia e Pernambuco, o preço da peça chega a custar 30% abaixo do valor de mercado aqui na região. Então, será um bom negócio comprar escravos dos usineiros de açúcar, aproveitando a crise atual devido ao excesso de produção de Cuba, também todo baseado na mão-de-obra escrava e trazê-los para cá.
- Mas isto também não é tráfico?
- Legalmente não, se trata de uma simples comercialização interna. Pode consultar as leis.
- Bem, irei fazer contatos políticos na Corte, no nosso Partido Conservador temos muitos deputados da Região Nordeste. Não prometo nada primo, pois esta idéia é muito estranha.

A morte de Koeller gerou alterações na rotina de Emilio, pois o novo engenheiro brasileiro responsável pelas obras trouxe outros mestres de obra de sua estrita confiança e dispensou e reduziu responsabilidades dos antigos, mais ligados ao engenheiro alemão. As funções de Emilio como mestre canteiro eram mais intensas na preparação de fundações e no acabamento final, e as obras do palácio em Petrópolis estavam na fase de levantamento de paredes, de uma ala priorizada para permitir logo sua ocupação pelo Imperador. Portanto não teve dificuldade em atender a uma solicitação de serviço no palácio da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

A cidade que abrigava a Corte pareceu a Emilio completamente diferente da primeira visão, há 17 anos, quando com igual idade chegou da Galícia e viu uma cidade portuária da América do Sul pela primeira vez. Andando pela cidade e pelos novos bairros que se instalavam, Emilio percebeu que uma quantidade de escravos de ganho, negros semi-livres, de ambos os sexos, que exerciam as mais diversas atividades urbanas, que tinham a obrigação de pagar uma quota fixa, de periodicidade combinada, ao seu dono. Os mais ativos conseguiam em menos de dez anos angariar uma poupança capaz de comprar-lhes a alforria. Alguns escravos chegavam até a possuir também escravos, que lhes ajudavam a conseguir mais rapidamente dinheiro para comprar a própria alforria e se tornar livre. Outros, entretanto, esbanjavam o dinheiro que sobrava, em bebidas, farras ou roupas vistosas e se acomodavam envelhecidos na função. Os que fracassavam eram vendidos para trabalharem sob a vista atenta de feitores em trabalhos manuais pesados.

Emilio percebeu que a liberdade nem sempre significava igualdade. Uma coisa, porém não mudara muito até meados do século XIX, era o precário sistema de saneamento que foi como um herança portuguesa do período colonial, quando ocuparam o Novo Mundo numa postura provisória. Tubulações de água e esgoto, inventadas pelos gregos e profusamente utilizada em Atenas, era um luxo existente em raríssimas habitações. A água nascente nas encostas da Serra da Carioca vinham para o centro da cidade através de aquedutos de estilo românico. Mas no interior das casas, para as necessidades fisiológicas, utilizavam-se os urinóis, que ficavam sob as altas camas utilizadas no período. Pela manhã as escravas despejavam os excrementos em barris que ficavam no quintal, nas casas onde não havia fluxo d’água natural passando nos fundos, em um canto afastado coberto de moscas. Periodicamente carroças patrocinadas pelo poder público, com grandes tinas, vinham esvaziar estes barris. Estas tinas depois eram despejadas na água do mar, por escravos que ao transportá-las recebiam nas costas respingos de seus conteúdos. A mistura ácida corria na pele escura, deixando cicatrizes que lembravam listas de tigres, denominação dada a estes escravos: tigres. Portanto, ser escravo de ganho era um privilégio diante de tanto trabalho mais duro e, uma grande vantagem para seus possuidores, que tinham uma renda fixa proporcionada pelo “patrimônio”.

Ao contrário dos escravos que usavam uma roupa simples, com os pés descalços, mais apropriada ao calor tropical, os seus proprietários usavam pesadas indumentárias, como ternos de casimira inglesa, chapéus coco, gravata de vários modelos enforcando o pescoço e camisas de punho rendado ou com abotoaduras de ouro. Nos pés, sapatos de verniz, muitas vezes com uma polaina branca, sempre trocada diariamente. Passavam o dia todo em conversas, entabulando negócios ou discutindo a próxima demanda judicial, uma verdadeira mania nacional, viabilizada pela grande quantidade de bacharéis disponíveis. Esta grande herança portuguesa e espanhola, a burocracia, as normas, o detalhamento legal, era visto por alguns como um entrave ao progresso.

Trabalhando no Paço de São Cristóvão, Emilio passou a ter contato mais próximo com os assessores de D. Pedro II. Certo dia um deles acercou-se dele e perguntou sobre os estudos do major Koeller do traçado de nova estrada na Província do Rio de Janeiro. Informou o que sabia referente às plantas apresentadas na Assembléia. Este, porém, gostaria de ter acesso a outras, não divulgadas, mas que provavelmente estava entre os documentos deixados pelo engenheiro alemão. Emilio prometeu ir a Petrópolis, entrevistar-se com a viúva de seu antigo patrão e ter acesso a tais documentos.

Menos de um mês depois, com a devida autorização, Emilio trouxe de Petrópolis uma série de estudos, que realmente não tinham sido divulgados na época. Ao procurar saber do interesse, foi informado que a principal reivindicação dos fazendeiros de café feita ao Imperador, por ocasião de sua viagem ao Vale do Paraíba, fora as melhorias necessárias nas estradas, mas especialmente no Caminho Novo. Um investidor mineiro se apresentara com idéias inovadoras para melhoria da estrada e uma chance de atender ao pedido da elite rural, que por sua produção crescente de café se tornara a sustentação financeira do Império. Emilio deduziu, então, que o próprio Imperador estava interessado nas plantas que acabara de entregar.

Tuca crescia como um menino de fazenda considerado “cria da casa”. Camila revelou-se uma mãe carinhosa e sua Sinhá, demonstrava um grande carinho pelo menino. Usava sempre roupas novas, tinha brinquedos e atenção, todavia, como todos os outros escravos, andava descalço o tempo todo.

Sua mãe, com aprovação da baronesa, cuidava de alfabetizá-lo e ensinar falar francês. Ficavam às vezes as duas mulheres em volta da criança ouvindo-o tropeçar nas conjugações verbais.

Mas, fora estes momentos, numa fazenda de café a infância é muito alegre para os garotos que gozam de liberdade, podendo colher frutas de várias espécies, caçar passarinhos em arapucas, pescar os peixes que existem em abundância nos córregos e lagoas formadas pelas cheias e mesmo nos rios Paraibuna e Paraíba. Na época da seca estes rios baixavam de nível, formando piscinas naturais onde se aprendia a nadar. Para as crianças menores um simples represar do córrego Puris, que cortava as terras das fazendas da Boa União e do Cantagalo, além da oportunidade de capturar os peixes barrigudinhos multicoloridos servia também para aplacar o calor de verão.

Vez ou outra a mulher do major Antonio Barroso o surpreendia observando com prazer as travessuras de Tuca e sua facilidade em se comunicar em francês, uma prova que sua mãe o exercitava o tempo todo. O mesmo acontecia com o sobrinho e genro José Antonio. Apenas o filho tinha para com Tuca uma postura mais distante. Estes comportamentos a deixavam insegura, fazendo com que a cada hora desconfiasse de um deles como pai daquele menino bastardo.

Apenas aparentemente todos os dias são iguais. Quase sempre, em torno da venda, aproveitando a água farta do córrego que passa pela fazenda Boa União, várias tropas de mula estão espalhadas. Os tropeiros reúnem-se no balcão e passam para o caixeiro Miguel Ribeiro de Sá as novidades que ouviram.

- Os ingleses não estão conseguindo pegar os navios de escravos não. Na praia de Mauá tinha hoje dois barcos lotados de negros chegados d’África.
- Mas não está proibido por lei?
- E a gente aqui no Brasil respeita lei, seu Miguel?
- O preço subiu muito. Há cinco anos uma peça de 20 anos, de Angola ou até mesmo de Moçambique, custava quinhentos réis. Hoje falam em um conto, um conto e duzentos reis!
- Mas o café também subiu de preço, seu Miguel. Mais que dobrou.
- As terras também. Tudo se compensa. Aumenta é o trabalho...
- Para nós, tropeiro, está muito bom assim, quanto mais serviço melhor. Precisamos é de melhores caminhos. Não sei o que vai ser quando vierem as chuvas de dezembro, janeiro, os atoleiros vão paralisar tudo.

Por uma “feliz coincidência”, em 1848, no final da guerra dos EUA com o México para anexação de grandes extensões de terras, foi descoberto ouro na Califórnia, que desencadeou uma corrida, atraindo gente de todo mundo. Para os americanos da costa leste, a rota mais segura era a marítima, circulando a América Latina pelo cabo Horn. O Rio de Janeiro era um porto de parada obrigatória, o que ampliou o mercado para produtos industrializados americanos em troca da produção agrícola brasileira, especialmente o café.

O aumento da movimentação de navios e a possibilidade de fretes marítimos de retorno a baixo custo para transportar café para o norte em barcos americanos atiçou o interesse dos fazendeiros. Os negócios estavam crescendo, matas sendo derrubadas, novas roças de café sendo plantadas, os escravos continuavam chegando da África apesar do cerco britânico, mas o escoamento da produção em direção aos portos, continuava numa situação precária. No entanto, uma solução estava sendo trabalhada, bem no estilo mineiro, em silêncio.

Numa tarde de primavera, quando as tardes já estão se tornando mais longas e o crepúsculo iluminava a grande varanda do solar sede da fazenda de Cantagalo, o esperado convidado chega para o encontro. Reunidos os fazendeiros Antonio Barroso, seu filho e cunhado. Descendo da carruagem que os havia trazido de Petrópolis pelas esburacadas estradas, dois homens, um deles corpulento, com barba cerrada chamado comendador Mariano Procópio Ferreira Lage.

O fazendeiro tinha prazer em descrever como se encontrava a região em 1817, quando seu pai recebeu de D. João VI as sesmarias entre os rios que se encontram nas Três Barras. Depois passou a mostrar o capricho construtivo de seu solar. Mariano Procópio, que até então apenas fazia sinais mudos de concordância, afirmou:
- Estou realmente admirado com o capricho do trabalho em rocha, major. Qual o profissional que fez este serviço?
- Um espanhol galego, mestre canteiro de primeira, chamado Emilio Pietro, o senhor o conhece?
- Não.
- Pois ele, grande amigo do falecido major Koeller, trabalhou ns obras de drenagem na serra e no Palácio Imperial...
- Que feliz coincidência, agora tudo parece fazer sentido... Bem, vamos ao assunto que me traz aqui. Sou parente distante do coronel Hilário, da fazenda Serraria, pois sou neto por parte de pai paterno do alferes Francisco Ferreira Armond, natural da Ilha da Madeira e de Felizarda Lima, de Cebolas, prima do Marquês de Caxias.
- Conheço bem estes seus parentes, comendador, pois também sou de Cebolas – sorriu o major Barroso.

Imediatamente Mariano Procópio percebeu que havia estabelecido a relação de confiança necessária. Apenas por quem conhece este traço da cultura brasileira, muito forte na região de influência mineira, sabe da importância de um padrinho. Confiante Mariano prosseguiu discorrendo que, apesar disso, estava encontrando dificuldades em conseguir o apoio do coronel Hilário Ferreira e do barão de Paraíba, para aproveitar a ponte da Vila de Paraíba do Sul, em construção desde 1835, para ser utilizada pela sua estrada.
- Mas esta é uma ótima notícia, comendador – cortou o major Carvalhinho, para logo emendar: - Digo, a notícia de estar querendo investir nestas vias tão importantes. Por favor, pode detalhar?

Mariano contou então que era mineiro de Barbacena, nascido em junho de 1821, mas que ao invés de se matricular num curso convencional e ser mais um bacharel em direito, profissão muito prestigiada entre filhos de fazendeiros de café, resolveu estudar por conta própria na Europa e Estados Unidos. Conheceu então o processo de construção e revestimento de estradas de rodagem inventada pelo engenheiro inglês John Mc Adam, o “macadame”, que consistia em abrir no leito uma cavidade abaulada, chamada caixa da estrada, preenchida com uma camada de pedra britada recoberta com outra camada de saibro, areia e breu, submetida a forte pressão através de rolos, formando um corpo sólido e compacto. Voltou com a proposta de aplicar este processo na recuperação do Caminho Novo e montar uma empresa para explorar a estrada de rodagem cobrando pedágio.

Já havia, numa audiência especialmente marcada com este fim, transmitindo ao Imperador sua idéia de implantar esta rodovia macadamizada. Descreveu as estradas do sul da França, da Inglaterra e Estados Unidos, onde a técnica fora aplicada com sucesso. As laterais bem protegida por sistemas de drenagem, por ocasião das chuvas torrenciais comuns nos trópicos, impediria a formação dos atoleiros e costelas, comuns nas estradas sem pavimento, abertas diretamente sobre o leito natural. Na nova estrada, a camada superficial lisa permitiria que as carruagens e carroças com aros de aço desenvolvessem grande velocidade, com mínimo esforço para os animais.

Apesar disso, estava tendo dificuldades exatamente onde achava que seria mais fácil, pois julgara contar com o apoio desinteressado de seus parentes na Província do Rio de Janeiro. Concluiu que eles se consideravam “os donos da ponte” exigindo na divisão dos pedágios uma participação que inviabilizaria seu projeto de modernizar o Caminho Novo e atender às necessidades dos fazendeiros de café.

Percebendo, pela troca de olhares do genro e do filho que estavam diante de uma grande oportunidade, o major Antonio Barroso ofereceu então, sem cobrança alguma, toda a faixa de terra necessária para a estrada que cortasse sua fazenda, sem precisar passar pela ponte da Vila de Paraíba do Sul. Mariano parecia não acreditar, pois uma das alternativas dos desenhos de Koeller era justamente um atalho, desviando de Cebolas e da Vila de Paraíba do Sul. Agradeceu prometendo transmitir ao imperador este apoio fundamental que acabava de receber.

Ao receber a carta de Antonio Barroso filho, solicitando sua presença, Emilio ficou apreensivo. Havia deixando toda sua economia de anos de trabalho para serem aplicados pelo fazendeiro, recebendo a cada seis meses carta informando o rendimento e a reaplicação. Pensou que receberia pessoalmente alguma notícia ruim. Portanto, deixou para um contramestre o andamento da obra de reforma de uma residência no bairro de Botafogo e seguiu viagem até a fazenda do Cantagalo.

- Que cara de apavorado é esta, espanhol?
- Fiquei preocupado com esta chamada, pensei que alguma coisa havia acontecido. Ouve-se falar tanto de Comissários falindo, traficantes presos...
- Não se preocupe com isto, eu só aplico e invisto com garantias, o senhor sabe.
Emilio sorriu silenciosamente. Realmente, o filho de Antonio Barroso era conhecido pela taxa que cobrava dos empréstimos, até 20% ao ano – enquanto pagava no máximo 6% aos aplicadores como ele. Porém, sabia onde investir e tinha lastro suficiente para suportar qualquer revés, enquanto na justiça ou mesmo na força física, executava as garantias dos empréstimos realizados para pequenos sitiantes, comerciantes e agregados nas terras de seu pai.
- O senhor foi chamado, mestre Emilio, para ajudar um amigo nosso, o comendador Mariano Procópio, que vai fazer uma total remodelação no Caminho Novo em prazo muito curto. Quer serviço de primeira qualidade na drenagem da estrada, razão pela qual o senhor foi lembrado.
- Foi também devido ao trabalho que fez aqui, na fazenda Cantagalo, mestre Prieto – cortou o major Carvalhinho.
- Está disposto a voltar, trocar o calor da baía da Guanabara pelo do Rio Paraíba?
- Tudo depende de acerto.
- Quanto a isto fique tranqüilo, o homem está capitalizado, lançou com grande sucesso ações de sua companhia na praça do Rio de Janeiro. Nós, como outros fazendeiros, por onde a estrada vai passar, fizemos questão de adquirir uma boa quota. Portanto, caro Prieto, venha sossegado, pois vai ser muito bem remunerado!

Emilio antes de voltar para o Rio, onde procuraria pelo comendador para os acertos financeiros e conhecer as especificações técnicas do projeto, foi fazer uma visita à esposa do major Carvalhinho, na fazenda da Boa União. Ao passar pela sua antiga casa, próxima da serraria que crescera muito, estancou o animal. Praticamente nada mais havia no local que lembrasse a existência de uma casa caiada de branco, com canteiros de verduras na horta dos fundos e flores no jardim da frente e o cheiro inconfundível e eventual da fumaça do cachimbo de Donana. Enquanto admirava, passou por ele um escravo com enxada nas costas e Emilio perguntou:
- O que aconteceu com a casa?
- A casinha da Donana já caiu há muitos anos. Um vento forte arrancou o telhado e depois a água da chuva desmanchou as paredes.
- Mas ninguém recuperou?
- Ora Sinhô, quem teria coragem de morar aí?

Depois de vários entendimentos em sigilo, como é típico dos mineiros como Mariano Procópio, lhe foi outorgado pelo Decreto número 1.031 de sete de agosto de 1852, uma concessão que preconiza textualmente:

Atendendo ao que lhe apresentou Mariano Procópio Ferreira Lage, pedindo faculdade para construir, melhor e conservar, à sua própria custa, duas linhas de estrada que, começando nos pontos mais apropriados à margem do Rio Paraíba, desde a Vila deste nome até ao Porto Novo do Cunha, se dirijam uma até a barra do Rio das Velhas, passando por Barbacena, e com ramal desta cidade para a de São João Del Rei e outra pelo município de Mar de Espanha, com direção à cidade de Ouro Preto; e desejando promover, quanto possível o benefício da agricultura e do comércio das indicadas localidades, facilitando as comunicações entre aqueles pontos e as relações entre as duas Províncias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais; Hei por bem conceder-lhe o privilégio exclusivo pelo tempo de cinqüenta anos para incorporar uma companhia para o dito fim, sob as condições de que com este baixam assinadas por Francisco Gonçalves Martins, do meu Conselho, Senador do Império, porém, este contrato dependendo de aprovação da Assembléia Legislativa. “O mesmo ministro assim o tem atendido e faça executar”.

Sem merecer publicações, mas com igual repercussão junto aos fazendeiros do Vale do Paraíba foi o diploma assinado por D. Pedro II dando o título de Barão de Entre-Rios a Antonio Barroso Pereira. Muita coisa acontecera desde que Mariano Procópio visitara pela primeira vez a fazenda do Cantagalo, uma antiga reivindicação ganhou nova energia pelo auxilio dado à nova Companhia União e Indústria. Major Carvalhinho, exultante pelo feito político, que deixara os Avelar de queixo caído, comentava:
- O Brasil agora vai ser outro. Depois da Lei Eusébio de Queiroz, finalmente poderemos investir na colonização. O Imperador já está morando no Palácio Imperial de Petrópolis. A Lei das Terras vai atrair capital e acabar com a troca de favores nos Gabinetes, de doação de terras públicas em forma de sesmarias; agora só podem ser vendidas. O Brasil vai, finalmente, sair de suas amarras jurídicas!
- Quanto entusiasmo, primo. Ou será por causa de ser agora sobrinho de um barão e de uma baronesa?
- É claro que isto conta, mas o país deu uma prova de coragem. O tráfico de escravos terminou, não porque o almirantado inglês exigiu, mas porque uma lei brasileira assim o determinou: a lei Eusébio de Queiroz.
- Mas dizem que o todo-poderoso primeiro-ministro britânico Gladstone iria obrigar o Brasil ao cumprimento dos tratados assinados com eles, ameaçando-nos com uma guerra de extermínio.
- Que sandice acreditar nisto! Os ingleses não teriam coragem de intervir aqui. Iríamos reivindicar a Doutrina Monroe, do quinto presidente norte-americano, que na sua mensagem ao Congresso em 1823, advertiu a Inglaterra e outros países europeus contra uma re-colonização das Américas. Acha que eles, os americanos, agora que estão avançando na aplicação da força vapor com muito mais dinamismo que a própria Inglaterra iria perder seu mercado brasileiro assim, sem reclamar? É claro que não. Falar que cedemos na importação de mão-de-obra da África por pressão britânica é rezar na cartilha do Partido Liberal, este sim, infiltrado de ingleses! O Brasil acabou com o tráfico de negros quando achou que estava na hora! Fale aí de seus números, primo.
- Bem, verdade seja dita, foi com o Parti
do Conservador no poder que a questão escravista teve ambiente o favorável para aprovação da lei proposta pelo Ministro da Justiça, Eusébio de Queirós, em quatro de setembro de 1850. Neste mesmo ano o tráfico foi reduzido para 23 mil, quando no ano anterior tinha chegado a 54 mil os negros trazidos à força da África.
- Bem, vamos deixar de falar de política e economia e vamos brindar este momento de felicidade para o barão e a baronesa – convidou o major Carvalhinho segurando o primo pelos braços e caminhando em direção à grande mesa de convidados.

No dia seguinte, na fazenda da Boa União, Mariana Claudina, agora filha de um barão, verificou que a fase de surpresas não acabara. Recebeu do marido um embrulho, que disse ter sido presente de seu tio, o barão de Entre-Rios para Tuca, o filho de Camila, então com sete anos.
- Você sabe do que se trata?
- Sim, é uma botina.
- Uma botina? Você sabe o que isto significa, não e?
- Significa que o barão não gostaria de ver o menino como um escravo, andando descalço.
- Significa a alforria, ou algo mais?
- Significa o que é Claudina: o barão quer que o menino ande calçado. Só isso. Mande chamar Camila e presenteie o menino. Ele, filho de escrava, é um escravo, você conhece a lei. Mas o barão gostaria que ele andasse calçado. Vamos obedecer ao desejo do tio. Ou você é contra?
- De forma alguma, você sabe... Mas a mamãe, a baronesa...
- Qualquer outra interpretação é pessoal, individual, nada tendo com a realidade!

Camila ficou surpresa e teve durante alguns dias bastante dificuldade de convencer o filho a andar calçado, pois as botinas lhe apertavam os pés que já alargara e adquirira uma grossa sola, como de todos os escravos negros, inclusive sua mãe. Mas foi um martírio que teve de suportar, afinal fora o presente do barão de Entre-Rios.

Surpresa maior teve, porém, Claudina quando, muito sutilmente, quando estava a sós com o pai, demonstrou curiosidade sobre como tivera a idéia do presente inusitado. Seu pai, sem dar muita atenção, parecendo mergulhado em outras reflexões respondeu:
- Foi uma idéia do seu marido, o José Antonio.

A MULA DO OURO - Capitulo 9

Capítulo 9
Revoluções no Transportes


Enquanto as obras da rodovia macadamizada que aproveitaria trechos do Caminho Novo eram minuciosamente planejadas, um outro investimento precipitado teve curso. No dia 29 de maio de 1852, na sede do Banco do Brasil no Rio de Janeiro, foi fundada a Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis, com capital de dois mil contos de réis, divididos em dez mil ações de duzentos réis cada. O rico comerciante Irineu Evangelista de Souza, subscreveu pessoalmente um terço das ações, sendo pelo estatuto, nomeado Presidente da Companhia.

Este empreendimento estava legalmente amparado pelo Decreto do Governo Geral número 987, de 12 de junho de 1852 e pela Lei Provincial número 602, de 23 de setembro do mesmo ano, que lhe concedeu Privilégio de Zona lateral de seis léguas (30 quilômetros) ao longo da via por 30 anos.

No dia 29 de agosto de 1852, na localidade de Fragoso, no fundo da baía da Guanabara, com a presença do Imperador, foram inaugurados os trabalhos de construção da ferrovia, a serem conduzidos pelos engenheiros ingleses William Bragge e Robert Milligan. Para o evento aguardava o Imperador uma pá de prata e um carrinho de mão. Foi ela estendida ao Imperador por Irineu, que o convidou, como um gesto simbólico, a começar os trabalhos. O Imperador, desprevenido, hesitou um pouco, mas aceitou sorridente. Com o vigor dos 27 anos afundou a pá na terra fofa, encheu-a e despejou no carrinho, sob os aplausos de todos.

Não viu, porém, às suas costas, alguns políticos ligados aos “Saquaremas”, do Partido Conservador, que disseminava um fel de calúnia, afirmando que um “Luzia”, ou do Partido Liberal, no caso Irineu Evangelista, fora capaz de fazer do Imperador um trabalhador braçal, para não dizer escravo. Que ousadia! Que falta de respeito! No alto da serra de Petrópolis, naquele dia, a intriga seria devidamente disseminada:
- Viu o que o comerciante Irineu obrigou o nosso Imperador fazer?
- Claro todo mundo assistiu. Fez dele um operário braçal, quase um escravo.
- Por falar em escravos... Tenho aqui este jornal, veja O Paraíba, está dizendo que os alemães do bairro da Mozela estão dando cobertura a escravos fugidos, um deles que atirou num oficial de justiça na Vila de Paraíba do Sul.
- Não soube disso não.
- É outra preocupação que devemos ter, pois este pessoal vem de fora, estão aqui há menos de sete anos, não conhecem ainda nossa cultura e podem complicar as coisas...
- Vamos ficar de olho. Posso botar gente nossa vigiando esses gringos.

Exercendo o Poder Moderador, D. Pedro II, não se opôs quando membros do Partido Conservador, encabeçados pelos irmãos Teixeira Leite de Vassouras, estimularam que deputados aliados apresentassem um projeto onde o Governo garantia 5% de juros sobre o capital empregado na construção de ferrovias, o Decreto 641, mais conhecida como Lei de Garantia de Juros, copiando o que a Russia fizera para atrair investidores para ferrovias. Antes dessa a lei tinham sido dadas três conces¬sões para a construção de estradas de ferro no Brasil: a de Aguiar Viúva e Filhos, do governo da província de São Paulo, de 29 de outubro de 1838, a de Thomas Cochrane, do Governo Geral de 4 de novembro de 1840 e a de Irineu Evange¬lista de Souza, do governo da província do Rio de Janeiro, de 27 de abril de 1852. Portanto, Irineu teve e teria que investir apenas recursos próprios e dos acionistas, sem garantia alguma por parte do governo.

Os Teixeira Leite, contando com a concessão, fizeram despesas, relacionaram-se com capitalistas e mandaram vir da Inglaterra dois engenheiros, os irmãos Waring. Financiaram um reconhecimento da linha projetada deste a Corte até às margens do Paraíba, serra acima, tendo como condição fundamental que a ferrovia cortasse a Vila de Vassouras, a mais importante do interior da Província.

O Brasil parecia acordar para as ferrovias, 27 anos depois da primeira circular na Inglaterra, em 1825, mesmo ano de nascimento de D. Pedro II.

Numa bela tarde de setembro de 1853, quando no bem cuidado jardim do Palácio da Quinta da Boa Vista, no Paço de São Cristóvão, os canteiros floridos já anunciavam primavera, o comendador Mariano Procópio chegou para ser recebido pelo Imperador. Na pasta grossa que trazia nas mãos encontrava-se o relatório e os contratos assinados na sua recente viagem de seis meses à Europa, onde fora negociar com fornecedores e financistas sua estrada de rodagem ligando Petrópolis à cidade de Santo Antonio do Paraibuna, na Província de Minas Gerais.

Enquanto aguardava, Mariano Procópio recapitulava seus últimos anos de convivência com o Imperador, especialmente quando lhe contou que durante sua permanência em Paris tivera aulas particulares e convivera algum tempo com Luiz Jacques Daguerre, o inventor do processo de fixar a imagem da câmara escura, a daguerreotipia. Estava nestas lembranças quando foi chamado à Sala de Audiência, deixando do lado de fora os assessores, que seriam chamados se necessário. O Imperador, sempre atualizado, principalmente com referência ao que acontecia nos Estados Unidos, iniciou a conversa ponderando sobre a viabilidade do projeto de Mariano, baseada na tração animal, diante dos avanços do sistema sobre trilhos.

- Consta, Sr. Mariano, que se comprovou na Inglaterra um custo 30% inferior ao transporte animal pela utilização da ferrovia.
- Conheço estes estudos Majestade, que têm a sua idade, são de 1825, mas trata-se de uma situação muito particular, da primeira linha comercial implantada, a Stockton & Darlington. No caso brasileiro é diferente.
- Refere-se às dificuldades do trem vencer rampas?
- Exatamente. No nosso caso, temos que vencer duas grandes cordilheiras de montanhas, a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira. A nossa a estrada parte da cota de 900 metros em relação ao nível do mar, desce à quota de 250 metros para atravessar o Rio Paraíba do Sul, depois sobe novamente à mesma cota anterior. Tudo isso em 140 km. As ferrovias terão muita dificuldade em fazer a mesma coisa por causa das fortes rampas. Além disso, já temos uma estrada implantada e consolidada há 150 anos, que precisa apenas de melhorias. Outro aspecto importante também: nosso carvão de pedra tem muita impureza e é inadequado para fabricação de coque, utilizado nas caldeiras das locomotivas.
- Realmente, a qualidade de nosso carvão mineral me decepcionou – confirmou o Imperador, aceitando também as demais ponderações do seu amigo.

Trinta minutos depois, quando voltou para junto de seus assessores, Mariano parecia mais sério do que o habitual. Ao ser indagado repetiu as preocupações do Imperador de ver, de repente, tanto interesse diversificado para o mesmo objetivo: escoar o café da zona da mata mineira para os portos do Rio.

Mariano compartilhou com o Imperador a preocupação com a possível mistura de interesses políticos com as atividades comerciais, já que na sua visão existiam três projetos concorrentes: primeiro a concessão de quatro de novembro de 1840 dada a Thomas Crochrane, com base no decreto número 100 assinado pelo Regente Feijó em 1835, para construção de uma ferrovia da Corte para Minas e São Paulo, seguindo pelo Caminho Novo original, passando por Pati do Alferes e chegando às margens do Rio Iguaçu, mas que, por falta de capital não tinha conseguido assentar um mísero quilometro de trilhos; em segundo outra concessão dada no dia 27 de abril de 1852 pelo Presidente da Província do Rio de Janeiro ao comerciante Irineu Evangelista de Souza, para também implantar outra ferrovia, seguindo agora pelo atalho de Bernardo Proença, através de Petrópolis, até um novo porto no fundo da baía e, em terceiro, o projeto dos irmãos Teixeira Leite de Vassouras, que haviam conseguido até a garantia de juros do Governo Imperial, a exemplo do que foi testado com sucesso pela Rússia para atrair capitais, que no Brasil teve a redação adaptada e legalizada para as condições nacionais pelo Decreto número 641 de 26 de junho de 1852. Portanto, o projeto da estrada de rodagem de Mariano Procópio com tração animal enfrentaria três concorrentes ferroviários.

Mariano disse aos assessores que havia contra-argumentando, defendendo a idéia de que o seu projeto e do comerciante Irineu Evangelista eram complementares, enquanto os de Crochrane e dos Teixeira Leite eram concorrentes entre si, o que poderia gerar demandas judiciais demoradas, com prejuízo para o escoamento da safra de café – o grande objetivo a ser atingido. Acreditava deste modo, que venceria a disputa pelo transporte, quem conseguisse ser rápido na implantação.

Alegou também que, como filho de grande fazendeiro de café da Zona da Mata, conhecia bem o pensamento deles, aproveitaria infra-estrutura já pronta e não se chocaria com os grandes criadores de animais de carga, ao contrário, seria ele próprio um grande demandante, calculando em mil muares a tropa para atender sua necessidade. Como uma tropa de mulas gastava 10 a 12 dias de Santo Antonio do Paraibuna até a raiz da Serra, incluindo descanso, uma viagem de ida e volta levava 30 dias. Pois com a nova estrada, fazendo troca de animais em doze postos ao longo dos 144 km até Petrópolis, este percurso seria reduzido para um dia.

Diante disso, o Imperador deu-lhe carta branca, já que em todos os projetos não haveria recursos públicos aplicados diretamente. Os investimentos seriam por conta e risco dos empresários interessados.

As obras da ferrovia do empresário Irineu Evangelista andaram rápido, apesar de a um custo considerado muito elevado para as condições topográficas da região. De tal forma que, em 30 de abril de 1854, com a presença da Comitiva Imperial, foi inaugurada a ferrovia no trecho de 14,5 km entre a Praia de Mauá e o Povoado de Fragoso. A locomotiva utilizada na ocasião, fabricada em 1852 na Inglaterra por Willian Fairban & Sons, foi apelidada de Baronesa.

Isto porque, nesta data Imperador conferiu a Irineu Evangelista de Souza o título de Barão de Mauá. No almoço servido na ocasião, sussurrava-se entre políticos saquaremas: “Barão de Mauá: algum mal há!”.

À noite, junto com conselheiros, aproveitando o interesse do Imperador pela tecnologia, alguns comentaram indignados que o Barão de Mauá encomendara um modelo ultrapassado de locomotivas na Inglaterra, pois nos Estados Unidos, um modelo muito melhor, denominado American, fabricado já há 17 anos (1837) era mais utilizado. Uma outra locomotiva, que lhe era derivada, denominada Mogul seria ainda mais adequada para aquele trecho. Portanto, a ferrovia no Brasil começava já defasada em termos de tecnologia.

Curioso, o Imperador quis saber mais a respeito, pois pessoalmente ficara surpreendido, com a fabulosa velocidade de 42 km/h que o comboio desenvolvera. Foi-lhe então, contada a epopéia das estradas de ferro. O autor, assumindo um ar professoral, que realmente era, na Escola Militar, começou a seguinte narrativa:
- Quando em 1804 o inglês Richard Trevithick pensou em usar a força do vapor ao invés da tração animal para rebocar carroças de vias férreas, aproveitou de imediato as soluções mecânicas das máquinas aperfeiçoadas pelo escocês James Watt, considerado o pai da máquina a vapor.
D. Pedro II parecia interessado, o que animou o narrador.
- Talvez o senhor não saiba alteza, mas já existiam ferrovias antes das locomotivas serem inventadas. Para ligar os portos fluviais, dos canais de navegação, até as minas e povoados, utilizavam-se carroções guiados em canaletas guias metálicas, puxadas por cavalos do maior porte possível, pois era a força do animal que limitava a velocidade e capacidade de tração. Portanto, o primeiro problema da ferrovia foi este: substituir a força do animal.
O Imperador assentiu com movimento leve de cabeça.
- Pois bem, James Watt trabalhava na Universidade de Glasgow, construindo instrumentos científicos quando, durante a reparação de um modelo de máquina a vapor de Thomas Newcomen, percebeu que poderia resolver sua ineficiência. Patenteou em 1769 o dispositivo condensador de vapor em separado que, evita perda de energia por meio do resfriamento do cilindro e o êmbolo de dupla ação, ou seja, o vapor é aplicado nos dois lados do cilindro e não de apenas um. Formou então uma proveitosa sociedade com Matthew Boulton, industrial em Birmingham, que comprou sua patente em 1774, possibilitando o desenvolvimento de outras idéias e a melhoria da máquina a vapor que recebeu seu nome. No final esta máquina era 75% mais potente que a de Newcomen e mais econômica no consumo de carvão, que se tornou fundamental para o sucesso da Revolução Industrial na Inglaterra e em outros países europeus.

O Imperador sorriu amavelmente, o que estimulou o professor a prosseguir nos detalhes:
- Trevithick, um hábil mecânico, havia trabalhado na empresa Bulton & Watt e utilizou um pistão para acionar um volante de inércia vertical que através de engrenagens acionava rodas motrizes, de sua primeira locomotiva. Esta pesava cinco toneladas, podia desenvolver uma velocidade de cinco km/h, quase a mesma velocidade de um homem caminhando, sendo capaz de arrastar cinco vagões com 10 toneladas cada.

Puxou um pigarro e continuou:
- Embora a solução do volante de inércia, já muito utilizado em bombas a vapor, por trazer benefícios mecânicos pela conservação do movimento circular na transmissão da força horizontal do pistão para a biela, produzia por outro lado, danos à via permanente pela força de reação perpendicular ao plano de giro do volante de inércia. Esta reação ao movimento circular é a força vertical que mantém, por exemplo, um pião girando em equilíbrio em um plano horizontal. Na posição vertical, a reação do giro do volante de inércia tendia fazer a locomotiva de Trevithick querer andar somente em linha reta; fazer curvas era uma dificuldade.
- Este volante de inércia não é aquele mecanismo inventado por Leonardo da Vinci... – comentou o Imperador cofiando a barba e deixando perceber que acompanhava bem a explicação técnica.
- Exatamente, alteza. Mas, como não deu certo por causa do posicionamento no seu eixo na horizontal ao invés de na vertical. Já em 1808 Trevithck abandonou esta idéia e criou uma máquina mais versátil, que percorria em velocidade maior uma linha circular, com o sugestivo nome de Catch-me-whon-can, como uma atração de circo. Mal sucedido financeiramente pelos problemas decorrentes de utilizar processos já patenteados pelo seu antigo patrão, Trevithick morreu sem assistir o êxito de seu invento.
- É quando surgem os Stephenson, pai e filho?
- Exatamente. Apesar do insucesso, Trevithick deu as bases para que outros ingleses, George Stephenson e seu filho Robert fossem bem sucedidos, ao incorporarem vários aperfeiçoamentos de outras máquinas a vapor. Dentre elas podem ser citadas a caldeira aquecida por tubos por onde fluíam os gases quentes, original do francês Marc Seguin, aumentando a superfície aquecida em contato com a água; o sistema de tiragem forçada do vapor usado nos cilindros pela chaminé dianteira, criando uma zona de baixa pressão para sugar os gases ao longo da caldeira, o vagão tandem de água e combustível separados do corpo da locomotiva...
- E por aí vai... - interrompeu o Imperador, demonstrando certa impaciência com os detalhes técnicos. O interlocutor percebendo logo concluiu:
- Sim. Foi com uma máquina denominada Locomotion construída eles que 27 de setembro de 1825, a primeira ferrovia comercial do mundo foi inaugurada, com 32 km de extensão ligando as localidades de Stockton a Darlington, na Inglaterra. O ano de 1825 foi um grande marco para a humanidade, inclusive data de seu natalício alteza...

Diante disto o Imperador fez um gesto brusco e interrompeu a preleção e agradecendo as informações deu a entender ao professor que estava satisfeito. Fazendo uma mesura este se retirou um tanto constrangido, pois ainda tinha muito a falar sobre o formidável invento que revolucionava os meios de transporte.

Tão logo foi inaugurada a ferrovia do barão de Mauá, o comendador Mariano Procópio foi surpreendido por um fato inusitado: o Governo Geral contratara o estaleiro e fundição da Ponta da Areia, em Niterói, para terminar a ponte na Vila de Paraíba do Sul. Utilizando um projeto concebido por seu engenheiro inglês Dadgson, esta ponte seria a primeira metálica do Brasil, utilizando treliça arqueada. O pedágio cobrado seria de 100 réis por cavaleiro e 60 réis por cabeça de gado que a atravessasse. Iniciada em 1836 pelo major Koeller, a ponte sofrera várias paralisações por falta de recursos públicos para custeá-la, só concluído, nestes 19 anos apenas os pilares, ao custo de 176 contos de réis.

Como não conseguiu entendimentos com o barão de Paraíba e o primo Hilário, Mariano projetara uma nova ponte para vencer o Rio Paraíba do Sul, mais curta do que a da Vila. No local cedido pelo barão de Entre-Rios para a nova ponte, nas terras da sua fazenda do Cantagalo, o rio se alargava, possibilitando a formação de ilhotas onde brotavam árvores que eram utilizadas por centenas de garças brancas para nidificarem.

Segundo o sempre entrosado politicamente o major Carvalhinho, o governo cedeu às pressões e investiu numa mesma obra inconclusa. O Rio Paraíba do Sul, que durante anos desafiara os viajantes do Caminho Novo, obrigados a utilizar barcaças para transpô-lo teria, na mesma época, duas pontes, distantes menos de duas léguas uma da outra. Considerou um exemplo de desperdício de recursos públicos.

Mariano Procópio não se deixou abater pelas forças políticas dos ferroviários, pois conseguiu também em Minas Gerais, através da Lei Provincial número 51 de 25 de setembro de 1854, a garantia juros de 5% sobre o capital que a Cia. União e Indústria formassem para construir a estrada e como o Governo Imperial acresceu mais 2%, a garantia totalizava 7% anuais sobre o capital destinado à construção e conservação da estrada, superior, portanto ao conseguido pelas ferrovias.

As duas pontes próximas, uma incoerências política, não abalaram seus esforços de conseguir em Londres os empréstimos necessários para a rodovia. Aliás, reveses políticos em sua vida não era novidade. Em sua terra de adoção teve problemas quando definiu o traçado, irritando de certa maneira a elite local. Desviou a rota da União & Indústria da diretriz Norte-Sul que Henrique Halfeld traçara que passava bem no centro da Cidade de Santo Antonio do Paraibuna, fazendo a estrada acompanhar o Rio Paraibuna pela margem direita. Evitava circular pelo centro da Vila, mas teria de vencer um grande obstáculo natural, do porte da Serra do Taquaril na Província do Rio de Janeiro, a Serra dos Marmelos, na Província de Minas Gerais – que Garcia Paes evitou enfrentar a 150 anos, quando abriu o Caminho Novo.

O orçamento original iria estourar, mas Mariano Procópio não se intimidou e, para conseguir o apoio do Imperador ousou ainda mais, prometendo que sua Companhia financiaria a vinda da Alemanha de 2.000 novos colonos e criaria uma Escola Agrícola, onde se estudaria as melhores técnicas de lavoura. Os filhos de fazendeiros na zona de influência da estrada poderiam ali matricular seus filhos e os lavradores que não tivessem condições de pagar, mas fossem estudantes aplicados, receberiam bolsas de estudo da própria companhia. O Imperador, que nunca deixava de acompanhar os exames anuais do Colégio Pedro II para valorizar os alunos aplicados, ficou especialmente satisfeito. Todos souberam então, que Mariano Procópio era amigo e dileto protegido do Imperador do Brasil.

Quando, um mês depois, a notícia chegou à Corte no Rio de Janeiro foi surpresa geral. No dia 9 de feve¬reiro de 1855, com base no Decreto 641, o Ministro brasi¬leiro em Londres, Sérgio Teixeira Macedo, assi¬nara um contrato com o empreiteiro Edward Price para a construção de:

Um bom e sólido cami¬nho de ferro, de um ponto do lado norte da es¬trada de São Cristóvão, nos arrabaldes da cidade do Rio de Janeiro, a outro ponto próprio para uma estação em planície junto ao Rio Guandu, que corre entre as fazendas Bom Jardim e Belém, seguindo a direção mais próxima que puder ser indicada na planta da província do Rio de Janeiro, apresentada ao Governo por Mr. Price, cujos termos estão designados naquela planta com as letras A, B.

Em 9 de maio, através do Decreto 1599 ficou constituída a Companhia da Estrada de Ferro D. Pedro II, que tomaria a seu cargo a responsabilidade de cumprir o contrato com o empreiteiro Price. O inglês Cochrane, detentor da concessão, fora alija¬do, o que prometia uma grande batalha judicial. Entretanto, no dia 22 de junho, assinou documento desistindo em favor da Companhia recém criada, dos direitos que considerava ter. Recebeu uma indenização de valor equivalente a trinta e cinco mil libras. Depois de uma luta in¬cessante de quinze anos, Thomas Cochrane perde o privilégio. Porém, entusiasta ferroviário, prometeu investir as trinta e cinco mil libras em outro projeto de ferrovia urbana a E. F. Tijuca, que seria a primeira linha de bondes da Corte.

Quando os efeitos do contrato chegaram ao interior, especificamente na fazenda Boa União, imediatamente major Carvalhinho convocou o cunhado para examinar a situação. Ele já havia iniciado as negociações políticas na Corte visando obter também um título de Barão, pois como o sogro, o barão de Entre-Rios, doara também um grande trecho da fazenda da Boa União para travessia da rodovia. Aproveitou que o mestre canteiro Emilio que estava pela região e mandou também chamá-lo.

- Está me parecendo uma manobra do Poder Moderador, jogando o Partido Conservador contra o Partido Liberal, não é? Irineu, do Liberal, faz uma ferrovia, os Teixeira Leite, do conservador, fazem outra. Ambas seguem pelo Caminho Novo. Para qual vai o café?
- É verdade, as duas vão atender a mesma região, transportar a mesma mercadoria para um mesmo destino: o porto do Rio de Janeiro – concordou Antonio.
- Como ficará a rodovia neste caso, Emilio?
- Bem, pelo que o comendador Mariano me informou, o projeto dele é um transporte combinado, aproveitando o melhor da tração animal na rodovia, do trem na ferrovia e de embarcações na baía da Guanabara.
- Vence a corrida quem chegar primeiro? – perguntou Carvalhinho.
- Acho que vence quem tiver mais dinheiro. Neste caso a Cia. da Estrada de Ferro D. Pedro II será a vencedora, numa disputa com os luzias do grupo de Mauá – concluiu Antonio Barroso.
- Até pelo nome escolhido para a companhia já demonstram certa astúcia. Mas o problema é que infiltraram um luzia na direção. O contrato assinado com Price foi imposto à Assembleia Geral de Acionistas da Cia. de Estradas de Ferro D Pedro II, que nomeou Cristiano Benedito Otoni, já que o pre¬sidente indicado pelo Governo, Visconde do Rio Bonito não aceitou o encargo.
- O irmão do Teófilo Otoni?
- Sim. Isto deve ter o dedo do comendador Souza Breves, que deu abrigo em sua fazenda a Pedro Ivo, lider da Revolução Praiana, quando ele fugiu da fortaleza no Rio de Janeiro. A carrugagem de Teófilo Otoni foi usada na fuga.
- Mais uma aparente incoerência do nosso Imperador, colocar o irmão de um lider liberal na direção de um projeto patrocinado por políticos conservadores. O senhor, mestre Emilio, que conviveu alguns anos próximo ao Imperador, tanto nas obras do Palácio Imperial em Petrópolis como no Paço de São Cristóvão, ele é autoritário?
- Bem, eu não tinha a proximidade suficiente para saber, pois era um simples operário especializado. Porém, ouvi alguns casos contados, da intimidade do Palácio que dão uma idéia geral.
- Reina e governa?
- Como?
- Numa monarquia parlamentarista como a nossa, o monarca deve reinar mas não governar, que deve ser atribuição do Gabinete, dos ministros. Mas na nossa, quem nomeia o Gabinete é o Imperador. Portanto, indiretamente governa.
- Como estrangeiro eu não tenho um conhecimento da cultura suficiente para fazer julgamentos, porém pelas evidências, desde o que vocês chamam de Golpe da Maioridade, uma proposta liberal de governo mas que, depois de aprovada, o governo passou na sua maioria para as mãos dos conservadores. Portanto, ele governa sim. Além disso tem um grande preparo intelectual, pois vive estudando.
- Talvez ele não goste do dia-a-dia do governo, das costuras da politica, mas tem um plano de desenvolvimento para o país, claro apenas na sua própria cabeça, e interfere quando acha que seus súditos mais próximos estão desviando dele.
- Deve ser isso mesmo.

As obras da estrada de rodagem União e Indústria que tiveram início em Petrópolis, no dia 12 de abril de 1856, sendo inaugurada uma placa alusiva com a presença do comendador Mariano e os engenheiros encarregados do projeto e da Família Imperial continuava com todo entusiasmo, independente do início na mesma época das obras ferroviárias da Cia. Estrada de Ferro D. Pedro II. A União e Indústria fora bem sucedida ao lançar na praça do Rio de Janeiro: 10 mil ações no valor de 500 mil réis cada, totalizando um capital de 5.000 contos de réis.

O barão de Entre-Rios logo subscreveu algumas ações e convidou o sobrinho a fazer a mesma coisa, pois isto poderia ajudá-lo quanto à solicitação de baronato. E foi o que aconteceu ainda em 1856.

Quando a notícia chegou à Vila de Paraíba, todos se prepararam, pois as comemorações se arrastariam pos uma semana. A sede da fazenda da Boa União foi toda enfeita para a festa, dezenas de porcos e três novilhos foram abatidos para um grande churrasco, onde a cachaça foi liberada para todos os escravos. O major Carvalhinho seria a partir de então conhecido como Barão do Rio Novo, sendo Mariana Claudina a baronesa do Rio Novo. O cunhado Antonio Barroso, dias depois que a festa havia encerrado o chamou numa conversa particular.

- Valeu a pena o investimento no título de nobreza, primo?
- Sob o ponto de vista financeiro ou político?
- Financeiro, primeiramente.
- A papelada para a concessão do título custou 750 mil réis, mais 366 mil réis do registro e 170 mil réis para o brasão, ou seja, um total de um conto e duzentos e oitenta e seis mil réis, praticamente o preço de um bom escravo do sexo masculino.
- Barato. E os demais títulos?
- Tenho uma tabela que o primo pode arquivar, já que gosta de números: Barão 750 mil réis, como disse; Visconde um conto e 25 mil reis; Conde um conto e 575 mil réis; Marquês dois contos e vinte mil réis e Duque dois contos e 450 mil réis. Sobre todos estes títulos acrescem-se as despesas fixas de 366 mil réis para registro e 170 mil réis para o brasão.
- Realmente é muito pouco mesmo. Mas não tem outros custos?
- Claro que tem. Teremos que investir numa grande casa em Petrópolis. Já vimos um lote na Rua do Imperador, a menos de 100 metros do Palácio Imperial, que vai nos custar muitos contos de réis. Os custos indiretos necessários para conseguir a admiração do Imperador e faze-lo assinar a papelada de concessão dos títulos é o mais caro.
- Mas politicamente é vantajoso...
- Sem dúvida! Esta é a grande vantagem, uma prova de poder junto ao Imperador, convites para cerimônias importantes, assunção de cargos, indicações... Até mesmo no simples voto, entre um comendador e um barão, quem você acha que o eleitor irá votar? É claro que no barão!
- A partir de então só irei referir a você primo e à minha irmã como o barão e a baronesa do Rio Novo!

A reação à instalação da Cia. Da Estrada de Ferro D. Pedro II não tardou. O barão de Mauá, apesar de não contar com o respaldo da Lei da Garantia de Juros, continua investindo no prolongamento de sua linha inaugurada em 1854 e no dia 16 de dezembro de 1856, inaugura o trecho até a Raiz da Serra, ficando assim a Ferrovia com seus 16 quilômetros de extensão. Quando se reuniu com seus conselheiros mais próximos, entre eles o professor da Escola Militar, que viu chances de continuar as explanações sobre tecnologia ferroviária, o Imperador perguntou:
- A ferrovia do barão chegou ao pé da serra. E agora?
- Ele está estudando um sistema de cremalheira inglês, com base na força da água.
- Como?
- O sistema ainda não foi testado na prática, pois não existe ferrovia nenhuma no mundo o utilizando...
- Como funciona?
- Consiste na instalação, sobre os dormentes de uma canaleta por onde corre um fluxo de água controlado. No veículo de tração, que faz o papel de locomotiva, existe uma roda d’água, como a utilizada em barcos, que ao ser mergulhada na canaleta aciona dentes de engrenagens ao longo da linha. Regulando-se a quantidade de água, que movimenta as pás, o trem sobe; diminuindo o trem desce. Portanto, o controle é todo na água.
- Vai funcionar?
- Eles pretendem convidar o Imperador para um teste. O comandante da fábrica de pólvora da Serra da Estrela está ajudando o barão de Mauá neste projeto experimental.
- Interessante, se me convidarem eu vou sim.
- Mas existe uma alternativa para subir a serra: o sistema que está sendo projetado para a Serra de Santos, o funicular.
- Funicular?
- A origem é latina, funiculus, que significa corda, cabo. Trata-se de máquinas fixas instaladas no topo de planos inclinados por onde passa um cabo em fim. Num sistema de contrapesos, enquanto um trem sobe outro desce. Era utilizado nas minas de carvão inglesas, mas nunca foi adotado antes para vencer uma diferença de nível de 800 metros, como será em Santos, poderá ser usado na ferrovia que o barão de Mauá tem a concessão. Serão oito quilômetros com rampa de 10%.
- Vai dar certo?
- Bem, alteza, neste sistema não se depende da força d’água diretamente, mas da força do vapor, que é mais confiável. Ele prevê a utilização de uma pequena locomotiva, chamada loco-breque, que traciona o trem no trecho plano, no início e fim de cada plano inclinado e por intermédio de uma tenaz morde o cabo do funicular, arrastando os vagões. Outra coisa interessante deste sistema é que apenas no meio do trecho entre planos inclinados é necessário que a linha seja dupla, para que os trens, o que desce e o que sobe possam se cruzar. No restante do trecho é uma linha singela, única, o que barateia o custo.
- O barão pode comprar o mesmo equipamento e adotar o sistema na Serra Estrela?
- Sim, mas terá que fazer alterações na bitola, isto é, a distância entre a face interna do boleto dos dois trilhos da linha. Aqui na ferrovia de Mauá foi adotada a bitola de 1.676 mm, mas para subir a serra será adotada a bitola de 1.600 mm.
- Como?
- Bem, como eu lhe havia informado na reunião anterior, no Brasil nós começamos a ferrovia com tecnologia atrasada.
- Por quê?
- Deveríamos ter adotado a bitola de 1.435 mm, ou quatro pés e oito e meia polegada, que foi a primeira adotada por Stephson. A Inglaterra em 1846 o Parlamento fixou esta bitola como padrão. A França, Alemanha também padronizaram suas linhas nesta medida. A própria Cia. Da Estrada de Ferro D. Pedro II também adotou a bitola de 1.600 mm.
- E nos Estados Unidos?
- Bem, lá existem atualmente 13 bitolas diferentes.
- Por quê?
- As razões que justificam são desencontradas, pois seria muito mais racional padronizar os equipamentos, mas provavelmente, a definição de zonas comerciais, impedindo que equipamentos de outras ferrovias concorrentes penetrem nesta zona sem pagar pelo baldeio é uma boa explicação. Neste caso eles estão igual ao Brasil, cada ferrovia adota a bitola que lhe for conveniente.

A MULA DO OURO - Capitulo 10

Capítulo 10
Vencendo Grandes Desafios


Às dez horas da manhã de 29 de março de 1858 circulou oficialmente, conduzindo toda família imperial, o primeiro trem na E. F. D. Pedro II. Inaugurava-se o trecho de 48 km da Estação do Campo até Queimados.

Era uma manhã ensolarada, quando o imperador, acompa¬nhado da imperatriz Teresa Cristina, chegou à Estação da Corte, para inaugurar a terceira estra¬da de ferro do Brasil. Pouco antes, no dia 8 de fevereiro, havia sido aberta ao tráfego a Estrada de Ferro Recife a São Francisco - a primeira companhia organizada, na Europa, para a cons¬trução de estradas de ferro no Brasil. No regresso, às 15 horas, D. Pedro II e convidados foram recepcionados pela Diretoria, ocasião em que Cristiano Benedito Otoni recebeu o título de Conselheiro do Império.

As obras do segundo trecho já prosseguiam em direção a Belém, na raiz da serra das Araras. No entanto, o terreno alagadiço, devido às cheias do rio Iguaçú, provocava febre e estava prejudicando o trabalho. Chamado a ajudar, já que por lei não se podia usar braço escravo em obras ferroviárias, o major Souza Breves apresentou ao empreiteiro inglês da obra, Edward Price, um chinês que conseguiriam trazer a quantidade de trabalhadores necessária, inclusive alguns experientes em trabalhar nas ferrovias americanas na Califórnia. O comendador ficou exultante pois, desta forma, conseguiria resolver o problema da proibição dada pela Lei Eusébio de Queiroz de importar mão-de-obra da África. Tratou logo de vender a idéia para seus colegas fazendeiros de café. A notícia chegou na fazenda da Boa União, onde os primos estavam reunidos:
- Sabe da última do comendador Souza Breves? – perguntou Antonio Barroso ao major Carvalhinho, seu cunhado.
- Outra manobra política para fortalecer os liberais?
- Não, desta vez não é política, mas financeira. Quer importar chineses para substituir os negros na lavoura.
- Como? Implantar a escravidão amarela no país?
- Diz que são homens livres...
- Livres como? Eu já ouvi falar com regime que foram submetidos quando D. João VI teve a mesma idéia para cultivar chá na sua fazenda em Campo Grande. Não conhecem a língua, chegam endividados, ganham uma miséria. É, sim, uma escravidão disfarçada.
- Soube que ele convenceu os empreiteiros da Cia. Estrada de Ferro D. Pedro II e já encomendou 5 mil colies, como chamam os chineses.
- Quero ver estes resistirem ao calor e às febres. Mas vamos tomar providência, esta será a última importação.
- Vai propor a criação de leis?
- Claro que não. Será apenas conversa de bastidores. Nossa política é aumentar a participação percentual de cidadões de origem européia na população. Nunca deveremos esquecer o exemplo do Haiti. Não tem sentido, não está na preservação de nossos valores culturais, que vieram da Europa, importar chineses agora, em plena fase de estímulo à vinda de colonos europeus. Só mesmo a cabeça do Souza Breves, que tem total desrepeito pelas pessoas...
- Já ouviu falar da sua estátua de ébano?
- Não, de que se trata.
- Quando recebe um grupo de visitantes novos na sua fazenda, manda que uma menina negra fique nua sobre um pedestal, coberta de óleo. Todos ficam admirados da perfeição da escultura. Aí ele estala os dedos e a menina dá um pulo assustando todo mundo e sai correndo. O comendador morre de rir!

Como numa disputa, menos de um mês depois da inauguração da ferrovia que tinha o nome do Imperador, no dia 18 de abril foi inaugurada, também com sua presença, em Petrópolis, a primeira seção da rodovia da Companhia União e Indústria, até o povoado de Pedro do Rio.

Estava à frente de Mariano Procópio o trecho mais crítico: 30 km entre Pedro do Rio e o povoado denominado Posse. Para vencer a Serra do Taquaril Mariano Procópio contratou dois engenheiros franceses, monsieur Garou e monsieur Flagellot. Acelerou a vinda dos alemães, que através da casa Mathias Shröeder de Hamburgo, enviou o primeiro grupo de 232 pessoas em maio, o segundo de 182 em junho, o terceiro com 290 em julho e o quarto e último com 246 em agosto, totalizando 950 pessoas. A grande maioria desses alemães preferiu seguir para a Província de Minas, onde foi fundada a Colônia Agrícola D. Pedro de Alcântara, que abrigou a maior parte; alguns operários especializados preferiram se estabelecer próximo da estação final da Estrada, junto à cachoeira da Borboleta e uma pequena parte se estabeleceram em Petrópolis, juntando-se aos primeiros colonos alemães que ali chegaram 13 anos atrás.

Entre Pedro do Rio e Posse a estrada precisava ser aberta em plena rocha. Um dos cortes tinha a extensão de 425m e em alguns pontos os paredões de arrimo chegavam a 18m de altura. Lá embaixo o Rio Piabanha corria ruidosamente em cachoeira, num estreito vale de rochas.

Convocado para trabalhar neste trecho, já que os trabalhos de erguer os pilares na Ponte das Garças corriam bem, Emilio ficou preocupado quando observando os veios do granito percebeu que houvera, em tempos muito remotos, um grande movimento geológico, pois as rochas pareciam inclinadas mais de 45 graus. Desceu com um engenheiro até o fundo do vale e atestou que rochas fragmentadas represavam o rio, formando as ruidosas cachoeiras, haviam, portanto deslizado do alto da montanha. Qualquer explosão mais violenta na abertura da estrada poderia provocar um aumento nas fissuras naturais, correndo-se o risco de uma grande placa cair sobre os operários durante a obra ou sobre a estrada em operação, quando a água das chuvas de verão infiltrasse através da rocha, já que ao longo do trecho havia muitas bicas d’água. Foi-lhe solicitada então uma investigação do outro lado do rio, por onde a estrada poderia ser desviada.

Aos 43 anos, Emilio percebeu que precisa de um auxiliar mais jovem que o ajudasse no entendimento com os engenheiros franceses, foi quando se lembrou de Tuca, da fazenda da Boa União, que aprendera francês desde criança com sua mãe Camila, segundo lhe informou os fazendeiros Antonio Barroso e o major Carvalhinho.

No fim de semana seguinte, na sede da fazenda da Boa União, colocando o problema para o major Carvalhinho, este concordou imediatamente. Conversou com Mariana Claudina, que imediatamente mandou Camila convocar o filho.

Aos 13 anos Tuca já media mais 1,75m de altura, aparentando idade superior. Emilio assustou-se com este crescimento rápido, mas aceitou como natural, pois Camila também era uma mulher alta. Sua pele era mais clara do que a de sua mãe, indicando ser um mulato com 75% de sangue branco, um típico e miscigenado cidadão brasileiro.

Tuca ouviu com atenção, arregalando bem os olhos verdes, as explicações do mestre galego sobre o tipo de trabalho que deveria desenvolver tornando-se seu principal auxiliar no contato com os engenheiros franceses. Nascia naquele momento uma camaradagem entre os dois tão intensa como o relacionamento entre pai e filho.

Mariana ficou observando os dois conversando e pensou em sua mãe, na idéia que a atormentava sobre a verdadeira identidade do pai do rapaz. Se testemunhasse a conversa dos dois, com certeza apostaria em Emilio.

Desde os tempos coloniais as montanhas brasileiras, embora não atingindo grandes altitudes, já que a máxima não passa dos 2.500 m, representaram um grande obstáculo à penetração no interior. A Serra do Mar, na mais desenvolvida Capitania Hereditária, a de São Vicente, parecia aos primeiros exploradores portugueses como um imenso muro, um paredão vertical, com 800 metros de altura que barrava o acesso a terra. Desde o norte da Província do Rio Grande do Sul até o sul da Província da Bahia, a Serra do Mar, designação geral, pois recebe vários nomes locais, exigia que a exploração começasse pela foz dos rios que a cruzavam. Porém, depois de vencido este desafio, para chegar às ricas jazidas de ouro da Província de Minas Gerais era necessário também vencer outra cadeia de montanhas de igual porte, a Serra da Mantiqueira. No início da segunda metade do século XIX, quando a ferrovia era a última palavra em tecnologia de transportes, o principal desafio continuava sendo vencer a Serra do Mar.

Havia ficado claro durantes as obras que o relacionamento dos diretores da Cia. da EFDPII com o pessoal do empreiteiro Price não era dos mais cordiais. Principalmente pelo grau de liberdade que o contrato lavrado em Londres permitia.

Quando o engenheiro Bayliss, representante de Price, recusou a entregar o segundo trecho de Queimados a Belém para ser inaugurado, sem que a companhia satisfazesse de¬terminadas exigências que Cristinano Otoni julgou absurda, pediu ele o auxílio da força pública. Quando chegou no local, num trem especial, com o chefe de polícia da província do Rio de Janeiro e um destacamento de soldados, encontrou uma cancela fechan¬do a linha e içada sobre ela uma bandeira inglesa. Sentado sobre os trilhos, Bayliss, numa atitude desafiadora.

O professor do Colégio Militar, Cristiano considerou tal atitude uma ofensa à soberania nacional e exigiu que a bandeira inglesa fosse arri¬ada, a cancela arrombada e Bayliss foi arredado da linha para dar passagem ao trem. Encerrou-se assim a participação do empreiteiro inglês na construção da ferrovia, já que a direção recusou todas as propostas apresentadas pelo empreiteiro Price. As obras passaram a ser tocada pela própria companhia, contando para isso com recursos da arrecadação de fretes.

Porém, tal como aconteceu na ferrovia de Mauá, o café continuava em lombo de burro já que, depois de dias de viagem, não era interessante usar a ferrovia num curto trecho. Reconhecendo que a inauguração do primeiro trecho de 64 km não havia carreado para a ferrovia todo o café que descia a serra das Araras pela chamada Estrada do Comér¬cio, em direção à Vila de Iguaçu, onde era embarcado em chatas, seguindo pelo rio até a baía da Guanabara, Otoni mandou construir uma linha que denominou Ramal de Macacos. A medida deu resultado e a ferrovia pode absorver toda a carga, que não mais seguia pelo rio. Este, sem movimento foi logo assoreado, tornando inviável a navegação fluvial até a baía da Guanabara, que havia sido a única forma econômica de escoamento durante muitos anos.

Para vencer a serra das Araras, Otoni evitou as soluções consideradas exóticas propostas pelos ingleses, como o sistema funicular e de cremalheira. Mandou vir dos Estados Unidos um engenheiro militar, o coronel F. M. Garnett, que tinha experiência de construir de mais de 1500 km de ferrovia nas Montanhas Rochosas. No levantamento que este fez verificou ser possível vencer a serra na quota máxima de 446 metros, na localidade denominada Rodeio, embora tivesse que construir vários túneis. Para a ferrovia atingir a bacia do Rio Paraíba, mantendo uma rampa máxima de 2% foram os 16 túneis projetados, sendo o maior o décimo segundo contado a partir de Belém, com 2.238 m de comprimento, que imediatamente foi apelidado de Tunel Grande.

O Imperador Pedro II foi cientificado dos planos da ferrovia e convocou a diretoria da companhia para as justificativas, diante da grande necessidade de recursos que a companhia estava exigindo dos investidores, sendo o principal o próprio Governo Imperial. Ouviu silenciosamente as ponderações e ficou convencido quando Otoni afirmou:
- Nós não estamos construindo uma ferrovia para o Brasil de hoje, mas para o Brasil do futuro. Não podemos dividir os trens. É preciso que os trens que correm na baixada galguem a serra para correr no planalto, senão não haverá desenvolvimento econômico possível para as províncias de Minas e de São Paulo.

Dom Pedro II autorizou então que o Governo Geral capitalisasse a companhia, mesmo que tivesse que se tornar seu maior acionista.

Grande apuro financeiro estava passando também Mariano Procópio com sua estrada de rodagem. Os trabalhos nas duas serras onde a estrada desviava da rota do Caminho Novo, em Marmelos em Minas Gerais e no Taquaril no Rio de Janeiro superaram as expectativas iniciais.

O trabalho de cantaria era muito grande, pois seguindo pelos vales dos rios Piabanha e Paraibuna a estrada atravessava vários cursos d’água, sendo sinuosa, mas com raios de curva nunca inferiores a 30 metros e a rampa máxima não superava 3%. No trecho fluminense de 96 km, denominado Aquém Paraíba era maior, correspondente a 2/3 da extensão total, já o trecho mineiro de 48 km, denominado Além Paraíba tinha 48 km. A obra de arte mais importante da estrada era a Ponte das Garças, nas terras da fazenda do Cantagalo, que media 153 m de extensão, com três vãos de 51 m e pilares de 1,80 m de espessura. A altura das vigas da cabeceira de 5,30 m e largura de 5,50 m, formando uma caixa em treliça metálica montada no local. O engenheiro José Keller, responsável pelas obras Aquém Paraíba, acompanhou de perto o serviço de montagem das peças encomendadas na Inglaterra.

A Ponte das Garças custou 400 contos de réis aos cofres da Cia. União e Indústria, mas economizou 21 km de extensão da estrada, caso tivesse sido aproveitada a ponte da Vila de Paraíba, que no total custou 577 contos de réis sendo entregue ao público no dia 13 de dezembro de 1857.

Para tratar desta obra de arte que correspondia ao principal obstáculo da Companhia, Emilio foi convocado a uma reunião no Paço da Boa Vista como assessor de Mariano Procópio. Deveria aguardar na sala de espera para caso fosse solicitada sua presença por alguma questão técnica formulada pelo Imperador.

Confundindo-se no horário, Emilio chegou antes da hora e encontrou na sala de espera dois senhores altos de peles muito branca que conversavam num idioma que, apesar de muitos anos sem ouvir logo identificou: hebraico. Imediatamente o período que viveu com o tio no bairro judeu de Ourense lhe veio à lembrança. Quando os dois olharam em sua direção arriscou e comprimento-os no idioma. Eles imediatamente abriram-lhe um sorriso e entabularam uma conversação rápida que Emilio teve de interromper, pois seu conhecimento do idioma era primário. Descobriu então que acabara de conhecer o sueco Aker Blom e seu amigo que estavam ali para ministrar aulas de hebraico para o Imperador, que tinha interesse em conhecer a história e a literatura dos judeus e os livros dos profetas.

Sempre atento às possibilidades de bons negócios, Antonio Barroso pediu que seu cunhado, o barão do Rio Novo que procurasse o muladeiro Valenciano. Para as doze estações de muda da Companhia União e Indústria seriam necessárias um milhar de muares (600 para os carroções do transporte de carga e 400 para tracionar carruagens de passageiros). Como grande fornecedor da fazenda e antigo profissional do ramo, Valeciano seria muito útil, pois a fazenda do Cantagalo poderia ser a maior fornecedora da companhia, devido à colaboração que fizeram para viabilizar a rodovia.

- O Valenciano não está já muito idoso para esta nova empreitada, primo?
- Alguém de nossa confiança poderia acompanhá-lo. Pensei no Tuca.
- No Tuca?
- Sim, já é um rapaz e deverá ter um ofício no futuro. O Valenciano gosta muito dele e poderá passar-lhe todos os segredos da profissão. Coisa que não se aprende na escola.
- Pode ser mesmo uma boa idéia. Mas quantos animais iremos adquirir?
- Estou pensando em duas dúzias de animais para reprodução na fazenda.
- Só?
- O importante na viagem será estabelecer parcerias com os melhores fornecedores que Valenciano conhece como ninguém, pois lida com eles há quase 50 anos. Fecharemos acordo de exclusividade, de tal forma que qualquer outro comprador do comendador Mariano Procópio encontrará as porteiras fechadas. Apenas por nosso intermédio terá o plantel necessário.
- Assim nós logo vamos recuperar o investimento feito, as terras cedidas...
- E por que não? É proibido ganhar dinheiro?
Camila acordou Tuca bem cedo, antes das cinco horas da manhã, pois Valenciano partiria as seis, tão logo o dia clareasse. Juntou suas roupas em um saco e foram tomar café na cozinha com a avó Tônia. Camila olhou para o filho e retirou de seu pescoço o colar de ouro fino com a medalha de N. S. da Piedade e chamou Tuca.
- Venha cá, meu filho. Vou passar-lhe um presente que ganhaste no dia do seu nascimento, pelas mãos da própria Imperatriz, Dona Teresa Cristina.
- Mas não é uma jóia de mulher, minha mãe?
- Você use por dentro da camisa, ninguém irá ver. N.S. da Piedade vai sempre lhe proteger durante a viagem e para o resto de sua vida.

Em silêncio, observando estava a baronesa do Rio Novo que também acordara mais cedo e viera se despedir de Tuca. Abraçou-o e desejou-lhe boa sorte.

Logo que Valenciano chegou, montado em um burro de cor castanha alto, Tuca percebeu que lhe trazia uma mula pedrês também alta, já arreada. Estava acompanhado de dois outros homens também montados em muares, que arrastavam dois animais de carga por uma corda, duas mulas fortes, mas de estatura baixa. Valenciano foi logo dando as instruções:
- Tuca, esta viagem será um curso para você. A primeira lição então, é deixar a Princesa lhe conhecer. Coloque a sua bagagem sobre o primeiro animal de carga e venha cá. Tuca obedeceu e retornou até Valenciano chegou com ele à frente de Princesa (a mula que seria sua montaria), andando vagarosamente. Ela levantou as orelhas e ficou atenta à aproximação dos dois.
- Deixe-a sentir seu cheiro. Vai ser sua companheira na ida e na volta. Agora, com cuidado, sem movimentos bruscos, faça carinho no pescoço dela. Enquanto eu vou tomar um café com a Tônia, você a escove bem escovado – disse estendendo-lhe o instrumento.

Vinte minutos depois estavam de partida. Tuca andando à frente, emparelhado com Valenciano, Adão, um mulato forte e barbado, com chapéu enterrado na cabeça seguia depois, puxando os animais de carga e Batista, um negro franzino, seguia atrás. Esta formação só se alteraria em ocasiões raras.

- Nosso plano é visitar seis fazendas, duas na região de São João Del Rei e quatro no Norte de Minas. No caminho você vai aprender tudo que eu puder te ensinar neste tempo sobre a lida com animais de carga e de tração. Vamos fazer neste primeiro dia de cinco a oito léguas, ou seja de 30 a 48 km, depois vamos manter um ritmo de oito léguas por dia. Você nunca cavalgou tanto, não é?
- Nunca, no máximo três horas seguidas...
- Princesa é uma mula marchadora. O passo da marcha, que é quando as patas traseiras ultrapassam a pegada das patas dianteiras. Não cansa tanto o cavaleiro como os socos do trote ou do galope de um cavalo.
- Por que burro e não cavalo?
- Quando se precisa de um animal grande e forte como um cavalo e ao mesmo tempo resistente, trabalhador e dócil como um jumento, a resposta é cruzar o jumento com a égua e obter a cria, que pode ser um burro ou uma mula. Aprendem rápido, são ágeis, flexíveis e o peão pode montar o mesmo animal o dia inteiro, sem prejudicá-lo.
- Não pode ser o contrário, cruzar cavalo com jumenta?
- Pode, mas dá uma animal diferente. É o bardoto, mais difícil de criar e tem a desvantagem de ser menor e de herdar o temperamento birrento da mãe jumenta. A mula ou o burro, já herda o tamanho e a constituição da mãe égua, sendo o resultado da cruza mais parecida com o cavalo do que com o jumento, o pai. Além da força, a mula tem uma grande capacidade de equilíbrio, que lhe possibilita andar pelos caminhos mais íngremes, onde um cavalo tem medo de escorregar e estanca. Por isso, nas serras, para transportar café na descida escorregadia e mercadorias diversas na subida penosa, só mesmo uma tropa de mulas.
- Então não vale a pena cavalo?
- Para o serviço que vamos fazer não. Num pasto criado solto, a exigência de trato é também menor, se comparados aos cavalos. Na mesma área onde vive bem um cavalo, dá para colocar duas mulas ou burros. Então, os muares têm custo 50% inferior ao dos cavalos.
- Numa corrida?
- Numa corrida tem que ser cavalo, com muito mais impulsão. Mas o montador tem que ser pequeno, de pouco peso, pois o animal logo cansa.

Seguindo sempre na direção norte pelo Caminho Novo, logo o grupo atravessou a ponte do Paraibuna, na divisa das províncias. Estava agora em Minas Gerais, terra natal de Valenciano, de sua mãe e dos tropeiros que seguiam com o grupo. Quando o sol esquentou, por volta de onze horas, já estavam chegando ao primeiro posto de descanso, uma simples cobertura perto de um riacho, ao lado de uma pequena venda. Valenciano deu as ordens:
- Pegue minha montaria enquanto eu irei à venda do seu Severino saber das novidades. Faça igual os outros, tire os arreios e a carga e solte os animais ali no pasto, porque só vamos retomar a viagem à tardinha, quando o sol tiver mais fraco.

Os animais foram soltos no cercado e saíram corcoveando de satisfação. A tralha toda foi amontoada em um canto e o peão Adão, que também era cozinheiro, começou a preparar a primeira refeição, um feijão tropeiro que Tuca iria saborear pela primeira vez. Valenciano voltou do armazém sorridente.

- Tudo na mais tranqüila ordem no nosso caminho. O movimento de café está firme e vamos ter companhia o tempo todo. Vamos agora procurar o melhor lugar para nossas redes porque boi que chega primeiro bebe a água limpa e logo isto aqui vai estar cheio de peões...

Com a conclusão da rodovia União e Indústria interligando as províncias mais importantes do Brasil, a cidade de Petrópolis passaria a ter uma valorização de imóvel muito grande. O fazendeiro Antonio Barroso então, antes mesmo da rodovia ficar pronta, providenciou a aquisição de um lote na Avenida do Imperador, no número 58 e começou lá edificar também sua residência de verão. Tal medida foi imediatamente aprovada pelo sobrinho, pois permitiria que acompanhasse toda a movimentação política, pois o palco das decisões sempre subia a serra com o Imperador. Como não foi o único, logo várias outras começaram a ser edificada, gerando de imediato uma grande demanda de mão-de-obra especializada de pedreiros, carpinteiros, bombeiros e pintores imediatamente supridos pela colônia alemã da cidade, composta muito mais por artesões do que agricultores, como imaginaram inicialmente o major Koeller e o mordomo Paulo Barbosa, quando propuseram ao Imperador a criação da Colônia Agrícola.

A Lei Eusébio de Queiroz, que tornou crime a importação de mão-de-obra da África desencadeou, como previu Antonio Barroso, um fluxo migratório de escravos da região Nordeste para o Sul. Um escravo na lavoura de cana de açúcar tem um regime de trabalho menos cansativo do que um mesmo escravo na lavoura de café, sem contar o frio da serra. Nas grandes usinas de produção de açúcar, o trabalho maior é feito pelas máquinas, animais de tração e sempre sobra rapadura que os escravos comem escondido o tempo todo e a cachaça é um produto natural da garapa. Na época do corte o trabalho é intenso, mas é um período bem determinado. Comparado com a lavoura de café o regime de trabalho é muito pior, sempre se exigindo desmatamento, replantio, roçada pelo menos três vezes ao ano; colheita em época bem específica, nos meses mais frios e com a exigência de uma quota determinada; tratamento do grão manual ou muito pouco mecanizada e um regime de cobrança ininterrupto, já que o café é um produto valioso. Por isso, os primeiros escravos que vieram para o Sul foram os de pior gênio e reputação, que os proprietários nordestinos queriam se livrar primeiro. Os fazendeiros de café ainda não os conheciam, tratando-os como se fossem os negros africanos que habituaram conviver: pessoas resignadas e sem perspectivas.

Os “baianos”, como eram chamados todos os escravos vindo da região Nordeste, logo começaram a dar problemas. Durante a longa viagem a pé criavam relações grupais, mesmo que originários de diferentes propriedades, não tinham o problema do escravo africano da barreira lingüística e estavam acostumados a um regime de trabalho menos cansativo, apresentando, portanto uma produtividade menor. O mais importante, todavia é que traziam uma cultura mais festiva, musicalidade no falar, no andar e uma nova dança, que chamavam capoeira, mais parecida com uma luta. Os negros magros das plantações de café gostaram de imediato dos novos companheiros, pois logo estavam superando seus professores mais gordos pelo regime de açúcar em excesso.

Nas fazendas dos barões de Entre-Rios e do Rio Novo, a quantidade de “baianos” era pequena, já que haviam decidido anos antes diversificar a produção, criando porcos, industrializando sua carne e aumentado a serraria ao invés de concentrar os esforços apenas na lavoura do café. Isto permitia um início de mecanização, como a unidade especial para a serraria, que foi montada no trecho onde o Rio Paraíba estreita-se e forma uma corredeira ligeira. Uma grande roda d’água foi fixada nas pedras, movimentando um eixo que tocava uma serra circular que trabalhava a noite toda, pois a demanda de madeira de lei exigida pelas construções em Petrópolis davam serviço sem conta.

Onde, entretanto, não existia esta alternativa, os fazendeiros exclusivamente de café estavam sofrendo para imporem disciplina. Começaram a surgir crimes misteriosos. Os feitores mais violentos apareciam mortos, com o abdome aberto, as tripas expostas e um olhar arregalado de pavor. As autoridades reconheceram logo esfaqueamento com “peixeiras”, um tipo de arma branca que também veio da região Nordeste para o Vale do Paraíba. Nas estatísticas dos tribunais das vilas de Vassouras, Valença e Paraíba do Sul, os “baianos” presos e acusados de crimes superaram os locais, numa relação muito maior do que a proporção numérica de escravos lotados nas fazendas.

Quando se firmou entre os fazendeiros do Vale do Paraíba que os “baianos” eram difíceis e perigosos, passou-se a exigir uma folha corrida de cada um, o que fez valorizar os escravos. Deste modo, três anos depois de aprovada a Lei Eusébio de Queiroz cada escravo estava valendo o dobro.

Os fazendeiros mais chegados às contas, diante do grande investimento na aquisição desta mão de obra, os custos e riscos de manutenção envolvidos e a inexorável tendência à abolição, começaram a questionar sua utilização como negócio. Surgiam contas demonstrando que, depois da parceria com colonos estrangeiros até mesmo o trabalhado assalariado compensava, pois quando o escravo envelhecia e perdia o valor e ninguém queria mais compra-lo, seu antigo proprietário era obrigado a dar-lhe de comer e abrigá-lo até a hora da morte. Já com o trabalho assalariado, pagava-se de acordo com a possibilidade do mercado, dispensava-se quando não interessava a produção e não havia compromisso algum de ajudar um antigo empregado na velhice. A parceria era ainda mais interessante, sendo a maior preocupação um eficiente sistema de vigilância para que não fossem os fazendeiros enganados. Depois, por ceder apenas a terra, que na maioria das vezes fora dada pelo Governo na época das sesmarias, o fazendeiro tinha liquido e certo 50% da produção. E, como quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro, a especulação era muito mais vantajosa do que correr o risco sozinho. Portanto, por questões muito mais econômicas do que humanitárias, a libertação gradual do trabalho servil passou a ser vista com olhos complacentes e oportunistas pelos fazendeiros mais desenvolvidos e que não tinham preguiça de fazer contas.

A MULA DO OURO - Capitulo 11

Capítulo 11
Inaugurações


Depois da primeira semana da viagem, quando tudo era novo e ainda não estava acostumado com horas seguidas sobre a sela, Tuca passou a entender bem o dia-a-dia de um tropeiro. Embora a paisagem fosse variada a rotina se repetia. As lições eram ministradas durante as jornadas.

- Por que não dá certo cruzar mula com burro?
- O sangue não combina. É como enxerto de duas plantas. Você deve ter visto no pomar da fazenda, tem muita laranjeira de enxerto...

Tuca lembrou-se então de quando meninote costumava acompanhar o serviço dos escravos mais velhos que cuidavam do pomar na fazenda da Boa União. Com seus canivetes afiados cortavam duas espécies de laranjeiras e as amarravam fortemente com cipó. A de baixo, chamada cavalo, escolhida entre as laranjeiras mais resistentes às pragas, tem a função de suportar a de cima, um galho originado das laranjeiras mais doces e suculentas. A planta enxertada rapidamente começa a dar frutos, porém não adianta plantar sua semente, pois a árvore que cresce tem uma péssima produtividade; é preciso fazer um novo enxerto. Tuca então, por esta analogia, absorveu o conceito por que o sangue do cruzamento de duas espécies “enxertadas”, caso da mula e do burro, não combinava.

Aos quinze anos, Tuca já media 1,85m, sendo o mais alto do grupo. Apesar de imberbe ainda, de longe parecia um homem adulto. Porém, quando se chegava perto, o sorriso sempre escancarado e os olhos brilhantes começaram a chamar atenção das mocinhas e mulheres nem tão mocinhas assim que tinham casinhas próximas aos pontos de parada. Mães solteiras de filhos de diversos pais, mas sempre divertidas. Valenciano, depois de alguns questionamentos, começou a introduzir Tuca na rotina dos peões, que muitas vezes era a maior justificativa para sua vida nômade, embora muito cansativa.

- Antes da Vila de São José, onde nasceu o Tiradentes, tem um bom pouso. Você vai conhecer as meninas da Tinhazinha.
- Meninas?
- Nós as chamamos de meninas, mas você pode chamar do que quiser. A maioria trabalhava em tear, eram fiandeiras. Mas acharam muito monótona a vida de ficar puxando fio de algodão e lã todo dia. Aí, trocaram o dia pela noite, você vai ver...
Enquanto Adão, o arrieiro e cozinheiro e Batista descarregavam os animais, já acenado para várias mulheres que botaram a cabeça para fora de um grupo de pequenas casas, Valenciano convidou Tuca a continuarem até à Vila. Percorreram o povoado edificado há mais de 150 anos, quando havia muito ouro nas serras, que atraiu gente de todo mundo para Minas Gerais. Parou o animal ao lado de um terreno abandonado, onde nada crescia e explicou:
- Aqui morava o alferes Joaquim José da Silva Xavier. Foi muito amigo do pai do major Antonio Barroso, pois sempre hospedava na fazenda dele, nas suas idas e vindas pelo Caminho Novo. Não se fala dele agora, mas no futuro pode ser chamado de herói.
- É o que enforcaram na Corte?
- Sim, enforcaram e esquartejaram. Um pedaço ficou lá em Cebolas, enterrado ninguém sabe onde. Uns falam que no cemitério da fazenda de Santana. Mas ninguém viu e sabe como sumiu de cima do poste onde ficou para ser comido pelos bichos.
- Ele matou alguém?
- Não, ao contrário, deu cabo de uma quadrilha que assaltava aqui na Serra da Mantiqueira. Estes sim, torturavam e matavam os viajantes desprevenidos. Foi o único que pagou o pato da chamada Inconfidência Mineiro.
- Nunca ouvi falar.
- Ninguém fala abertamente. Mas, conversa com a baronesa do Rio Novo, sua madrinha, que ela tem muita história, sabe muita coisa...
À noite das casas próximas saía o som de um violão. Tuca estava preparando-se para dormir quando Valenciano falou:
- Pode levantar menino. Passa água na cara e no corpo para tirar esta murrinha de cavalo. Tome, passe aí este perfume, que elas gostam de homem perfumado. Você hoje vai ter uma outra lição. Veja se tem uma roupa melhorzinha também.

Tuca foi até a bica de bambu, de onde um filete grosso de água brotava do barranco e caía num coxo onde os animais bebiam se lavou. Depois, passou um punhado do liquido perfumado sob axilas, esfregou o resto no cabelo preto e foi encontrar-se com Valenciano que o observava de longe, com olhar de aprovação.

Passaram por duas casas, onde Valenciano era sempre recebido com festas. Mas, depois de rápidas apresentações, indicando Tuca como o filho de uma grande amiga, que trabalhava na maior fazenda do Vale do Paraíba, bem perto da Corte, seguia em frente. Tuca estranhou que sua mãe não fosse por ele, Valenciano, considerada como serviçal, mas amiga. Na terceira casa, antes de entrar, tirou o grande chapéu de aba larga, alisou o cabelo e falou: “aqui nós vamos passar a noite hoje”.

Os olhos de Tuca custaram um pouco a se acostumar com a penumbra, pois não havia lampiões apenas a luz do fogo que vinha de um fogão de lenha, onde alguns torresmos, mandiocas e carne seca ficavam tostando. Valenciano foi até lá, pegou um pratinho de barro, serviu-se de uma porção de cada e procurou uma mesa. Logo surgiu uma mulher com vestido muito apertado, blusa que deixavam os seios quase expostos e trouxe uma garrafa de aguardente. Valenciano falou:
- Pra mim é a destilada, mas pro meu amigo aqui, traz a garapa natural mesmo. Cadê a Tinhazinha?
- Está se arrumando toda, já soube que você chegou.
- Bom. Mostra a casa, dê uma volta com o Tuca... – concluiu a apresentação rotineira.
Tuca assustou-se quando a mulher o pegou pelas mãos. Levantou-se e observou que a cabeça dela não chegava à altura de seus ombros. A mulher passou-lhe os braços na sua cintura e disse:
- Vamos lá garotão, vamos conhecer as meninas.

Tuca sentiu-se como um frango sendo apertado por cozinheiras. Muitas riam e acendiam fogo de isqueiros de pedra para ver-lhe os olhos. Uma chegou a acender uma vela no fogão e chegou bem perto de seus olhos:
- É de esmeralda mesmo!

Tuca, sem saber o que fazer, já que Valenciano, com uma mulher sentada sobre seu colo, parecia totalmente alheio ao que se passava ao redor, apenas sorria, sorria com todos os dentes. Muitas mulheres exalavam um odor ocre de cachaça digerida. Uma delas, entretanto, uma mulata de cabelos bem curtos, mastigava um pedaço de canela. O hálito desta era doce, quando sorriu, mostrando os dentes perfeitos, Tuca lembrou-se do arroz-doce que sua avó Tônia fazia que também levasse canela. O perfume tem essas propriedades, puxa lembranças longínquas.

Às seis horas da manhã, o dia estava começando a clarear. Tuca assustou-se quando Valenciano bateu na porta. Ergueu-se de um salto, mas não estava dormindo na rede. Olhou ao lado e viu que uma mulher nua, de costas, estava ao seu lado. Balançou a cabeça querendo recordar o que tinha se passado, mas os pensamentos eram confusos, várias cenas e emoções, vindas como que de muito longe, chegavam todas juntas. Sentiu apenas que estava fadigado, porém cheio de energia.

- Vá lá, preparar sua montaria, porque temos muito chão pela frente. Vamos pernoitar na primeira fazenda de criação.

Tuca saiu deixando Valenciano com a mulher que, despertada, coçava os olhos. Enquanto se afastava pareceu que Valenciano dava dinheiro à mulher e mais distante pareceu ouvir risos, depois de algo que a mulher segredava a Valenciano.

Antes de seguir viagem, os cavaleiros, liderados por Valenciano, fizeram uma passagem por toda a fileira de casas. Quando passaram pela porta da terceira casa, a mulher com quem Tuca passara a noite gritou:
- Até a volta, meu jumentinho.

O primeiro trecho pronto da rodovia da União e Indústria ligava Vila Teresa a Pedro do Rio, numa extensão de 30,8 km e foi inaugurado em 18 de abril de 1858, levando dois anos de obras. O trecho seguinte consumiu também dois anos, atravessando a Serra do Taquaril, que finalmente fora vencida e a estrada chegou ao povoado de Posse no dia 28 de abril de 1860. Estes 13 km de extensão consumiram tempo e recursos. Mas, a partir daí, a única obra mais difícil que terminou praticamente no dia da inauguração, foi a grande ponte sobre o Rio Paraíba do Sul. O orçamento, entretanto, estourara. Em 1853 a construção da estrada tinha sido orçada em 240 contos de réis, sendo o salário 640 réis. Na época da inauguração, o salário já estava em 2$500 (dois mil e quinhentos réis) e o quadro de despesas de 31 de dezembro de 1860 indicava:

Estrada........................... 7.944 contos de réis
Estação........................... 779 contos de réis
Material de transporte.... 423 contos de réis
Material de construção..... 177 contos de réis
Juros pagos....................... 671 contos de réis

Na ferrovia D. Pedro II a situação não era diferente. A abertura dos túneis exigiu a presença de um grande contingente de operários e, apesar da pólvora utilizada na obra ser produzida no local, queimando imbaúba para produção do carvão, sendo importados apenas o enxofre e o salitre, a linha custava a avançar. Para contornar este problema, Cristiano Otoni encomendou da fábrica americana Baldwin Locomotive Work, locomotivas especiais de dez eixos, todos motrizes, que eram capazes de rebocar vagões em rampa de 10%, numa linha provisória construída por cima do Túnel Grande. Desta forma, a ferrovia chegou ao povoado de São Benedito, no local onde o rio Piraí deságua no Rio Paraíba do Sul, denominado também Barra do Piraí antes mesmo do maior túnel da ferrovia ficar concluído. Finalmente a ferrovia alcançaria o Rio Paraíba do Sul e todo o café do Vale, tanto da região fluminense quanto da região paulista poderia por ela ser escoado, pois cerca de 100 km distância a montante da barra do Piraí o Rio Paraíba do Sul era navegável e a jusante, cheio de corredeiras, o café viria pela rota do Caminho Novo original.

Antes de a linha chegar a este ponto, uma bifurcação estava sendo projetada, uma linha na direção sul, subindo o Rio Paraíba em direção à Província de São Paulo e outra descendo o rio, em direção à Província de Minas Gerais. As cidades finais de cada Província eram: Cruzeiro e Além Paraíba. Mas eram pontos finais provisórios, a Estrada de Ferro D. Pedro II pretendia continuar, seguindo até a capital da Província paulista e às margens do rio São Francisco, na Província mineira, onde o rio São Francisco começa a ser navegável, na vila de Pirapora. Deste modo, todo o interior do país estaria interligado à Corte, pelo rio Tietê até às margens do rio Paraná, Paraguai e rio da Prata e grande parte da região Nordeste, banhada pelo rio São Francisco, chamado Rio da Redenção Nacional.

Enquanto todas estas obras se desenvolviam e planos de expansão eram concebidos, Tuca estava tendo lições de vida que seriam úteis em outras oportunidades. Chegando à primeira fazenda de criação, Valenciano colocou a proposta de adquirir mulas e éguas e burros matrizes, para ter uma pequena produção na fazenda do barão do Rio Novo e um acordo de negociação com exclusividade para atender às necessidades da União e Indústria. Inicialmente os criadores não gostavam da idéia, porém como Valenciano era um cliente de longa data, não poderiam deixar de atendê-lo.

Na hora de escolher, Valenciano sentou-se sobre o cercado de madeira e ficou observado em silêncio o rebanho no picadeiro circular. A sorte tem seu espaço nas várias etapas em um convívio com o cavalo. Por mais que o comprador faça analises de conformação, andadura, temperamento e saúde, quando escolhe um animal no campo a sorte está sempre presente na confirmação na combinação dos fatores, Valencianos sabia disso.

Tuca ficou ao seu lado, também em silêncio, observando com atenção. Valeciano, então, começou a estalar os dedos vagarosamente, produzindo um som quase inaudível mesmo para Tuca ao seu lado. Olhando atentamente o rebanho percebeu que algumas mulas jovens, movimentavam as orelhas nervosamente, procurando a origem do som. Valenciano as ia classificando. Quando estalava os dedos com força todos olhavam em sua direção, mas ele queria as primeiras a ficar atentas para serem futuras madrinhas, os animais que puxam a fila de bestas de carga, que deve ter um ouvido apuradíssimo tanto para o que se passa ao lado como para as ordens sutis do arrieiro. Marchava após a madrinha o burro contra guia; depois, em fila, os animais carregados. A tropa mantinha a hierarquia das bestas e dos homens. O tropeiro raramente lhe seguia a caminhada. Era o dono, o patrão, e prendia-se a afazeres que o atrasavam ou o adiantavam em relação à viagem da tropa. Quando acompanhava a tropa, pouco interferia na ordem. O comando pertencia, na prática, ao arrieiro. Sempre junto, montado em animal de sela, à frente ou na retaguarda, acompanha a passo o movimento dos homens e das bestas.

Os animais utilizados pelos criadores para reprodutores (jumentos e éguas), objetivam reunir características que valorizam os filhos, como força para tração, docilidade, maciez do passo, agilidade, estatura e coloração do pêlo. O jumento mais utilizado, que melhor resistiu ao clima brasileiro, era chamado de pega ou espanhol. As éguas preferidas eram da raça campolina e manga-larga pelo porte e resistência. No caso da tropa utilizada para a Cia. União e Indústria foram-lhe encomendada uma coloração escura e uniforme, visando estabelecer um padrão.

Depois da segunda fazenda visitada Tuca observou que a rotina se repetia como também em outras casas de meninas. Mas, à medida que começaram a subir na direção norte, caminhando em direção à Província da Bahia, algo começou a mudar. Primeiramente começaram a encontrar conjuntos de escravos, grupos de 10, 20 e até 30 membros, de “baianos”, que seriam vendidos no Sul. Viajavam amarrados um ao outro, por uma corda que passava pelo pescoço de cada um, homem, mulher ou criança. Na frente do grupo seguia um homem fortemente armado, puxando o comboio por uma ponta da corda; no final seguia outro, também fortemente armado. Dois cavalheiros, com um longo chicote de couro de boi trançado, conhecido também como bacalhau, andavam subindo e descendo de cada lado do grupo.

Quando encontrava com estes grupos Valeciano e todos os outros, levavam os dedos à aba do chapéu, à guisa de cumprimento, mas logo enfiavam a mão nos bolsos. Não havia cumprimento verbal algum.

Numa das paradas, Valenciano voltou da venda com olhar carrancudo. Conversou em voz baixa com Batista. Tirou do alforje duas garruchas e chamou Tuca.

- Está hora de começar aprender outra coisa. Vamos ficar aqui uns dias, porque aí para cima a situação pode ficar quente. Tenho notícia que um grupo de escravos conseguiu matar os feitores, que se embriagaram, e se esconderam no meio do mato. Portanto, poderemos ter surpresas desagradáveis. Batista vai te ensinar algo – terminou de falar estendendo as duas garruchas.

Tuca que nunca havia tocado em uma arma de fogo antes ficou sem saber o que fazer, até que Batista falou:
- Vamos lá para a beira do córrego. Vai aprender a atirar e usar arma branca. Abre bem os olhos porque eu não tenho muito jeito de professor como o Valenciano não. Se não levar jeito para o serviço eu aviso logo.
A chegar à beira do córrego, onde uma laranjeira madura deixava cair seus frutos, Batista pegou algumas e trouxe nas mãos, dizendo:
- Vou mostrar como é depois você vai tentar repetir. Não precisa se preocupar em acerta o alvo não, acostume apenas com o estampido da arma, com o coice e a labareda. Depois, fique relaxado, olhe fixamente o alvo, bem no meio, que sua mão é que vai aprender a atirar, não sua cabeça ou seus olhos.

Jogou para o alto um das laranjas e, quando ela começou a descer, Tuca ouviu um forte estampido ao lado, quando ela espatifou-se em pedaços. Tuca viu uma arma fumegante ao seu lado.

- Este é um Colt calibre 45, americano, coisa muito fina. Vale mais do que um burro marchador, dos bons. Comprei novo no Rio de Janeiro. Você vai primeiro treinar com estas garruchas velhas, que o Valenciano te deu, que não usam bala, mas bolas de chumbo. Vai aprender a acertar o alvo, fazer estrago. Depois, se tiver jeito, vai atirar tão bem como eu. Vou botar estas laranjas sobre aquela pedra, tem meia dúzia aqui. Depois você pega uma dúzia. Pode dar tiro à vontade porque temos muita pólvora e bala. Quando tiver bom na garrucha, o Valenciano vai te emprestar o outro Colt novo.

Ficaram acampados durante uma semana. No quinto dia Tuca, com a mão escurecida pela pólvora já fizera grande progresso. Não conseguia a mesma taxa de acertos de Batista, que seguia o grupo muito mais pela destreza na pontaria do que experiência com a tropa. Superava com folga Adão, que não tinha a mão muito firme ou não fora devidamente treinado e se assustava com o estampido, sendo, porém muito bom no preparo do arroz carreteiro e do feijão tropeiro. Valenciano, talvez pela idade, também perdia. Como um professor exigente, Batista deu Tuca como aprovado em arma de fogo.

No quinto dia, Tuca foi apresentado às armas brancas, três punhais de diferentes tamanhos. Batista explicou:
- Cada um tem sua finalidade. Este menor fica aqui, escondido por dentro da bota, é para o corpo a corpo, quando você já perdeu as outras armas. O médio é o mais utilizado, fácil de guardar na cintura, bom para abrir jugular. Sabe o que é abrir a jugular?
- Já vi matar porcos na fazenda.
- Porco se mata apunhalando o coração, não é isso não. Parece mais com matar frango. No corpo de qualquer animal, inclusive o bicho homem, tem órgão que funciona mesmo que a cabeça não queira.
- Como?
- Quando aquela mulher, na casa da Tinhazinha, botou a mão entre suas pernas. Você teve alguma reação pensada, ou seu corpo reagiu sozinho.
Tuca riu em silêncio, o que animou o professor Batista continuar:
- O coração é a mesma coisa. Basta você cortar a jugular, em um segundo apenas e pular para o lado. O seu inimigo vai botar a mão na garganta, apertar, mas o coração vai começar a jogar o sangue para fora do corpo, todinho. Quanto mais sangue sair, mais forte o coração bate. E passar o fio e pular fora que a morte vai chegar certa, não precisa nem olhar para trás.
- Não sei se vou ter coragem para fazer isso...
- Não é com coragem que você faz não, é com medo! Um medo que faz a perna e a mão tremer na hora. Por isso é preciso praticar muito, até a mão aprender sozinha e não precisar da cabeça para pensar. Vá lá, pegue aquelas abóboras que eu vou mostrar como é que se faz.

No dia seguinte foi a última lição. Batista pegou no mato um pequeno galho, do tamanho das armas e começou a treinar luta corporal. Jogou-lhe o galho e que Tuca o atacasse, sem medo, como se tivesse armado. Foi mostrando como desviar-se, com se estivesse bailando, pulando numa perna e na outra. Isso de certa forma distraía Tuca, que em nenhum momento conseguiu acertar o mulato magricelo. Depois de várias horas de treinamento o professor deu seu veredicto:
- Na arma de fogo ele está bom, na degola pode melhorar, mas no corpo a corpo não leva jeito, é muito pesado, não em agilidade. Se lutar de faca morre logo!

A partir daquele ponto, quando a estrada ficava estreita ou passava em mata fechada, a ordem de caminhada mudava: Batista ia à frente, seguido de Adão puxando as duas bestas de carga, Tuca e Valenciano na rabada. A ordem era: os dois da dianteira cobririam de preferência o lado que Batista indicaria com o braço, porque ele estaria concentrado no lado contrário. Fizeram alguns testes simulados e se convenceram estar preparados: viessem os perigos da estrada que eles iriam enfrentar.

As fazendas do Norte de Minas eram mais pobres devido ao solo mais árido, com vegetação baixa e retorcida e vários coqueiros chamados buritis. Os cursos d’água também rareavam. Os animais, principalmente os jumentos, tinham a cor mais brilhante, porém as éguas dos lados de São João Del Rei eram mais altas e bonitas.

Às vezes, quando o luar banhava de prata os morros eles seguiam caminhando em passo vagaroso, atento ao movimento de orelha dos animais. Os caburés voavam rentes, morcegos davam rasantes e nuvens de mosquitos os acompanhavam, mas nada lhes tirava a atenção do caminho.

Quando chegou à última fazenda, Valenciano começou as aquisições. Iria descendo, passando por cada uma levando os animais escolhidos previamente. Viu então Tuca que o tempo todo ele viajara com um cinto cheio de bolsos por baixo da calça, onde guardava notas de mil réis e pequenas barras de ouro. Estava explicada a razão da presença sempre atenta de Batista.

O retorno foi bem mais rápido, a atenção agora ficou mais concentrada em controlar o impulso dos jumentos quando alguma égua ameaçava entrar no cio. Era preciso então separá-la do grupo e amarra-la junto com as bestas de carga, seguindo no final da tropa o mais distante possível que a segurança recomendasse. Mesmo assim, quando o vento estava contrário, ficava muito trabalhoso controlar os impulsos sexuais dos jumentos, visivelmente demonstrados. Nestas horas Tuca se perguntava, porque será que a primeira mulher o havia chamado de jumentinho?

Na véspera do dia 23 de junho de 1861, D. Pedro II, sua família e vários representantes ilustres da Corte e da Cia. União e Indústria, entre eles o comendador Mariano Procópio, preparam-se para inaugurar a primeira rodovia brasileira macadamizada, unindo Petrópolis, a Cidade Imperial, na Província do Rio de Janeiro à Vila de Santo Antonio do Paraibuna, na Província de Minas Gerais. Seriam 144 km de viagem, com doze pontos de troca de animais, inclusive os dois extremos. Na operação normal, seria possível ir de um extremo ao outro do nascer ao por do sol, em doze horas de viagem, com tiradas em média de 45 minutos e quinze minutos de parada para satisfação de necessidades e curtas refeições nas estações, em estilo de chalé suíço construídas em cada parada. Nos trechos planos ou de descida suave as carruagens, puxadas por três parelhas de mulas castanhas escura, podiam andar na velocidade de 20 km/h. As rodas de aço sibilavam sobre a pedra do calçamento e a paisagens das serra azuladas ao longe contratavam com as flores vermelhas vivo das mulugus que Mariano Procópio mandara plantar ao longo da estrada, uma árvore nativa da Mata Atlântica que apresenta floração totalmente destituída de folhas.

No dia da primeira viagem, a Família Imperial partiu cedo, às seis horas da manhã, da primeira estação, no local denominado Vila Teresa. A primeira troca de mulas seria na estação de Corrêas. Desceram pela Rua do Imperador, onde todos foram saudados pelo povo munido de bandeirola verde-amarela. Chegaram ao destino em 45 minutos. De Corrêas a Pedro do Rio, estação que logo no primeiro ano recebeu mais de 400 mil sacas de café colhido na região de São José do Rio Preto, as carruagens levaram 55 minutos. Neste primeiro trecho, de Petrópolis a Pedro do Rio, de cinco léguas (30 km), a viagem durou cerca de duas horas.

No trecho seguinte, que foi o mais difícil de construir, de Pedro do Rio à estação da Posse, o tempo de viagem foi de apenas 40 minutos, devido à sinuosidade decorrente da Serra do Taquaril. No ponto crítico Mariano Procópio solicitou que a carruagem parasse, pois o Imperador pediu para descer e contemplar o serviço de cantaria realizado. Enquanto conversavam, como se querendo calar a todos, o Rio Piabanha rugia nas cachoeiras formadas pelas pedras que estrangulavam sua passagem.

O dois trechos seguintes, onde também houve troca de animais, nas estações da Julioca e Luis Gomes, avistavam-se já as plantações de café subindo os morros. O Rio Piabanha acompanhava neste trecho da estrada mansamente. Pontes bem construídas e de desenho inovador, como a de Santana, preparavam a comitiva para a maior obra de engenharia da estrada: a Ponte do Paraíba ou Ponte das Garças, como era mais conhecida.

Ao chegar à cabeceira da ponte a comitiva parou. O Imperador e a seus familiares desceram e, como todos os demais, atravessam-na andando a pé. As garças que nidificavam nas imediações, assustadas com a presença de tanta gente, alçaram vôo e ficaram voando em círculos. Em ambas as cabeceiras, nos torreões erguidos à guisa de obelisco, tremulavam as respectivas bandeiras nacionais de todos os estrangeiros que trabalharam nas obras da ponte. O Imperador sorriu com satisfação de ver a grande predominância de bandeiras européias, significando que muitas deles representavam pessoas que estavam adotando o novo país para morarem definitivamente.

Da ponte até a maior estação de todas, a estação de Entre-Rios, levou-se quinze minutos de viagem. Uma grande multidão esperava o Imperador e comitiva na estação. Um almoço foi servido e todos os políticos da região, especialmente das vilas de Paraíba do Sul e Vassouras estavam presentes.

Na grande mesa armada, enquanto o Imperador e comitiva almoçavam, foram proferidos vários discursos. O Imperador vez ou outra acenava concordando com as palavras com sutis gestos de cabeça. No final, mandou que fossem distribuídas esmolas aos pobres da região, devidamente cadastrados anteriormente. O barão de Entre-Rios foi citado várias vezes por Mariano Procópio como um grande benemérito, que ao liberar a livre passagem por suas terras, viabilizou a construção da estrada.

Da estação de Entre-Rios até um ponto intermediário em frente à sede da fazenda da Boa União a viagem não levou quinze minutos. Uma banda estava preparada pelo barão do Rio Novo e, enquanto a comitiva passava em passos lentos, o Hino Nacional era tocado. Salvas de tiros de foguetes foram também disparados, o que exigiu um esforço extra dos cocheiros em controlar os animais, que ainda teriam um bom trecho pela frente, até a estação de Serraria, aonde chegaram em 45 minutos, depois de uma breve subida, quando a estrada vencia o divisor de águas entre as bacias dos rios Paraíba do Sul e Paraibuna.

Da estação de Serraria até a estação de Monte Serrat, próxima da igreja que nomeou a localidade, à sombra protetora do imenso granito de 450 m de altura, conhecido como Pedra de Paraibuna, a comitiva levou apenas 40 minutos, já que a estrada seguia o tempo todo acompanhando o Rio Paraibuna com pequenas ondulações, plano na maior parte do trecho. Em frente à formação conhecida como Pedra do Sapo, que tinha a forma deste anfíbio, como uma gigantesca escultura de granito feita pela própria natureza, as carruagens reduziram a velocidade para observá-la com mais cuidado. Em poucos minutos chegaram à ponte do Paraibuna, na divisa das duas províncias, onde o Posto Fiscal, que funcionava das 6 às 18 horas, exigia que os viajantes respeitassem o horário, ou seriam obrigados a pernoitar nos hotéis existentes em cada margem, pois a ponte era fechada por uma porteira. Única, aliás, em todo o trecho, não pintada de vermelho, a cor daquelas existentes próxima a cada estação de muda, que cobrava pedágio pela passagem dos viajantes que não utilizavam os veículos da Companhia União e Indústria.

Já no lado mineiro, de Paraibuna até a estação do Duque, no povoado de Simão Pereira, o trecho era em subida, vendo-se à esquerda o Rio Paraibuna encachoeirar-se. O tempo de viagem foi de 50 minutos porque em vários pontos os moradores estenderam sobre a estrada tapetes de folhagens e nas janelas das casas simples foram estendidas toalhas. Todos acenavam para o Imperador que retribuía com um sorriso nos lábios.

Depois de mais duas paradas para troca de mulas, na Vila de Matias Barbosa e junto da Ponte Americana, próximo ao local onde a rodovia União e Indústria se ligava a uma outra estrada que iria conduzir à fazenda de Santana, pertencente à mãe viúva do comendador Mariano Procópio, chegava-se à Cidade de Santo Antonio do Paraibuna, já denominada Juiz de Fora.

Na estação final, que tinha o nome de Rio Novo, a comitiva terminou a viagem. À sua esquerda erguia-se o Castelo do Comendador, uma construção de tijolos com dois tons de coloração, fabricados no mesmo local, de estilo italiano renascentista. Como a obra não ficou concluída a tempo da inauguração, o Imperador e sua comitiva, nos dois dias que passaram na cidade se alojaram numa construção menor, feita com o mesmo material, junto ao lago artificial onde em várias ilhas estavam espalhados micos, patos e outros animais silvestres, típicos da Mata Atlântica.

Depois do merecido descanso, à noite, toda a sociedade, composta por fazendeiros de café, militares, grandes comerciantes, religiosos católicos e protestantes e um representante especial da Colônia Agrícola Pedro de Alcântara, de nacionalidade alemã, se reuniu para uma grande festa de recepção desta primeira visita oficial do Imperador à cidade. Estava definitivamente inaugurada a Estrada de Rodagem União e Indústria.

A MULA DO OURO - Capitulo 12

Capítulo 12
Morte e Amor

O ano de 1862 iniciou um período de conflitos que se estenderia por muito tempo. Na fazenda do Cantagalo a enfermidade do barão de Entre-Rios agravou-se e ele veio a morrer. Mariana Claudina para não deixar a mãe sozinha transferiu a fazenda da Boa União para seu irmão e mudou-se para o grande casarão na fazenda do Cantagalo. Portanto, o barão e a baronesa do Rio Novo passaram a habitá-lo. O corpo do pai foi sepultado no alto de uma colina próxima, sobre o qual seria erguida uma capela em devoção a Nossa Senhora da Piedade, santa de devoção da viúva e da filha.

Emilio foi convocado para os serviços de cantaria, já que seus trabalhos na Estrada União e Indústria haviam terminado. Ficou especialmente satisfeito, pois teria chances de projetar uma capela no modelo espanhol, de pedra já que havia jazidas de granito de qualidade na fazenda do Cantagalo. Esboçou num caderno uma capela que lembrava a igreja de Carracedo, com um campanário duplo contendo dois sinos de bronze de 60 kg cada no frontal, paredes sem revestimento e vitrais coloridos nas laterais.

Quando o projeto foi submetido ao bispo de Valença, diocese que pertencia a área onde se localizava a fazenda do Cantagalo recebeu muitas críticas. Todas as igrejas brasileiras, embora não estivesse isto registrado oficialmente, deveriam obedecer a um estilo lusitano e não espanhol. Constrangida, a condessa do Rio Novo convocou Emilio e solicitou que ele participasse apenas na parte referente à fundação, pois um novo projeto, redesenhado por um experiente construtor mineiro de São João Del Rei, fora aprovado pelas autoridades eclesiásticas e seria semelhante ao de todas as capelas de fazendas daquele período. Resignado, Emilio passaria a trabalhar de comum acordo com o mestre de obra mineiro de São João Del Rei.

O barão do Rio Novo herdou do sogro e tio, além da posse da maior fazenda, a liderança política na região, candidatando-se à câmara da Vila de Paraíba do Sul, cuja presidência veio a ocupar, o que desagradou a família Avelar, cujo patriarca era o barão de Paraíba. Com as matrizes trazidas por Valenciano, iniciou uma criação de muares e tomou as providencias para que o comendador Mariano Procópio passasse a adquirir os animais necessários à operação da Companhia por seu intermédio. Tuca, com a experiência adquirida na viagem, ficou cuidando da criação, escolhendo os animais a serem cruzados.

Quando corta a fazenda do Cantagalo, o Rio Paraíba do Sul, após o trecho encachoeirado divide-se em dois, contornando uma ilha, a maior de todas que se formam depois da Vila de Paraíba, onde proliferavam macacos, tucanos, araras e outros animais que tinham sua dieta à base de frutas e constituía um verdadeiro pomar natural. Todos os meninos da fazenda do Cantagalo tinham uma grande motivação em aprenderem logo a nadar para, em fortes braçadas vencerem as corredeiras rápidas e chegarem à ilha. Como no local o rio era traiçoeiro, várias mortes aconteceram de visitantes inexperientes. Para os meninos da fazenda, entretanto, as cheias e vazantes do rio proporcionavam a criação de piscinas naturais, permitindo um desenvolvimento progressivo, dando-lhes a oportunidade de conhecer as manhas do rio. Manhas que logo procuravam aprender, pois os frutos dos ingazeiros, que jogavam a sombra sobre o rio e das jabuticabeiras que eram as eram muito mais doces na ilha do que em qualquer outro lugar da fazenda.

Numa tarde de domingo muito quente, quando vários meninos brincavam na borda de uma piscina natural, um amigo dileto de Tuca, filho do capataz aventurou-se na corredeira. Todos gritaram para que voltasse, mas ele não ouviu e foi tragado pelo redemoinho que se formava logo depois do ponto onde o rio se estreitava. Ficaram mais de dez minutos aguardando que saísse, mas sua cabeça não aparecia. Foram correndo então buscar um barco e uma grande vara de bambu para que liberassem o corpo, pois provavelmente ficara agarrado aos galhos submersos – causa maior das mortes por afogamento no rio.

Tuca descia o rio sem esperança de encontrar o amigo vivo. Entretanto, quando ultrapassaram a correnteza, viram-no, na outra margem, muito pálido, agarrado às pedras. Todos atribuíram à N. S. da Piedade o milagre. Porém à noite, susto refeito, ele contou ao amigo que fora sugado pelo redemoinho, mas foi parar debaixo de uma pedra e jogado num lugar seco e com ar. Achou que tinha morrido e estava no purgatório, como o vigário ensinara no catecismo, mas depois que seus olhos se acostumaram com a escuridão, viu que havia uma camada de água por onde a luz passava. Esperou o fôlego voltar e mergulhou de novo na água, sendo levado para a margem direita do rio.

Tuca não acreditou na história, mas depois de algumas investigações com o auxilio do bote, resolveu também mergulhar e constatou ser verdade: havia uma caverna submersa bem junto do redemoinho. Ele e o amigo guardaram este segredo e passaram a disputar com outros o tempo de permanência sob a água. Foram considerados peixes, pois conseguiam ficar, cinco, dez e até quinze minutos submersos; não mais porque desconfiariam de algum truque. Os dois viraram ídolo dos outros garotos da fazenda.

No âmbito político nacional, também o ano de 1862 foi crítico, por causa da chamada Questão Christie, nome decorrente da inabilidade diplomática do embaixador britânico no Brasil. O estopim da crise foi a detenção pela polícia de marinheiros ingleses embriagados, que em trajes civis faziam arruaça pelas ruas da Corte. Apesar de terem sido logo liberados, o embaixador aproveitou o incidente para exigir do governo brasileiro indenização pelo saque das mercadorias do navio Prince of Wales, naufragado nas costas gaúchas, no ano anterior. Havia suspeita que os moradores locais haviam assassinado a tripulação naufragada para saquear a embarcação.

As discussões estavam se desenvolvendo na área administrativa, quando uma esquadra de guerra inglesa, comandada pelo almirante Warren, bloqueou o porto do Rio de Janeiro, apreendeu cinco navios brasileiros fundeados e exigiu uma indenização de 3,2 mil libras esterlinas. Esta ação, que acontecia de frente ao Paço Imperial, à vista de D. Pedro II, acirrou os ânimos na Corte, resultando em manifestações de protesto em todos os níveis, com populares ameaçando depredar instalações inglesas no país. Diante do acirramento das relações entre os dois países, o rei Leopoldo da Bélgica, tio da rainha Vitória da Inglaterra foi nomeado árbitro da questão. Todavia, considerando que a questão envolvia não dinheiro, mas sim o desrespeito à soberania nacional, D. Pedro II decidiu pagar antecipadamente a indenização pleiteada pelos ingleses decorrente do naufrágio do Prince of Wales.

O tempo passou e o rei Leopoldo decidiu favoravelmente ao Brasil. Ao tomar conhecimento de que os ingleses haviam perdido a causa, o governo brasileiro exigiu a devolução do dinheiro e a apresentação de desculpas por parte do embaixador inglês. Como não conseguiu receber nem uma coisa, nem outra, as relações diplomáticas entre o Brasil e a Inglaterra foram rompidas, por iniciativa de D. Pedro II.

Enquanto no Hemisfério Sul a guerra era apenas diplomática, no Hemisfério Norte era sangrenta. A Guerra Civil Americana havia sido deflagrada quando onze estados do sul, onde a escravidão era permitida, para evitar a fuga de escravos para os estados do norte onde esta havia sido abolida, resolveu criar um novo país, chamado de Estados Confederados da América, declarando a secessão da União. Na época os Estados Unidos se constituía de 19 estados onde a escravidão era proibida e 14 onde era permitida. Abraham Lincoln, eleito presidente no ano anterior, citara em campanha que seu país era uma “casa dividida”. Os estados da região norte, industrializados, com mão-de-obra livre e assalariada, fortes politicamente, conflitavam ideologicamente com os estados do sul, cuja economia dependia da agricultura, especialmente do cultivo de algodão, todo baseado no trabalho escravo. Esta Guerra Civil que terminou somente em junho de 1865, com a rendição das últimas tropas remanescentes da Confederação, dizimou cerca de 3% da população norte-americana.

Ainda neste mesmo ano de 1862. D. Pedro II tomou duas decisões que teriam reflexos perenes no futuro do país.

A primeira medida foi a promulgação da Lei Imperial número 1.157 que oficializou em todo o território nacional o sistema métrico decimal francês, sendo o Brasil uma das primeiras nações a adotar o sistema que seria padrão em todo o mundo.

A segunda medida foi ordenar o replantio de toda a vegetação nativa nas encostas da Tijuca, criando a maior floresta urbana do mundo. Estes morros estavam totalmente devastados pela plantação de café que exauriu o solo, comprometendo a nascentes dos rios que abasteciam a cidade e alterando o equilíbrio climático. D.Pedro II fez questão de acompanhar os trabalhos exigindo que apenas espécies brasileiras, originárias da Mata Atlântica fossem plantadas, embora o Jardim Botânico na Corte tivesse condição de suprir com mudas de espécies exóticas, de mais rápido crescimento.

Com relação aos trabalhos da ferrovia que levava seu nome, a Estrada de Ferro D. Pedro II, antes mesmo da abertura do Túnel Grande ser terminada, os serviços de implantação da linha bifurcada na foz do rio Piraí prosseguia. A linha provisória implantada por Otoni atraía todo o café do Vale do Paraíba Fluminense, inclusive da região da Vila de Paraíba do Sul, tornando a operação da estrada de rodagem aquém do esperado pelo empreendedor Mariano Procópio.

Os comerciantes e fazendeiros da família Teixeira Leite, que lutaram durante anos para implantar uma ferrovia moderna, que servisse à cidade de Vassouras interligando-a à Corte, viram, com tristeza, que os engenheiros ferroviários, comandados por Cristiano Otoni, que não fazia concessões técnicas aos caprichos políticos, estabeleceram um traçado que passava distante cinco quilômetros da cidade. Quando souberam disso, os fazendeiros se reuniram na casa do advogado e comerciante de café Joaquim Teixeira Leite.

- É um absurdo! Temos que fazer alguma coisa!
- Nós, da família Teixeira Leite, foram o que estimularam a implantação da ferrovia que tem o nome do Imperador; conseguimos a aprovação da Lei da Garantia de Juros, demos de mão beijada o projeto feito pelos irmãos Morsing e agora a linha não passa por Vassouras!
- Tem dedo do partido liberal aí, sem dúvida nenhuma!
- Foi manobra de Manuel Jacinto Nogueira da Gama, o filho do falecido marquês de Baependi. Só porque conseguiu, com o prestígio que tem na Corte, elevar a cidade a antiga Vila de Valença...
- Virou cidade?
- Sim, em 1857. Agora quer desviar a rota da Estrada de Ferro D. Pedro II para a terra deles, ao invés de atravessar nosso município como previa o plano Morsing.
- Soube que doaram para a ferrovia toda a faixa e a área das estações...
- Vamos adotar uma providência. Vassouras não pode deixar de ter estação. Antes de atravessar o Rio Paraíba, nas nossas terras será construída uma estação. Mobilizarei todas as forças políticas necessárias, não tenham dúvida – sentenciou o advogado Joaquim Teixeira Leite encerrando a reunião.

Quando os efeitos da reunião realizada em Vassouras chegaram ao conhecimento da diretoria, Cristiano Otoni rechaçou a proposta de imediato. A ponte sobre o Rio Paraíba do Sul próxima da grande estação que receberia todo o café da região de Valença seria rodo-ferroviário e não tinha sentido construir outra estação distante apenas quatro quilômetros desta. Entretanto, foi voto vencido. Houve ordem taxativa de projetar uma nova estação, de menores dimensões, apenas para atender o município de Vassouras. Soube então que os Teixeira Leite já haviam encomendado o projeto de uma ligação ferroviária exclusiva, do centro da cidade até esta nova estação, dando o recado: Se Maomé não vai à montanha; a montanha vai a Maomé.

Ao tomar conhecimento destes desdobramentos, Manuel Jacinto da Gama mobilizou seus apoios e solicitou que fosse dado o nome à nova estação de Desengano. Seus representantes procuraram a direção da ferrovia, oferecendo inclusive ajuda efetiva para a construção da maior estação do trecho, só perdendo em dimensões para a estação terminal de Porto Novo do Cunha, já na província de Minas Gerais, exigindo todavia o privilégio de batizá-la.

- Por que Desengano? Pensávamos em algo alusivo a Valença, esta próspera cidade, de mais de 40 mil habitantes...
- É o nome de um antigo sítio no local onde será edificada a estação, chamado Desengano Feliz.
- Não tem nada a ver com o desengano dos Teixeira Leite, não é?
- Claro que não!

Visando reduzir os custos de implantação, os engenheiros procuravam sempre os proprietários das terras onde a ferrovia passaria, podendo em muitos casos alterar o traçado caso fosse conveniente. Como a linha cortaria grande faixa de terras da fazenda do Cantagalo, o barão do Rio Novo recebeu visitas ilustres na mansão. O Antonio Barroso e Emilio Prieto, que foram convidados, na hora combinada estavam na varanda aguardando os engenheiros ferroviários. Após as apresentações as questões foram colocadas objetivamente pelo engenheiro John Whitaker:
- Os senhores sabem que a Estrada de Ferro D. Pedro II é uma ferrovia de união nacional. Nossa meta agora é o Planalto de Barbacena, onde exatamente no morro denominado Pedra do Sino, encontra-se o fecho de três vales: o do rio Doce, que vai desembocar na Província do Espírito Santo; o rio São Francisco, que atende três Províncias do Norte e o rio Grande, que é um afluente do rio Paraguai e, portanto chega ao Rio da Prata, no extremo do Império.
- A chuva que cai no alto deste morro escorre, então, em três direções? – perguntou o barão do Rio Novo.
- Exatamente. Mas para atingi-lo temos que vencer a Serra da Mantiqueira. Estudamos três alternativas, seguindo antigas rotas já desbravadas: a primeira pelo vale do rio Pirapitinga, no extremo sul da Província do Rio de Janeiro, vencendo a serra e desenvolvendo a linha pelo vale do rio Grande, na diretriz do Caminho Velho; a outra seguindo ou pelo vale do Rio Pomba, depois da estação de Porto Novo ou, a mais econômica, pelo vale do Rio Paraibuna, na diretriz do Caminho Novo, vencendo a serra da Mantiqueira na Garganta do João Aires. Nesta última, a linha irá se bifurcar exatamente em frente à atual estação de muda da Estrada de Rodagem União e Indústria de Entre-Rios. Como foi o falecido barão que doou as terras e haverá, inegavelmente, uma concorrência entre as duas alternativas de transporte, precisamos conversar...
- Mineiro caro engenheiro, sempre conversa muito antes de qualquer reunião...
- Sei bem disso. Portanto, antes de qualquer decisão, convido os senhores para uma viagem de trem, mas não como simples passageiros, onde qualquer um tem acesso, mas na cabine da locomotiva, para verem de qual tecnologia estamos tratando.

Antes de despedir-se comentou o admirável trabalho de cantaria do solar. Foi-lhe apresentado então Emílio que discorreu sobre sua experiência na União e Indústria. Imediatamente Whitaker o convidou a trabalhar na abertura do túnel, próximo da Estação do Comércio, na vizinha vila de Vassouras, entre as fazendas de Aliança de Casal, por onde a linha passaria.

Menos de um mês depois, o barão do Rio Novo e seu primo comprimiam-se na cabine de uma locomotiva Mogul junto com o engenheiro Whitaker. Depois de uma hora de viagem, quando desceu na estação de Belém, Antonio Barroso consultou o relógio concluindo que o trem percorreu em uma hora a distância que uma tropa de mulas levaria um dia inteiro; ao invés de milho e dois períodos de descanso, consumiu de uma vez apenas água e lenha, que eles tinham de sobra. Antes de fechar a tampa do mostrador observou que o movimento das alavancas da braçagem da locomotiva tinha uma incrível semelhança com o balancim de seu relógio. Comentou isto com o engenheiro Whitaker e ouviu a resposta:
- Esta locomotiva é uma Baldwin, fabricada por um antigo relojoeiro da Filadélfia, Matias Baldwin. Com toda certeza ele também viu a semelhança que o senhor percebeu, quando a partir das primeiras locomotivas inglesas importadas pelos Estados Unidos construiu uma de pequenas dimensões para um museu na Filadélfia, dando origem à maior fábrica de locomotivas a vapor do mundo.
- Desbancou os ingleses?
- Sim, a robustez, o desempenho e a economia das Baldwins americanas são muito superiores às locomotivas inglesas. Aqui na Companhia da Estrada de Ferro D. Pedro II só trabalhamos agora com equipamento americano. Locomotivas inglesas apenas as que vieram para a inauguração, por força de contrato com Edward Price.
- Mas a guerra civil americana não pode prejudicar no futuro?
- De forma alguma. Vou até dizer-lhes algo: provavelmente a atual confusão de bitola nos Estados Unidos, que chegam a treze, venha ter uma padronização depois da guerra. O Presidente Lincoln e seus generais estão sofrendo demais, quando precisam fazer transbordo de peças de infantaria e soldados apenas porque os investidores que implantaram as ferrovias queriam preservar zonas de exclusividade e criaram estas dificuldades operacionais.

Enquanto retornavam para a fazenda, Antonio Barroso foi taxativo:
- A rodovia do comendador Mariano vai falir. Não há como concorrer a tração animal contra a força do vapor!
- O que deveremos fazer, então?
- Dar à ferrovia as mesmas facilidades que meu pai deu à rodovia. Que Entre-Rios se transforme no maior entroncamento rodo-ferroviário do Brasil!
- E que eu seja promovido a Visconde do Rio Novo!

Tuca, que havia se tornado um exímio amestrador de animais de carga, voltou novamente a trabalhar em contato com Emílio que fora contratado para a empreitada de abertura do Túnel de Casal, de 300 metros de comprimento e em curva. A fazenda do Cantagalo e da Boa União forneceriam as tropas de animais de carga necessárias.

Certo dia, estava ele conduzindo uma tropa de doze animais carregados com rocha retirada do túnel, que seria descarregada no local da futura estação de Comércio, quando passa por ele, em disparada, um cavalo que mordera o freio e estava sem controle. Na sela uma senhora agarrava-se com as duas mãos para não cair e estava paralisada de pavor. Esporeando sua mula, Tuca partiu em perseguição, conseguindo com muito custo emparelhar com o animal. Correndo grande risco de cair agarrou o cavalo disparado pelo cabresto com firmeza e fez o clássico assobio de parar. O animal foi-se acalmando e reduzindo a velocidade. Na sela a mulher gritava em uma língua estrangeira que Tuca conhecia bem. Pediu-lhe então, em francês, que se acalmasse, pois estava tudo sob controle. Quando por fim o cavalo estancou resfolegando, Tuca ofereceu à senhora, muito pálida, água de seu cantil.

- É um animal manso, de repente disparou, não sei por quê...
- Uma cascavel pode tê-lo assustado. É muito comum nesta região...
- Você fala francês? – espantou-se a senhora, só então percebendo que mantinha um diálogo perfeitamente normal com um rapaz bronzeado e sorridente.
- Desde pequeno, minha senhora!
- Incrível. Sou madame Grivet, professora de francês em um colégio para meninas, aqui mesmo no Comércio. São filhas de fazendeiros de Valença, Vassouras e outras vilas. Mesmo depois de anos de estudo elas não conseguem se expressar como você. Vou recompensá-lo... – afirmou enquanto procurava abrir sua bolsa de renda cor de rosa.
- De maneira alguma, mademoiselle... – retrucou Tuca, segurando carinhosamente a mão da mulher, que apesar de se intitular Madame, gostou do tratamento de mademoiselle. – Fiz o que seria a obrigação de qualquer pessoa.
- Incrível! Vou-lhe pedir então mais um favor.
- Sinta-se à vontade, mademoiselle.
- Venha um dia à Escola. Vou apresentá-lo às minhas alunas como um exemplo de inteligência e cavalheirismo. Este país me surpreende a cada dia!
- Pode marcar o dia.
- Amanhã mesmo, pode ser? Como é seu nome, meu rapaz?
- Sim. Não vou agora porque minha mula madrinha daqui a pouco vai estancar, atrasando o serviço que estou fazendo. Mas amanhã eu programo tudo e posso sim, na hora que a senhora quiser. Meu nome é Antonio, mas tudo mundo me trata por Tuca.

Às dez horas da manhã a classe inteira de vinte alunas estava aguardando ansiosa a chegada do peão que havia salvado a professora. Falando o tempo todo em francês, ele foi descrito como um herói dos romances que ela obrigava suas alunas lerem. O fato de ser um trabalhador e não um filho de fazendeiro, despertava nas meninas a curiosidade e fantasia absolutamente normal na adolescência. Estavam, pois, todas ansiosas para conhecer Tuca.

Batendo timidamente na porta, com a melhor roupa que tinha e o grande chapéu nas mãos, Tuca chegou na hora combinada. A professora mandou que entrasse na sala e, falando o tempo todo em francês, fez uma apresentação rápida. Desafiou então que seus alunos lhe fizessem perguntas, também em francês. Imediatamente uma delas levantou as mãos, sendo autorizada pela professora:
- Pode perguntar Eufrásia.

Tuca virou seus olhos verdes em direção à moça e sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Nunca havia visto em sua vida mulher tão bonita. Deduziu que ela deveria ter quatorze anos, cinco a menos do que ele. Nunca se recordaria da pergunta feita, mas sua resposta deve ter agradado, pois todas as alunas sorriram. Durante, então, meia hora respondeu a várias outras questões, sempre sorridente, tentando o tempo todo minimizar seu feito heróico.

Sem conseguir controlar o desejo de ver novamente a moça e em nenhum momento pensando em conseqüências, Tuca passou a programar suas atividades de tal maneira que, sempre à hora da saída das alunas, estava passando sozinho pela porta da escola. Princesa, sua mula pedrês, passou a ser escovada com antecedência, os metais da sela polidos e uma muda de roupa de melhor qualidade passou a substituir o traje comum de algodão. Lamentava apenas não ter o perfume emprestado por Valenciano quando viajara para Minas Gerais que tanto sucesso ajudou a fazer na sua primeira noite de homem.

A atração era mútua e foi crescendo. Certo dia, quando um calor intenso deixava a todos fadigados, Eufrásia comentou que seria ideal um banho frio no rio. Por que não? - concordou Tuca.

Combinando com a cobertura da prima, que estudava na mesma classe, a adolescente impulsiva foi até o rio. Tuca deixou o animal amarrado sob uma ingazeira que descia seus galhos quase até a água em um ponto onde o Rio Paraíba do Sul formava uma piscina natural. Depois de alguns minutos em silêncio, contemplando a natureza plácida do lugar, seus lábios se encontraram. Os hormônios atuaram de forma incontrolável e Eufrásia não resistiu enquanto as mãos carinhosas e experientes de Tuca iram desabotoando seu vestido comprido. Quando expôs seu dorso e os pequenos seios juvenis, cujos mamilos rosados intumescidos indicavam claramente o estado de excitação da menina, Tuca também não conseguiu se controlar. Um pensamento inconveniente, o comentário de Batista, seu antigo professor de luta armada, ao falar do sangue do degolado que o coração expulsa com cada vez mais força, indicando que o corpo reage às vezes em oposição à razão, passou rapidamente por sua cabeça. Mas muito rápido, pois no momento era como se a divisão do tempo em passado e futuro convergisse apenas para o presente.

Minutos depois, resfolegantes, lágrimas brotaram nos olhos de Eufrásia. Tuca as bebeu com um beijo suave e convidou sua já mulher a ir até a água, limpar o filete de sangue que escorria entre suas coxas. O contato com a água fria, como se a despertasse de um sonho, fez Eufrásia chorar um pouco alto. Tuca abraçou-a e a cobriu de beijos por todo o corpo. Logo estavam de novo envolvidos num abraço total, agora protegidos pela água cor de barro do Rio Paraíba do Sul, numa cena que, se tivesse olhos e sentimentos, vira acontecer milhares de vezes, desde com as capivaras que proliferavam nas suas margens, como nos índios de várias tribos dos Tupis que construíam aldeias, posteriormente destruídas e ocupadas pelo homem branco. Encontros amorosos entre macho e fêmea, sob a proteção de suas águas não eram evento incomum no passado, como também não seriam no futuro.

No dia do casamento de Miguel Ribeiro de Sá, o caixeiro do Armazém do barão do Rio Novo, que já estava com 35 anos, com Maria da Trindade Araújo, bem mais jovem, Tuca resolveu contar o que estava acontecendo a seu melhor amigo.

- Que loucura, Tuca. Você sabe quem é a moça?
- Nunca lhe perguntei o sobrenome, porque que ela também não perguntou o meu. Se perguntar o que vou dizer? Que não tenho, que sou filho de escrava, não tenho pai conhecido, sou também um escravo do barão do Rio Novo?
- Mas você nunca foi tratado como escravo. Tanto pelo barão, como pela baronesa, e também pelo pai dela, o falecido barão de Entre-Rios. É cria da casa, como dizem.
- Sim, mas legalmente sou um escravo.
- O nome dela você sabe?
- Sei por que a professora disse: é Eufrásia.
- Nome de mulher rica.
- Rica ela deve ser, pois todas as alunas daquela escola são filhas de fazendeiros, comerciantes... Gente de dinheiro. Suas roupas também são bonitas, perfumadas.
- Cuidado, homem. Veja lá com quem você está se envolvendo. Tanta mulatinha linda apaixonada por você e vai logo se envolver com uma branca!

No dia em que as duas turmas que trabalhavam na cabeceira inferior e superior do Túnel Grande se encontrariam, D. Pedro II foi convidado a acompanhar o evento. As picaretas quebraram uma fina camada de granito e os operários viram do outro lado da pequena abertura, iluminado pela luz avermelhada dos atoches, o semblante inconfundível do Imperador. Aos 39 anos, sua barba cerrada dava-lhe uma aparência mais velha, mas majestosa. Sorridente, atirou moedas de ouro pela abertura para alegria dos operários.

Em 1864 estava finalmente vencido o maior desafio para o prosseguimento da Estrada de Ferro D. Pedro II. As obras consumiram cinco anos e a vida de muitos operários, quando não imediatamente, anos depois pelo chamado mal da via, o enrijecimento dos pulmões pela respiração da sílica dentro dos túneis durante a escavação.

Neste mesmo ano, chegam ao Brasil para se casarem com as princesas Isabel e Leopoldina os nobres franceses Gastão de Orleãns e Bragança, Conde D’Eu e seu primo Augusto de Saxe, Duque de Saxe. A princesa Isabel casou-se no dia 15 de outubro e a princesa Leopoldina em 15 de dezembro. Entretanto, neste segundo casamento o clima de festa não foi o mesmo, pois o Paraguai três dias antes havia declarado guerra ao Brasil, em represália à intervenção das tropas brasileiras no Uruguai. Estas tropas haviam invadido o território do país vizinho em outubro, depois de infrutíferas as negociações diplomáticas de agosto, para ressarcir prejuízos causados aos fazendeiros gaúchos por fazendeiros uruguaios. Os partidários do colorado Venâncio Flores, que contava também com o apoio da Argentina, uniram-se às tropas brasileiras para depor o presidente Anastásio Aguirre, do partido dos blancos.

O Ministério da Guerra adotou duas estratégias iniciais: a primeira consistiu em enviar uma forte esquadra para controlar o acesso ao Rio da Prata; a segunda enviar uma missão por terra, denominada Expedição de Mato Grosso. Como o Brasil conseguiu aliados da Argentina e Uruguai (cujo novo presidente assumira apoiado pelo Brasil), a Tríplice Aliança acreditava que a guerra seria de curta duração. Ledo engano. O conflito arrastou-se por cinco anos, onde morreram mais de 60 mil brasileiros entre civis militares enviados para a frente de batalha, que foram 160 mil. O Paraguai que iniciou o conflito com o maior exército da região, 80 mil homens treinados e bem armados, teve 300 mil baixas e perdeu para sempre uma liderança econômica duramente conquistada por anos de política de auto-suficiência. O Brasil que pode ser considerado o grande vencedor sofreu também revés econômico e político que comprometeram a própria manutenção do único regime monárquico da América. No Vale do Paraíba, de onde saía a riqueza que sustentava o Império não se podia imaginar, na ocasião, que um dia tal coisa pudesse acontecer.

Os encontros furtivos de Tuca e Eufrásia, dada a paixão jovem que os envolvia, não passaram despercebido, de tal forma que o romance clandestino chegou aos ouvidos do poderoso advogado, financista e comissário de café Joaquim José Teixeira Leite, pai de Eufrásia. Mandou investigar e ficou indignado com o envolvimento da filha com um simples escravo de um fazendeiro da Vila de Paraíba do Sul. No primeiro fim de semana mandou a filha para morar na residência que possuíam no bairro de Laranjeiras, na Corte. Ela não entendeu a repentina decisão dos pais, de interromper o curso pela metade, mas aceitou resignada. Quanto ao escravo ele tomaria outras providências.

Sem entender muito bem porque sua amada deixara de sair às escondidas para seus encontros nas horas mais quentes do dia, quando tudo parecia adormecido, Tuca continuou sua rotina, porém mais atendo.

Certa manhã, quando se dirigia ao ponto onde as 12 mulas carregariam as pedras provenientes da demolição do Túnel de Casal, seguindo na rabeira da tropa, percebeu que a mula madrinha agitou nervosamente as orelhas e reduziu o ritmo da caminhada. Tuca observou que o animal parecia querer entender algum ruído imperceptível para ele que saía da moita de bambu gigante que crescia entre a estrada e a margem do Rio Paraíba. Esporeou sua mula e ficou do lado oposto da fila de animais da tropa, de tal forma que qualquer ameaça as encontraria primeiro do que a ele. Fez um assovio característico para que a madrinha apressasse seu trote e de soslaio vigiou a moita de bambu. Percebeu então três vultos abaixados, parecendo escondidos. Foi um sinal de alerta, no dia seguinte passaria a viajar armado.

Dias depois numa tarde, quando retornava com os animais descarregados em direção ao estábulo onde pernoitariam, Tuca notou novamente o movimento nervoso das orelhas da sua mula madrinha. Mas, desta vez, enfrentaria o perigo, apalpou a garrucha carregada na cintura e sabia que o pequeno punhal estava escondido na bota de montaria. Deixou que a tropa seguisse no trote normal, mas ficou atento à moita de bambu. Não foi, portanto, surpresa quando três homens saíram do esconderijo e correram em sua direção. Tuca viu que um deles empunhava uma garrucha, outro um ferrão usado nos carros de boi, porém com uma lâmina afiada na ponta, como uma lança e outro trazia um facão nas mãos, que gritava:
- Vamos capar ele!

Tuca saltou da mula Princesa, que assustada, partiu para cima dos três homens que foram obrigados a dar-lhe passagem. Quando perceberam Tuca já estava com sua garrucha empunhada, mirando no homem armado. Parecendo não acreditar e por estarem em maior número, eles não se intimidaram e dois partiram sobre ele. O homem armado ficou, porém parado e ergueu sua arma para fazer pontaria, mas o tiro certeiro de Tuca em seu peito o fez cair para trás, agonizando. O tiro assustou as mulas que dispersaram deixando uma nuvem de poeira na estrada. Os dois homens com arma branca partiram em sua direção.

Embora toda a cena estivesse acontecendo em segundos, parecia que um longo tempo estava decorrendo, de tal forma que Tuca se lembrou do diagnóstico de Batista, quando disse que ele não era bom em luta de faca. Portanto, escolheu primeiro eliminar o homem da lança, que muito ágil chegou a golpeá-lo de raspão no ombro esquerdo. Mas conseguiu desviar-se a tempo e segurando a vara com a mão direita puxou o homem para si. Este, assustado, com a reação, caiu no chão. Tuca mergulhou sobre ele, já com o punhal nas mãos, indo direto para sua jugular. A lamina afiada deixou um corte fino que foi se enchendo de sangue. O homem o protegeu o ferimento com as mãos, mas não adiantava. Seu coração iria, à medida que a pressão do sangue no seu cérebro diminuísse, bater cada vez com mais força, deixando em poucos minutos um cadáver branco deitado sobre uma poça vermelha. Tuca teria então de enfrentar o terceiro homem na luta de faca mano a mano, que fora diagnosticada como sua fraqueza. Mas não foi necessário, pois este já corria estrada a fora, sem olhar para trás.

Correndo os olhos em volta Tuca percebeu que não havia testemunhas, apenas um bem-te-vi cantava no alto de uma palmeira. Achou irônica a situação e foi ver de perto seus agressores. Pareciam ser escravos, um deles, o da lança, com características típicas dos “baianos”. O homem que levou o tiro ainda estava vivo, com os olhos arregalados, provavelmente padecendo de uma hemorragia interna.

Tuca pegou o chapéu no chão, bateu a poeira na calça e caminhou na direção em que a tropa havia disparado. Não andou meia légua e a encontrou parada, pois a mula madrinha, retomando a liderança, fazia o que fora ensinado: estancar, aguardando ordem do tropeiro ou arrieiro. A mula princesa também pastava próximo. Tuca assobiou, o que fez os animais levantarem as orelhas, reconhecendo sua presença. Em poucos minutos estava de novo marchando em direção ao curral, como se nada tivesse acontecido. Mas, aconteceu.

Emilio Pietro ficou boquiaberto com a narrativa do rapaz, que lhe parecia extremamente frio depois de ter matado dois homens. Percebeu que o treinamento que Valenciano proporcionara na grande viagem a Minas Gerais o havia transformado para sempre. A frustração de nada ter acontecido naquela viagem havia acumulado energia como uma mola comprimida. Exigiu-lhe toda a verdade para poder ajudá-lo e soube então do seu envolvimento amoroso com uma jovem, que não conhecia o sobrenome. Perguntou, enquanto passava água fria no machucado no ombro de Tuca:
- Mas o que aconteceu não vai ter conseqüências?
- Que vai, vai. Mas não sei qual. Os dois ficaram lá na estrada, mortos, Eufrásia sumiu sem deixar pistas há mais de quinze dias.
- Vamos mudar a rotina. Você agora vai trabalhar em outra obra, nos pregões das pontes das Três Ilhas. Vou remanejar muita gente e ficar prevenido.

A notícia de dois homens mortos na estrada, descobertos só no dia seguinte, cobertos de formigas e já com urubus em volta, assustou os moradores de Comércio. Mas logo surgiu uma versão de briga fatal de dois escravos embriagados. Mas não dourou muito. Menos de quinze dias o mestre canteiro foi procurado por um homem de chapéu grande, que se apresentou como da polícia de Vassouras. Estava investigando o crime e queria saber informações.

A MULA DO OURO - Capitulo 13

Capítulo 13
Guerras


Emilio repetiu o que ouvira, falado pelo povo, de ser uma briga fatal. Um atirou e o outro foi degolado.

- As evidências indicam ser um crime misterioso, pois a garrucha estava carregada, caída mais perto do que foi atingido pelo tiro e não foi encontrado o punhal que degolou o outro.
Forçando o sotaque espanhol para deixar claro que era estrangeiro e não seria uma boa fonte de informações, Emilio evitou dar prosseguimento à conversa. Mas o homem parecia querer rodear o assunto, até que disse:
- Tem dinheiro por trás, forçando uma investigação para cima do pessoal aí, das obras da estrada de ferro.
- Muito dinheiro?
- Apareceram uns cinco contos de réis.
- Qualquer paralisação nos serviços para interrogar nossos operários pode nos prejudicar. Estamos trabalhando por empreitada...
- Sei disso. Todo mundo quer a ferrovia. Os mortos não eram de bem, já tinham até passagem pela polícia. Se não fosse o dinheiro fazendo pressão...
- Dez mil réis nos deixariam de fora? Quer dizer, nosso trabalho não seria interrompido para vocês continuarem na investigação normal?
- Esta quantia daria sim, para o inquérito seguir na direção das evidências: uma briga fatal entre dois malfeitores.

Antes de Emilio pedir o saque de 10 mil réis de sua poupança junto ao Antonio Barroso passou por instantes de grande angústia. Sem dúvida seus princípios morais, antigamente tão rígidos, estavam sendo contaminados pelo clima de corrupção, de se dar um “jeitinho”, uma atitude que testemunhara a todo o momento e parecia ser uma característica brasileira. Mas Tuca, ingênuo, parecia achar que o problema se resolveria por si mesmo, sem perceber que as leis brasileiras, herdadas da cultura portuguesa e espanhola, eram duras e inflexíveis, razão pela qual sempre se evitava sua aplicação. Um escravo suspeito de assassinato não valia nada, facilmente poderia ser preso para averiguação. Então, o terceiro homem, provavelmente a mando de alguém que estava por trás do dinheiro que corrompia a polícia, teria na cadeia uma chance de eliminar facilmente o menino que ele vira crescer, quase como um filho. Portanto, adotara a melhor opção: ganhar tempo, aumentando o cacife do jogo e esperar o novo lance.

À medida que a linha ferroviária descia o Rio Paraíba do Sul, mais café atraía, reduzindo o movimento da estrada da rodovia de Mariano Procópio, que por problemas financeiros, em 29 de outubro de 1864 o Decreto 3325, já havia transferido ao Estado a proprieda¬de da estrada de rodagem União e Indústria. A mesma coisa aconteceria com a ferrovia, que pelo Decreto no 3.503, de 1º. de julho de 1865, a Companhia da Estrada de Ferro D. Pedro II foi encampada pelo Governo Geral.

O Túnel Grande foi inaugurado com a presença da Princesa Isabel e do Conde D’Eu em 17 de dezembro de 1865. Não contou, entretanto, com a presença da Cristino Otoni, que fora exonerado da direção da Presidência da ferrovia quatro dias antes. E, apesar da Guerra da Tríplice Aliança se agravar a cada dia, as obras da ferrovia não sofreram diferença alguma no ritmo. Em dois anos a ferrovia chegaria oficialmente à Vila de Paraíba do Sul, com a inauguração das estações de Paraíba e Entre-Rios.

A notícia provocou alvoroço na Corte: D. Pedro II visitaria a frente de batalhas. Visitou várias cidades até chegar a Uruguaiana a tempo de testemunhar uma grande batalha, pois o exército paraguaio havia ocupado a vila em cinco de agosto de 1865, porém logo foram cercados pelo exército brasileiro que, impedindo qualquer auxilio externo esperava vence-los pela fome. Quando, em meados de setembro, D. Pedro II chegou ao local, os soldados paraguaios já padeciam. Antes do ataque, marcado para 18 de setembro, foi-lhes oferecida a rendição pelo General Porto Alegre, pois seria um massacre a ser testemunhado pelo Imperador. O comandante paraguaio aceitou, rendendo-se cinco mil homens. A ocupação não durara dois meses, revelando-se uma estratégia equivocada.

Não foi este, entretanto, o único lance ousado e igualmente fracassado. Meses ante, Solano López, que conduzia a guerra de Assunção, longe do teatro de operações, foi à Humaitá e ordenou um ataque à esquadra brasileira que bloqueava o rio Paraná. Na noite de dez para onze de junho de 1865, dispondo de nove navios, desceu o rio procurando surpreender os navios brasileiros. A batalha foi travada em frente à foz do riacho Riachuelo, escapando da frota paraguaia quatro navios seriamente danificados, indo à pique cinco embarcações e morrendo dois mil homens, enquanto a frota brasileira perdeu um único navio e 124 homens, assegurando em definitivo o controle do rio até o fim do conflito, impedido qualquer ajuda externa ao Paraguai.

Em 19 de setembro de 1865 as tropas da Argentina e do Brasil, após a rendição das tropas paraguaias em Uruguaiana começaram a atravessar o rio Uruguai e a marchar em direção à vila de Mercedes, de onde iriam para Corrientes, no território argentino, que foram invadida pelo exército de Solano López em 13 de abril de 1865. Mas quando o exército aliado chegou a Corrientes, verificou-se que ela já fora abandonada pelos soldados paraguaios.

Deste modo, menos de um ano após desfechar o ataque aos dois maiores países vizinhos, ocupando seus territórios e desencadeando uma guerra, Solano López estava recolhido às suas fronteiras. Porém, suas terras já foram divididas pelo Tratado da Tríplice Aliança, pelo qual, no final da guerra, a Argentina ficaria com o território que ia da margem direita do rio Paraguai, até a Baía Negra (região do Charco Boreal) e a margem esquerda do rio Paraná, até o rio Iguaçu e o Império do Brasil iria se apoderar de um terço do território do Paraguai, inclusive o distrito onde a erva mate de alta qualidade era cultivada.

Esperava-se, no final de 1865, que a guerra estivesse praticamente liquidada, bastando o general argentino Bartolomeu Mitre marchar rumo a Assunção e depor Solano López. Não esperavam, portanto, diante da pouca resistência oferecida até então, que em seu próprio território os paraguaios revelassem uma gana combatente e capacidade resistência que envolveria todas as camadas da sociedade, homens, mulheres e crianças, prolongando a guerra por mais quatro anos.

Sem entender muito a razão, surgiu de Vassouras um súbito interesse por algumas posses do barão do Rio Novo. Um enviado do poderoso Joaquim Teixeira Leite dissera estar ele interessado numa tropa de mulas que trabalhara nas obras do túnel. Oferecia uma quantia que, provavelmente mais por isso, assustou o barão, porque veio acompanhada também de uma exigência: o escravo tropeiro responsável também deveria vir junto, estando para tal avaliado em dois mil e quinhentos réis.

Ao procurar saber de quem se tratava, tiveram outra surpresa, pois se tratava de Tuca, escravo sim, mas “cria da casa”. Pelo mesmo alinhamento político dos Teixeira Leite, o barão não poderia recusar, já que pretendia ampliar sua influência política e o pleito de visconde já estava sendo encaminhado na Corte. Antonio Barroso, seu primo, viu nisto um grande negócio, apesar de saber que a venda poderia entristecer a irmã, já que se apegara ao rapaz desde quando este nascera no dia da visita de D. Pedro II, há 20 anos. Resolveram então consultar o chefe da equipe que utilizava a tropa, o espanhol Emilio Pietro.

Nem bem a proposta foi formulada e Emilio percebeu o lance ousado e inteligente do pai de Eufrásia. Era uma prática comum entre fazendeiros, quando se sentiam ofendidos por escravos de outros proprietários. Estes, muitas vezes, descontavam a revolta sobre seus próprios feitores, desafiando outros, de fazendas rivais. A “proteção” do amo encorajava este tipo de atitude, sendo a opção mais interessante forçar uma venda. Aí sim, mudando de propriedade, o escravo visado tão logo chegava à nova fazenda, nem bem descarregava seus parcos pertences na senzala e era encaminhado ao tronco. Não adiantava lamentar, pois sendo desconhecido, um estranho para os outros, seus apelos iniciais e gritos de dor posteriores não sensibilizavam ninguém. Um rico fazendeiro pagava o que fosse para limpar a boca de alguém que o insultara.

Emilio pensou então qual destino Tuca teria nas mãos do comparsa dos dois agressores que matara em legítima defesa. Teria de pensar rápido, pois a consulta do barão foi mais no sentido técnico do que humanitário, já que a repercussão do caso ficara abafada com o pagamento que havia feito à polícia de Vassouras.

- Isto pode prejudicar muito o serviço da ferrovia – afirmou inicialmente.
- Ora, por quê? Temos tantas tropas, tantos tropeiros...
- Mas ele está com os senhores desde pequeno, nasceu aqui...
- Ora, mestre Pietro, o fazendeiro não pode deixar o coração agir no lugar da cabeça. O Joaquim Teixeira Leite está nos pagando pelo menos o dobro do que se obteria normalmente. É um excelente negócio!

Emilio viu que deveria tentar outra abordagem, pois também não poderia contar-lhes de suas suspeitas, pois aí sim, a solidariedade entre fazendeiros falaria mais alto.
- Eu não concordo em ter uma equipe que treinei e trabalha há anos comigo desativada por questões de negócio. Portanto, senhor barão, comunico que vou paralisar imediatamente meu serviço na ferrovia e comunicar à direção o motivo. O senhor então trate de administrar a crise política. Quanto ao senhor Antonio Barroso, como vou embora definitivamente, gostaria de resgatar imediatamente todas as economias há anos venho aplicando com o senhor...
- Calma, espanhol, calma! – pulou Antonio Barroso.
- Vamos conversar seu Pietro. Há solução para tudo. Em nenhum momento posso comercializar o Tuca sem comunicar à Condessa. Fique tranqüilo! – ponderou o barão.
- Eu gostaria mesmo de ter uma conversa particular com a baronesa a este respeito, se me permite.
- Sinta-se à vontade. Vou comunicar-lhe este seu desejo.
Emilio quando se encontrou com Mariana Claudina às sós resolveu falar toda a verdade, confiando no seu espírito de justiça. Falou do envolvimento de Tuca com a filha do advogado de Vassouras, a tentativa de assassinato, o investimento que ele fez para a polícia de Vassouras esfriar o caso e o risco que o rapaz continuava correndo. A evidência estava na tentativa de compra, quase uma imposição.
- O que fazer? - perguntou a baronesa.
- Bem, eu tenho uma idéia conciliatória, que o Tuca vai aceitar e até ficar satisfeito diante das ameaças que corre por aqui. O barão também ficará satisfeito, pois terá um ganho político com isso. O seu irmão, o Antonio Barroso, que não iria receber nada pela venda diretamente, não perderá o investimento que eu mantenho com ele...
- Qual a idéia?
- Tuca se apresentar como o primeiro Voluntário da Pátria de Paraíba do Sul. Ele e toda as tropas de mulas, pois o Brasil está necessitando de ajuda para a guerra no sul. A proposta tão valiosa do Teixeira Leite poderá até ser usada para demonstrar o quanto o barão e a baronesa do Rio Novo estão abrindo mão financeiramente para ajudar o país. A senhora, neste caso, como proprietária de Camila e, por conseqüência de Tuca, estaria de acordo?
- Se for para escapar da morte certa aqui, trocando por uma chance de sobreviver à guerra, estou de acordo. Vou transmitir esta idéia ao meu marido e ao meu irmão, dizendo-lhes que conta com meu apoio. E quanto ao Tuca?
- Eu falarei com ele. Tenho certeza que concordará pois tem coragem e me parece muito bem treinando para se defender.

Quando a notícia se espalhou, de que os fazendeiros de Paraíba do Sul proprietários da fazenda do Cantagalo e da Boa União, foram os primeiros da região a fazerem uma contribuição efetiva à causa do Império, outros foram obrigados a seguir-lhe os passos. O Imperador ficou duplamente satisfeito, pois o barão de Rio Novo, além da ajuda inequívoca à ferrovia, estava contribuindo com voluntários e com animais treinados ao transporte de carga pesada. O barão recebeu imediatamente a notícias de que seu processo de titulação a Visconde, independente de atropelar igual pretensão do barão de Paraíba, seria priorizado.

O barão do Rio Novo redigiu então uma carta ao seu partidário de Vassouras, informando que havia se comprometido com a causa patriótica, razão pela qual abria mão do vantajoso negócio que lhe fora oferecido. Propunha que ele fizesse a mesma coisa pelo país. Transformou limão em limonada – como se dizia no Vale do Paraíba.

Entre os doze escravos arregimentados entre fazendeiros da Vila de Paraíba do Sul, Tuca foi o único ao não estranhar a farda, pois há anos habituara a andar calçado. Seus companheiros, entretanto, sofriam com as botas. Como era o mais treinado em conduzir animais de carga, recebeu ordens de seguir com a tropa em direção ao Sul, até a cidade de Campinas. Lá formariam um batalhão que viajaria para a cidade de Miranda, no Mato Grosso, que fora invadida pelo exército de Solano Lopes. Fariam parte da expedição terrestre, juntamente com cadetes do batalhão de Engenharia da Escola Militar da Praia Vermelha.

Ao se despedir de Emilio, que lhe contou todo o ocorrido para que ficasse prevenido na sua viagem ao sul contra qualquer tentativa de vingança, Tuca deu um forte abraço no velho espanhol e, pela primeira vez, sentiu o peso da desigualdade. Criado na fazenda sempre junto à sede, nunca havia percebido o sofrimento de seus iguais, escravos, porque não era tratado e não se sentia como tal. Porém, diante do risco que correra de ter sido vendido para um grupo de pessoas, que forjando qualquer motivo, baseado em testemunhas falsas poderia, amparado pela própria lei vigente no país, açoitá-lo até à morte, percebeu a desigualdade no dia-a-dia dos seus irmãos de cor.

Tão logo o primeiro contingente de Voluntários da Pátria da Vila de Paraíba do Sul partiu na direção sul, conduzindo um grande rebanho de animais de cargas, como missão de seguir até a cidade de Campinas, na Província de São Paulo, onde aguardaria novas instruções, os primos Antonio Barroso e José Antonio de Carvalho se sentaram na varanda da sede da fazenda do Cantagalo. O dia estava terminando, colorindo de vermelho nuvens esparsas no céu. O barão do Rio Novo olhou para o poente e sentenciou:
- Vão começar a pegar frio pelo caminho.
- Será que esta guerra não termina até eles chegarem ao sul. São mais de dois mil quilômetros de distância, coisa de três a seis meses de marcha, sem contar a parada em Campinas.
- Pode ser uma guerra curta ou longa, depende do ângulo que se analise.
- Como assim?
- Pelo poderio militar, o Paraguai não é páreo para o Brasil e a Argentina, países que invadiu. Enquanto eles são 400 mil, nós brasileiros já ultrapassamos oito milhões, vinte vezes mais. Logo as tropas aliadas retomarão o território invadido e aí, sim, estarão invadindo o Paraguai. Mas, pelo lado político, pode ser uma guerra longa.
- Tem política nisso?
- É uma batalha contra o comunismo.
- O que é isto, primo? Está falando daquele Manifesto, dos alemães Karl Marx e Engels, de quando mesmo?
- De 1845, há pouco mais de 20 anos. O Paraguai é o primeiro país a adotar o comunismo. Talvez os próprios autores do manifesto nem saibam disso.
- Não entendi.
- O comunismo tem duas bandeiras: substituição da propriedade privada pela propriedade coletiva e união de todos os trabalhadores, independente da pátria.
- Não teriam fazendas ou indústrias?
- Teriam fazendas e indústrias, mas não fazendeiros e industriais. Tudo seria de todos; isto é, pertenceriam ao povo, mas gerido por um chefe todo poderoso.
- O Paraguai é assim?
- Primo, eu pesquisei a política, como você sempre faz no lado da economia. Tenho tudo na ponta da língua, pronto para qualquer conversa importante na Corte. Vou recapitular rapidamente: o Paraguai ficou independente da Espanha em 1811, pouco depois da chegada do D. João VI aqui, em 1808, devido às incursões napoleônicas que desestabilizaram o governo espanhol. Logo surgiu uma junta militar local de governo, chefiada por José Gaspar Francia, que governou como ditador de 1814 a 1840. Foram 26 anos de proibição total de comércio e comunicação com o exterior. Ninguém entrava ou saía do país sem o seu consentimento. Confiscou propriedades e tornou o Estado o principal agente de produção e do comércio. Mas, em função disso, a economia começou ficar estagnada a partir da década de 1830.
- Lógico!
- Quando morreu 1840 foi sucedido por Dom Carlos Antonio Lopez, um advogado corpulento e inteligente, que revogou o isolamento anterior do Paraguai, estabelecendo relações comerciais com os Estados Unidos, Inglaterra, França e seus maiores vizinhos: Argentina e Brasil. Ocorreu então um surto de desenvolvimento em seu governo que terminou em 1862, com sua morte. Porém manteve tudo na mão do Governo, embora sua família e amigos tenham enriquecido muito. Neste período a população do Paraguai saltou de 220 mil para 400 mil habitantes. Implantou rodovias, ferrovias e telégrafo. Fez também uma revolução na educação. Quando assumiu o governo o Paraguai tinha apenas uma escola primária. Mandou construir 400 com capacidade para 25.000 alunos.
- Mas educar o povo assim não é perigoso?
- Claro que sim. Veja como aí está o traço do comunismo! Além de importar médicos e engenheiros estrangeiros mandou estudantes paraguaios se formarem no exterior.
- Mas manteve o estado controlando toda a produção?
- Liberou um pouco o comércio, mas manteve o monopólio da comercialização da erva-mate, do tabaco e da madeira, assim como do arrendamento de terras. Mas atraiu especialistas estrangeiros para implantar uma metalúrgica com capacidade de produzir armamento.
- Estava se preparando para uma guerra futura?
- Talvez não. Provavelmente estava apenas cuidando de sua defesa, pois implantou outras medidas audaciosas. Como, por exemplo, criar uma lei do ventre livre, em 1842, e estabelecendo que todos os filhos de escravos nascidos a partir daquela data seriam livres e os outros filhos não contemplados pela lei o seriam quando atingissem os 25 anos de idade.
- Em 1842? Há mais de 20 anos atrás? Na época, estas idéias aqui no Brasil seriam terríveis para nós fazendeiros. Havia muitos escravos negros lá?
- Importaram 50 mil africanos há um século, que para a população existente na época pode ser considerado bastante. Francia, o ditador anterior, importou um mil.
- Os Estados Unidos estão em guerra civil agora porque a escravidão é permitida em quase metade do seu território. Imagine uma idéia dessas há 20 anos aqui no hemisfério sul! Era um governo liberal, sem dúvida.
- Em termos, primo. Não liberou a política. Não admitia controvérsias nem oposição e aí então, cometeu um grande erro.
- Qual?
- O nepotismo. Achou que seu filho, também corpulento herdara sua inteligência.
- Como assim?
- Antes de completar 19 anos, sem formação militar alguma, Francisco Solano Lopez, seu filho, foi nomeado General-em-chefe do Exército e Ministro da Guerra no gabinete de seu pai.
- Mas o nosso Imperador também não assumiu o trono com 16 anos?
- Tem razão primo. Aliás, eles têm praticamente a mesma idade, pois o nosso imperador nasceu em dois de dezembro de 1825 e Solano Lopez em 24 de junho de 1827, é portanto, apenas 18 meses mais jovem. Mas, pelo que se ouve falar, têm personalidades totalmente diferentes...

Tuca e outros Voluntários da Pátria chegaram a Campinas cerca de 20 dias antes do contingente de engenheiros militares chegarem do Rio de Janeiro, por via marítima através do Porto de Santos. No percurso da Vila de Paraíba do Sul até Campinas, que levou um mês de viagem, com longas paradas para a tropa descansar, pode ele observar que o café vicejava por todo vale do Rio Paraíba do Sul, mas com lavouras mais novas na direção sul, indicando que o café migrava para o sul.

Com uma centena de muares, muitos animais ainda jovens, no dia em que foi iniciada a marcha da coluna militar que iria até o Mato Grosso, como parte da estratégia de cerco pelos flancos, houve muita confusão. Algumas mulas ao serem carregadas com o pesado equipamento militar saíam do controle e em corcoveio assustados derrubavam toda a carga. Os oficiais corriam de um lado para outro, organizando o carregamento. Talvez por ser o mais experiente de todos, Tuca conseguiu distribuir o peso de acordo com a personalidade de cada animal que já conhecia, de forma que sua tropa estava completamente alinhada quando os oficiais passaram em inspeção. Um deles, um rapaz alto de vasta cabeleira alourada aproximou-se amigavelmente:
- Parabéns, é a tropa mais organizada!

Tuca fez continência, como haviam-lhe ensinado no rápido treinamento dado no destacamento da Guarda Nacional em Campinas e respondeu:
- Meus animais estão já treinados, tenente.
- Procure o sargento Ferreira e diga que eu dei ordem para você orientar os outros tropeiros. Diga que foi ordem do tenente Alfredo Taunay.
- Sim senhor. Alfredo Tomé?
- Não, Taunay, do francês.
- Tu parlé pá français?
- Oui! Certemanint!

Taunay surpreendeu-se com o que acabara de assistir: um mulato tropeiro que, além de ter perfeito controle dos seus animais falava um bom francês, se bem que com sotaque um tanto estranho. Sorriu e concluiu:
- Cumpra a missão e depois vou procurá-lo para termos uma conversa em particular. Fala bem, mas precisa melhorar a pronúncia. De qualquer forma, parabéns de novo!

Tuca rapidamente foi incorporado aos auxiliares diretos do sargento Ferreira. Com a experiência de longos anos cuidando de animais acostumados com a pesada carga de rochas detonadas dos túneis da ferrovia, reorganizou as tropas, pois teve carta branca do superior. Instruiu os soldados que também, eram voluntários, sobre como proceder e em pouco tempo a coluna marchava em ordem. O ritmo, porém, era muito lento, pois um rebanho de bovinos, que iam sendo adquiridos ao longo do caminho, que seguia o vale do rio Tietê, fazia com que a marcha diária não chegasse à média a seis quilômetros diários – uma légua.

Numa dessas paradas para descanso, o sargento Ferreira se aproximou de Tuca e perguntou:
- Você fala mesmo francês, Tuca?
- Aprendi com minha mãe, desde criança. Ela também aprendeu quando nova, para ler romances para uma velha. A sinhá dela, a baronesa do Rio Novo, também gosta muito de literatura francesa e de comentar os romances com ela.
- Puxa você deu sorte. Quem me disse foi o tenente Alfredo, que é filho de franceses e ficou surpreendido. Elogiou você.
- É bom saber. Dei sorte.
- Assim você logo vai ser promovido a cabo!

No Vale do Paraíba as obras da Estrada de Ferro D. Pedro II continuavam à todo vapor e brevemente a linha chegaria à vila de Paraíba do Sul. Seguindo exemplo de seu sogro, que havia cedido suas terras para travessia da União e Indústria, o barão do Rio Novo, deu igual tratamento à ferrovia, o que repercutiu muito bem na Corte. Em 27 de março de 1867 D. Pedro II o agraciou com o título de Visconde do Rio Novo.

Foram três dias de comemorações na fazenda do Cantagalo e da Boa União. Houve várias missas em ação de graças, discursos de políticos da região e a banda de música composta por escravos, alguns músicos experientes vindos da fazenda do Imperador em Campo Grande e que já abrilhantavam bailes em Petrópolis, só parava de tocar quando a madrugada era alta.

No final do ano a linha chegaria até às novas estações de Paraíba do Sul e Entre-Rios, esta última edificada em frente à estação de mesmo nome, pertencente à Companhia União e Indústria, que estava com movimento à mingua, pois todo café da própria zona da mata mineira preferia a ferrovia.

Ao ser convidado para a solenidade de inauguração das estações marcada para outubro, que contaria com a presença do Imperador, o Visconde do Rio Novo fez uma solicitação que causou admiração, mas não surpresa aos dirigentes da ferrovia: queria fazer uma viagem na cabine da locomotiva, vendo de perto o trabalho do maquinista.

No dia marcado, o visconde, vestindo um guarda-pó cinza senta-se no banco do foguista e observa as cenas. Caminhando lentamente ao redor da locomotiva, sob olhares admirados dos passageiros embarcados e ainda na plataforma, orgulhoso de sua máquina, puxa do bolso esquerdo do paletó do seu terno azul-marinho um lenço branco e esfrega no balaustre de bronze cintilante. Apesar da fuligem que sai pela chaminé o lenço não fica sujo. Lança um olhar de aprovação para seus auxiliares, o foguista e o graxeiro, e sobe na cabina. A mão firme abre lentamente o regulador, injetando vapor nos cilindros. O sino é ligado e um silvo estridente responde ao apito do chefe do trem que havia autorizado a partida. Expulsa a água condensada nos cilindros, soltando vapor saturado que afasta todos que se aglomeraram perto da locomotiva, o trem dá um tranco e começa a se mover.

Conhecedor do trecho, o maquinista procura sentir o trem nas suas costas. Logo depois da estação vem uma rampa forte, o manômetro indica que a pressão é máxima. Olha para trás quando o trem faz a curva e, salvo crianças debruçadas nas janelas, não há nenhum mancal aquecendo. Presta atenção no último rodeiro do tender que está com o bronze aquecendo, provavelmente por causa dos porcos soltos junto aos pátios ferroviários que gostam do óleo usada na caixa de graxa e enchem de areia as que não estão bem fechadas. Não observa entretanto sinal de fumaça. Lança um olhar no nível de água que está ficando cada vez mais baixo e no manômetro assinalou queda na pressão. Ordena que o foguista use a lenha empilhada à esquerda, a lenha de morro-acima, troncos que deixando vazar uma seiva oleosa indicava bom poder calorífero, pois precisa de alta pressão para vencer a pior rampa no corte de pedra.

Fica atento na passagem em nível logo depois da curva, preparado para acionar o freio de emergência. Uma diligência em alta velocidade vindo pela estrada paralela à linha parece disputar uma corrida com seu trem, para ver quem chega primeiro. Puxa com firmeza o apito, que mudou de melodia para um clarim de protesto, percebido apenas pelos passageiros de ouvidos mais sensíveis. O cocheiro puxa as rédeas com violência, parando seu veículo antes da travessia. O maquinista lança um olhar reprovador para o motorista, mas não faz gesto algum; é superior, quase um cavalheiro.

Logo depois do corte a linha ganha o plano e o maquinista relaxa, foi vencido o pior trecho. Injeta água do tender na caldeira, fazendo a pressão cair e acena para o foguista que pode começar a usar a lenha de pior qualidade, pois logo vai começar uma descida suave até a ponte metálica em curva, que deve ser cruzada com velocidade mais baixa. O trem corre célere, a chaminé está deixando um rastro de fumaça branca difusa, pois os cilindros trabalham com pressão reduzida.

Crianças paralisam a brincadeira e cavalos que pastavam próximo à cerca divisória correm assustados pela passagem do trem. Janelas vazias se enchem de gente para ver o trem passar.

O maquinista fica especialmente atento ao estado da via permanente ao se aproximar do aglomerado de casas na divisa com a faixa, de onde escorre água servida, que compromete a estabilidade do lastro, provocando um “balanço” perigoso. Sempre que passa pelo local recorda-se do caso de antigos colegas que ao descarrilarem um trem ficaram presos às ferragens, recebendo no corpo água fervente da caldeira rachada.

Passado o ponto crítico e prosseguindo a viagem, observa de soslaio uma mocinha no quintal de uma casa junto da linha, logo reconhecendo que a pequena menina, que antes também acenava para o trem está ganhando corpo. Puxa o cordel com suavidade e do apito sai uma saudação especial. Ela devolve um sorriso. É o maquinista, senhor de todas as histórias ferroviárias, trabalhando com prazer num dia-a-dia qualquer de uma era remota.

O visconde do Rio Novo desceu a dez quilômetros da estação ainda não inaugurada de Paraíba do Sul e torceu para chegar logo à sede da fazenda do Cantagalo, onde encontraria seu primo e cunhado para comentar a emoção da viagem na cabine de uma locomotiva a vapor.

- É a coisa mais interessante que já vi! Quem está sentado lá atrás, no banco de passageiros, não sabe o que é andar de trem!
- Imagino...
- O que foi primo? Parece aborrecido.
- De fato. Fui desenvolver a sua teoria do regime comunista do Paraguai na última viagem à Corte e quase fui linchado.
- Por quê?
- Me taxaram de maluco. Solano Lopez e o pai não tinham nada disso. Enriqueceram à custa do povo e não distribuíram nada. Com esta sua teoria primo, consegui ficar mal tanto com os conservadores, que julgam Solano Lopez um imaturo, como com os que rezam na cartilha de Karl Marx e vêem no comunismo o futuro da humanidade. Você fez isso só para testar, antes de você mesmo emitir esta opinião, já que é político, não é mesmo?
- Claro que não, primo. Solano Lopez o filho sim, uma pessoa protegida pelo pai, dado a festas, que desde sua viagem à Europa, em 1853, quando conheceu uma irlandesa chamada Elisa Lynch, com quem teve cinco filhos, mas nunca se casou e lhe encheu a cabeça de minhoca, fazendo pensar que se tornaria um novo Napoleão; um Napoleão dos trópicos. Seu o pai, entretanto, mudou o país, tirando-o do atraso.
- Pois não disseram nada disso: tratava-se de um ditador cruel, mas populista, amado pelo povo.
- Quando o velho Lopez morreu, aos 75 anos, em 1862, seu filho Solano tinha 37 anos, portanto já deveria estar com juízo. Entretanto, dando ouvidos à La Lynch, entrou nesta aventura, apenas dois anos depois, desobedecendo a um conselho do pai no leito de morte, de não mexer com Império do Brasil.
- Por que desobedeceu então?
- Naturalmente queria superar o pai na história do país, resgatando um passado. Era uma pretensão antiga dos paraguaios querer recuperar o território ocupado pelos brasileiros nas margens do rio Paraguai e Paraná, que anteriormente pertencia ao Vice-Reinado do Prata, da Espanha. Como sabia que não ganharia a batalha diplomática nas cortes de arbitragem da Europa, já que os Tratados de Madri haviam fixados novos limites, reconhecendo que o Tratado de Tordesilhas deveria ser revisto, Solano Lopez colocou seu país nesta aventura.
- O homem é ou não comunista?
- Concentrar a economia nas mãos do estado, dar educação a todos, unificar as classes sociais, tentar aglutinar pessoas pela cultura, desrespeitando as fronteiras territoriais como fez em Corrientes, só porque a maior parte do povo também falava o Guarani; isto sim, é o que o comunismo prega, portanto sob este ponto de vista ele é comunista. Mas foi sorte nossa.
- Sorte por quê?
- Já pensou se o homem não é amalucado e consegue, pela paz, demonstrando o progresso que conseguiu pelo seu país ao investir em educação e concentrar o poder financeiro no governo? E esta revolução social se espalha por todo o continente? O que seria de nós, fazendeiros do Vale do Paraíba que tem sua riqueza devido ao trabalho escravo?

Uma outra mudança silenciosa estava se processando no Vale do Paraíba, concomitante à Guerra do Paraguai. O irmão do médico Luiz Pereira Barreto, filho de grande fazendeiro em Resende, comprou de um capitão de navio mercante que atracara no Rio de Janeiro, mudas de café do tipo Libéria, que tinha qualidade diferente do café plantado no Brasil, conhecido como café comum. Comprou as mudas e levou para Resende, plantando-as na horta da fazenda Monte Alegre. Depois de crescidas foram transplantadas para a cova definitiva. Anos depois, na primeira floração, verificou-se tratar de café inferior, selvagem, com flores de grande tamanho. Resolveu então Luis Barreto, na segunda floração, provocar sua fecundação artificial com o café comum. Plantou os frutos deste cruzamento e quando estes também passaram a dar frutos, verificou que tinham características excelentes, sendo-lhe dado o nome de Café Bourbon, já que apresentava qualidades semelhantes à que o médico, quando ainda estudante na Universidade de Bruxelas, conheceu e que tinha esta denominação. Esta nova variedade, com grande produtividade em arbustos de dois a três metros de altura, exigia terras virgens e férteis para produzir bem.

A MULA DO OURO - Capitulo 14

Capítulo 14
Derrotas e Vitórias


Apesar da guerra no sul distante, as festas na Corte e imediações não foram interrompidas, sendo um exemplo a que aconteceu no dia 7 de setembro de 1867, na fazenda do Visconde de Rio Preto, Domingos Custódio Guimarães, em Valença.

A festa de aniversário comemorava a abertura do Ramal de Porto das Flores da rodovia União e Indústria, partindo de Paraibuna. O anfitrião convidou o comendador Mariano Procópio, com garantia de exportação não inferior a 100 mil arrobas. Foram construídas duas pontes sobre o rio Preto, ligando as províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Para a festa, além dos fazendeiros vizinhos, foram convidados comerciantes do Rio de Janeiro, senadores e deputados provinciais. Mandara iluminar com lanternas de variadas cores o caminho que ligava o povoado de Porto das Flores até sua fazenda, enquanto duas bandas de música alternavam-se executando o repertório.

Quando alvoreceu, iniciaram o hino nacional, saudado por morteiros, ouvindo-se ao mesmo tempo o rodar de muitas carroças da União e Indústria, conduzindo quinhentas sacas de café com duas mil arrobas. Ás onze horas foi servido o almoço em baixelas de prata e finos cristais. Depois, espalharam-se os convidados, visitando uns grupos as dependências da fazenda, as oficinas e cavalariças ou interessando-se pelos pomares, onde frutas raras eram cultivadas; outros grupos entretinham-se no bilhar e diversos jogos. As senhoras conversavam nos salões ou iram repousar em seus quartos.

À tarde o Visconde foi mostrar ao comendador Mariano Procópio a fazenda da Luanda, seguindo ao longo das margens do rio Preto. O Visconde fazia questão de guiar o carro e quando passavam pela ponte sobre a foz do rio das Flores, os cavalos espantaram-se e o Visconde teve grande dificuldade em contê-los.

Na planície, dominada por um morro apelidado de Pão de Açúcar, estavam em plena florescência, cem mil pés de café de sete anos. A tosca residência, que há 30 anos fora onde o Visconde começara sua fortuna ainda estava de pé. Pararam e foi servido champanhe, frutas e doces. Regressaram à fazenda às seis da tarde. Quando passou pela porteira foi saudado por um alegre dobrado tocado pela banda e vivas ao Visconde do Rio Preto foram ouvidos por todos os lados. Ao descer do carro, das janelas atiravam-lhe uma chuva de pétalas de rosas e a banda tocou o hino nacional. Ao terminar toda a elite da Corte aplaudiu o Visconde, que empalidecera e pareceu perder o equilíbrio. A ver isso o visconde de Bom Retiro, seu amigo, ampara-o, levando-o para o salão, onde ele caiu sobre o sofá, fulminado por uma sincope cardíaca.

- Domingos, o que é isto? – perguntou o visconde surpreendido pelo desfalecimento.
Os médicos, que eram muitos na festa, acudiram.
- Não é possível! – gritou a viscondessa, atirando-se sobre o corpo já inanimado do marido. Gritos, soluços de parentes a quem ele protegia, lamentos de escravos também eram ouvidos.

Depois, um silêncio sepulcral. No salão de cima ninguém mais pensou em banquete. O palacete continuou, todavia, tal como estava: profusamente iluminado. Nas mesinhas espalhadas no jardim sentavam-se discretamente alguns convidados, enquanto outros velavam o corpo do anfitrião, até o amanhecer.

Retornando da festa melancolicamente encerrada, o recém nomeado visconde e a viscondessa do Rio Novo, seguiam na diligência em direção à fazenda do Cantagalo, acompanhados de Antonio Barroso.

- Que morte gloriosa! – afirmou o visconde.
- Que comentário, meu marido! – censurou Mariana Claudina.
- Mas não é verdade, primo? Morrer no dia do próprio aniversário, recebendo aplausos sob os acordes finais do hino nacional...
- Vamos pensar nos nossos que estão agora morrendo no sul, vítimas de tiro, faca ou doença. O que será que está acontecendo com o Tuca?

Enquanto a guerra não avançava no sul, pois os paraguaios estavam bem protegidos por fortalezas que impediram o avanço das tropas comandadas por Mitre, a coluna que partira para recuperar as cidades invadidas na Província de Mato Grosso passava por um grande apuro, mas não por causa dos paraguaios.

Depois de Campinas a coluna comandada pelo coronel Manuel Pedro Drago recebeu reforços dos mineiros em Uberaba, atingindo um efetivo de três mil homens. Percorreram mais de mil e quinhentos quilômetros por terra até alcançar Coxim, na Província do Mato Grosso, aonde chegaram a dezembro de 1865. Não houve, entretanto os esperados combates, pois a cidade tinha sido abandonada pelos paraguaios. Prosseguiram viagem, lentamente, até Miranda, alcançada em setembro do ano seguinte. A cidade também fora abandonada. Não havia mais paraguaio algum em território brasileiro. Resolveram acampar e aguardar instruções do Rio de Janeiro.

A paisagem plana e a vegetação de árvores retorcidas, típicas do cerrado, foi uma surpresa para os olhos de Tuca, nascido entre montanhas e acostumado às trilhas nas serras fluminenses e mineiras, onde um inimigo pode estar espreitando na próxima curva fechada da estrada. Também o surpreendeu a grande quantidade de aves que habitavam as áreas alagadiças por ocasião das chuvas, a grande quantidade de jacarés de papo-amarelo e piranhas, que inibiam o banho nu nos dias de grande calor. Nas lagoas, quando a água desce, os peixes carnívoros ficam especialmente agressivos e mais de um caso foi contado de soldado que virou um cantor castrati, capaz de emitir um som agudo inimitável. Para estes soldados voluntários da pátria, a castração era um castigo pior do que a morte; portanto, o cuidado com as lagoas repletas de piranhas era a primeira preocupação da tropa.

Tuca passou várias horas em conversa com o tenente Alfredo Taunay, até que este se enamorou de uma jovem índia, quando a viu montada sobre um boi grande e manso, viajando com os pais. Comprou-a por 500 mil reis e viveu momentos idílicos, que afirmou talvez nunca mais tivesse outra vez na vida, quando nus, como Adão e Eva no Paraíso, desfrutavam das corredeiras frescas, que nascem no alto da Serra da Bodoquena e vai alimentar o Rio Miranda, que corre entre grandes desfiladeiros de rocha calcária escavada pelo rio.

Tuca, já promovido a Cabo, invejou o oficial ao ouvir seus relatos, em francês, para que outros soldados não pudessem participar. Contou-lhe Tuca então, idílio semelhante por ele vivido, só que em situação inversa, quem era socialmente superior, era a mulher, da família dos Teixeira Leite, enquanto ele era, então, um simples escravo, só liberto graças à lei dos voluntários da pátria. Taunay pediu que ele descrevesse, com toda exatidão possível a emoção que vivera, como se fosse um escritor romântico querendo absorver sensações.

Em janeiro o comando mudou, assumindo o coronel Carlos de Morais Camisão, que com 1.680 homens, praticamente a metade original, decidiu invadir o território paraguaio. O maior inimigo até então, como analisaram Taunay e Tuca eram três tipos diferentes de doença. A primeira fazia os soldados ficaram cansados em uma curta caminhada, com dificuldade respiratória, obrigando-os a permanecer na maioria das vezes amontoados. Isto aumentava a contaminação de piolhos entre os soldados. Mas, a pior delas, era uma diarréia volumosa, aquosa, esbranquiçada, parecendo água de arroz. Em poucos dias o doente perdia peso e cor. Como estavam acampados quase sempre perto de lagoas, parecia que sua água, por maior que fosse o volume, se tornava venenosa.

Taunay e outros oficiais assim como Tuca e alguns soldados resolveram adotar por contra própria remédios naturais: consumiam grande quantidade de frutas e leite das poucas vacas selvagens com bezerro que conseguiram capturar, enquanto a maioria dos soldados preferia o charque, farinha e cachaça (escondida); tomavam banho diário, sem medo de enfrentar a correnteza do Rio Miranda, temendo muito mais as piranhas castradoras e, finalmente, enchendo seus cantis com água pura de riachos, por mais longe que tivesse de andar, evitando a água próxima das lagoas, quando era impossível, a conselho de Taunay, Tuca só bebia água fervida. Adotaram, instintivamente, a profilaxia mais adequada para evitar o beribéri (carência de vitamina B1 existente nos alimentos ricos em tiamina,como cereais em grãos, leite e frutas); o tifo provocado pela proliferação de piolho humano que se reproduz em aglomerações onde existe falta de higiene e a cólera, que é transmitida através da ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes humanas.

Com muita dificuldade por causa das torrenciais chuvas de verão, que formava grandes charcos pantanosos no terreno plano, a coluna comandada pelo coronel Camisão chegou até o povoado de Laguna. Foi quando começaram a aparecer soldados paraguaios, primeiramente em pequenos grupos, em ataques surpresas, mas depois em grupos maiores a cavalo. Provavelmente a penetração brasileira no território fora comunicada e de Assunção vieram reforços.

As notícias que os batedores que conseguiam atravessar a linha inimiga não eram boas, pois os reforços solicitados pelo coronel Camisão não tinham data de chegar. Como não poderia garantir o território conquistado, tiveram que retornar, provendo uma grande retirada, que mais tarde foi cuidadosamente relatada pelo tenente Taunay num livro redigido em francês: A Retirada da Laguna.

A fome, a doença e os ataques paraguaios reduziram o contingente a cerca de 700 homens, com baixa de 60%, quando em abril de 1868 conseguiram chegar a Coxim. Souberam então, das mudanças na frente de batalha no sul, com a substituição, desde 13 de janeiro, do general argentino pelo Marques de Caxias, apesar de já estar com 64 anos.

Taunay recebe autorização para retornar para o Rio de Janeiro enquanto Tuca e os demais soldados sobreviventes são enviados para se juntar às tropas do sul, onde ficariam até o final da guerra, que seria para ele, agora, sangrenta e cruel.
Logo ao assumir, Caxias organizou um corpo de saúde para conter as epidemias e um sistema logístico para melhor abastecer as tropas. Depois adotou as táticas militares que sua vasta experiência indicava.

Embora no início da guerra a diferença de contingente fosse grande: 18 mil homens do exército brasileiro contra 70 mil do exército paraguaio, o militar brasileiro era mais profissional, com uma tradição guerreira herdada de Portugal. Assim como Caxias, outros generais veteranos como Osório e Porto Alegre, vitoriosos em várias e sucessivas guerras internacionais (1850 a 1852, contra Oribe e Rosas; 1864 contra Aguirre), além de várias revoluções internas. Existiam tradicionais Escolas Militares de formação, Oficiais de Estado-Maior, Corpo de Engenheiros, Serviços de Saúde e outras unidades especializadas que faziam com que o militar brasileiro fosse mais bem preparado. As maiores fortalezas do Paraguai, como Humaitá foram também projetadas por engenheiros militares brasileiros.

O armamento brasileiro era mais moderno, a artilharia dispunha de canhões “La Hitte”, raiados, lançados em 1855, que tinham maior alcance e precisão do que os antigos canhões fundidos paraguaios que lançavam projéteis esféricos.

A estratégia militar também foi logo revista, já que a do general Mitre não obtivera sucesso em dois anos de tentativa de furar o bloqueio paraguaio. Caxias adotou manobras militares clássicas das guerras napoleônicas, como a manobra de flanco para conquistar a fortaleza de Humaitá e a marcha de flanco para contornar as posições paraguaias de Piquiciri

Caxias fez uso intensivo da marinha em operação combinada com o exército. A marinha brasileira, muito mais poderosa, logo assumiu o controle do acesso à bacia do Prata e foi se fortalecendo ainda mais no decorrer da guerra, passando a empregar os encouraçados, vasos de guerra totalmente metálicos, com casco protegido por chapa de aço da espessura de cinco cm (duas polegadas), capazes de resistir aos projéteis dos antigos canhões paraguaios.

Com este armamento moderno, Caixas logo ordenou a passagem da esquadra brasileira pelos fortes de Curupaiti e Humaitá, que defendiam o rio Paraguai, realizada com êxito, dando início à manobra de flanco, visando cortar as linhas de suprimento vindas de Assunção. Com cerco vigoroso, Humaitá que havia resistido dois anos caiu em 25 de julho de 1866, pouco mais de seis meses depois de Caxias ter assumido.

Outra grande novidade bélica implantada por Caxias foi o uso de balões cativos, que permitiam uma perfeita visão do terreno, já que não existiam cartas ou mapas da desconhecida e inóspita região de operações, nem se dispunham de guias confiáveis.

Deste modo, enquanto os países que formavam a Tríplice Aliança podiam ir modernizando seu equipamento bélico, o Paraguai sitiado podia contar apenas com o grande espírito patriótico de seu povo, habilmente trabalhado pela imprensa de Assunção, já que a maior parte da população havia sido alfabetizada.

Vencido o forte de Humaitá, rumo a Assunção, o exército de Caxias avançou 200 km até Palmas, detendo-se no arroio de Piquissiri, onde o terreno favorecia a defesa paraguaia. Ao invés do combate direto, fez o exército atravessar o rio, iniciando uma manobra de flanco, ao construir na margem direita, em 23 dias apenas a Estrada Chaco, que permitiu o exército atravessar os pântanos. Correndo grande risco, mas tendo sorte, fez o exército atravessar de volta para a margem esquerda do rio Paraguai, que logo se encheu com as fortes chuvas de verão que antecipara. Encontrava-se agora na retaguarda de Piquissiri, isolando de Assunção a última grande linha de defesa, dando inicio à dezembrada, série de vitórias ocorridas no mês de dezembro.

A primeira vitória significativa de Caxias foi obtida no dia 6 de dezembro, ao tomar Piquissiri, quando ao ocupar a ponte de Itororó, Caxias, aos 65 anos de idade, partiu a galope em direção ao inimigo, com a espada em punho gritando: “sigam-me os que forem brasileiros!” não sendo morto por pura sorte, mas entusiasmando todos os soldados por sua coragem; no dia 11 foi a vez de Avaí, seguido de Lomas Valentinas no dia 21 e com a rendição de Angustura no dia 30 o exército paraguaio é vencido de forma inapelável.

Assunção, bombardeada e evacuada foi ocupada pelas forças do Império Brasileiro em primeiro de janeiro de 1869, para aguardar a chegada de Caxias, que se deu no dia 5. Solano Lopez, entretanto, não aceitou a intimação e ao invés de render-se procurou refugio no interior do país, para iniciar combates de guerrilha de resistência às tropas invasoras.

Caxias, adoentado e cansado, não quis persegui-lo, passando o comando e voltando para o Rio de Janeiro, onde teve uma fria recepção, pois o Imperador o queria à frente da batalha até a conclusão da guerra. Todavia, para Caxias, a guerra havia terminado, o Paraguai estava destruído, caçar Solano Lopez, que em dois anos de governo, após a morte de seu pai, levara o país a uma guerra impossível de ser vencida, não faria parte do currículo do velho militar que por tantos anos sustentara a integridade territorial do Império.

Enquanto no sul a prolongada guerra caminhava para o fim, no Vale do Paraíba importantes acontecimentos se desenrolavam. Com a chega dos trilhos a Entre-Rios, a Cia. União e Indústria ficou totalmente sem cargas, pois não fazia sentido pagar mais caro e levar mais tempo transportando o café da zona da mata mineira para o Rio de Janeiro apenas para utilizá-la.

D. Pedro II adotou então as seguintes providências: pelo decreto 4.320 de 13 de janeiro de 1869 passa todos os bens da Cia. União e Indústria, de quem era também o maior acionista, para a sua ferrovia expressando:

Considerando as vantagens que devem resultar para a Estrada de Ferro D. Pedro II de se transferir para a mesma o serviço de transporte de gêneros e produtos atualmente a cargo da Cia. União e Indústria, evitando-se assim os efeitos de uma concorrência nociva a ambas...

No dia seguinte o deputado pela Província de Minas Gerais desde 1861 e comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, ex-presidente da Cia. União e Indústria assume o comando da Estrada de Ferro D. Pedro II. Com total apoio do Imperador, de quem era amigo, logo Mariano impõe um novo ritmo de construções como a nova estação da Corte e o prolongamento em direção ao Rio das Velhas, optando definitivamente pela travessia da Serra da Mantiqueira pela Garganta de João Aires, e prosseguir com a linha em direção a São Paulo. A ferrovia a partir de Entre-Rios, seguiria então paralela à estrada da União e Indústria até Juiz de Fora, seguindo o traçado do Caminho Novo.

O Visconde do Rio Novo, por suas ações políticas bem sucedidas, fez grandes avanços nessa carreira, chegando a ocupar a presidência da câmara de vereadores de Petrópolis, um cargo equivalente a prefeito. No entanto seu coração não resistiu a taxa pressão e, aos 53 anos morre de um ataque fulminante.

A Viscondessa do Rio Novo chorou a morte do marido e o sepultou na Capela N. S. da Piedade, ao lado do tio, o barão de Entre-Rios.

O espanhol Emilio Prieto esteve ao seu lado na vigília do corpo do Visconde do Rio, que desde que o conhecera como major Carvalhinho, sempre lhe dera abrigo e proteção. Num momento de tranqüilidade, quando o galo no alto da goiabeira, ignorando o movimento anormal na madrugada na sede da fazenda amiudava seu canto, indicando que o dia estava prestes a nascer, comentou com o espanhol:
- Nem parece que já se passaram 35 anos desde sua chegada aqui, mestre Emilio. Quantas mudanças, não é verdade?
- Sim, viscondessa. E muitas mudanças ainda virão. Uma guerra não acaba com um tratado de paz, mas continua, pois uma sociedade ferida sempre reage.
- Tantos jovens perdendo a vida. Onde estará Tuca agora? O visconde, que tinha um carinho especial por ele, teria com toda certeza sua alma mais leve se visse o rapaz forte que ficou carregando-o no caixão.
- Ele esperava o fim da guerra a qualquer momento, não é verdade?
- Sim. Sempre que se encontra com o Imperador, o que era freqüente por causa de seu cargo na câmara, tentava perceber alguma indecisão ou compaixão; mas não: o Imperador sempre estava irredutível. A guerra só terminaria com Solano Lopez preso ou morto em combate. Se não, dizia, ninguém mais teria sossego pois tinha liderança sobre a população suficiente para novas escaramuças. O problema é que com essa guerra sem fim os jovens continuam morrendo. O senhor não pensa em Tuca, mestre?
- Sim senhora viscondessa. Eu também sempre penso em onde estará o nosso Tuca? Será que se incorporou ao exército comando pelo Conde D’Eu, o marido da Princesa Isabel, que assumiu no lugar do Marques de Caxias? Estará vivo ou morreu como tantos outros jovens?

A partir de agosto de 1869 a guerra se tornou irregular, com várias batalhas isoladas de um remanescente de exército paraguaio desarticulado. O sentimento de defesa da pátria estava, entretanto impregnado em todos, visto até com ares de fanatismo pelo exército da Tríplice Aliança.

Tuca, de fato, havia se incorporado ao exército de Caxias e participara das últimas batalhas, antes da entrada das tropas na capital de Assunção. Todos achavam que a guerra estava terminada, porém do interior vinham notícias de que Solano Lopez estava reunindo uma grande força e viria retomar a capital de seu país. O sentimento dos paraguaios para com os soldados era de invasores de seu país. Algumas vezes, gritavam de longe: “macaquitos, macaquitos!”. A imprensa oficial fora desmantelada, mas exemplares antigos dos jornais, como o El Semanário, órgão oficial de pregação psicológica que estimulava o ardor combatente e outros periódicos: El Centinela, Cacique Lambaré e o Cabichui, onde o Imperador, a Imperatriz e os principais chefes militares eram representados com caricaturas de macacos, numa evidente alusão à grande quantidade de negros alforriados nas tropas brasileiras. A publicação do exército A Saudade depois da ocupação passou a ser o órgão de divulgação imprensa mais divulgado.

Os soldados foram liberados para saquear à vontade, se apropriando do pouco que restava da população empobrecida pela guerra. Haviam filas intermináveis de pessoas com vasilhas de comida nas mãos, aguardado serem alimentados por provisões que abasteciam as tropas, já que a agricultura praticada no Paraguai era de subsistência. As mulheres paraguaias da camada mais baixa social, com fortes traços indígenas, vendiam uma mercadoria cada vez mais desvalorizada: seu próprio corpo.

No dia 16 de agosto, Tuca foi convocado para combater num local denominado pelos brasileiros de Campo Grande e pelos guaranis de Nhu Guaçu. Fazia muito frio e a tropa deslocava-se com cuidado pela região plana, mas com matas esparsas, onde o inimigo se escondia. Ao lado de outros dois soldados, como cabo, Tuca liderava este pequeno grupo que se aproximava de um matagal, quando foram surpreendidos por disparos de fuzil. Seu melhor amigo que viera também de Paraíba do Sul foi ferido mortalmente e enquanto esvaia em sangue nos braços de Tuca pediu: “vingue-me”. Tuca deixou o companheiro pálido apoiado com a cabeça sobre os braços do outro soldado e, tirando sua faca da bota começou a rastejar em direção ao local de onde saíra o tiro, desviando-se para a esquerda visando uma manobra de flanco. O soldado paraguaio movimentava-se o tempo todo, parecendo inseguro. Tuca aproximou-se lentamente por trás e saltou sobre o inimigo, passando sua faca afiada pela jugular. Do pequeno corte brotou sangue vermelho intenso e viu então Tuca, com pavor, que acabara de tirar a vida de um menino de no máximo treze anos.

Quando retornou ao destacamento ao fim da que foi a última grande batalha da guerra, recebeu a confirmação da utilização do lado paraguaio de meninos que lutaram por não haver mais homens adultos disponíveis.

Outros encontros deste tipo se sucederam, já que se adotava uma manobra de resistência de guerrilha. Da Corte vinha ordem taxativa de só encerrar a guerra quando o dirigente maior paraguaio fosse eliminado. De batedores do exército veio a confirmação de que Solano Lopez encontrava-se entrincheirado nas cordilheiras denominadas de Cerro Cora. Localizado e perseguido foi mortamente ferido por lança pelo cabo brasileiro Francisco Lacerda, conhecido como Chico Diabo. Antes de receber um tiro de misericórdia ergueu a espada e bradou: Morro com a minha pátria!

No relatório que o Conde D’Eu fez ao seu sogro anotou que a espada de Solano Lopez, incrustada de brilhantes, tinha a ponta quebrada. Era o dia 1º. de março de 1870 e foi dado um ponto final na guerra que inicialmente inesperada, já que o Paraguai dispunha de mais de 70 mil homens treinados, enquanto o exército brasileiro dispunha de apenas 18 mil espalhados por todo o território nacional; que pareceu fácil após as primeiras batalhas, quando se conseguiu o controle dos rios, único meio de penetração já que a mata fechada e as áreas pantanosas dificultavam o avanço terrestre; que envolveu mais de 140 mil combatentes brasileiros, dos quais 33 mil perderam a vida e milhares ficaram feridos e aleijados para sempre; aniquilou cerca de 90% da população adulta masculina do Paraguai e, nas proféticas últimas palavras do ditador impulsivo, aniquilou também uma economia emergente, que havia conquistado grandes progressos sociais, como a abolição da escravidão e a alfabetização em larga escala da população guarani. O Paraguai morreu com o ditador.

Depois da morte do Visconde do Rio Novo, Mariana Claudina nunca mais voltou à casa de Petrópolis que seu pai e o marido havia construído com objetivos políticos. Mandou fechar as portas, dispensou os empregados contratados e ordenou que a escrava Elvira, que fora comprada em Petrópolis pelo barão em 1867, viesse trabalhar na fazenda do Cantagalo.

Numa tarde quente de verão, quando um mormaço provocado pelo céu nublado tornava a o dia cansativo, mesmo para quem não está exercendo atividade física alguma, chega à sede da fazenda do Cantagalo duas pessoas: um padre, com sua batina negra e um outro senhor de terno escuro. Antes de subir às escadarias um escravo que colhia o café que secava ao sol com medo da chuva os atende e logo se dirige à cozinha. Vieram de Petrópolis especialmente para visitar a Viscondessa.

Imediatamente recebem o convite para se dirigirem à sala. Solicitam porém ser atendidos na própria varanda, onde corre uma brisa fresca que sopra do Rio Paraíba do Sul. O senhor tira respeitosamente o chapéu quando Mariana Claudina se aproxima e faz as apresentações:
- Meu nome é Cristiano Nogueira e este é o padre Nicolau Germain, coadjutor do Cônego Correia, vigário de Petrópolis.

Camila logo percebeu, pelo forte sotaque, que o sacerdote era francês. Soube posteriormente que chegara ao Brasil em 1854, como náufrago e viveu de trabalhos braçais até que chegaram da Europa os documentos comprovando que poderia exercer funções eclesiásticas. Percebeu que o sacerdote suava em demasia, o tempo todo se abanando com o chapéu. Provavelmente desconhecia a má fama do verão em Entre-Rios. Tocou o sinete e pediu que fosse servida limonada para os visitantes e ficou aguardando o motivo da visita.

- Eu acredito, viscondessa, que a educação moral, civil e religiosa é a base que sustenta o edifício social. Como nem sempre esta base pode ser garantida a todos os cristãos, principalmente aos órfãos, criamos o Asilo de Santa Isabel, destinado ao amparo e à educação de meninas pobres. Já estamos com mais de uma centena de alunas...
- Já ouvi falar do trabalho do senhor. Fizemos inclusive contribuições, já que a Princesa Isabel dava-lhes apoio.
- Pois agora viscondessa, viemos solicitar mais uma vez a sua ajuda. Sabemos que a sua casa na Avenida do Imperador número 58 está fechada desde a morte do visconde. E, para nós seria muito importante poder ampliar o atendimento...

A Viscondessa ouviu com atenção todas as justificativas prontamente decidiu:
- Posso emprestar-lhes, por cinco anos, sem necessidade de pagamento algum este imóvel para que os senhores instalem nele o Asilo. No final deste prazo, poderei vender-lhes em condições especiais, pois depois da morte do visconde e de meu pai, este imóvel não nos tem mais a serventia que motivou sua construção.

Quando estava aguardando a desmobilização, Tuca viu de longe o seu amigo e companheiro da campanha no Mato Grosso, o tenente Taunay. Aproximou-se, fez continência e verificou que este havia sido promovido. Taunay sentiu-se feliz em reencontrar o suboficial experiente que sobrevivera também. Marcaram um encontro para relembrar os velhos momentos num dos bares que proliferavam em Assunção. Tuca logo perguntou em francês:
- Combateu muito, capitão Alfredo?
- Apenas com a caneta. Eu agora sou o relator do exército. Acho que vou virar escritor.
- Tem mesmo muita experiência para contar.
- E você, depois da guerra, o que vai fazer?
- Vou voltar para a Vila de Paraíba, ver se meu antigo serviço ainda existe. Não sei se a ferrovia parou ou continuou.
- Se fala da Estrada de Ferro D. Pedro II saiba que ela continua, as obras não pararam e estão agora para os lados da Província de Minas Gerais. Seu diretor-presidente é o comendador Mariano Procópio.
- O da Companhia União e Indústria?
- A rodovia acabou, foi absorvida pela ferrovia. Falam até em jogar uma linha sobre seu antigo leito para chegar até Petrópolis pelo outro lado, pois não sabem ainda como subir a serra.
- Vou também tentar procurar a Eufrásia. Quem sabe agora, herói de guerra, o pai dela não se incomode tanto. Se não for ela, outra mulher bonita de Vassouras também serve. Terra de mulher bonita, capitão!
- Comparada com estas índias paraguaias as brasileiras, principalmente as mestiças são insuperáveis, não é?
- Sim. O senhor capitão, deve fazer uma visita a Vassouras. Eu, um simples soldado, não tenho muitas chances, mas o senhor, um oficial graduado, que participou da guerra desde o início...
- Vou lá sim. Quem sabe acabo me casando por lá!

A MULA DO OURO - Capitulo 15

Capítulo 15
Difícil Retorno

Apesar da crítica situação financeira do país decorrente do endividamento provocado pela guerra, foi mantido o ritmo das obras de prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II. Mariano Procópio, incansável e bem articulado politicamente, não deixava que o orçamento faltasse, pois há dez anos, desde a inauguração da rodovia União e Indústria, era deputado provincial representando Minas Gerais. A doação das terras da fazenda Cantagalo e Boa União cortadas pela ferrovia, bem como a grande área cedida para o pátio da estação de Entre-Rios e o novo Depósito de Locomotivas fizeram uma grande diferença, contribuindo para que os custos de implantação fossem reduzidos.

Para comemorar a nova investida da ferrovia em direção ao rio São Francisco, mandou construir uma histórica em agosto de 1871, bem de frente à chave que mudava a linha em direção a Minas Gerais. Mandou fundir nas oficinas da ferrovia três grandes placas de bronze e as pregou nas faces sem porta, com os seguintes dizeres:

Pelo Ministério de 16 de julho de 1868 sendo Ministro da Agricultura Comercio e Obras Publicas o Exmo. Sr. Cons. Diogo D’Albuquerque foi apresentada a proposta para o prolongamento até o Rio das Velhas

Por ordem do Exmo. Sr. Cons. Theodoro Prado, Ministro da Agricultura Comercio e Obras Publicas exaras em oficio de 17 de julho de 1871 oram começados os trabalhos da Linha Central ao Rio das Velhas.

Sob o reinado do S. M. O. Imperador senhor D. Pedro Segundo foram inaugurados os trabalhos da Linha do Centro em seis de agosto de 1871.

Quando as cortinas que cobriam as placas foram descerradas pelo comendador Mariano Procópio, na presença do e da viscondessa do Rio Novo, este comentou:
- Esta é uma cabine histórica. As placas de bronze são um símbolo de eternidade, de uma importante decisões políticas. Irão durar para sempre e serão respeitadas pelos vários dirigentes que esta terra conhecer no futuro.
- Assim espero senhor comendador. Que esta terra no futuro dirigentes capazes de fazer cumprir este veredicto!

A manutenção dos ritmos da obra da Estrada de Ferro D. Pedro II, a maior empresa do país em investimento, superando qualquer outra do maior empresário do Império, o Barão de Mauá, tinha todavia outras explicações além de escoar o café: a necessidade de gerar trabalho.

Em meados de 1870, com o final da guerra, começaram a chegar ao Vale do Paraíba as primeiras tropas vitoriosas no Paraguai, já que a desmobilização começara em maio. Um problema surgiu: o que fazer com os ex-soldados, os Voluntários da Pátria agora não mais escravos?

Em muitos casos, após o desfile os combatentes retornaram à suas fazendas de origem, com medalhas de heroísmo pregada na casaca, ferimentos de combate e o peito estufado de orgulho, mas viam-se forçados a uma situação constrangedora, que logo provocava indignação: compartilhar a mesmas senzalas ocupadas por seus parentes.

Alguns mais ousados resolviam partir e tentar a sorte sozinhos na Corte, formando grupos com amigos também ex-combatentes; outros porém, resignados aceitavam emprego com baixos salários nas fazendas de onde vieram, não desfrutando de um tratamento muito diferente do que era dado aos escravos, com a única exceção do castigo físico, pois seria uma agressão passível de processo, já que a lei concedia este privilégio apenas aos proprietários de escravos.

Com Tuca não foi diferente e procurou seu emprego novamente com o mestre canteiro Emilio Pietro. Outros companheiros, entretanto, depois do tratamento recebido durante a guerra, onde se desenvolveu um forte espírito de fraternidade, já que se combate muito mais pelos companheiros de tropa do que pelas cores da bandeira, foram para o Rio de Janeiro, onde ficaram aguardando o recebimento dos soldos atrasados. A velha rotina da lavoura não mais os seduzia, pois devido ao tratamento dado pelos feitores aos seus parentes escravos, continuavam sentindo-se como tal.

Sem moradia na Corte, ficaram acampados no alto do morro próximo ao Ministério da Guerra, no extremo do pátio da Estação Central. Derrubaram a vegetação rasteira que cobria o morro, arbustos conhecidos como favela, improvisaram cabanas rudimentares e sem ter o que fazer, além de vigiar do alto os movimentos no ministério, ocupavam-se de batuques, danças e capoeira. Enquanto não vinha o dinheiro do soldo, estes soldados, taxados de desocupados ou favelados inauguram um sistema social estável e perene, cuja duração superou à das placas de bronze da Cabine Histórica de Entre-Rios.

Na Vila de Paraíba do Sul, um pequeno grupo de desocupados foi também formado, recusando-se a pegar na enxada nas condições anteriores. Tuca, que era o único que chegara a ser suboficial, pois fora nomeado cabo nos primeiros anos de batalha, participava de encontros aos sábados e ficou sabendo de associações formadas na Corte por antigos ex-combatentes, muitos deles oficiais do corpo permanente da marinha e do exército, que achavam merecer mais espaço no poder. Idéias antigas, que o Paraguai já havia implantado, como a alforria automática dos filhos de escravas nascidas após determinada data, estava novamente sendo discutida, como uma maneira gradativa de terminar com a escravidão, ao invés da medida abrupta adotada nos Estados Unidos que gerou uma guerra civil.

Ao procurar saber notícias de Eufrásia, Tuca foi informado de que a mãe dela havia morrido, mas o pai, apesar de adoentado, vigiava as duas filhas todo o tempo. Pensou então se deveria ir ou não a Vassouras. Pensando no risco que correria, já que acabando de chegar da guerra sentia-se estranho em sua própria terra, decidiu buscar uma oportunidade mais favorável. Concentrou-se então no trabalho da ferrovia, que consistia em participar como tropeiro contratado da abertura de um curto túnel, numa curva da ferrovia na margem esquerda do Rio Paraibuna, bem próximo à formação rochosa denominada pedra do sapo, na outra margem e, simultaneamente, no transporte de rochas para a construção dos pilares da grande ponte que atravessava o rio próximo da fazenda de Serraria, que pertencera ao barão do Piabanha, o major Hilário de Carvalho, que havia morrido logo no início da guerra, em 1865.

Mudou-se para um acampamento junto às obras e, para aumentar o rendimento trabalhava também aos sábados e domingos. Nas poucas horas de folga gastava observando o reflexo do entardecer nas águas escuras do Paraibuna, que brilhava como se fosse folheado a ouro. Em muitas ocasiões tinha por perto o mestre canteiro espanhol, que parecia muito mais fadigado do que ele.

- Tenho notado o senhor com dificuldade para respirar ou é impressão?
- Tem razão, creio que é devido ao pó das escavações e do cinzel. Afinal de contas são mais 35 anos quebrando granito...
- O senhor precisava descansar mais...

Também como uma conseqüências do fim da Guerra do Paraguai, em três de dezembro de 1870 foi redigido pelo jornalista Quintino Bocaiúva e assinado por vários funcionários públicos, empresários e políticos, dentre eles Cristiano Otoni, o Manifesto Republicano. Tratava-se de uma declaração de membros dissidentes do Partido Liberal que criaram o jornal A República, onde pregava a queda da monarquia e sua substituição por um novo regime político capaz de resolver os problemas econômicos decorrentes da elevação da dívida brasileira em libras esterlinas que gerava inflação.

Quando recebeu o marques de São Vicente, que presidia o Conselho de Ministros e viu sobre a mesa de trabalho do Imperador um exemplar do jornal, este comentou:
- Muitos dos que assinaram são ocupantes de cargos públicos, nomeados pelo governo. Não considero que diante disto – apontou para a lista de assinaturas – possam continuar a exercê-los!
- O país que se governe como entender e dê razão a quem tiver – respondeu o Imperador.

O marques de São Vicente ponderou, mas sem sucesso pois ele foi taxativo:
- Ora, se os brasileiros não me quiserem como Imperador, irei ser professor.

Para o marques e outros assessores próximos aquela não fora a primeira vez que o Imperador manifestava aborrecimento com a rotina política, cheia de intrigas e interesses conflitantes. Embora muitas vezes exercendo o poder de forma efetiva, o Imperador procurava transmitir em todas as oportunidades que sua vocação era o saber, a cultura, sentindo-se melhor diante de uma platéia de alunos atentos, onde todo seu conhecimento arduamente conquistado pudesse ser transmitido, do que diante de políticos bajuladores. Dominava vários idiomas estrangeiros, a língua nativa o tupi, línguas mortas como grego e latim e outras consideradas até exóticas, como hebraico, árabe e sânscrito, o idioma sagrado dos hindus. Entretanto, não era professor e nem tinha alunos.

Quando ia até Petrópolis, longe do dia-a-dia político da Corte, o Imperador sentia-se à vontade, percorrendo a cidade a pé, sempre com um livro nas mãos, cumprimentado pessoas e visitando exposições. Foi numa destas reclusões de verão, quando a febre amarela ainda assustava os moradores do Rio de Janeiro, que o Imperador recebeu a notícia de que sua filha mais nova, a Princesa Leopoldina Teresa, aos 23 anos, havia morrido no dia 7 de fevereiro de 1871, de parto. Imediatamente pediu licença ao Congresso e marcou sua primeira viagem à Europa.

Houve certa dificuldade em aprovar a licença, pois o trono passaria às mãos da Princesa Isabel, de 24 anos e, indiretamente, ao seu marido, Gastão de Orleãns, o conde D’Eu um estrangeiro. Além disso, líderes do Partido Conservador trabalhavam no projeto de lei que iria garantir alforria automática aos filhos de escravas nascidos a partir de certa data. Quando esta última questão foi colocada ao Imperador, este argumentou que talvez fosse uma boa idéia sua filha sancionar a lei, uma vez que atrelaria sua figura a um futuro certo e de grande simpatia popular: a abolição da escravatura.

Dada a autorização pelo Congresso o Imperador pode viajar, chegando em 12 de junho do mesmo ano a Lisboa. Foi então informado de que ele e a mulher poderiam desembarcar, mas sua numerosa comitiva deveria cumprir a quarentena legal imposta pelas autoridades lusitanas para todos viajantes procedentes da América do Sul. Imediatamente retrucou:
- Por que só eu e a Tereza? A ordem não é para todos?

Aguardou então, como os demais passageiros o período de observação estabelecido pelas autoridades sanitárias e firmou uma postura que caracterizaria o caráter oficial de suas viagens ao exterior, identificando-se como um Imperador Cidadão – se é que isto pudesse ser assimilado por outras pessoas além dele próprio.

Para a imprensa e opinião pública externa, esta postura gerava uma imagem positiva de alguém que praticava a virtude da humildade; para outros, entretanto, tudo não passava de falsa modéstia, pois tão logo abria a boca o Imperador deixava transparecer seu grande conhecimento de ciências e letras e um completo domínio de vários idiomas.

Nesta primeira viagem ao exterior, além de países da Europa como Portugal, Espanha, França, Bélgica, Alemanha e Áustria, D. Pedro II visitou também o Egito. No dia 3 de novembro, quando apresentou uma palestra sobre o “vandalismo dos viajantes” no Instituto Egípcio do Cairo, o vice-rei comovido com suas palavras e o discurso em árabe ofereceu-lhe de presente a múmia sacerdotisa Sha-amun-em-su. No seu retorno o sarcófago passaria a ocupar posição destacada no gabinete de estudos do Imperador, bem próximo da janela.

Como fora planejado, na sua ausência coube à Princesa Isabel assinar no dia 29 de setembro a Lei do Ventre Livre, proposta pelo gabinete conservador presidido pelo Visconde do Rio Branco em 27 de maio de 1871, bastante semelhante à implantada no Paraguai pelo pai de Solano López em 1852. A lei declarava de condição livre os filhos de mulher escrava nascidos a partir de sua promulgação, mas os mantinha sob a tutela dos senhores de sua mãe até atingirem a idade de 21 anos.

- É mão de gato, dá com uma e tira com outra! – foi o comentário dos insatisfeitos.

Quando a publicação da lei foi enviada para todas as comarcas, os fazendeiros de café, especialmente os do Vale do Paraíba, procuram se reunir em grupo para discuti-la. Para alguns isto significava um afastamento gradual da monarquia para com a causa da lavoura, toda baseada no trabalho escravo dos negros. Portanto, era preciso discutir a respeito, foi o pensamento geral.

Na fazenda do Cantagalo, ressentindo a falta do primo e cunhado morto em 1869, quando ocupava a Presidência da Câmara Municipal de Petrópolis, um cargo de grande importância e que para aprovação necessitava da autorização informal do Imperador, Antonio Barroso filho mandou chamar o português Miguel Ribeiro de Sá. Aos 45 anos de idade, ele era o maior comerciante da Vila de Paraíba do Sul, proprietário de vários armazéns de secos e molhados, lojas de armarinho e investimentos na especulação com o café. Mas não foi por questões financeiras o convite do fazendeiro, mas pela vocação manifestada e interesse pela política do português.
- Pois bem, senhor Ribeiro de Sá, o que me diz desta nova lei? O que será dos fazendeiros daqui para frente?

Sorridente e simpático, devido aos 30 anos de prática de atender fregueses de várias categorias desde quando vindo da pequena Penafiel começara como simples caixeiro no Armazém de Secos e Molhados da fazenda da Boa União, Miguel respondeu:
- De imediato não vai mudar nada, pois os ingênuos, como são chamados os filhos de escravas a partir desta data, terão que prestar serviço ao legítimo proprietário da sua mãe até aos 21 anos. Talvez ocorra um aumento das mortes na infância, já que muitos fazendeiros acharão que não valerá a pena cuidar, ou investir como dizem, num bem que não lhes pertence.
- Sob o ângulo econômico sua análise está perfeita. E sobre os aspectos políticos, isto significa o afastamento da Corte?
- Posso fazer uma viagem especial à Corte, já no primeiro trem de amanhã e consultar as bases do Partido Conservador. Creio que no máximo em uma semana poderei dar-lhe um panorama mais nítido de como ficou a situação política.
- O senhor sabe que nunca tive jeito nem interesse por esta arte, a política.
- Compreendo sim senhor, não se preocupe. Tanto seu pai o barão de Entre-Rios como seu primo o barão do Rio Novo, sabiam exercê-la bem. Eu, modestamente, estou pronto para ajudá-lo neste aspecto.
- Faça isso e não se arrependerá, pois terá todo o apoio da nossa influência e os recursos financeiros que precisar na sua carreira política. Não adianta nada saber das coisas pela leitura do Diário Oficial e outros jornais da Corte; temos que saber antes o que vai ser publicado e estar de acordo, não é verdade?
- Sim a publicação é uma mera formalidade. As decisões são tomadas antes e não depois.

Considerados por muitos como simples intriga política contra Mariano Procópio, que apesar de ter as suas empresas falidas e exercer um cargo administrativo, aumentava cada vez sua fortuna pessoal, surgiram insinuações de mau uso do recurso público sob sua gestão. Indignado e com a honra atingida pelas acusações de fraude, Mariano logo tratou de publicar desmentidos, já que se originava de família abastada, sendo sua mãe a baronesa de Santana uma grande proprietária de fazenda de café, possuindo outras fontes de recursos além dos investimentos em transporte. Porém, o desgaste emocional foi fatal para o dinâmico empresário que, em 14 de fevereiro de 1872, aos 51 morreu de um fulminante ataque cardíaco.

O Imperador ao tomar conhecimento do fato, quando ainda estava no exterior, ficou especialmente desgostoso, pois admirava e tinha grande amizade pelo deputado mineiro, recordando-se das horas felizes que passara observando os astros do alto do rochedo em Juiz de Fora, que ficou conhecido como Morro do Imperador, com a luneta que lhe fora presenteada. Da mesma forma, mais de uma vez foi-lhe dito que o castelo de tijolos fabricados pelos operários da rodovia União e Indústria, junto da estação terminal de Rio Novo, fora construído especialmente para hospedá-lo quando visitava a cidade. Porém, guardando mais para si, o Imperador recordou o major Júlio Koeller, que como Mariano perdeu a vida muito cedo e também sob um nuvem de suspeição.

Ponderou: “Será este o destino dos empreendedores no Brasil? Fazer, construir quando a cultura jurídica herdada da colonização é mais de discutir, debater, argumentar, contra-argumentar, planejar e nunca executar? Ganhar dinheiro fazendo planejamento e não correndo nunca o risco de uma execução mal sucedida? Será que para fazer neste ambiente restritivo significa sempre atropelar leis e, por isso, mais cedo ou mais tarde, ter que responder por crimes?”

Depois de alguns instantes repassando estas indagações, e como especial tributo ao amigo morto prematuramente, o Imperador decidiu que todos os projetos previstos por Mariano Procópio na ferrovia não sofreriam descontinuidade e seriam realizados no prazo por ele estabelecido.

Apesar de a linha ferroviária estar prevista para chegar à grande estação de Juiz de Fora em 1875, no início de 1873 já estava em obra a chamado Curva da Ferradura, um longo desenvolvimento da linha em meia encosta de uma curva de grande raio que em aclive de 2% terminava exatamente na Garganta de João Ayres, o ponto de menor quota para travessia da Serra da Mantiqueira, explorado pela primeira vez por Garcia Paes Leme, no princípio do século XVIII, quando estava abrindo o Caminho Novo. Exatamente no meio do seu desenvolvimento, junto a uma nascente de água que filtrava da Mantiqueira, havia uma casa simples de ferroviário. Nela morava o empreiteiro e engenheiro Henrique Dumont e sua mulher grávida do seu sexto filho. Dumont era o responsável pela obra da linha na serra, contratado pelo comendador Mariano Procópio.

A morte do comendador, apesar de todo interesse do Imperador na sua continuidade, gerou problemas de contratação, pois o novo diretor da Estrada de Ferro D. Pedro II, Elisário Antonio dos Santos, oficial da marinha, tinha dificuldades em compreender a nova tecnologia de transportes, além dos naturais rearranjo de interesses quando ocorre mudança na administração.

Henrique Dumont estava cansado do serviço com data certa para ser concluído, ponderou se valeria a pena continuar investindo na atividade. Conhecendo o dinamismo de Mariano Procópio era possível ganhar um bom dinheiro, pois os prazos eram sempre muito apertados, mas numa nova administração teria que passar por um período de aprendizagem. Pensou então, por que não investir sua energia em outra atividade, talvez que desse melhor resultado financeiro, como a lavoura de café?

Numa manhã fria de julho, no dia 20 de julho de 1873, no dia do aniversário do engenheiro Henrique Dumont, sua mulher deu a luz a um menino. O pequeno Alberto, assim se chamaria, nasceu às margens da linha em construção, foi enxugado com a água retirada da nascente de pedra, filho de um empreiteiro ferroviário e, portanto, com todas as condições de seguir igual destino profissional, pois a ferrovia tem esta característica. Porém, o destino desta vez, lhe reservaria algo muito maior do que os limites estreitos das paralelas de aço dos trilhos assentados sobre dormentes de madeira da Estrada de Ferro D. Pedro II.

Em Vassouras todos se assustaram com a morte inesperada do doutor Joaquim José Teixeira Leite, deixando órfãs de mãe e pai duas irmãs: Francisca e Eufrásia. Mas como esta não fora a única morte na família em curto espaço de tempo, o inventário da avó, a baronesa de Campo Belo, também em 1873, agregou em terras mais fortuna às irmãs, que somada à grande herança em papéis deixada pelo pai, tornaram-nas possuidoras de um patrimônio equivalente à dotação recebida naquele ano pelo Imperador D. Pedro II do Tesouro Nacional – ou seja, o correspondente a 5% das receitas de imposto do império no ano anterior. Porém, no testamento redigido pelo pai, a fortuna foi dividida em três partes para as duas filhas: um terço para cada uma e o terço restante seria dividido entre as irmãs, mas com cláusula de usufruto vitalício, aplicado em fundos públicos inalienáveis, de transmissão sucessiva. Inegavelmente o pai das duas receava que, na sua ausência uma paixão amorosa desastrosa pudesse dilapidar os bens deixados por ele.

Aos 23 anos Eufrásia e Francisca com 28, apesar de bonitas, poderiam ser consideradas encalhadas para casamento. Geralmente as “primas” escolhidas para casamentos entre parentes tinham entre 15 e 17 anos. Sem explicações lógicas pelo aparente desinteresse por afoitos pretendentes, as duas resolveram realizar um sonho de todas as moças ricas: morar em Paris.

- Estou vendo, aqui Chiquinha, que o vapor Chimborazo zarpa em quinze dias.
- E o que faremos em Paris, Eufrásia?
- Ora, vamos viver da renda das aplicações! Ou você prefere investir em café?
- Deus me livre! Vi como meu pai sofreu e como nossos tios sofrem ainda...

Arrumaram apressadamente suas bagagens, liquidaram as pendências imediatas e estabeleceram procuradores de confiança, logo embarcaram. Á bordo do Chimborazo viajavam vários ilustres passageiros, além das milionárias irmãs Teixeira Leite. Estes passageiros de primeira classe se encontravam três vezes por dia no amplo salão de jantar, no andar mais alto do navio.

A fortuna das irmãs que viajavam para Paris era motivo de conversas reservadas e um atrativo para candidatos sedutores, que sempre que podia as assediavam. Um deles, um rapaz esbelto, de insinuante bigode, pernambucano e muito falante, chamado Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, mas que se apresentava como Joaquim Nabuco. Ao ver as duas donzelas solitárias à mesa, não se fez de rogado e logo se aproximou. Eufrásia e Francisca se encantaram com a inteligência vivaz do filho do jurista e político baiano, que era cerca de um ano mais velho do que Eufrásia. Viajava a Paris para realizar estudos próprios com o dinheiro herdado da venda do Engenho Serraria, pela morte de sua madrinha.

Depois que já tinham estabelecido certa intimidade, Eufrásia certa vez perguntou:
- Com que idade o senhor se diplomou?
- Foi em 1870, eu tinha então 20 e poucos anos.
- Entrou muito cedo então na Faculdade?
- Comecei na Faculdade de Direito de São Paulo em 1866, mas diplomei-me no Recife. Mas não gosto muito de direito, prefiro literatura, política...

No Paço da Cidade, o Imperador Pedro II viu sobre sua mesa o processo de concessão do título de Visconde a Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá. Ergueu os olhos para o secretário e fez sinal com a cabeça para que ele iniciasse a justificativa.
- Ele é o maior investidor do Império, sem dúvida alguma, um verdadeiro símbolo. Está agora investindo numa nova empresa, a Companhia de Abastecimento de Água do Rio de Janeiro que vai acabar com as limitações do aqueduto da Lapa. É o maior investidor em ferrovias do Brasil: a Estrada de Ferro do Paraná, a Santos-Jundiaí e mesmo a primeira, a que lhe valeu o título de barão...
- Mas é muito chegado aos ingleses?
- Oficialmente se desligou da Carruthers & Cia.em 1845, há quase trinta anos, mas continua com esta imagem de emissário dos britânicos... Mas agora está brigando com eles, por causa da Santos-Jundiaí.
- Tem razão. Ajudou-nos bastante na Guerra do Paraguai, temos que reconhecer...
- Se hoje temos informação instantânea do que ocorre na Europa, devemos é graças ao Cabo Telegráfico Submarino inaugurado por ele em 1872. Aliás, Imperador, considero esta obra mais importante do que a primeira ferrovia brasileira por ele implantada, que nunca chegou a Petrópolis.
- Tem razão. Podemos condicionar o título a isso: a ferrovia vai chegar finalmente a Petrópolis ou terei de continuar subindo de carruagem?
- Creio que não. Lembre-se que ele nos ajudou também quando investiu em 1856, junto com o inglês Thomas Crochrane na Estrada de Ferro Tijuca, uma ferrovia urbana. Não deu certo, pois a ferrovia faliu em 1868, mas o inglês nos deu sossego, aceitando a indenização e transferindo sua concessão que tinha direito para a Cia. Estrada de Ferro D. Pedro II.
- É verdade. Temos de reconhecer que muitas vezes o barão de Mauá fez negócio arriscado apenas para as causas de interesses do Governo – assentiu o Imperador.
- Ele merece o título então?
- Sim. Pode marcar: no dia 26 de junho de 1874 Irineu Evangelista de Souza será Visconde com Grandeza de Mauá.
- Temos agora, Alteza, o caso dos fazendeiros do Vale do Paraíba.
- O que querem? Mais títulos?
- Não é apenas isso. Percebe-se um clima de insatisfação generalizado, segundo estamos informados, decorrente da Lei do Ventre Livre... Eu poderia sugerir uma visita às principais lideranças da região, como Vossa Alteza realizou em 1848.
- Boa idéia. Mas, desta vez, quem viajará em viagem oficial será a Princesa Isabel e o Conde D’Eu. Cabe a ela tranqüilizá-los. Eu prefiro ficar por conta de meus livros.

O experiente secretário particular do Imperador ficou em silêncio, como se concordando, mas com um misto de preocupação. Ele e outros haviam notado que após a viagem ao exterior o monarca demonstrava achar cada vez mais enfadonho o dia-a-dia do Paço Cidade e da Quinta. Traços de contentamento eram observados apenas quando estava em Petrópolis. Parecia-lhes que o Imperador trocaria de bom grado uma permanência prolongada na Europa, onde teria à sua disposição vários programas culturais, do que suportar os bajuladores e interesseiros que o rodeavam todos os dias. Sendo esta, talvez, a razão secreta da indicação da Princesa Isabel, a sucessora, para estreitar os contatos com a elite agrária da Província do Rio de Janeiro que sempre lhe dera sustentação política.

Estando todos de acordo com a determinação do Imperador, preparou-se uma longa viagem, seguindo o mesmo roteiro da viagem de 1848, estendendo-a todavia até Valença onde a produção de café crescera nos últimos anos e em Vassouras que podia ser considerada a “capital” do Vale do Paraíba. A ferrovia que interligava Valença à Estrada de Ferro D. Pedro II fora inaugurada no dia 18 maio pelo 1871 pelo Imperador e desde então se torna uma grande fonte de receita para a ferrovia, pelo café que trazia da região do rio Preto.

Nas cerimônias públicas, o conde D’Eu, Príncipe Consorte, colocava-se sempre um passo atrás da Princesa, objetivando transmitir a todos que ela, brasileira, é quem seria a futura Imperatriz. As mulheres nestes encontros logo a rodeavam, tal como abelhas em torno de sua rainha; da parte do conde, como oficial vitorioso que terminara em nome do Imperador com a guerra no sul, tinha muitas historia de coragem para contar, que de igual forma o rodeavam com respeito, tolerando seu forte sotaque francês. Era um estrangeiro de fato, mas que havia corrido risco de vida pelo país.

Foi durante esta viagem que um destacado membro da comissão, o capitão engenheiro Alfredo Taunay, que também era deputado provincial por Goiás pelo Partido Conservador, estreitou seus laços com a filha do barão de Vassouras, Cristina Teixeira Leite.

Numa noite, na varada do amplo palacete do barão, estando os dois à sós, já que a Princesa Isabel e o Conde D’Eu monopolizavam as atenções, recordando-se Alfredo dos casos que lhe contara durante a retirada da Laguna o cabo encarregado das tropas de carga, sobre o tórrido romance que tivera com uma adolescente da cidade, disse-lhe que pensava escrever um romance com tal enredo e conseguiu fazer os olhos dela brilharem intensamente. Como poderia aquele rapaz educado adivinhar um segredo tão bem guardado na grande família Teixeira Leite? Estaria ele de posse de alguma informação confidencial ou seria simples intuição? Alfredo fingiu não perceber e avançou até onde se recordava, sempre alegando que seria um projeto de romance, já que tinha dois outros já escritos aguardando publicação e, como escritor, estava sempre pesquisando. Este aparente sexto sentido fez com que ela se apaixonasse perdidamente pelo sedutor escritor, no que foi correspondida.

A partir daquele encontro, Alfredo todos os finais de semana, terminado os trabalhos da Câmara de Deputados, pegava um trem da Estrada de Ferro D. Pedro II e seguia até a antiga estação de Vassouras, rebatizada como Barão de Vassouras pois o nome original havia sido dada à estação terminal da Estrada de Ferro Carril Vassourense, que operava desde 1872 um bonde tracionado a burro, ligando o centro da cidade à estação da Linha do Centro.

A aproximação de Alfredo e Cristina, romperia uma tradição na família Teixeira Leite, uma das filhas não se casaria com um primo, mas com alguém de fora, porém igualmente entrosado na Corte; ou melhor, muito mais, porque o pai de Alfredo, Felix Emílio Taunay além de pintor foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes e era grande amigo do Imperador que o recebia todos os sábados para uma conversa de no mínimo duas horas. Alfredo desde criança, juntamente com sua irmã, fora companheiro de brincadeiras das princesas Isabel e Leopoldina, distinguido especialmente quando o próprio Imperador entregou-lhe a medalha de premiação como aluno da Escola D. Pedro II, em 1858. Foi também o Imperador um dos primeiros a ver os originais de Alfredo como escritor, fazendo-lhe críticas pelo excessivo anglicismo na redação. O casamento, portanto, reunia fortuna de um lado e grande prestígio na Corte por outro. O amor, fonte permanente de inspiração do escritor, existia; porém não com a intensidade do que o jovem militar sentira e vivera com a índia que comprara, quando perambulavam nus, tal qual Adão e Eva nas águas claras que corriam pelos desfiladeiros do longínquo rio Aquidauana, que nasce na serra de Maracaju, no Mato Grosso. No ano de 1874, Alfredo e Cristina se casaram, numa comemoração promovida pelo barão de Vassouras que se estendeu por uma semana.

Durante a permanência de Joaquim Nabuco na Europa, entre encontros com intelectuais e políticos, entremeados por longos períodos de anotações nas grandes bibliotecas de Paris e Londres, reservava tempo para ver Eufrásia Teixeira Leite. Numa dessas ocasiões, quando os dois caminhavam de mãos dadas, às margens do rio Sena em Paris, aproveitando o ar fresco da tarde primaveril como anônimos enamorados que eram, os dois interesses momentâneos de Joaquim Nabuco, a questão social e a política do escravo brasileiro frente à burguesia se fundiram, numa conversa que se iniciou de forma banal:
- A cor do Brasil não é verde e amarelo, mas a do café-com-leite. Temos províncias como o Rio de Janeiro e a Bahia, onde o café, trazido pelo sangue africano predomina, em outras, mas em outras como Santa Catarina e São Paulo, predominando o leite trazido pelos imigrantes alemães e italianos...
- Que pensamento estranho, Joaquim, para um passeio às margens do rio Sena, numa tarde de primavera em Paris – censurou Eufrásia.
- A distância permite que eu enxergue melhor o meu país.
- Compreendo. Para enxergar a montanha toda é preciso se afastar dela...
- Kant, um filósofo que ultimamente tenho estudado, fala um pouco disso, Eufrásia, mas não desta maneira tão direta. Diz, em outras palavras, aliás, trabalhar palavras é a arte da filosofia - que o mundo é como o enxergamos, a realidade é uma abstração.
- A realidade uma abstração?
- O mundo para mim é de uma maneira, para você é de outra, para um velho escravo africano é de outra, para um jovem escravo mulato, filho de mãe negra e pai branco desconhecido é de outra...

Eufrásia empalideceu e como se assustada, reduziu o passo, interrompendo o ritmo da caminhada. Nabuco, com a alta sensibilidade que iria projetá-lo durante sua carreira diplomática, percebeu que havia tocado algo sensível, não reagiu de imediato. Como um bom jogador, que avalia as cartas nas mãos do adversário observando suas mínimas reações corporais, estendeu mais um pouco suas reflexões pelo campo filosófico, o que pareceu acalmar Eufrásia, mas logo voltou a jogar seus trunfos na mesa:
- Uma jovem, branca, rica, com um mundo colorido pela frente, que venha se apaixonar, talvez até por um impulso juvenil, por um sedutor mulato, poderia assumir este amor?

Eufrásia parou e olhou fixamente os olhos castanhos de Joaquim, que sorriu, fazendo seus dentes claros e perfeitos destacar sob o espesso bigode. Ele continuou:
- Este é um cenário hipotético, Eufrásia, mas muito comum no Nordeste. É também um tema que está sempre sendo reprisado na literatura: o doce amor proibido. Barreiras que insistem em separar os apaixonados, devido a diferença social, econômica, política... E até de cor da pele!
- Tem razão. Este é um tema já muito reprisado na literatura...
- Não é preciso recorrer aos escritores antigos. Esta situação é real e pode estar acontecendo agora. Veja aquele casal lá na frente, que caminha de mãos dadas, como nós...
- Não é o nosso caso.
- Claro que não, somos iguais socialmente, economicamente (talvez eu nem tanto quanto você), politicamente e na cor da pele. Porém, quem garante que um de nós dois não passou por este mesmo drama?

Eufrásia sentiu um estremecimento pelo corpo, provocado por velhas lembranças. No mesmo instante, em seu pensamento, as águas claras do rio Sena se transformaram nas águas barrenta do Rio Paraíba do Sul; a fresca brisa primaveril européia, pelo calor sufocante das tardes de verão no Vale do Paraíba e a delicadeza do cavalheiro que lhe acompanhava pela vigor de Tuca que fazia seu corpo de menina moça arrepiar-se toda quando o via. Um apetite sexual que ela era incapaz de controlar e que só foi interrompida quando o pai lhe tirou de Vassouras, mandando-a morar no Rio de Janeiro, na casa da família em Laranjeiras.

Controlando com esforço a emoção provocada pelas lembranças, continuou caminhando, de cabeça baixa, mas distante, observando a relva verde que crescia vigorosa, após o derretimento da neve, parecendo ter deixando o solo adubado.

Joaquim Nabuco atento, teve a convicção de que achara o fio da meada: uma possível explicação sobre o “encalhe” de moça tão cobiçada. Eufrásia era rica, bonita e sempre fora assediada por vários primos igualmente bem sucedidos, ansiosos todos para consolidarem fortunas. Nabuco pensou: seria ela uma donzela mortalmente ferida no coração pela seta lançada por um Cupido diabólico, desses que estimulam especialmente os amores proibidos?

Continuaram a caminhar em silêncio por alguns instantes, até que Joaquim abraçou-a pela cintura, interrompendo seus passos. Puxando seu rosto suavemente fez seus lábios se encontrarem com uma decisão na cabeça: iria fazê-la esquecer o passado, despertando-lhe novamente os impulsos de mulher. Nem que para isso tivesse que ser também um amante secreto.