sábado, 4 de agosto de 2007

A MULA DO OURO - Capitulo 8

Capítulo 8
Grandes Empreendimentos


Na família Imperial o ano de 1847 foi também de tragédias. O filho primogênito Afonso Pedro de Alcântara, o príncipe herdeiro da coroa, foi encontrado morto em seu berço no dia 11 de junho, um mês frio, quando a Febre Amarela que todo verão assustava o Rio de Janeiro está contida. Outra frustração se seguiu quando, no mês seguinte, a 13 de julho, nasce uma outra menina Leopoldina, para fazer companhia à irmã Isabel, de quase um ano de idade, pois nascera a 29 de julho do ano anterior.

No início de 1848 o Imperador, sem a companhia da mulher, resolve fazer outra viagem pelas fazendas da Província do Rio de Janeiro, de onde vinha 2/3 de todo o café produzido pelo Brasil e era o sustentáculo político e financeiro de seu governo. A viagem começou em fevereiro, mês de calor e de chuvas. Nesta viagem D. Pedro II não se hospedaria na fazenda do major Antonio Barroso, optando pelo rival político deste, o major João Gomes Ribeiro de Avelar. O roteiro previa saída de Petrópolis às três horas da manhã, passagem por Sumidoro e pernoite na fazenda do major Avelar, Presidente da Câmara de Vereadores da Vila de Paraíba do Sul. Era uma atitude bem típica de D. Pedro II, “uma batida no cravo outra na ferradura” – no dito do Vale do Paraíba. Dali seguiria em direção à Vila de Vassouras, hospedando-se na fazenda de Francisco José Teixeira Leite, descendo depois pelo Caminho Novo original até as margens do rio Iguaçu, seguindo por estrada até o Palácio de São Cristóvão.

Convidados para estar presente no beija-mão que aconteceria na mansão do Avelar na Vila de Paraíba, com presença obrigatória de todos os políticos locais, o major Carvalhinho recebeu seu cunhado na fazenda da Boa União para uma conversa solicitada por ele. Este chegou trazendo alguns livros de anotações, o que levou o major de antemão concluir que falariam de números.

- Mas quais as conclusões que você chegou depois de tanto estudo e conversa na Corte que pode nos interessar ou que é bom sabermos para enriquecer a visita do Imperador na região?
- Vamos lá. Na atividade comercial, primo, quando a oferta é abundante o preço cai.
- Lógico.
- Pois isto não está acontecendo com dois produtos finais de nossa atividade de fazendeiros. No café, aumentamos cada vez mais a produção e o preço continua subindo. A mão-de-obra negra, apesar do aumento da oferta, o preço está mantido, não caindo. Veja estes dados atualizados. Como lhe falei, em 1845 foram importados 19 mil, no ano seguinte 50 mil, em 1847 entraram no Brasil 56 mil, neste ano vai chegar a 60 mil.
- Realmente, este excesso de oferta deveria ter feito o preço, tanto do café como do escravo cair. Interessante...
- E olhe que os ingleses, sabendo disto, estão apertando o cerco cada vez mais. Lorde Aberdeen, o pai da lei de repressão, deve estar furioso, pois sua medida teve efeito contrário, ao invés de acabar com o tráfico de escravos da África para o Brasil aumentou. Nos últimos cinco anos anteriores a importação ficava na média de 20 mil negros. Depois que aprovou a medida de repressão ao tráfico multiplicou-se por três.
- E qual a conclusão que chegaste para explicar isto?
- A presença dos americanos substituindo os ingleses no nosso comércio.
- Como?
- Muito fácil de entender. Antes da tarifa Alves Branco, apesar de todos os acordos assinados com a Inglaterra, tanto por D. João VI em Portugal como no Brasil e ratificado por seu filho o Pedro I, em todos eles, havia cláusula propondo a redução do tráfico. E o que acontecia? Nada. Os ingleses faziam vista grossa. Tinham tarifas privilegiadas de importação de seus produtos industrializados; seus súditos passaram a dominar o mercado atacadista, substituindo os portugueses; o cidadão inglês fizesse o que fizesse, não poderia ser julgado por um juiz brasileiro, mas sim um togado inglês, usando cabeleira postiça e segundo as leis inglesas...
- Realmente era um paraíso comercial.
- Por que então, de repente tudo muda?
- Sim. Qual foi o foco da mudança?
- A subida ao trono de D. Pedro II aos 16 anos.
- Não é possível. Um menino não faria esta revolução.
- Claro que ele sozinho não. Mas deu apoio às mudanças. E, quando não renovou os tratados especiais com os ingleses, autorizando a implantação da tarifa Alves Banco, favoreceu aos americanos. E aí, é bom citar, existem dois americanos. O Ianque, do Norte, com suas indústrias instaladas próximas das reservas de carvão de pedra, e equipamento mais moderno e de fabricação própria, têm esses custos industriais menores do que os ingleses, que dependem de algodão importado. Os Sulistas, com grandes plantações baseada, como nós na mão-de-obra cativa, produzem principalmente algodão, base da sua indústria têxtil inglesa, para seu próprio país e para exportação, enquanto os ingleses têm que buscá-lo do outro lado do mundo, na sua colônia da Índia.
- Onde o Brasil entra nesta história.
- Com um grande mercado importador, substituindo os produtos ingleses pelos correspondentes americanos. Sem subsídio tarifário de antigamente os ingleses não conseguem competir com os americanos. Mas, para que isto seja possível, isto é, que o Brasil possa pagar estas importações, os americanos compram cada vez mais café do Brasil. Os números que o nosso Comissário no Rio de Janeiro me passou da movimentação americana não deixa margem a dúvidas...
- Parece que sua análise está muito boa, mas sendo prático, focalizando a situação aqui da Vila de Paraíba do Sul, como ganhamos dinheiro com isto?
- Ótimo! Você agora tocou no ponto! Não será produzindo mais café, como os fazendeiros nossos vizinhos que nem mais respeitam a distância mínima das ruas de café, nem especulando com a mão-de-obra escrava como os investidores da Corte. Será facilitando as coisas para eles, os lavradores.
- Como?
- Produzindo comida para os escravos, ora. Os fazendeiros nossos vizinhos não vão querer deslocar mão-de-obra de cafezais para plantar milho, arroz, feijão, criar porcos e fabricar lingüiça, cachaça... Os escravos de ganho na Corte já não produzem alimento nenhum mesmo. Portanto, meu caro primo, deveremos transformar a fazenda Boa União, assim como iremos fazer na fazenda do Cantagalo, na maior pocilga que a Província do Rio de Janeiro já viu.
- Não vamos mais plantar café?
- Vamos manter o que já temos. Mas investir principalmente numa lavoura alternativa, diversificar a produção agrícola voltar-se mais para os gêneros alimentícios. Investir na pecuária, criar porcos, produzir lingüiça, lombo salgado, chouriço. Investir mais na serraria.
- Plantar, criar e industrializar?
- Sim. E aproveitar as tropas de mulas que descem com café e sobem com meia carga para transportar a nossa produção para os nossos amigos fazendeiros como nós. Eles vão nos agradecer, pois não precisam desviar a mão-de-obra do café...
- Parece um bom plano. Mas será que o tio Antonio, seu pai, vai concordar? Vamos ter que fazer uma reunião.
- Por isso estou conversando com você. Nós mineiros... Aqui no Vale do Paraíba, mesmo quem nasceu aqui na Província do Rio de Janeiro é mineiro por causa do custe, da cultura e, portanto, só faz reunião depois de tudo bem combinado.
- Você está me saindo um político...
- Eu já tive este tipo de conversa com meu pai ontem, lá na fazenda do Cantagalo. Ele não foi contra. Agora, depois de conversar com você, poderemos reunir os três.

Durante o encontro com os fazendeiros na mansão do major Avelar, a idéia de Antonio Barroso foi testada com fazendeiros vizinhos, verificando-se que ninguém havia pensando em algo semelhante. Ficaram inclusive satisfeitos, pois não precisariam eles próprios deslocar mão-de-obra da lavoura de café para a subsistência da fazenda.

Quando os três Antonios se aproximaram do Imperador para beijar-lhe a mão, surpreenderam-se, quando ele, parecendo ignorar o luxo da mansão onde se hospedara três anos antes, lhes fez uma pergunta muito específica:
- Os obeliscos egípcios na entrada da fazenda Cantagalo continuam de pé?

No retorno fizeram questão de entender melhor a escultura preparada pelo mestre canteiro Emilio que tanto interesse despertou no Imperador, no que foram ajudado por Mariana Claudina, após consultar alguns livros. Como ela explicou, cerca de dois mil anos antes de Cristo, o Faraó Senusret I, mandou construir um monumento de pedra em forma de pirâmide, com pequena base quadrada, mas grande altura. Como era uma obra de construção relativamente barata, foram copiados por vários outros faraós, reis e simples governante. Tinha a função de engrandecer a autoridade que a mandara construir uma grande obra ou ressaltar algum fato político. Eram feitos de granito, onde constavam inscrições alusivas ao evento que desejavam celebrar, como um marco eterno, capaz de resistir aos efeitos do próprio evento. Como obra de arte um obelisco é considerado o último raio de sol para os homens.

Depois de ler a explicação para seu pai, marido e irmão, Mariana Claudina ficou pensado no que o espanhol estaria querendo dizer quando resolveu esculpir os dois obeliscos na entrada da propriedade. Pelo que se lembrava de ouvir o pai comentando, lhe fora solicitado um simples marco na porteira da fazenda. Por que fazer um obelisco de inspiração egípcia?

No ano de 1848, em 19 de julho, o Brasil ganharia seu novo Príncipe Imperial, o mais novo dos três filhos do Imperador Pedro II e da Imperatriz D. Tereza Cristina, o que dava tranqüilidade aos monarquistas, pois, de acordo com a Constituição Brasileira de 1824, estava garantida a linha sucessória. Foi ano também que estourou mais uma revolta separatista, na Província de Pernambuco, a Revolução Praieira, o que gerava intranqüilidade aos monarquistas, por tratar-se de um movimento liderado pelo Partido Liberal. Foi cogitado o envio do Conde de Caxias, senador perpétuo pela Província do Rio Grande do Sul. Achou-se, porém que não seria necessário, era uma guerra pequena para o grande Caxias.

O major Carvalhinho, sempre afinado com a política, marcou uma conversa com seu primo na varada da fazenda Boa União num domingo, na parte da tarde. Tinha informações interessantes para repassá-lo. O primo foi ao encontro carregado de livros de anotações, gerando logo a indagação:
- Já sei, vai demonstrar que o tráfico de escravos continua aumentando...
- Isto todo mundo já sabe. Neste ano vamos chegar a 60 mil escravos importados da África, apesar dos ingleses.
- Por que trouxe os livros, então?
- Fale você primeiro. Depois eu completo.
- Bem, é alguma coisa que vai deixar o tio Antonio muito aborrecido. Decorreu da viagem do Imperador na região.
- O que é? Está me deixando curioso.
- O major João Gomes Ribeiro de Avelar, em outubro deste ano, vai receber o título de Barão de Paraíba.
- Não é possível! O que fez para merecer? Nós temos que conseguir um título também para o major Antonio Barroso Pereira, o maior fazendeiro desta região.
- Deixe que desta parte política eu cuide, fique tranqüilo. Mas, diga-me, por que tantos livros?
- É sobre a experiência do Senador Vergueiro?
- Aquele português Nicolau Pereira Vergueiro, na política desde antes da independência?
- Ele mesmo. Conseguiu empréstimo do Governo Imperial e mandou vir para trabalhar na sua fazenda em Ibicaba, na vila de Campinas, na Província de São Paulo, 80 famílias de alemães. Criou o chamado Sistema de Parceria. Montou um firma que financia a viagem e as despesas de instalação, com juros de 6 a 12% ao ano com prazo de até quatro anos para amortizar.
- Me parece uma boa idéia.
- Mas está dando errado!
- Como?
- O pobre do imigrante chega, fica logo endividado, pois sem dinheiro é obrigado a comprar apenas no armazém da fazenda, onde tem crédito, pagando muito mais caro por isso. Recebe terra para cultivar café e plantar qualquer coisa para vender. No final o lucro é rateado, meio a meio, entre o Senador e o Colono. Depois de muito trabalhar, quando faz as contas, descobre que ainda continua devendo.
- É uma escravidão branca, então?
- Sim. Mas como eles não são analfabetos como os negros, vão logo botar a boca no mundo, reclamando junto aos seus governos que foram tapeados...
- Isto pode até acarretar proibição de emigrarem para o Brasil.
- Certamente! Não são como os negros da África, que já são vendidos como escravos lá, não têm a quem recorrer. Mas, sabe quem irá se beneficiar desta situação?
- Não consigo imaginar. Quem?
- Os Estados Unidos, lógico.
- Você está exagerando, primo. Outra vez coloca os Estados Unidos na nossa vida?
- Já que na Europa a situação econômica está difícil, o Novo Mundo é uma esperança. Porém, com estes espertinhos que temos aqui, como o Senador Vergueiro, logo nossa imagem como nação de oportunidade para os imigrantes ficará prejudicada. Ninguém mais vai querer migrar para o Brasil, todos vão preferir os Estados Unidos, até por uma questão de clima.
- O braço escravo africano uma hora vai acabar, não é?
- Claro, os ingleses já estão chegando a invadir nossos portos para inspecionar navios, porque em alto mar, não conseguem acompanhar os barcos negreiros. Seus galeões, equipados com armamento pesado para abordagem e até afundar se for preciso, são muito lentos. Não competem com as fragatas dos traficantes. Os barcos mais leves são imbatíveis na navegação à vela.
- Sei que já existe protesto diplomático brasileiro devido a esta quebra de soberania nas águas territoriais brasileiras pela esquadra inglesa.
- E não vai adiantar, porque os barcos leves permitem a criação de portos clandestinos até nos rios que deságuam nas baías.
- Sei disso. O Souza Breves, aqui de Piraí, está se tornando o maior fazendeiro da província e também no maior traficante de escravos, pois tem um porto próprio na baía de Sepetiba.
- O que fazer? Se os colonos não são uma boa solução, os ingleses vão endurecer o jogo...
- É aí que eu gostaria de lhe mostrar minhas pesquisas. Nas Províncias do Nordeste, como Bahia e Pernambuco, o preço da peça chega a custar 30% abaixo do valor de mercado aqui na região. Então, será um bom negócio comprar escravos dos usineiros de açúcar, aproveitando a crise atual devido ao excesso de produção de Cuba, também todo baseado na mão-de-obra escrava e trazê-los para cá.
- Mas isto também não é tráfico?
- Legalmente não, se trata de uma simples comercialização interna. Pode consultar as leis.
- Bem, irei fazer contatos políticos na Corte, no nosso Partido Conservador temos muitos deputados da Região Nordeste. Não prometo nada primo, pois esta idéia é muito estranha.

A morte de Koeller gerou alterações na rotina de Emilio, pois o novo engenheiro brasileiro responsável pelas obras trouxe outros mestres de obra de sua estrita confiança e dispensou e reduziu responsabilidades dos antigos, mais ligados ao engenheiro alemão. As funções de Emilio como mestre canteiro eram mais intensas na preparação de fundações e no acabamento final, e as obras do palácio em Petrópolis estavam na fase de levantamento de paredes, de uma ala priorizada para permitir logo sua ocupação pelo Imperador. Portanto não teve dificuldade em atender a uma solicitação de serviço no palácio da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro.

A cidade que abrigava a Corte pareceu a Emilio completamente diferente da primeira visão, há 17 anos, quando com igual idade chegou da Galícia e viu uma cidade portuária da América do Sul pela primeira vez. Andando pela cidade e pelos novos bairros que se instalavam, Emilio percebeu que uma quantidade de escravos de ganho, negros semi-livres, de ambos os sexos, que exerciam as mais diversas atividades urbanas, que tinham a obrigação de pagar uma quota fixa, de periodicidade combinada, ao seu dono. Os mais ativos conseguiam em menos de dez anos angariar uma poupança capaz de comprar-lhes a alforria. Alguns escravos chegavam até a possuir também escravos, que lhes ajudavam a conseguir mais rapidamente dinheiro para comprar a própria alforria e se tornar livre. Outros, entretanto, esbanjavam o dinheiro que sobrava, em bebidas, farras ou roupas vistosas e se acomodavam envelhecidos na função. Os que fracassavam eram vendidos para trabalharem sob a vista atenta de feitores em trabalhos manuais pesados.

Emilio percebeu que a liberdade nem sempre significava igualdade. Uma coisa, porém não mudara muito até meados do século XIX, era o precário sistema de saneamento que foi como um herança portuguesa do período colonial, quando ocuparam o Novo Mundo numa postura provisória. Tubulações de água e esgoto, inventadas pelos gregos e profusamente utilizada em Atenas, era um luxo existente em raríssimas habitações. A água nascente nas encostas da Serra da Carioca vinham para o centro da cidade através de aquedutos de estilo românico. Mas no interior das casas, para as necessidades fisiológicas, utilizavam-se os urinóis, que ficavam sob as altas camas utilizadas no período. Pela manhã as escravas despejavam os excrementos em barris que ficavam no quintal, nas casas onde não havia fluxo d’água natural passando nos fundos, em um canto afastado coberto de moscas. Periodicamente carroças patrocinadas pelo poder público, com grandes tinas, vinham esvaziar estes barris. Estas tinas depois eram despejadas na água do mar, por escravos que ao transportá-las recebiam nas costas respingos de seus conteúdos. A mistura ácida corria na pele escura, deixando cicatrizes que lembravam listas de tigres, denominação dada a estes escravos: tigres. Portanto, ser escravo de ganho era um privilégio diante de tanto trabalho mais duro e, uma grande vantagem para seus possuidores, que tinham uma renda fixa proporcionada pelo “patrimônio”.

Ao contrário dos escravos que usavam uma roupa simples, com os pés descalços, mais apropriada ao calor tropical, os seus proprietários usavam pesadas indumentárias, como ternos de casimira inglesa, chapéus coco, gravata de vários modelos enforcando o pescoço e camisas de punho rendado ou com abotoaduras de ouro. Nos pés, sapatos de verniz, muitas vezes com uma polaina branca, sempre trocada diariamente. Passavam o dia todo em conversas, entabulando negócios ou discutindo a próxima demanda judicial, uma verdadeira mania nacional, viabilizada pela grande quantidade de bacharéis disponíveis. Esta grande herança portuguesa e espanhola, a burocracia, as normas, o detalhamento legal, era visto por alguns como um entrave ao progresso.

Trabalhando no Paço de São Cristóvão, Emilio passou a ter contato mais próximo com os assessores de D. Pedro II. Certo dia um deles acercou-se dele e perguntou sobre os estudos do major Koeller do traçado de nova estrada na Província do Rio de Janeiro. Informou o que sabia referente às plantas apresentadas na Assembléia. Este, porém, gostaria de ter acesso a outras, não divulgadas, mas que provavelmente estava entre os documentos deixados pelo engenheiro alemão. Emilio prometeu ir a Petrópolis, entrevistar-se com a viúva de seu antigo patrão e ter acesso a tais documentos.

Menos de um mês depois, com a devida autorização, Emilio trouxe de Petrópolis uma série de estudos, que realmente não tinham sido divulgados na época. Ao procurar saber do interesse, foi informado que a principal reivindicação dos fazendeiros de café feita ao Imperador, por ocasião de sua viagem ao Vale do Paraíba, fora as melhorias necessárias nas estradas, mas especialmente no Caminho Novo. Um investidor mineiro se apresentara com idéias inovadoras para melhoria da estrada e uma chance de atender ao pedido da elite rural, que por sua produção crescente de café se tornara a sustentação financeira do Império. Emilio deduziu, então, que o próprio Imperador estava interessado nas plantas que acabara de entregar.

Tuca crescia como um menino de fazenda considerado “cria da casa”. Camila revelou-se uma mãe carinhosa e sua Sinhá, demonstrava um grande carinho pelo menino. Usava sempre roupas novas, tinha brinquedos e atenção, todavia, como todos os outros escravos, andava descalço o tempo todo.

Sua mãe, com aprovação da baronesa, cuidava de alfabetizá-lo e ensinar falar francês. Ficavam às vezes as duas mulheres em volta da criança ouvindo-o tropeçar nas conjugações verbais.

Mas, fora estes momentos, numa fazenda de café a infância é muito alegre para os garotos que gozam de liberdade, podendo colher frutas de várias espécies, caçar passarinhos em arapucas, pescar os peixes que existem em abundância nos córregos e lagoas formadas pelas cheias e mesmo nos rios Paraibuna e Paraíba. Na época da seca estes rios baixavam de nível, formando piscinas naturais onde se aprendia a nadar. Para as crianças menores um simples represar do córrego Puris, que cortava as terras das fazendas da Boa União e do Cantagalo, além da oportunidade de capturar os peixes barrigudinhos multicoloridos servia também para aplacar o calor de verão.

Vez ou outra a mulher do major Antonio Barroso o surpreendia observando com prazer as travessuras de Tuca e sua facilidade em se comunicar em francês, uma prova que sua mãe o exercitava o tempo todo. O mesmo acontecia com o sobrinho e genro José Antonio. Apenas o filho tinha para com Tuca uma postura mais distante. Estes comportamentos a deixavam insegura, fazendo com que a cada hora desconfiasse de um deles como pai daquele menino bastardo.

Apenas aparentemente todos os dias são iguais. Quase sempre, em torno da venda, aproveitando a água farta do córrego que passa pela fazenda Boa União, várias tropas de mula estão espalhadas. Os tropeiros reúnem-se no balcão e passam para o caixeiro Miguel Ribeiro de Sá as novidades que ouviram.

- Os ingleses não estão conseguindo pegar os navios de escravos não. Na praia de Mauá tinha hoje dois barcos lotados de negros chegados d’África.
- Mas não está proibido por lei?
- E a gente aqui no Brasil respeita lei, seu Miguel?
- O preço subiu muito. Há cinco anos uma peça de 20 anos, de Angola ou até mesmo de Moçambique, custava quinhentos réis. Hoje falam em um conto, um conto e duzentos reis!
- Mas o café também subiu de preço, seu Miguel. Mais que dobrou.
- As terras também. Tudo se compensa. Aumenta é o trabalho...
- Para nós, tropeiro, está muito bom assim, quanto mais serviço melhor. Precisamos é de melhores caminhos. Não sei o que vai ser quando vierem as chuvas de dezembro, janeiro, os atoleiros vão paralisar tudo.

Por uma “feliz coincidência”, em 1848, no final da guerra dos EUA com o México para anexação de grandes extensões de terras, foi descoberto ouro na Califórnia, que desencadeou uma corrida, atraindo gente de todo mundo. Para os americanos da costa leste, a rota mais segura era a marítima, circulando a América Latina pelo cabo Horn. O Rio de Janeiro era um porto de parada obrigatória, o que ampliou o mercado para produtos industrializados americanos em troca da produção agrícola brasileira, especialmente o café.

O aumento da movimentação de navios e a possibilidade de fretes marítimos de retorno a baixo custo para transportar café para o norte em barcos americanos atiçou o interesse dos fazendeiros. Os negócios estavam crescendo, matas sendo derrubadas, novas roças de café sendo plantadas, os escravos continuavam chegando da África apesar do cerco britânico, mas o escoamento da produção em direção aos portos, continuava numa situação precária. No entanto, uma solução estava sendo trabalhada, bem no estilo mineiro, em silêncio.

Numa tarde de primavera, quando as tardes já estão se tornando mais longas e o crepúsculo iluminava a grande varanda do solar sede da fazenda de Cantagalo, o esperado convidado chega para o encontro. Reunidos os fazendeiros Antonio Barroso, seu filho e cunhado. Descendo da carruagem que os havia trazido de Petrópolis pelas esburacadas estradas, dois homens, um deles corpulento, com barba cerrada chamado comendador Mariano Procópio Ferreira Lage.

O fazendeiro tinha prazer em descrever como se encontrava a região em 1817, quando seu pai recebeu de D. João VI as sesmarias entre os rios que se encontram nas Três Barras. Depois passou a mostrar o capricho construtivo de seu solar. Mariano Procópio, que até então apenas fazia sinais mudos de concordância, afirmou:
- Estou realmente admirado com o capricho do trabalho em rocha, major. Qual o profissional que fez este serviço?
- Um espanhol galego, mestre canteiro de primeira, chamado Emilio Pietro, o senhor o conhece?
- Não.
- Pois ele, grande amigo do falecido major Koeller, trabalhou ns obras de drenagem na serra e no Palácio Imperial...
- Que feliz coincidência, agora tudo parece fazer sentido... Bem, vamos ao assunto que me traz aqui. Sou parente distante do coronel Hilário, da fazenda Serraria, pois sou neto por parte de pai paterno do alferes Francisco Ferreira Armond, natural da Ilha da Madeira e de Felizarda Lima, de Cebolas, prima do Marquês de Caxias.
- Conheço bem estes seus parentes, comendador, pois também sou de Cebolas – sorriu o major Barroso.

Imediatamente Mariano Procópio percebeu que havia estabelecido a relação de confiança necessária. Apenas por quem conhece este traço da cultura brasileira, muito forte na região de influência mineira, sabe da importância de um padrinho. Confiante Mariano prosseguiu discorrendo que, apesar disso, estava encontrando dificuldades em conseguir o apoio do coronel Hilário Ferreira e do barão de Paraíba, para aproveitar a ponte da Vila de Paraíba do Sul, em construção desde 1835, para ser utilizada pela sua estrada.
- Mas esta é uma ótima notícia, comendador – cortou o major Carvalhinho, para logo emendar: - Digo, a notícia de estar querendo investir nestas vias tão importantes. Por favor, pode detalhar?

Mariano contou então que era mineiro de Barbacena, nascido em junho de 1821, mas que ao invés de se matricular num curso convencional e ser mais um bacharel em direito, profissão muito prestigiada entre filhos de fazendeiros de café, resolveu estudar por conta própria na Europa e Estados Unidos. Conheceu então o processo de construção e revestimento de estradas de rodagem inventada pelo engenheiro inglês John Mc Adam, o “macadame”, que consistia em abrir no leito uma cavidade abaulada, chamada caixa da estrada, preenchida com uma camada de pedra britada recoberta com outra camada de saibro, areia e breu, submetida a forte pressão através de rolos, formando um corpo sólido e compacto. Voltou com a proposta de aplicar este processo na recuperação do Caminho Novo e montar uma empresa para explorar a estrada de rodagem cobrando pedágio.

Já havia, numa audiência especialmente marcada com este fim, transmitindo ao Imperador sua idéia de implantar esta rodovia macadamizada. Descreveu as estradas do sul da França, da Inglaterra e Estados Unidos, onde a técnica fora aplicada com sucesso. As laterais bem protegida por sistemas de drenagem, por ocasião das chuvas torrenciais comuns nos trópicos, impediria a formação dos atoleiros e costelas, comuns nas estradas sem pavimento, abertas diretamente sobre o leito natural. Na nova estrada, a camada superficial lisa permitiria que as carruagens e carroças com aros de aço desenvolvessem grande velocidade, com mínimo esforço para os animais.

Apesar disso, estava tendo dificuldades exatamente onde achava que seria mais fácil, pois julgara contar com o apoio desinteressado de seus parentes na Província do Rio de Janeiro. Concluiu que eles se consideravam “os donos da ponte” exigindo na divisão dos pedágios uma participação que inviabilizaria seu projeto de modernizar o Caminho Novo e atender às necessidades dos fazendeiros de café.

Percebendo, pela troca de olhares do genro e do filho que estavam diante de uma grande oportunidade, o major Antonio Barroso ofereceu então, sem cobrança alguma, toda a faixa de terra necessária para a estrada que cortasse sua fazenda, sem precisar passar pela ponte da Vila de Paraíba do Sul. Mariano parecia não acreditar, pois uma das alternativas dos desenhos de Koeller era justamente um atalho, desviando de Cebolas e da Vila de Paraíba do Sul. Agradeceu prometendo transmitir ao imperador este apoio fundamental que acabava de receber.

Ao receber a carta de Antonio Barroso filho, solicitando sua presença, Emilio ficou apreensivo. Havia deixando toda sua economia de anos de trabalho para serem aplicados pelo fazendeiro, recebendo a cada seis meses carta informando o rendimento e a reaplicação. Pensou que receberia pessoalmente alguma notícia ruim. Portanto, deixou para um contramestre o andamento da obra de reforma de uma residência no bairro de Botafogo e seguiu viagem até a fazenda do Cantagalo.

- Que cara de apavorado é esta, espanhol?
- Fiquei preocupado com esta chamada, pensei que alguma coisa havia acontecido. Ouve-se falar tanto de Comissários falindo, traficantes presos...
- Não se preocupe com isto, eu só aplico e invisto com garantias, o senhor sabe.
Emilio sorriu silenciosamente. Realmente, o filho de Antonio Barroso era conhecido pela taxa que cobrava dos empréstimos, até 20% ao ano – enquanto pagava no máximo 6% aos aplicadores como ele. Porém, sabia onde investir e tinha lastro suficiente para suportar qualquer revés, enquanto na justiça ou mesmo na força física, executava as garantias dos empréstimos realizados para pequenos sitiantes, comerciantes e agregados nas terras de seu pai.
- O senhor foi chamado, mestre Emilio, para ajudar um amigo nosso, o comendador Mariano Procópio, que vai fazer uma total remodelação no Caminho Novo em prazo muito curto. Quer serviço de primeira qualidade na drenagem da estrada, razão pela qual o senhor foi lembrado.
- Foi também devido ao trabalho que fez aqui, na fazenda Cantagalo, mestre Prieto – cortou o major Carvalhinho.
- Está disposto a voltar, trocar o calor da baía da Guanabara pelo do Rio Paraíba?
- Tudo depende de acerto.
- Quanto a isto fique tranqüilo, o homem está capitalizado, lançou com grande sucesso ações de sua companhia na praça do Rio de Janeiro. Nós, como outros fazendeiros, por onde a estrada vai passar, fizemos questão de adquirir uma boa quota. Portanto, caro Prieto, venha sossegado, pois vai ser muito bem remunerado!

Emilio antes de voltar para o Rio, onde procuraria pelo comendador para os acertos financeiros e conhecer as especificações técnicas do projeto, foi fazer uma visita à esposa do major Carvalhinho, na fazenda da Boa União. Ao passar pela sua antiga casa, próxima da serraria que crescera muito, estancou o animal. Praticamente nada mais havia no local que lembrasse a existência de uma casa caiada de branco, com canteiros de verduras na horta dos fundos e flores no jardim da frente e o cheiro inconfundível e eventual da fumaça do cachimbo de Donana. Enquanto admirava, passou por ele um escravo com enxada nas costas e Emilio perguntou:
- O que aconteceu com a casa?
- A casinha da Donana já caiu há muitos anos. Um vento forte arrancou o telhado e depois a água da chuva desmanchou as paredes.
- Mas ninguém recuperou?
- Ora Sinhô, quem teria coragem de morar aí?

Depois de vários entendimentos em sigilo, como é típico dos mineiros como Mariano Procópio, lhe foi outorgado pelo Decreto número 1.031 de sete de agosto de 1852, uma concessão que preconiza textualmente:

Atendendo ao que lhe apresentou Mariano Procópio Ferreira Lage, pedindo faculdade para construir, melhor e conservar, à sua própria custa, duas linhas de estrada que, começando nos pontos mais apropriados à margem do Rio Paraíba, desde a Vila deste nome até ao Porto Novo do Cunha, se dirijam uma até a barra do Rio das Velhas, passando por Barbacena, e com ramal desta cidade para a de São João Del Rei e outra pelo município de Mar de Espanha, com direção à cidade de Ouro Preto; e desejando promover, quanto possível o benefício da agricultura e do comércio das indicadas localidades, facilitando as comunicações entre aqueles pontos e as relações entre as duas Províncias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais; Hei por bem conceder-lhe o privilégio exclusivo pelo tempo de cinqüenta anos para incorporar uma companhia para o dito fim, sob as condições de que com este baixam assinadas por Francisco Gonçalves Martins, do meu Conselho, Senador do Império, porém, este contrato dependendo de aprovação da Assembléia Legislativa. “O mesmo ministro assim o tem atendido e faça executar”.

Sem merecer publicações, mas com igual repercussão junto aos fazendeiros do Vale do Paraíba foi o diploma assinado por D. Pedro II dando o título de Barão de Entre-Rios a Antonio Barroso Pereira. Muita coisa acontecera desde que Mariano Procópio visitara pela primeira vez a fazenda do Cantagalo, uma antiga reivindicação ganhou nova energia pelo auxilio dado à nova Companhia União e Indústria. Major Carvalhinho, exultante pelo feito político, que deixara os Avelar de queixo caído, comentava:
- O Brasil agora vai ser outro. Depois da Lei Eusébio de Queiroz, finalmente poderemos investir na colonização. O Imperador já está morando no Palácio Imperial de Petrópolis. A Lei das Terras vai atrair capital e acabar com a troca de favores nos Gabinetes, de doação de terras públicas em forma de sesmarias; agora só podem ser vendidas. O Brasil vai, finalmente, sair de suas amarras jurídicas!
- Quanto entusiasmo, primo. Ou será por causa de ser agora sobrinho de um barão e de uma baronesa?
- É claro que isto conta, mas o país deu uma prova de coragem. O tráfico de escravos terminou, não porque o almirantado inglês exigiu, mas porque uma lei brasileira assim o determinou: a lei Eusébio de Queiroz.
- Mas dizem que o todo-poderoso primeiro-ministro britânico Gladstone iria obrigar o Brasil ao cumprimento dos tratados assinados com eles, ameaçando-nos com uma guerra de extermínio.
- Que sandice acreditar nisto! Os ingleses não teriam coragem de intervir aqui. Iríamos reivindicar a Doutrina Monroe, do quinto presidente norte-americano, que na sua mensagem ao Congresso em 1823, advertiu a Inglaterra e outros países europeus contra uma re-colonização das Américas. Acha que eles, os americanos, agora que estão avançando na aplicação da força vapor com muito mais dinamismo que a própria Inglaterra iria perder seu mercado brasileiro assim, sem reclamar? É claro que não. Falar que cedemos na importação de mão-de-obra da África por pressão britânica é rezar na cartilha do Partido Liberal, este sim, infiltrado de ingleses! O Brasil acabou com o tráfico de negros quando achou que estava na hora! Fale aí de seus números, primo.
- Bem, verdade seja dita, foi com o Parti
do Conservador no poder que a questão escravista teve ambiente o favorável para aprovação da lei proposta pelo Ministro da Justiça, Eusébio de Queirós, em quatro de setembro de 1850. Neste mesmo ano o tráfico foi reduzido para 23 mil, quando no ano anterior tinha chegado a 54 mil os negros trazidos à força da África.
- Bem, vamos deixar de falar de política e economia e vamos brindar este momento de felicidade para o barão e a baronesa – convidou o major Carvalhinho segurando o primo pelos braços e caminhando em direção à grande mesa de convidados.

No dia seguinte, na fazenda da Boa União, Mariana Claudina, agora filha de um barão, verificou que a fase de surpresas não acabara. Recebeu do marido um embrulho, que disse ter sido presente de seu tio, o barão de Entre-Rios para Tuca, o filho de Camila, então com sete anos.
- Você sabe do que se trata?
- Sim, é uma botina.
- Uma botina? Você sabe o que isto significa, não e?
- Significa que o barão não gostaria de ver o menino como um escravo, andando descalço.
- Significa a alforria, ou algo mais?
- Significa o que é Claudina: o barão quer que o menino ande calçado. Só isso. Mande chamar Camila e presenteie o menino. Ele, filho de escrava, é um escravo, você conhece a lei. Mas o barão gostaria que ele andasse calçado. Vamos obedecer ao desejo do tio. Ou você é contra?
- De forma alguma, você sabe... Mas a mamãe, a baronesa...
- Qualquer outra interpretação é pessoal, individual, nada tendo com a realidade!

Camila ficou surpresa e teve durante alguns dias bastante dificuldade de convencer o filho a andar calçado, pois as botinas lhe apertavam os pés que já alargara e adquirira uma grossa sola, como de todos os escravos negros, inclusive sua mãe. Mas foi um martírio que teve de suportar, afinal fora o presente do barão de Entre-Rios.

Surpresa maior teve, porém, Claudina quando, muito sutilmente, quando estava a sós com o pai, demonstrou curiosidade sobre como tivera a idéia do presente inusitado. Seu pai, sem dar muita atenção, parecendo mergulhado em outras reflexões respondeu:
- Foi uma idéia do seu marido, o José Antonio.

1 comentários:

Anônimo disse...

Gostaria muito de ler o seu livro.Fala da minha história descoberta há pouco.
steladalva@oi.com.br