Capítulo 2
Estrangeiro no Novo Mundo
Durante a viagem que durou mais de dois meses, num navio a vela comandado por um capitão galego como ele, que partira do porto de Vigo, Emilio teve oportunidade de ler alguns livros sobre a história das Américas, disponíveis a bordo e conversar bastante com o capitão que tinha um especial interesse pela disciplina. Segundo os relatos deste, o governador da província do Rio de Janeiro, onde estava localizada a Corte, desejava melhorar o Caminho Novo da Estrada Real, na Serra da Estrela, que partia do porto do mesmo nome a dois quilômetros da foz do rio Inhomirim na baía da Guanabara, contando com mão-de-obra especializada, ao invés do braço escravo, mais treinado para trabalhos na lavoura.
A obra contratada era na verdade um atalho, pois o Caminho Novo foi a primeira estrada na América do Sul aberta do interior para o litoral, a partir da fazenda Borda do Campo implantada no alto da Serra da Mantiqueira.pelo bandeirante Fernão Dias Paes Leme, conhecido com o Caçador de Esmeraldas. A chamadas bandeiras eram expedições exploratórias destinadas a capturar índios para trabalho escravo e garimpar ouro. A última bandeira realizada por Fernão Dias, quando já tinha 66 anos, partiu de São Paulo em julho de 1674 com um contingente de 600 homens, sendo 40 brancos e os restantes índios e consumiu quatro anos de trabalhos de exploração nas montanhas de Minas Gerais. Como último feito, pouco antes de sua morte, Fernão Dias escreve uma carta em março de 1681 ao Rei de Portugal relatando: “Deixo abertas cavas de esmeraldas no mesmo morro donde as levou Marcos de Azeredo, já defunto, coisa que há de estimar-se em Portugal”. As ditas esmeraldas, entretanto, eram turmalinas, que Fernão Dias nunca soube, pois morreu de febre em outubro do mesmo ano.
A abertura do Caminho Novo foi uma iniciativa do governador da Capitania do Rio de Janeiro, Artur de Sá Menezes, logo que se teve confirmação, em 1702, da descoberta de grandes jazidas de ouro em Minas Gerais. O Caminho Velho, utilizado por Fernão Dias de São Paulo, era uma rota que descia em canoas, das proximidades da vila de São Paulo pelo o Rio Paraíba do Sul até onde deixa de ser navegável, no ponto conhecido como Cachoeiras. O caminho terrestre atravessa no lado da margem esquerda do rio a Serra da Mantiqueira, que divide as províncias de São Paulo e Minas Gerais, e ao lado da margem direita a Serra da Bocaina, que divide as províncias de São Paulo e Rio de Janeiro. O Caminho Velho chega ao mar na cidade portuária de Parati, no extremo sul da baía de Sepetiba, obrigando uma navegação costeira até à Capital da Colônia, no Rio de Janeiro, sendo, portanto vulnerável a ataques de piratas e de contrabandistas de pau-brasil. Um caminho novo, exclusivamente por terra, mais curto e seguro, era então recomendado.
Garcia Paes, na abertura deste caminho, tomou a direção sul a partir da Fazenda da Borda do Campo, seguindo um rio de águas escuras, chamado Paraibuna (designação Tupi: Paray, rio e Una, escura) a partir de sua nascente na Serra da Mantiqueira até seu encontro com um rio mais volumoso, de águas claras o Paraíba (também designação Tupi). A maior dificuldade na abertura deste caminho foi vencer o alagadiço de mais de quatro léguas encontrado no meio da selva e formado pelas águas espraiadas do Rio Paraibuna. Ali Garcia Paes teve que fazer uma longa pausa até achar a direção que o rio tomava, o que o obrigou a derrubadas para plantar uma roça de milho e mandioca para alimentar sua gente, um grupo de cerca de cem pessoas. O povoado que surgiu no local tomou o nome de Santo Antonio do Paraibuna.
Seguindo na direção sul, Garcia Paes desviou-se do vale do Paraíba depois do alagadiço, porque ele passava a correr entre desfiladeiros, na Serra de Marmelos. Do ponto mais alto da região de Santo Antonio do Paraibuna se avista ao longe o maciço de granito conhecido como Pedra de Paraibuna, como mais de 400 metros de altura, quase de prumo. No meio do caminho plantou uma roça, criando uma fazenda e uma localidade que recebeu o nome de Matias Barbosa, quando retomou o caminho acompanhando sempre as margens do Rio Paraibuna.
O Rio Paraibuna foi transposto por Garcia Paes na cachoeira existente diante do grande maciço de granito, chamado monte Serrat, a Pedra de Paraibuna, que vinha orientando sua direção. O rio nesta região era o limite sul da vila de Barbacena, servindo como fronteira entre as províncias de Minas e Rio de Janeiro. Por esta razão foi escolhido para um futuro posto de fiscalização ou Registro.
Para atravessar o Rio Paraíba do Sul, seu maior obstáculo natural, Garcia Paes evitou a barra do Paraibuna, pois neste exato ponto o caudaloso rio recebe também as águas do encachoeirado Rio Piabanha, que desce da Serra do Mar, engrossando ainda mais, preferindo um ponto distante três léguas a montante, onde também plantou roça e criou fazenda, batizando o local de Paraíba do Sul, o mesmo nome do rio que iria vencer.
Esgotado pelo trabalho intenso, em meados de 1703 Garcia Paes enviou ao Rei de Portugal uma carta-apelo explicando as dificuldades ocasionadas pela deserção dos escravos e pedido ajuda, já que ficara reduzido a 30 homens. A ajuda logo chegou e os serviços prosseguiram, venceu a Serra das Araras, passando pelo trecho conhecido como Serra dos Macacos, Pilar e finalmente Penha, aonde chegou em 1707.
Logo depois de inaugurada a nova rota mostrou serventia. Em 1711 a baía da Guanabara foi ocupada uma esquadra 18 navios de corsários franceses, comandados por René Duguay-Trouin. Foi subindo pela rota do Caminho Novo que as riquezas da capital da província escaparam do saque, viajando em lombo de burro até a fazenda de Garcia Paes em Paraíba do Sul, no outro lado da serra. Foi também pelo Caminho Novo que desceu o reforço enviado de Vila Rica pelo Governador Antonio de Albuquerque, composto por cerca de 6.000 homens em grupos de 100, para ajudar a expulsar os franceses.
Não houve, entretanto batalhas, pois o governador Francisco de Castro Morais assinou um termo de capitulação, pagando um resgate de 610 mil cruzados, cem caixas de açúcar e duzentas cabeças de gado para que a cidade do Rio de Janeiro abandonada e os navios ancorados no porto não fossem incendiados como ameaçava Duguay-Trouin – um prejuízo muito maior. Pago o combinado, após cinqüenta dias de ocupação, a esquadra francesa deixa a baía da Guanabara rumo à França, para dividir o botim com o próprio Rei Luís XIV, já que desde março de 1711, por condições aprovadas pelo ministro da Marinha francesa, o monarca havia se tornado sócio da empreitada, fornecendo sete navios dos 18 da armada, equipada com marinheiros, guardas e soldados do seu governo.
Emilio lia e ouvia os relatos históricos com admiração, parecendo-lhe uma história familiar, pois envolvia serras, rios e ouro. A cidade onde tinha laços familiares especiais, Ourense, recebeu este nome exatamente por causa das jazidas de ouro que os romanos assumiram, mas que já eram exploradas anteriormente pelos Celtas. A descrição da paisagem e de estradas através das montanhas e florestas verdejantes também lhe parecia familiar à distante Galícia, com montanhas verdejantes e cortadas de rios encachoeirados. Para um rapaz de 19 anos a nova terra parecia-lhe repleta de aventura e cheia de oportunidades. Trocava assim, uma perspectiva de vida difícil, mas regular na Galícia, por uma incerta e cheia de recompensas no Brasil.
Enquanto o navio viajava dos Açores em direção ao Brasil, na Câmara de Vereadores da Vila de Paraíba do Sul, instalada em 1833, data da criação da vila, uma importante reunião acontecia, envolvendo todos os grandes fazendeiros da região e o engenheiro militar Júlio Frederico Koeller, jovem oficial alemão, de 31 anos, que ainda falava um português arrastado, apesar de já estar no Brasil há sete anos. Embora tivesse estudado medicina na Alemanha, fez com brilhantismo prova de aptidão em matemática, sendo nomeado engenheiro militar. Koeller era o chefe da 2ª. Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro.
A pauta da reunião incluía decisões sobre melhoria do Caminho das Tropas, uma variante do Caminho Novo que passava pela Serra Estrela ao invés da Serra das Araras e terminava no fundo da baía da Guanabara e a construção de uma ponte na Vila de Paraíba do Sul, para substituir a precária ligação através de barcaças. As obras interessavam principalmente os fazendeiros da margem esquerda do Rio Paraíba do Sul, que tinham um custo de transporte superior aos dos fazendeiros de café instalados na margem direita. Dentre os maiores interessados destacava-se Antonio Barroso e Hilário Joaquim de Andrade, seu vizinho, dono da Fazenda Serraria, ambos eleitos vereadores.
Este atalho do Caminho Novo foi aberto em 1724 pelo militar Bernardo Proença sendo chamado Estrada do Proença ou Caminho das Tropas. Atravessava a fazenda do Padre Correa, onde pernoitou D. Pedro I, na sua primeira viagem à Província de Minas Gerais depois da independência do Brasil. O Imperador gostou da propriedade e propôs compra-la, mas os familiares do Padre Correa recusaram e ofereceram como alternativa a fazenda do Morro Queimado, vizinha, que foi adquirida, mas não paga pelo Imperador, que logo seguiria para Portugal para guerrear com seu irmão Miguel e garantir a posse da filha Maria da Glória como rainha.
No seu traçado, o Caminho das Tropas segue o curso do Rio Piabanha até onde, como no caso do Paraibuna em Minas Gerais, passa a correr entre desfiladeiros, na Serra do Taquaril. Contorna este obstáculo subindo pelo riacho do Fagundes em direção a Cebolas, daí a Paraíba do Sul, onde encontra com o Caminho Novo original, na Vila de Paraíba do Sul. Neste ponto foi construída uma igreja, que passou a ser conhecida como Santo Antonio da Encruzilhada.
Um século depois, tropas de mulas transportando café da zona do Paraibuna tinham neste local duas opções: seguir pelo Caminho Novo original, pela serra dos Macacos e Araras, até a rio Iguaçu, onde o café era descarregado e embarcado em canoas rasas para seguir para o porto do Rio ou tomar o atalho do Caminho das Tropas, até o porto de Estrela, onde também era descarregado para seguir em barcaças de maior porte que navegavam na baía para junto do porto marítimo, onde o café seria selecionado, classificado e estocado para exportação.
As obras para as quais estavam os trabalhadores açorianos contratados eram as de melhoria do Caminho das Tropas, que na época das chuvas tornava o caminho muito difícil. Deveria ser toda pavimentada com lajes de granito, retirada de jazidas nas imediações. Depois da explanação pelo engenheiro Koeller, foi aberta a seção de perguntas. O major Antonio Barroso foi o primeiro a se inscrever e perguntou:
- Minha experiência é amarga, senhor engenheiro. A mão-de-obra dos negros não é adequada para construção de pontes. Além disso, a lavoura está exigindo cada vez mais braços. Como resolver isto?
- Boa pergunta, major. Nós já havíamos chegado a esta conclusão. Neste momento está a meio caminho, um navio vindo dos Açores repleto de trabalhadores especializados em obras de cantaria. Realmente, não é possível uma ponte de madeira resistir às chuvas de verão, como o senhor mesmo afirma, os pilares têm de ser feitos de blocos de granito. Assim poderão durar séculos!
Nos últimos dias da viagem, quando já acompanhavam a embarcação as gaivotas e fragatas que aninhavam nas ilhas próximas à entrada da baía da Guanabara, o capitão chama Emilio para uma última lição:
- Vais estranhar uma coisa quando chegarmos ao porto do Rio de Janeiro: a grande presença de negros.
- Como assim?
- Pensará que estamos na África, pois no Rio de Janeiro, mais da metade da população é negra. A divisão social é também bem diferente da nossa Galícia. Lá, por conta da expulsão dos mouros realizada pelos Reis Católicos Fernando e Isabel, grandes porções de terras foram cedidas à igreja e aos fidalgos que comandavam os exércitos. No Brasil a igreja não é tão forte; mas existe sim, como na nossa Galícia, uma elite composta por grandes proprietários de terras, recebidas graciosamente do governo na forma de Sesmarias, com o compromisso de exploração econômica.
- São os proprietários portugueses?
- Raramente. Houve uma espécie de divisão tácita. Enquanto os brasileiros exploram a terra os portugueses exploram o comércio, principalmente o tráfico de escravos da África. Comerciantes portugueses se estabelecem junto à costas em ambas as margens do Atlântico, da África e do Brasil. Comerciavam açúcar, fumo e cachaça, que eram trocados por negros já escravizados, por tribos rivais em várias colônias lusitanas nas costas da África.
- Não existem então, arrendatários de terras da igreja e de fidalgos, como na Galícia?
- Raramente. A mão-de-obra é exclusivamente de braço escravo, treinada para o trabalho na lavoura. Por isso, para serviços especializados, precisam de pessoas como você.
- Existem também a figura dos fidalgos?
- Sim, porém sem tradição familiar. No Brasil, para ser fidalgo é preciso ser muito rico ou poderoso politicamente. Os títulos de nobreza são as recompensas por serviços prestados à Coroa. Com o passar dos anos, provavelmente, através de casamentos entre famílias importantes, será criada uma nobreza sangüínea, como na Europa. É apenas uma questão de tempo...
Depois de terminada a reunião na Câmara, os fazendeiros Antonio Barroso e Hilário Joaquim seguiram juntos, evitando o antigo Caminho Novo aberto por Garcia Paes, porque, como relatou o geólogo Barão Wilhelm Ludwig Von Eschwege, que entre 1808 e 1821 percorreu várias vezes o Caminho, em toda sua extensão o pior trecho encontrava-se entre a Pedra de Paraibuna e a Vila de Paraíba, composto por uma série de subidas e descidas íngremes. Preferiram um novo atalho quase plano, aberto pelo Capitão Tira-Morros.
Em 1817 encontrava-se na direção do Registro Novo de Paraibuna o capitão José Antonio Barbosa Teixeira, que também comandava o destacamento ali aquartelado. A sede do Registro ficava à direita do Caminho Novo e o pequeno quartel quase defronte. Recebeu ordens do governo do príncipe regente D. João VI de construir uma ponte no local para a travessia do Paraibuna. Iniciou as obras no inverno de 1818 terminando-a em 1822.
A Imperial Ponte de Madureira teve o estrado e construído em madeira de lei, abundante na região e era coberta. Não foi, porém, devido à ponte que José Antonio Teixeira passou para a história, mas pela construção concomitante de uma variante que seguia a partir da vila de Paraíba do Sul o curso do rio de mesmo nome pela margem esquerda até às proximidades da foz do córrego do Puris, que passou acompanhar até próximo sua nascente. Vencendo o divisor de águas dos rios Paraíba do Sul e Paraibuna, seguiu pela margem direita deste até a ponte de Madureira ou ponte de Paraibuna. O caminho era mais longo, porém quase plano o que deu a José Antonio o apelido de Capitão Tira-Morro.
José Antonio também poderia passar à história por outro fato. Em 1792 diante de sua fazenda em Cebolas foi amarrada a um poste uma parte do tronco esquartejado de Tiradentes, salgada para apodrecer lentamente. Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, nasceu em 1746 e além de Alferes também fazia serviços de dentista. Muito amigo dos povoados ao longo do Caminho Novo onde trabalhava em patrulhamento, havia oferecido para a igreja local de Cebolas algumas peças de devoção. No mesmo dia que os portadores dos despojos de Tiradentes, acompanhados de soldados do exército português, cumpriram em Cebolas as determinações de Lisboa, celebravam-se ali as festas do Divino Espírito Santo que foram, em sinal de pesar, imediatamente interrompidas. Passadas algumas horas, de madrugada, Mariana Barbosa Teixeira, mulher de José Antonio, juntamente com seu capelão, Padre Amorim e mais um escravo da fazenda, retirou do poste o despojo de Tiradentes, sepultando-o na base do altar da capela de Nossa Senhora do Rosário, na própria fazenda.
Tiradentes era muito amado pelo povo, desde quando, em 1783, como comandante de Destacamento do Caminho Novo, para o qual fora designado dois anos antes, ajudou o fazendeiro José Ayres Gomes, da Fazenda da Borda do Campo, a desbaratar uma quadrilha de ladrões da Serra da Mantiqueira, que assaltava os viajantes.
Em suas andanças por todo o Caminho Novo até o Rio de Janeiro, Tiradentes quando vivo angariava simpatia e amores, já que contavam as lendas que possuía várias namoradas nas várias fazendas que percorria, algumas delas as próprias fazendeiras.
- Por que Tiradentes assumiu toda responsabilidade pela Inconfidência Mineira? – quis saber Emílio.
- É uma história longa, cheia de contradições, traições, interesses políticos e econômicos...
- Foi ele influenciado pela Revolução Francesa, como aconteceu em certos locais na Galícia?
- Creio que não, pois o episódio conhecido como a Queda da Bastilha de 1789, que deu início ao movimento revolucionário, aconteceu quando Tiradentes já se encontrava preso.
- Qual a razão, então?
- O mais provável é que as origens do movimento estejam no estabelecimento, em 1765, da Derrama: o confisco dos bens dos moradores da província de Minas Gerais para cobrir o valor estipulado para o quinto quando havia déficit de produção de ouro.
Emilio ficou pensativo observando o morro do Pão de Açúcar na entrada da baía da Guanabara se aproximar, e o capitão continuou:
- José Antonio, o Capitão Tira-Morros, foi um severo Fiscal de Barreiras, ordenando que seus soldados rondassem todo o Caminho até defronte de Barra Longa, onde os sonegadores do quinto de ouro haviam criado um atalho para não passar pelo Registro. Conta-se que um dia um viajante, com vários animais carregados de ouro, chegando neste local encontrou o Rio Paraibuna demasiadamente cheio e ali pretendia ficar para esperar a vazante. Não havia ainda descarregado os burros quando foi informado que a guarda estava a caminho. Resolveu enfrentar o azar: apertou os animais para fazê-los tentar a travessia a nado. Dois deles não alcançaram a margem oposta e foram arrastados pela correnteza um longo trecho, desaparecendo com mais de dez arrobas de ouro que jazem até hoje no fundo do rio.
- Verdade? – quis saber Emilio.
- É o que dizem. Mas o ouro sempre deu margem a histórias assim, de tesouros perdidos.
Depois dos sessenta dias de travessia, Emilio ansiava pisar terra firme. Antes da entrada da baía da Guanabara, o navio rodeou duas ilhas, passando de frente a praias alvíssimas, no fundo da quais pedras arredondadas formam a silhueta de um gigante deitado. A grande pedra do Pão de Açúcar, na entrada da baía deslumbrou Emilio, fazendo-o recordar-se da Serra Calva, que de Carracedo se avistava coberta de neve no inverno, mas verdejante no verão. Quando o navio atracou Emilio confirmou a maciça presença de tantos escravos negros em torno dos cais. Olhou ao longe o contorno azulado da serra que circundava a baía, para onde logo se dirigiriam.
Os trabalhos de reparo da estrada desde o Porto Estrela até a fazenda do Córrego Seco, tiveram inicio em agosto e era comandado por Júlio Frederico Koeller. Os experientes açorianos logo dominaram o granito da serra, mais macio do que da ilha vulcânica e o serviço rendeu bem mais do que quando realizado por mão-de-obra escrava, arrendada das fazendas próximas. Emilio, como contra-mestre, ficou encarregado de uma turma de dez outros operários, todos açorianos e portugueses.
Os relatório favoráveis de Koeller contribuíram para a criação em janeiro de 1836, da Sociedade Promotora de Colonização do Rio de Janeiro, através da qual chegaram nove mil colonos portugueses na Capital da Província, sendo seis mil das Ilhas dos Açores. Alguns desses colonos, sob as ordens de Koeller, foram trabalhar na construção da ponte do Rio Paraíba e mais tarde na conservação da Estrada Calçada de Pedras na Serra da Estrela. Eram 70 famílias com cerca de 150 pessoas.
Por determinação de Koeller, Emilio foi trabalhar na construção dos pilares da ponte que atravessava o Rio Paraíba do Sul, na vila de mesmo nome. A obra foi solicitada pelo vereador Hilário Joaquim de Andrade, proprietário da fazenda Serraria, que havia sido Guarda de Honra do Imperador Pedro I. Com 40 anos, jeito autoritário, o fazendeiro acompanhava de perto as obras e ficou particularmente surpreendido com a pouca idade de Emilio, chamado de contramestre canteiro, com apenas 20 anos. Mas, ao observar como o rapaz manipulava o martelo e a talhadeira, esculpindo rapidamente as pedras em encaixe perfeito, ficou tranqüilo. A obra, porém, não andava bem, pois havia como que uma má vontade em ajudar os operários e mesmo uma torcida para que o serviço se atrasasse, por parte dos barqueiros que faziam a travessia das tropas de burros que seguiam para o Porto Estrela. Os materiais só eram transportados até os pregões quando não havia carga alguma para ser atravessada.
O caudaloso e barrento Rio Paraíba do Sul, que a cada chuva nas cabeceiras aumentava de volume, alargando as margens, também impressionou Emilio, acostumado com os riachos de águas límpidas da Galícia.
Outro aspecto que chamou a atenção de Emilio foi o excesso de dirigentes. Uma comissão foi composta por vereadores da Vila de Paraíba do Sul, presidida pelo fazendeiro e major da Guarda Nacional João Gomes Ribeiro de Avelar, que tinha propriedade na margem direita, com a participação de outro grande fazendeiro, também major da Guarda Nacional e proprietário de terras na margem esquerda, Antonio Barroso. Os dois não se entendiam e era preciso ficar atento para não receber ordens contraditórias. O major Koeller parecia pisar sobre ovos para não desagradar nenhuma das partes. Isso também contribuía para o atraso nos serviços, pois muitas vezes os operários ficavam dias sem ter o que fazer, apenas ouvindo as conversas na beira do rio. Estas conversas permitiam-lhe imaginar como era o dia a dia numa fazenda de café no Vale do Paraíba.
Certa manhã, pouco antes da hora do almoço, enquanto Emilio esperava uma tropa de mulas terminarem a travessia do Rio Paraíba, para poder utilizar as barcaças para transporte dos paralelepípedos de granito até o pilar assentado sobre uma pedra que formava uma ilhota, avistou um grande cavalo branco chegando pela margem esquerda. Reconheceu o major Antonio Barroso e ficou observando-o com atenção enquanto caminhava em sua direção. Depois dos cumprimentos formais, ficou aguardando, pois sabia que o Major estava a sua procura.
- O serviço está lento, não é espanhol?
- Sim, senhor. Já fiz relatório pro major Koeller...
- Sei. Não precisa explicar, não é culpa de vocês. O problema é político, interesses, coisa grande... Mas não é por causa disso que te procuro...
- Sim, senhor.
- Preciso de seu trabalho na fazenda. Tenho uma grande obra para fazer. Preciso do melhor canteiro. E o melhor que me indicou o major Koeller é você – apesar de tão novo.
- Sim, senhor. Mas as obras da ponte...
- Está tudo acertado com o Koeller. Você vai ganhar três vezes o que recebe aqui e pode levar uma turma de até cinco homens, ganhando o dobro do que o governo paga pelo serviço da ponte. Mas vão ter que trabalhar duro!
- É uma oferta tentadora, major Antonio. Mas o engenheiro Koeller...
- Já falei não precisa te preocupar. Ele acaba de contratar uns patrícios dele mesmo, alemães, que desembarcaram do navio Justine. Iam para Austrália, mas, devido aos maus tratos a bordo resolveram aportar no Rio de Janeiro. Koeller conseguiu que dos 238 passageiros germânicos, 235 fossem cadastrados como colonos pela Sociedade Promotora da Colonização. Vão dar um reforço às obras da estrada na subida da serra antes que comecem as chuvas de verão. Portanto, os trabalhos da ponte podem esperar.
- Se é assim, estou de acordo, sim senhor.
- Bom. Você vai ter o prazer de construir a mais bela sede de fazenda de todo o Vale do Paraíba, uma obra que vai durar séculos!
Quando Emilio viu os desenhos da planta da casa ficou boquiaberto, parecia um castelo. Não se assemelhava, entretanto, a uma construção de pedra, como as grandes obras que conhecia na Espanha. Após alguma indecisão resolveu questionar o major Antonio Barroso a respeito:
- A mansão não será toda feita de pedra não?
- Claro que não, meu jovem. Aqui no Brasil uma casa de pedra como a que vocês usam na Europa mataria todos de calor durante o verão. Vamos usar uma técnica mista, taipa com fundação de granito. Não se preocupe você ficará responsável apenas pela fundação e da marcação de canto, serviço de canteiro. O resto da obra ficará a cargo de um mestre português, que chegará a alguns dias. Até lá, aproveite a fazenda e conheça um pouco da nossa vida de lavrador.