Capítulo 6
Nascimentos
Nascimentos
O sentimento de otimismo provocado pelas ações tempestivas, mas corretas do jovem Imperador estimularam o major Antonio Barroso, que resolveu acelerar as obras de sua nova sede da fazenda do Cantagalo. Com a construção da nova Cidade Imperial na região serrana, tudo em sua volta ganharia importância política e valorização imobiliária. Portanto, construir a maior e mais luxuosa sede de fazenda de café de todo o vale do Rio Paraíba do Sul deixava de ser um capricho para se tornar um grande trunfo.
Emilio foi convocado para uma reunião na sede da Fazenda da Boa União, já que por algum tempo a sede antiga da fazenda do Cantagalo seria demolida enquanto a nova estava sendo priorizada. O major passaria a morar na fazenda da filha, na Boa União, juntamente com o filho. Emilio recebeu uma nova e importante missão, já que sua parte, anteriormente restrita à fundação de pedra já estava concluída. Foi contratado, por empreitada e não com salário fixo, para cuidar de todo o revestimento. O major Antonio Barroso exigia mármore importado de Carrara, nas cores preta e branca, não importava o custo. Deu prazo: que tudo ficasse pronto em um ano.
Terminada a reunião, quando contou a novidade para Camila, prometendo que esta obra finalizada significaria a certeza do casamento, pois teria os recursos suficientes para comprar sua alforria, da mãe dela e até uma pequena gleba de terra, ela sorriu abertamente, com os olhos umedecidos de emoção. Finalmente ficava claro que teriam a alforria de qualquer forma, não mais como uma promessa distante, como um possível presente de casamento da Sinhá, mas pelos recursos financeiros do noivo que também libertaria sua mãe, para ela o maior presente de casamento.
Neste dia de grande alvoroço na fazenda da Boa União, os dois ficaram mais livres e foram para a penumbra de uma mangueira frondosa. Estavam juntos há anos. Embora sem alianças, era como se fossem noivos e, portanto, tinham as intimidades naturais. Emilio recostou-a no tronco e enfiou as mãos sob sua blusa de cetim, sentido na palma da mão seus mamilos intumescidos. Camila arfava e o beijava com volúpia. Não sabiam eles, entretanto, que não muito distante, um olhar ávido os observava atentamente.
Como se fosse uma duradoura primavera, os anos que se seguiram ao casamento do jovem Imperador viram surgir vários nascimentos, de cidades, empreendimentos e pessoas - desejadas ou não.
O major Carvalhinho, sempre atento às últimas novidades da política, confidenciou entre o grupo que conversava na varanda da fazenda da Boa União:
- O Imperador cumpriu a obrigação: já embarrigou a Imperatriz. A criança vai nascer no início do próximo ano.
- O homem é dinâmico, sem dúvida.
- Na política também. Mas vai mexer em caixa de marimbondos, cutucar a onça com vara curta... Dessa vez serão os atacadistas ingleses.
- O quê?
- É, isso mesmo. Ouvi dizer que não vai renovar o Acordo de Comércio e Navegação com a Inglaterra, assinado pelo seu pai em 1827 e que vence neste ano de 1844, que na verdade é o mesmo Acordo de 1810, assinado por seu avô depois que chegou ao Brasil, que era uma ratificação do acordo de 1807, chamado de “Convenção Secreta de Londres”. Foram estes acordos que acabaram com 300 anos de monopólio de portugueses no comercio internacional.
- Na verdade trocou-se apenas de nacionalidade o monopólio, de português para inglês.
- Não vai dar problema com a importação da mão-de-obra da África? Estes acordos não prevêem o fim de tráfico negreiro? Até agora foram cláusulas, como se diz: “para inglês ver”. Mas e depois, quando os ingleses perderem os privilégios, como vai ser?
Tanto na fazenda da Boa União como na do Cantagalo, assim como nas demais produtoras de café do Vale do Paraíba, o sentimento de otimismo era total. Tropas de mula congestionavam os caminhos, descendo com café e subindo com material importado, já que a produção nacional era acanhada.
O jovem Miguel Ribeiro de Sá, um rapagão de que apresentava corpo e altura desproporcional à sua idade, demonstrou grande talento para o comércio. De olhos azuis e cabelo claro, encantava a todos com seu sotaque lusitano e participação em igualdade de condições nas brincadeiras dos peões e tropeiros. Tinha também muita sorte no carteado, que depois que a venda fechava as portas, às oito da noite, continuava madrugada adentro, com um número restrito de jogadores. Mas no dia seguinte, cedo estava de pé, limpando tudo, já que dormia no próprio armazém.
Acordando cedo, vendo-o trabalhar com a vassoura na porta da frente, o major Carvalhinho comentou com seu feitor:
- O menino leva jeito para o comércio e é muito trabalhador.
- Sim, todos gostam dele.
- Não tem defeito?
- Quase nenhum.
- Quase?
- Bem, já que o senhor está perguntando...
- Fale homem, preciso saber de tudo.
- Ele não pode ver uma crioulinha.
- Como é?
- Pois é major Carvalhinho, uns peões aí viciaram o moço.
- Com quem?
- Com estas raparigas que acompanham as tropas, subindo e descendo. Elas se encantam do sotaque dele, com os olhos azuis e sei lá mais com o que...
- E com as mulheres da fazenda?
- Tem sido muito respeitador. Eu estou de olho porque tenho filha moça, o senhor sabe. Mas, mulher é bicho danado: é fogo de morro acima, enxurrada de morro abaixo e mulher quando quer dar ninguém segura!
Agosto, mês do desgosto, mês de ventania, de chuva de granizo, de cachorro doido. Na Corte, em 12 de agosto, o Senador do Império e Ministro da Fazenda Manuel Alves Branco, depois de longas ponderações com o jovem Imperador de 19 anos, assina as normas tarifárias que seriam conhecidas como Tarifa Alves Branco. As taxas aduaneiras foram aumentadas e uniformizadas em 30% para produto importado sem similar nacional e 60% para os produzidos no país – poucos é verdade. Os principais prejudicados com a medida drástica foram primeiramente os industriais ingleses, que tinham o privilégio tarifário de apenas 15% de taxa alfandegária, enquanto os outros países pagavam 24%; em segundo lugar os comerciantes do mercado internacional (a maioria ingleses) que viram suas importações se tornar menos competitivas, diante de alternativas nacionais. Por outro lado, surgiram chances de uma industrialização local, colocando em dúvida a chamada “vocação agrícola” do Brasil. Para os industriais americanos que disputavam o mercado com os ingleses na América do Sul a padronização da nova taxa criou grandes oportunidades já que, como grandes estimuladores do consumo de café, ao invés do chá inglês, tinham os maiores saldos comerciais. Porém, o maior beneficiário foi o próprio Governo Imperial, que viu sua arrecadação crescer vertiginosamente, consolidando financeiramente a centralização do poder no Rio de Janeiro, província responsável pela maior geração de riqueza, o café. Isto inviabilizou de imediato qualquer tentativa de fragmentação política, pois todas as outras províncias dependiam dos recursos financeiros centralizados na Corte.
Uma tempestade de granizo surpreendeu uma pequena comitiva que subia a Serra Estrela numa tarde de novembro. Na carruagem que trazia Dona Mariana Claudina e sua mãe, após a consulta em um médico na Corte sobre a sua esterilidade sem cura. Com o rio Quitandinha botando água para fora, acharam melhor esperar para continuar a viagem no dia seguinte, pois a situação ficaria ainda mais perigosa à noite.
Nesta parada mãe e filha tiveram tempo de conversar sobre outros temas, que nem sempre tinham o isolamento necessário para fazê-lo, entre eles o futuro de Camila.
- Ela gosta mesmo do espanhol, filha?
- Acho que os dois estão apaixonados.
- Mas é um casal tão diferente...
- Deve ser isso que atrai um para o outro.
- Ela, como toda mulata nova, é muito fogosa, muito mulher, atiça os homens, dá para perceber... Ele me parece muito tímido, sempre falando baixo, educado... Diferente dos homens daqui, sempre brutos, autoritários, valentes...
- Eles conversam sobre literatura o tempo todo. Vivem falando dos livros que leram do que de qualquer outro assunto. Creio que o lado intelectual dele é que atrai Camila. Ele é um homem muito sensível, sentimental.
- Sim. Tomara que ela saiba valorizar isso...
As pedras de gelo e a ventania não ficaram restritas ao alto da serra, a chuva desceu pelo Vale do Rio Piabanha fazendo estragos. As tropas que chegavam assustadas à fazenda da Boa União relatavam o que viam. O major Carvalhinho chamou seu sogro e cunhado para ouvirem os relatos e mandou recado para ver se houve estrago na fazenda do Cantagalo. Os homens ficaram até tarde na varanda aguardando as tropas chegarem com notícias. Enquanto uns fumavam sem parar outros aproveitavam para aquecer o frio súbito com a boa cachaça.
Tônia, na cozinha, fritava torresmo e lingüiça sem parar, pedindo à filha que ajudasse a atender os homens na varanda. Excitados com as notícias, eles falavam cada vez mais alto. No final da noite todos estariam embriagados.
Como sempre acontece depois das tempestades nos trópicos, o dia amanheceu sem uma nuvem no céu e o sol logo derreteu o gelo que resistiu a madrugada toda sobre o capim. Era quase meio-dia quando a comitiva de Mariana Claudina chegou à fazenda da Boa União. Camila as estava esperando na varanda. Ajudou a descer as malas e leva-las para o quarto da Sinhá.
- Está triste, Camila?
- Não senhora.
- O estrago aqui não foi nada comparado com o que vimos na serra. Árvores derrubadas, pontes arrasadas... Aqui parece até tudo normal.
- A chuva chegou fraca aqui, é verdade. Mas trouxe mais estrago do que a senhora possa imaginar...
Os efeitos da Tarifa Alves Banco surgiram logo. Tanto o major Carvalhinho, afinado com a política, como seu cunhado Antonio Barroso, com as notícias de economia acompanha tudo com atenção:
- Dizem que o gerente dos ingleses, o Irineu Evangelista de Souza, está com vários projetos de industrialização.
- É preciso mudar mesmo, o nosso é ainda herança portuguesa.
- Ouvi dizer que vai investir também na indústria, depois que foi recebido pelo Imperador.
- Eu não acredito numa indústria nacional não. Nossa vocação é a lavoura...
- Não sei não. O Imperador lê todo jornal americano que chega dos navios, tem especial gosto por novidades – sabe que comprou, aos quinze anos, por 250 mil reis uma das primeiras máquinas fotográficas que apareceu no Império? Então, vai querer seguir aqui o modelo de progresso dos Estados Unidos.
- Sim, mas nós não temos a força do vapor. Não temos reserva de carvão mineral para produzir coque. Não dá para o Brasil substituir a mão-de-obra escrava pelas máquinas a vapor. Nosso modelo não vai mudar tão cedo.
Emilio, por conta de seu contrato com o major Antonio Barroso, para adquirir o mármore necessário, passou a viajar com freqüência para a Corte, chegando a visitar a Província do Espírito Santo, onde se supunha existir pedras com a mesma qualidade das italianas. Por esta razão, provavelmente, passou a sentir Camila mais triste. Esta também foi a percepção de Mariana Claudina, que perguntou certo dia:
- Você não parece uma noiva às vésperas do casamento, Camila. Andas triste pela casa, nem lendo vejo você mais. O que está passando? É a ausência de Emilio?
- Ando muito confusa sim, Sinhá.
- Mas você vai mudar de vida, conseguirá a alforria...
- Talvez não Sinhá, nosso destino está traçado lá no céu, aqui na terra não adianta querer mudar o que está escrito.
- E o Emilio, Camila? Ele gosta tanto de você...
- Ele é muito bom para associar a vida dele à de uma simples escrava...
Toda fazenda Cantagalo na Vila de Paraíba do Sul acordou mais cedo naquele mês de maio de 1845. Desde antes do alvorecer os escravos pintavam os moirões de cerca e capinavam a estrada que vinha da vila de Paraíba do Sul, seguindo o rio até à mais nova mansão construída nas suas margens, o casarão do major Antonio Barroso Pereira, sede da fazenda do Cantagalo, inquestionavelmente o mais rico fazendeiro de toda região.
No mês de maio sempre baixa uma cerração espessa que cobre o rio e as margens e só vai embora depois das oito horas, quando o sol esquenta. Por isso era difícil vigiar o trabalho espalhado, obrigando os feitores a andarem de um lado para outro.
Visitas muito importante estavam para chegar para o almoço: nada menos que o Imperador D. Pedro II, a Imperatriz dona Tereza Cristina e toda sua comitiva. Pernoitaram todos na Vila de Petrópolis, na habitação construída pelo major Júlio Koeller, enquanto o novo Palácio de Verão não tinha de condições de abrigar os monarcas. Acordaram às três da manhã, seguindo a comitiva pelo caminho conduzindo archotes. Iriam passar pela fazenda do Padre Corrêa, o povoado de Cebolas, atravessando em balsas o Rio Paraíba do Sul, pois a ponte em obras desde 1835 não ficara pronta. Estava prevista também uma homenagem organizada pela Câmara de Vereadores da vila que tinha o mesmo nome do rio. O almoço seria na residência do mais importante fazendeiro de café, o major Antonio Barroso, onde descansariam até à tarde, quando seguiria uma incômoda cerimônia de beija-mão na sede do solar. Depois do pernoite, uma nova jornada pelo Caminho Novo, até a fazenda de São Mateus, do coronel José Inácio, na Vila de Santo Antonio do Paraibuna, que colhia dezoito mil arrobas de café por ano e recebera as primeiras mudas diretamente das mãos do avô do Imperador, D. João VI, há mais de 25 anos.
No trecho fluminense a comitiva seria guiada pelo major Júlio Koeller, que cederia a vez, no lado mineiro, para Henrique Halfeld. Era a primeira visita do Imperador à Província de Minas Gerais, uma forma, segundo seus conselheiros políticos de acabar de vez com qualquer reminiscência desfavorável provocada pela sufocação da revolta dos liberais mineiros, há apenas três anos, em 1842.
Na cozinha o trabalho também era incessante. Tônia veio da fazenda da Boa União para comandar dezenas de outras escravas na cozinha da fazenda do Cantagalo. Ao seu lado a filha Camila, grávida, esquentava um bule de café.
A grande construção de dois andares, em forma de “U”, recém pintada de branco, as escadas de granito cinza e o piso de mármore carrara brilhando ao sol, destacava-se imponente diante do fundo de montanhas verdejantes. Os fundos do casarão, face sul, parte aberta do “U”, dava para o rio, bem de frente da Cachoeira do Cantagalo. Nesta época de pouca chuva, o rio descia abruptamente um metro e meio, formando uma cachoeira sonora.
- Vá logo levar este café para os homens na varanda, Camila.
- Sim, mãe. E depois, posso atender à D. Mariana?
- Sim.
- Mãe, é muita responsabilidade cozinhar para o Imperador. Será que ele vai gostar de sua comida?
- Faço o que sei. Se me chamaram da cozinha da fazenda Boa União para preparar a bóia do imperador, deve ser porque a minha comidinha mineira é boa! Vá logo, filha, leve o café e esta broa de milho. Vá logo!
Na varanda o major Barroso andava de um lado para outro, soltando baforadas de seu cigarro de palha e batendo firme no piso de mármore com o salto das botas de cano alto, pretas e lustrosas. Aos 53 anos, corpulento, sem barbas, com as melhores roupas, parecia impaciente. Ao seu lado aliados habituais: o genro major Carvalhinho, o filho Antonio e o vizinho Hilário.
- Não estou gostando nada dessa cerração. Ontem de madrugada o sereno foi forte e está muito úmido. Com esta friagem, vai custar subir a cerração.
- Será que para os lados de Cebola está assim também?
- Não. Serra acima o nevoeiro fica menos espesso. Pior é mesmo nas margens do rio. Não posso ficar mal com o Imperador, tudo tem que estar certinho... Afinal de contas, se não fosse o avô dele, D. João VI, em 1817, isto aqui seria ainda o brejo abandonado, como a família dos Paes Leme queria manter. No entanto, graças a ele conseguimos a sesmaria requerida por meu pai e posso dizer com orgulho, que desde as Três Barras, no encontro dos rios Paraíba do Sul com o Piabanha e o Paraibuna, até a foz do Rio Novo, todas as terras concedidas foram exploradas e estão bem aproveitadas, gerando riqueza para o Império.
- Vejo que o amigo está treinando o discurso... – comentou sorridente o coronel e também fazendeiro Hilário.
Camila chegou com uma bandeja do café e da broa de milho. Os homens pararam a conversa, e aguardavam em silêncio serem servidos. Camila, humildemente, encheu cada xícara de louça e serviu, fazendo mesura com a cabeça. Quando terminou e se retirou os quatro homens na varanda voltaram a conversar.
- Está desmatando para os lados de Bemposta, major?
- Sim, mas aproveitando toda a madeira de lei antes de tocar fogo e formar as roças para café.
- Pelo jeito na fazenda ainda tem muito ipê, peroba e até jacarandá, não é mesmo?
- Sim. Graças às obras em Petrópolis a nossa serraria não pára de trabalhar.
- Isto exige cada vez mais braço escravo, não é major?
- Este é o problema. O preço das peças aumenta cada vez mais. Já temos, juntando todas as quatro fazendas, mais de um milheiro de escravos. E vamos ter que importar mais. O café também subindo de preço está despertando muita cobiça, todo mundo quer ser fazendeiro. Acham que é só tocar fogo no mato, preparar a roça, plantar café e colher mil réis...
Após deixar a varanda, Camila desceu a grande escadaria e seguiu pela lateral oeste, evitando passar por dentro da casa, pois o assoalho de tábuas corridas de ipê amarelo estava polido para receber o Imperador. O nevoeiro espesso fazia a umidade se condensar em gotículas, tornando as pedras escorregadias. Seu pé descalçado, como de todas as escravas, deslizou na pedra molhada pela cerração e ela caiu de lado. Sentiu seu filho no ventre dar um forte solavanco, chutando sem parar. Ergueu-se com dificuldade, ficando de joelhos, pois estava sem forças para ficar de pé. Os braços esfolados nas pedras ardiam. Passou a mão entre as pernas e sentiu minar água. Estava zonza, a cerração parecia ficar cada vez mais espessa. Antes de desfalecer pensou: “não está na hora de meu filho nascer!”.
Tônia, estranhando a demora da filha, incumbiu uma escrava nova de vigiar o derretimento da banha de porco e saiu na cerração. Tão logo seus olhos já cansados de 60 anos de idade localizaram o vulto da filha estendida no chão de pedra correu em sua direção. Sentiu Camila fria, desfalecida, com os braços sangrando. Forçou a vista e vislumbrou um escravo caminhando próximo com uma enxada nas costas. Gritou-lhe e logo estava sendo ajudada. Camila despertou com tapas no rosto e caminhou lentamente para a cozinha, amparada de um lado pela mãe e de outro pelo negro. Dona Mariana foi logo avisada do acidente.
- Dê-lhe um café bem forte e quente, Tônia. É muito perigosa uma queda neste estado – comentou docemente dona Mariana.
- Sinhazinha tem razão. Não sei como foi acontecer isso.
- Vamos pedir a Nossa Senhora, com fé, que ajude Camila – disse fazendo o nome do pai, enquanto balbuciava uma prece em voz baixa.
- Ela parece muito fraca, Sinhazinha...
- Leve-a ao quarto vazio ao lodo do meu. Ela precisa descansar.
Enquanto todas as mulheres da casa se solidarizavam com Camila, os homens preparavam-se para partir. Quatro cavalos arreados aguardavam no pé da escadaria. O garanhão branco, do major Barroso, nervoso, raspava o casco nas pedras. Ao avistar a mula pedrês, montaria de Emilio, o major concluiu que ele deveria estar no pequeno escritório dos capatazes, na parte inferior da casa. Considerando o esforço que havia feito para concluir a obra a tempo da visita do Imperador, deu ordem para ele fosse chamado. Logo cinco cavaleiros seguiam em direção à Vila de Paraíba do Sul. O cavalo do major Antonio Barroso e do coronel Hilário iam à frente, seguido pela dupla de cavalos do filho e do cunhado, e por último o animal do mestre canteiro Emilio Prieto, como se numa hierarquia social.
- A que horas está prevista a chegada do Imperador à Vila? – perguntou Hilário.
- Entre onze horas e o meio-dia. Mais uma hora de discurso, meia hora de viagem de volta até a fazenda, provavelmente até duas, duas e meia da tarde já estejamos almoçando. Achei inútil esta parada na Vila. Foi politicagem do major João Gomes de Avelar...
- Acho que ele não ficou muito satisfeito com a aceitação de hospedagem na fazenda do Cantagalo por parte do Imperador.
Durante a cerimônia na Câmara de Vereadores a figura do Imperador se destacava. Alto, peito estufado em posição autoritária e com os olhos claros e barba escura cerrada, tinha uma aparência mais velha do que os vinte anos de idade que realmente possuía. À sua volta uma comitiva de 12 pessoas, além da Imperatriz e suas duas damas de companhia. O Imperador tentava disfarçar a impaciência pelas saudações e elogios dos súditos de Paraíba do Sul, Vassouras e Pati do Alferes que foram convidados para a solenidade. O discurso do major Avelar, Presidente da Câmara, foi o mais longo. Na resposta à saudação, D. Pedro II foi extremamente comedido, em menos de cinco minutos discursou. Sua voz fina e estridente, de certa forma não combinando com seu porte físico, decepcionando quem o assistia pela primeira vez. A postura, entretanto, era de um governante que irradiava autoridade.
Na viagem de Paraíba do Sul até a fazenda Cantagalo, percurso de quase uma légua, a comitiva andou devagar, pois a Imperatriz Tereza Cristina reclamou do trecho da estrada de Petrópolis até Santo Antonio da Encruzilhada, que estava muito esburacada, dando-lhe dores nas costas. Na carruagem imperial, D. Pedro durante todo o trecho segurava um livro nas mãos. Às vezes tirava os olhos da leitura e acompanhava o perfil das montanhas e o Rio Paraíba à sua direita, que por causa do tempo seco estava com as águas prateadas, como de figuras européias onde a paisagem refletia. Se a visita imperial estivesse sendo realizada no tempo das águas, quando tinha o rio tinha a cor de barro, o contraste de estar num país tropical, mas com cerimonial europeu, ficaria mais evidente.
Ao se aproximar da casa, cuja pintura branca destacava-se contra o verde escuro da mata fechada da margem direita do rio, o Imperador bateu levemente com os dedos, avisando que o cocheiro parasse. Admirou a propriedade e deteve-se especialmente sobre os dois pilares de granito na entrada do terreno onde a casa estava edificada, em forma de obelisco. Seu ajudante de ordem logo esporeou o animal na direção da carruagem e recebeu a ordem do Imperador:
- Quando o relógio marcar dezesseis horas, aproveite a luz do sol e providencie uma fotografia desta residência. Pode usar o equipamento que eu trouxe.
- Sim, majestade.
- Evite que apareçam pessoas na varanda, quero a fotografia apenas da residência, um belo exemplo da opulência do café!
Quarenta e cinco minutos depois do encerramento dos discursos na Câmara de Vereadores a comitiva já estava alojada nos 16 quartos da casa, da ala leste, que eram mais frescos, pois não recebiam o sol da tarde. Os proprietários ficavam com os quartos da ala oeste, geralmente mais quente ao anoitecer. Após os cumprimentos formais, a Imperatriz pediu um prazo de meia hora para descansar nas acomodações especialmente preparadas, acompanhada do Imperador. Os demais membros da comitiva dirigiram-se para a grande varanda frontal revestida de ladrilhos de mármore preto e branco, onde uma mesa de quitutes e bebidas diversas os esperava. Aproveitando uma folga, dona Mariana aproximou-se do marido, pedindo sua atenção para uma conversa segredada:
- Houve um acidente com a escrava Camila, hoje pela manhã.
- Como? O que aconteceu?
- Teve um tombo feio. Está deitada junto ao quarto de Claudina. Estamos com medo que venha perder a criança...
- Não pode... Deve estar ainda de oito meses.
- Ninguém sabe...
- Já chamaram alguma parteira?
- Não chamamos ninguém ainda, ela está perdendo um pouco de sangue.
- A bolsa rompeu?
- Não. Mas a criança pula muito na barriga, dá para sentir.
- Mande chamar dona Sebastiana, lá na Colônia. É uma boa parteira e sabe o que fazer. Não podemos perder esta criança...
- Por que não? Vai ser mais um escravo da fazenda...
- Onde está sua caridade, mulher! Ou melhor, pense em termos financeiros. Hoje uma boa peça está por mais de um conto de réis.
Dona Claudina afastou-se para atender as ordens do marido. Chegou depois junto da filha e segredou:
- Nunca vi seu pai tão interessado na saúde de um escravo que ainda nem nasceu!
- Deixe disso mãe! Só porque não sabemos quem é o pai da criança. Não fique dando ouvido a mexericos das escravas velhas.
Após o lauto almoço, que se estendeu até às quatro horas da tarde, o Imperador ficou na varanda cercado de autoridades convidadas, enquanto a Imperatriz recolheu-se, pois sentira a viagem e reclamava do calor que fazia. Todos ficaram em silêncio em volta do Imperador, até que o major engenheiro Júlio Koeller, tomou a palavra:
- Como vossa majestade testemunhou, o traçado da Estrada Real, ou Caminho Novo, passando por Cebolas é muito acidentado. Existe a possibilidade de outra rota, mas implica em muito corte em rocha, na serra do Taquaril.
- Vossa Majestade pode perceber que, com a produção de café aumentando a cada dia, o governo deve dar prioridade aos investimentos em estradas – afirmou com suavidade o coronel Hilário.
- Felizmente, Imperador, a nova tarifa Alves Branco está reforçando os cofres púbicos – emendou o filho do major Antonio Barroso.
O Imperador ouvia em silêncio e comentou:
- Temos muitas prioridades... Algumas, realmente só dependem de investimentos públicos. Para as estradas, que são complemento das fazendas, os investimentos poderão ser feito por particulares. Temos projetos de ferrovias concedidos...
- Mas quando teremos finalmente os trens? Desde 1835 temos a concessão dada ao médico Thomas Crochrane pelo Regente Feijó. É uma ferrovia importante, que vai ligar a Corte às Províncias de Minas Gerais e São Paulo... – afirmou novamente o jovem Antonio Barroso, que parecia satisfeito em demonstrar seus conhecimentos de economia para a comitiva imperial.
- Esta concessão foi mais um erro de Feijó – vaticinou o coronel Hilário, aproveitando a oportunidade de criticar um membro do Partido Liberal – O inglês não tem recursos...
- Por que foi dada, então? – perguntou o major Carvalhinho, já sabendo a resposta.
- Provavelmente por causa de compromissos com o Almirante Crochrane, seu pai – comentou Hilário.
- Vossa Alteza sabia que este inglês montou um circo de cavalinhos? Passou por aqui, na Vila de Paraíba do Sul, antes de seguir para a Vila de Vassouras. Ergueu a lona no terreno do lado da igreja matriz e fez as apresentações com os cavalinhos, atraindo gente de todo o tipo e no final falou sobre as vantagens de comprarem as ações da sua companhia para o povo.
- Alguém comprou? – perguntou um ajudante de ordem do Imperador.
- Não, ninguém comprou. Onde já se viu, usar circo para oferecer papéis. Será que na Inglaterra é assim?
Todos sorriram. Apenas o Imperador manteve a seriedade, parecendo estar com o pensamento distante daquela conversa fútil.
Repentinamente, um choro forte de criança recém-nascida, pareceu despertar o Imperador e surpreendeu a todos. O som vinha da ala oeste da casa. Camila deu a luz, concluiu o major Antonio Barroso.
A Imperatriz Tereza Cristina, que estava descansando acordou sobressaltada. Havia deixado em Petrópolis, aos cuidados de suas amas de leite, seu filho de apenas três meses, o príncipe Dom Afonso, que nascera em 23 de fevereiro daquele ano de 1845. Reagindo como qualquer mãe, deixou de lado o protocolo manifestou vontade de conhecer a criança recém-nascida.
- Mas é filho de uma escrava, alteza.
- Escrava? Aqui na mansão?
- É da mucama da filha do fazendeiro – sussurrou uma de suas damas de companhia.
- Quero ver assim mesmo – decidiu a Imperatriz.
As senhoras rodearam a criança que tentava sorver o leite ainda inexistente de Camila. A Imperatriz aproximou-se e perguntou:
- É menina ou varão? - ao invés de "fêmea" ou "macho", tratamento dado aos escravos que nasciam.
- É um menino, alteza – respondeu Mariana Claudina.
A Imperatriz desatou um dos cordões de ouro que usava, onde existia uma pequena medalha e disse:
- É uma imagem de minha terra, a Itália, de minha santa de devoção: Nossa Senhora da Piedade, Pietá. Que ela tenha piedade e zele por essa criança... – disse oferecendo o colar a Camila que estava pálida e com os olhos lacrimejantes.
Todos os presentes abaixaram as cabeças, fazendo uma reverência. Camila, atordoada pela perda de sangue, aconchegava a criança nos braços, rezando em silêncio, pedindo que Deus lhe desse, naquele momento, apenas o leite necessário para amamentar seu filho. O filho do pai desconhecido por todos – menos por ela.
No dia seguinte, os membros da comitiva despertaram, como de costume neste tipo de jornada, às três horas da manhã. Partiram enfrentando o nevoeiro que nas manhãs de maio, nascia do rio devido ao choque térmico entre a temperatura do ar e da água fria e, condensando-se em gotículas minúsculas se esparramava pelas margens, deixando tudo envolto em um manto branco. O Caminho Novo estava sinalizada, com moirões e pedras, caiados de branco.
Antes de cruzarem a ponte de Madureira, em Monte Serrat, que separa as Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sob a proteção do grande maciço de granito de 450 metros de altura, quase em prumo, D. Pedro II deu ordem para que sua carruagem parasse. Olhou atentamente em volta e mandou chamar o coronel Hilário, que acompanhava a comitiva e ficara mais perto da carruagem real quando o Caminho Novo estava cortando suas terras. O Imperador desceu do veículo, Hilário colocou-se ao seu lado pronto para responder qualquer pergunta.
- Foi esta ponte que os mineiros do partido liberal atearam fogo em 42?
- Sim majestade. Ela era coberta. Na reforma o Major Koeller suprimiu o telhado. Os pilares eram de blocos de granito, foram bem construídos e nada sofreram, mas todo o madeiramento foi perdido.
No meio da ponte, autoridades da Província de Minas, inclusive o coronel José Inácio, proprietário da fazenda São Mateus, onde D.Pedro II ficaria hospedado aguardavam a comitiva. D. Pedro II fez questão de descer de sua carruagem e atravessou a ponte a pé até ao centro. Cumprimentou a todos e despediu-se dos anfitriões da Província do Rio de Janeiro, que não seguiriam para Minas Gerais.
À frente da comitiva mineira estava o alemão Henrique Halfeld, já conhecido do Imperador, pois recebera elogios de Caxias por sua participação ao lado do império na Revolta Liberal de 1842. Halfeld, desde 1836 havia sido nomeado engenheiro da Província de Minas Gerais e designado para construir a Estrada do Paraibuna, ligando Vila Rica (capital da província) até a ponte que acabavam de atravessar. Alto, com farto bigode um tanto grisalho aos 48 anos, apresentou ao imperador um jovem atarracado engenheiro de barbas cerradas, de 24 anos, que mais tarde se tornaria um grande amigo: Mariano Procópio Ferreira Lage, recém-chegado da Europa com idéias desenvolvimentistas.
Koeller cumprimentou efusivamente Mariano, também seu conhecido. A estes quatro personagens estaria interligada a história da chegada do grupo de colonos alemães para povoar a cidade de Petrópolis, por sugestão de Paulo Barbosa da Silva, o Mordomo Imperial, já que neste mesmo ano, em janeiro, tinha sido iniciada, sob a direção de Koeller, as obras de construção do palácio de verão do imperador.
Logo que cruza a ponte sobre o Rio Paraibuna, o Caminho Novo passa em frente às edificações do Registro, onde existe um hotel, estrebarias e armazéns, dando conforto aos viajantes, enquanto se examina a documentação de liberação de passagem de uma província para outra. Da ponte até ao povoado de Simão Pereira, olhando à esquerda permite-se uma grande visão lateral do maciço de Paraibuna. A Imperatriz, que acompanhou todo o trajeto sem maiores comentários, pois o marido parecia mais concentrado na leitura que trazia desde Petrópolis do que na paisagem, não conseguiu conter a admiração e comentou:
- Eu já tinha visto desenhos e até fotografias desta pedra, mas ao vivo é muito mais imponente. Parece uma pirâmide do Egito!
- É mais uma esfinge, dona Teresa, indagando aos viajantes: “decifra-me ou te devoro”.
A Imperatriz sorriu, concluindo que o livro em francês que o marido tinha nas mãos provavelmente falava das manobras de Napoleão Bonaparte no Egito, pesquisas sobre interpretação de hieróglifos ou mesmo as últimas novidades sobre os mistérios do embalsamamento de múmias. Percebeu que o marido estava bem humorado e comentou:
- Ontem nasceu um verdadeiro brasileirinho.
- Ouvi o choro. Era mesmo filho de escrava?
- Sim.
- Ali, bem na casa grande, num dia de visita como a nossa?
- Foi um parto prematuro, disseram. A mulher é ama da filha do major Barroso, nosso anfitrião e se acidentou antes da nossa chegada. Uma mulata muito bonita que gerou uma criança mais clara ainda.
- O Brasil vai ser o país da miscigenação, mistura de raças...
- Falam que só de gente vira-latas, como os cachorros...
- A Imperatriz tem ouvido opinião de radicais, provavelmente os que defendem o casamento entre primos...
- Nós somos primos, D. Pedro!
- É verdade – sorriu o imperador, segurando a mão da mulher, uma intimidade raramente vista, principalmente durante suas viagens, quando o povo procurava o tempo todo enxergar através das cortinas, quem estava no interior das carruagens fortemente protegida.
Emilio foi convocado para uma reunião na sede da Fazenda da Boa União, já que por algum tempo a sede antiga da fazenda do Cantagalo seria demolida enquanto a nova estava sendo priorizada. O major passaria a morar na fazenda da filha, na Boa União, juntamente com o filho. Emilio recebeu uma nova e importante missão, já que sua parte, anteriormente restrita à fundação de pedra já estava concluída. Foi contratado, por empreitada e não com salário fixo, para cuidar de todo o revestimento. O major Antonio Barroso exigia mármore importado de Carrara, nas cores preta e branca, não importava o custo. Deu prazo: que tudo ficasse pronto em um ano.
Terminada a reunião, quando contou a novidade para Camila, prometendo que esta obra finalizada significaria a certeza do casamento, pois teria os recursos suficientes para comprar sua alforria, da mãe dela e até uma pequena gleba de terra, ela sorriu abertamente, com os olhos umedecidos de emoção. Finalmente ficava claro que teriam a alforria de qualquer forma, não mais como uma promessa distante, como um possível presente de casamento da Sinhá, mas pelos recursos financeiros do noivo que também libertaria sua mãe, para ela o maior presente de casamento.
Neste dia de grande alvoroço na fazenda da Boa União, os dois ficaram mais livres e foram para a penumbra de uma mangueira frondosa. Estavam juntos há anos. Embora sem alianças, era como se fossem noivos e, portanto, tinham as intimidades naturais. Emilio recostou-a no tronco e enfiou as mãos sob sua blusa de cetim, sentido na palma da mão seus mamilos intumescidos. Camila arfava e o beijava com volúpia. Não sabiam eles, entretanto, que não muito distante, um olhar ávido os observava atentamente.
Como se fosse uma duradoura primavera, os anos que se seguiram ao casamento do jovem Imperador viram surgir vários nascimentos, de cidades, empreendimentos e pessoas - desejadas ou não.
O major Carvalhinho, sempre atento às últimas novidades da política, confidenciou entre o grupo que conversava na varanda da fazenda da Boa União:
- O Imperador cumpriu a obrigação: já embarrigou a Imperatriz. A criança vai nascer no início do próximo ano.
- O homem é dinâmico, sem dúvida.
- Na política também. Mas vai mexer em caixa de marimbondos, cutucar a onça com vara curta... Dessa vez serão os atacadistas ingleses.
- O quê?
- É, isso mesmo. Ouvi dizer que não vai renovar o Acordo de Comércio e Navegação com a Inglaterra, assinado pelo seu pai em 1827 e que vence neste ano de 1844, que na verdade é o mesmo Acordo de 1810, assinado por seu avô depois que chegou ao Brasil, que era uma ratificação do acordo de 1807, chamado de “Convenção Secreta de Londres”. Foram estes acordos que acabaram com 300 anos de monopólio de portugueses no comercio internacional.
- Na verdade trocou-se apenas de nacionalidade o monopólio, de português para inglês.
- Não vai dar problema com a importação da mão-de-obra da África? Estes acordos não prevêem o fim de tráfico negreiro? Até agora foram cláusulas, como se diz: “para inglês ver”. Mas e depois, quando os ingleses perderem os privilégios, como vai ser?
Tanto na fazenda da Boa União como na do Cantagalo, assim como nas demais produtoras de café do Vale do Paraíba, o sentimento de otimismo era total. Tropas de mula congestionavam os caminhos, descendo com café e subindo com material importado, já que a produção nacional era acanhada.
O jovem Miguel Ribeiro de Sá, um rapagão de que apresentava corpo e altura desproporcional à sua idade, demonstrou grande talento para o comércio. De olhos azuis e cabelo claro, encantava a todos com seu sotaque lusitano e participação em igualdade de condições nas brincadeiras dos peões e tropeiros. Tinha também muita sorte no carteado, que depois que a venda fechava as portas, às oito da noite, continuava madrugada adentro, com um número restrito de jogadores. Mas no dia seguinte, cedo estava de pé, limpando tudo, já que dormia no próprio armazém.
Acordando cedo, vendo-o trabalhar com a vassoura na porta da frente, o major Carvalhinho comentou com seu feitor:
- O menino leva jeito para o comércio e é muito trabalhador.
- Sim, todos gostam dele.
- Não tem defeito?
- Quase nenhum.
- Quase?
- Bem, já que o senhor está perguntando...
- Fale homem, preciso saber de tudo.
- Ele não pode ver uma crioulinha.
- Como é?
- Pois é major Carvalhinho, uns peões aí viciaram o moço.
- Com quem?
- Com estas raparigas que acompanham as tropas, subindo e descendo. Elas se encantam do sotaque dele, com os olhos azuis e sei lá mais com o que...
- E com as mulheres da fazenda?
- Tem sido muito respeitador. Eu estou de olho porque tenho filha moça, o senhor sabe. Mas, mulher é bicho danado: é fogo de morro acima, enxurrada de morro abaixo e mulher quando quer dar ninguém segura!
Agosto, mês do desgosto, mês de ventania, de chuva de granizo, de cachorro doido. Na Corte, em 12 de agosto, o Senador do Império e Ministro da Fazenda Manuel Alves Branco, depois de longas ponderações com o jovem Imperador de 19 anos, assina as normas tarifárias que seriam conhecidas como Tarifa Alves Branco. As taxas aduaneiras foram aumentadas e uniformizadas em 30% para produto importado sem similar nacional e 60% para os produzidos no país – poucos é verdade. Os principais prejudicados com a medida drástica foram primeiramente os industriais ingleses, que tinham o privilégio tarifário de apenas 15% de taxa alfandegária, enquanto os outros países pagavam 24%; em segundo lugar os comerciantes do mercado internacional (a maioria ingleses) que viram suas importações se tornar menos competitivas, diante de alternativas nacionais. Por outro lado, surgiram chances de uma industrialização local, colocando em dúvida a chamada “vocação agrícola” do Brasil. Para os industriais americanos que disputavam o mercado com os ingleses na América do Sul a padronização da nova taxa criou grandes oportunidades já que, como grandes estimuladores do consumo de café, ao invés do chá inglês, tinham os maiores saldos comerciais. Porém, o maior beneficiário foi o próprio Governo Imperial, que viu sua arrecadação crescer vertiginosamente, consolidando financeiramente a centralização do poder no Rio de Janeiro, província responsável pela maior geração de riqueza, o café. Isto inviabilizou de imediato qualquer tentativa de fragmentação política, pois todas as outras províncias dependiam dos recursos financeiros centralizados na Corte.
Uma tempestade de granizo surpreendeu uma pequena comitiva que subia a Serra Estrela numa tarde de novembro. Na carruagem que trazia Dona Mariana Claudina e sua mãe, após a consulta em um médico na Corte sobre a sua esterilidade sem cura. Com o rio Quitandinha botando água para fora, acharam melhor esperar para continuar a viagem no dia seguinte, pois a situação ficaria ainda mais perigosa à noite.
Nesta parada mãe e filha tiveram tempo de conversar sobre outros temas, que nem sempre tinham o isolamento necessário para fazê-lo, entre eles o futuro de Camila.
- Ela gosta mesmo do espanhol, filha?
- Acho que os dois estão apaixonados.
- Mas é um casal tão diferente...
- Deve ser isso que atrai um para o outro.
- Ela, como toda mulata nova, é muito fogosa, muito mulher, atiça os homens, dá para perceber... Ele me parece muito tímido, sempre falando baixo, educado... Diferente dos homens daqui, sempre brutos, autoritários, valentes...
- Eles conversam sobre literatura o tempo todo. Vivem falando dos livros que leram do que de qualquer outro assunto. Creio que o lado intelectual dele é que atrai Camila. Ele é um homem muito sensível, sentimental.
- Sim. Tomara que ela saiba valorizar isso...
As pedras de gelo e a ventania não ficaram restritas ao alto da serra, a chuva desceu pelo Vale do Rio Piabanha fazendo estragos. As tropas que chegavam assustadas à fazenda da Boa União relatavam o que viam. O major Carvalhinho chamou seu sogro e cunhado para ouvirem os relatos e mandou recado para ver se houve estrago na fazenda do Cantagalo. Os homens ficaram até tarde na varanda aguardando as tropas chegarem com notícias. Enquanto uns fumavam sem parar outros aproveitavam para aquecer o frio súbito com a boa cachaça.
Tônia, na cozinha, fritava torresmo e lingüiça sem parar, pedindo à filha que ajudasse a atender os homens na varanda. Excitados com as notícias, eles falavam cada vez mais alto. No final da noite todos estariam embriagados.
Como sempre acontece depois das tempestades nos trópicos, o dia amanheceu sem uma nuvem no céu e o sol logo derreteu o gelo que resistiu a madrugada toda sobre o capim. Era quase meio-dia quando a comitiva de Mariana Claudina chegou à fazenda da Boa União. Camila as estava esperando na varanda. Ajudou a descer as malas e leva-las para o quarto da Sinhá.
- Está triste, Camila?
- Não senhora.
- O estrago aqui não foi nada comparado com o que vimos na serra. Árvores derrubadas, pontes arrasadas... Aqui parece até tudo normal.
- A chuva chegou fraca aqui, é verdade. Mas trouxe mais estrago do que a senhora possa imaginar...
Os efeitos da Tarifa Alves Banco surgiram logo. Tanto o major Carvalhinho, afinado com a política, como seu cunhado Antonio Barroso, com as notícias de economia acompanha tudo com atenção:
- Dizem que o gerente dos ingleses, o Irineu Evangelista de Souza, está com vários projetos de industrialização.
- É preciso mudar mesmo, o nosso é ainda herança portuguesa.
- Ouvi dizer que vai investir também na indústria, depois que foi recebido pelo Imperador.
- Eu não acredito numa indústria nacional não. Nossa vocação é a lavoura...
- Não sei não. O Imperador lê todo jornal americano que chega dos navios, tem especial gosto por novidades – sabe que comprou, aos quinze anos, por 250 mil reis uma das primeiras máquinas fotográficas que apareceu no Império? Então, vai querer seguir aqui o modelo de progresso dos Estados Unidos.
- Sim, mas nós não temos a força do vapor. Não temos reserva de carvão mineral para produzir coque. Não dá para o Brasil substituir a mão-de-obra escrava pelas máquinas a vapor. Nosso modelo não vai mudar tão cedo.
Emilio, por conta de seu contrato com o major Antonio Barroso, para adquirir o mármore necessário, passou a viajar com freqüência para a Corte, chegando a visitar a Província do Espírito Santo, onde se supunha existir pedras com a mesma qualidade das italianas. Por esta razão, provavelmente, passou a sentir Camila mais triste. Esta também foi a percepção de Mariana Claudina, que perguntou certo dia:
- Você não parece uma noiva às vésperas do casamento, Camila. Andas triste pela casa, nem lendo vejo você mais. O que está passando? É a ausência de Emilio?
- Ando muito confusa sim, Sinhá.
- Mas você vai mudar de vida, conseguirá a alforria...
- Talvez não Sinhá, nosso destino está traçado lá no céu, aqui na terra não adianta querer mudar o que está escrito.
- E o Emilio, Camila? Ele gosta tanto de você...
- Ele é muito bom para associar a vida dele à de uma simples escrava...
Toda fazenda Cantagalo na Vila de Paraíba do Sul acordou mais cedo naquele mês de maio de 1845. Desde antes do alvorecer os escravos pintavam os moirões de cerca e capinavam a estrada que vinha da vila de Paraíba do Sul, seguindo o rio até à mais nova mansão construída nas suas margens, o casarão do major Antonio Barroso Pereira, sede da fazenda do Cantagalo, inquestionavelmente o mais rico fazendeiro de toda região.
No mês de maio sempre baixa uma cerração espessa que cobre o rio e as margens e só vai embora depois das oito horas, quando o sol esquenta. Por isso era difícil vigiar o trabalho espalhado, obrigando os feitores a andarem de um lado para outro.
Visitas muito importante estavam para chegar para o almoço: nada menos que o Imperador D. Pedro II, a Imperatriz dona Tereza Cristina e toda sua comitiva. Pernoitaram todos na Vila de Petrópolis, na habitação construída pelo major Júlio Koeller, enquanto o novo Palácio de Verão não tinha de condições de abrigar os monarcas. Acordaram às três da manhã, seguindo a comitiva pelo caminho conduzindo archotes. Iriam passar pela fazenda do Padre Corrêa, o povoado de Cebolas, atravessando em balsas o Rio Paraíba do Sul, pois a ponte em obras desde 1835 não ficara pronta. Estava prevista também uma homenagem organizada pela Câmara de Vereadores da vila que tinha o mesmo nome do rio. O almoço seria na residência do mais importante fazendeiro de café, o major Antonio Barroso, onde descansariam até à tarde, quando seguiria uma incômoda cerimônia de beija-mão na sede do solar. Depois do pernoite, uma nova jornada pelo Caminho Novo, até a fazenda de São Mateus, do coronel José Inácio, na Vila de Santo Antonio do Paraibuna, que colhia dezoito mil arrobas de café por ano e recebera as primeiras mudas diretamente das mãos do avô do Imperador, D. João VI, há mais de 25 anos.
No trecho fluminense a comitiva seria guiada pelo major Júlio Koeller, que cederia a vez, no lado mineiro, para Henrique Halfeld. Era a primeira visita do Imperador à Província de Minas Gerais, uma forma, segundo seus conselheiros políticos de acabar de vez com qualquer reminiscência desfavorável provocada pela sufocação da revolta dos liberais mineiros, há apenas três anos, em 1842.
Na cozinha o trabalho também era incessante. Tônia veio da fazenda da Boa União para comandar dezenas de outras escravas na cozinha da fazenda do Cantagalo. Ao seu lado a filha Camila, grávida, esquentava um bule de café.
A grande construção de dois andares, em forma de “U”, recém pintada de branco, as escadas de granito cinza e o piso de mármore carrara brilhando ao sol, destacava-se imponente diante do fundo de montanhas verdejantes. Os fundos do casarão, face sul, parte aberta do “U”, dava para o rio, bem de frente da Cachoeira do Cantagalo. Nesta época de pouca chuva, o rio descia abruptamente um metro e meio, formando uma cachoeira sonora.
- Vá logo levar este café para os homens na varanda, Camila.
- Sim, mãe. E depois, posso atender à D. Mariana?
- Sim.
- Mãe, é muita responsabilidade cozinhar para o Imperador. Será que ele vai gostar de sua comida?
- Faço o que sei. Se me chamaram da cozinha da fazenda Boa União para preparar a bóia do imperador, deve ser porque a minha comidinha mineira é boa! Vá logo, filha, leve o café e esta broa de milho. Vá logo!
Na varanda o major Barroso andava de um lado para outro, soltando baforadas de seu cigarro de palha e batendo firme no piso de mármore com o salto das botas de cano alto, pretas e lustrosas. Aos 53 anos, corpulento, sem barbas, com as melhores roupas, parecia impaciente. Ao seu lado aliados habituais: o genro major Carvalhinho, o filho Antonio e o vizinho Hilário.
- Não estou gostando nada dessa cerração. Ontem de madrugada o sereno foi forte e está muito úmido. Com esta friagem, vai custar subir a cerração.
- Será que para os lados de Cebola está assim também?
- Não. Serra acima o nevoeiro fica menos espesso. Pior é mesmo nas margens do rio. Não posso ficar mal com o Imperador, tudo tem que estar certinho... Afinal de contas, se não fosse o avô dele, D. João VI, em 1817, isto aqui seria ainda o brejo abandonado, como a família dos Paes Leme queria manter. No entanto, graças a ele conseguimos a sesmaria requerida por meu pai e posso dizer com orgulho, que desde as Três Barras, no encontro dos rios Paraíba do Sul com o Piabanha e o Paraibuna, até a foz do Rio Novo, todas as terras concedidas foram exploradas e estão bem aproveitadas, gerando riqueza para o Império.
- Vejo que o amigo está treinando o discurso... – comentou sorridente o coronel e também fazendeiro Hilário.
Camila chegou com uma bandeja do café e da broa de milho. Os homens pararam a conversa, e aguardavam em silêncio serem servidos. Camila, humildemente, encheu cada xícara de louça e serviu, fazendo mesura com a cabeça. Quando terminou e se retirou os quatro homens na varanda voltaram a conversar.
- Está desmatando para os lados de Bemposta, major?
- Sim, mas aproveitando toda a madeira de lei antes de tocar fogo e formar as roças para café.
- Pelo jeito na fazenda ainda tem muito ipê, peroba e até jacarandá, não é mesmo?
- Sim. Graças às obras em Petrópolis a nossa serraria não pára de trabalhar.
- Isto exige cada vez mais braço escravo, não é major?
- Este é o problema. O preço das peças aumenta cada vez mais. Já temos, juntando todas as quatro fazendas, mais de um milheiro de escravos. E vamos ter que importar mais. O café também subindo de preço está despertando muita cobiça, todo mundo quer ser fazendeiro. Acham que é só tocar fogo no mato, preparar a roça, plantar café e colher mil réis...
Após deixar a varanda, Camila desceu a grande escadaria e seguiu pela lateral oeste, evitando passar por dentro da casa, pois o assoalho de tábuas corridas de ipê amarelo estava polido para receber o Imperador. O nevoeiro espesso fazia a umidade se condensar em gotículas, tornando as pedras escorregadias. Seu pé descalçado, como de todas as escravas, deslizou na pedra molhada pela cerração e ela caiu de lado. Sentiu seu filho no ventre dar um forte solavanco, chutando sem parar. Ergueu-se com dificuldade, ficando de joelhos, pois estava sem forças para ficar de pé. Os braços esfolados nas pedras ardiam. Passou a mão entre as pernas e sentiu minar água. Estava zonza, a cerração parecia ficar cada vez mais espessa. Antes de desfalecer pensou: “não está na hora de meu filho nascer!”.
Tônia, estranhando a demora da filha, incumbiu uma escrava nova de vigiar o derretimento da banha de porco e saiu na cerração. Tão logo seus olhos já cansados de 60 anos de idade localizaram o vulto da filha estendida no chão de pedra correu em sua direção. Sentiu Camila fria, desfalecida, com os braços sangrando. Forçou a vista e vislumbrou um escravo caminhando próximo com uma enxada nas costas. Gritou-lhe e logo estava sendo ajudada. Camila despertou com tapas no rosto e caminhou lentamente para a cozinha, amparada de um lado pela mãe e de outro pelo negro. Dona Mariana foi logo avisada do acidente.
- Dê-lhe um café bem forte e quente, Tônia. É muito perigosa uma queda neste estado – comentou docemente dona Mariana.
- Sinhazinha tem razão. Não sei como foi acontecer isso.
- Vamos pedir a Nossa Senhora, com fé, que ajude Camila – disse fazendo o nome do pai, enquanto balbuciava uma prece em voz baixa.
- Ela parece muito fraca, Sinhazinha...
- Leve-a ao quarto vazio ao lodo do meu. Ela precisa descansar.
Enquanto todas as mulheres da casa se solidarizavam com Camila, os homens preparavam-se para partir. Quatro cavalos arreados aguardavam no pé da escadaria. O garanhão branco, do major Barroso, nervoso, raspava o casco nas pedras. Ao avistar a mula pedrês, montaria de Emilio, o major concluiu que ele deveria estar no pequeno escritório dos capatazes, na parte inferior da casa. Considerando o esforço que havia feito para concluir a obra a tempo da visita do Imperador, deu ordem para ele fosse chamado. Logo cinco cavaleiros seguiam em direção à Vila de Paraíba do Sul. O cavalo do major Antonio Barroso e do coronel Hilário iam à frente, seguido pela dupla de cavalos do filho e do cunhado, e por último o animal do mestre canteiro Emilio Prieto, como se numa hierarquia social.
- A que horas está prevista a chegada do Imperador à Vila? – perguntou Hilário.
- Entre onze horas e o meio-dia. Mais uma hora de discurso, meia hora de viagem de volta até a fazenda, provavelmente até duas, duas e meia da tarde já estejamos almoçando. Achei inútil esta parada na Vila. Foi politicagem do major João Gomes de Avelar...
- Acho que ele não ficou muito satisfeito com a aceitação de hospedagem na fazenda do Cantagalo por parte do Imperador.
Durante a cerimônia na Câmara de Vereadores a figura do Imperador se destacava. Alto, peito estufado em posição autoritária e com os olhos claros e barba escura cerrada, tinha uma aparência mais velha do que os vinte anos de idade que realmente possuía. À sua volta uma comitiva de 12 pessoas, além da Imperatriz e suas duas damas de companhia. O Imperador tentava disfarçar a impaciência pelas saudações e elogios dos súditos de Paraíba do Sul, Vassouras e Pati do Alferes que foram convidados para a solenidade. O discurso do major Avelar, Presidente da Câmara, foi o mais longo. Na resposta à saudação, D. Pedro II foi extremamente comedido, em menos de cinco minutos discursou. Sua voz fina e estridente, de certa forma não combinando com seu porte físico, decepcionando quem o assistia pela primeira vez. A postura, entretanto, era de um governante que irradiava autoridade.
Na viagem de Paraíba do Sul até a fazenda Cantagalo, percurso de quase uma légua, a comitiva andou devagar, pois a Imperatriz Tereza Cristina reclamou do trecho da estrada de Petrópolis até Santo Antonio da Encruzilhada, que estava muito esburacada, dando-lhe dores nas costas. Na carruagem imperial, D. Pedro durante todo o trecho segurava um livro nas mãos. Às vezes tirava os olhos da leitura e acompanhava o perfil das montanhas e o Rio Paraíba à sua direita, que por causa do tempo seco estava com as águas prateadas, como de figuras européias onde a paisagem refletia. Se a visita imperial estivesse sendo realizada no tempo das águas, quando tinha o rio tinha a cor de barro, o contraste de estar num país tropical, mas com cerimonial europeu, ficaria mais evidente.
Ao se aproximar da casa, cuja pintura branca destacava-se contra o verde escuro da mata fechada da margem direita do rio, o Imperador bateu levemente com os dedos, avisando que o cocheiro parasse. Admirou a propriedade e deteve-se especialmente sobre os dois pilares de granito na entrada do terreno onde a casa estava edificada, em forma de obelisco. Seu ajudante de ordem logo esporeou o animal na direção da carruagem e recebeu a ordem do Imperador:
- Quando o relógio marcar dezesseis horas, aproveite a luz do sol e providencie uma fotografia desta residência. Pode usar o equipamento que eu trouxe.
- Sim, majestade.
- Evite que apareçam pessoas na varanda, quero a fotografia apenas da residência, um belo exemplo da opulência do café!
Quarenta e cinco minutos depois do encerramento dos discursos na Câmara de Vereadores a comitiva já estava alojada nos 16 quartos da casa, da ala leste, que eram mais frescos, pois não recebiam o sol da tarde. Os proprietários ficavam com os quartos da ala oeste, geralmente mais quente ao anoitecer. Após os cumprimentos formais, a Imperatriz pediu um prazo de meia hora para descansar nas acomodações especialmente preparadas, acompanhada do Imperador. Os demais membros da comitiva dirigiram-se para a grande varanda frontal revestida de ladrilhos de mármore preto e branco, onde uma mesa de quitutes e bebidas diversas os esperava. Aproveitando uma folga, dona Mariana aproximou-se do marido, pedindo sua atenção para uma conversa segredada:
- Houve um acidente com a escrava Camila, hoje pela manhã.
- Como? O que aconteceu?
- Teve um tombo feio. Está deitada junto ao quarto de Claudina. Estamos com medo que venha perder a criança...
- Não pode... Deve estar ainda de oito meses.
- Ninguém sabe...
- Já chamaram alguma parteira?
- Não chamamos ninguém ainda, ela está perdendo um pouco de sangue.
- A bolsa rompeu?
- Não. Mas a criança pula muito na barriga, dá para sentir.
- Mande chamar dona Sebastiana, lá na Colônia. É uma boa parteira e sabe o que fazer. Não podemos perder esta criança...
- Por que não? Vai ser mais um escravo da fazenda...
- Onde está sua caridade, mulher! Ou melhor, pense em termos financeiros. Hoje uma boa peça está por mais de um conto de réis.
Dona Claudina afastou-se para atender as ordens do marido. Chegou depois junto da filha e segredou:
- Nunca vi seu pai tão interessado na saúde de um escravo que ainda nem nasceu!
- Deixe disso mãe! Só porque não sabemos quem é o pai da criança. Não fique dando ouvido a mexericos das escravas velhas.
Após o lauto almoço, que se estendeu até às quatro horas da tarde, o Imperador ficou na varanda cercado de autoridades convidadas, enquanto a Imperatriz recolheu-se, pois sentira a viagem e reclamava do calor que fazia. Todos ficaram em silêncio em volta do Imperador, até que o major engenheiro Júlio Koeller, tomou a palavra:
- Como vossa majestade testemunhou, o traçado da Estrada Real, ou Caminho Novo, passando por Cebolas é muito acidentado. Existe a possibilidade de outra rota, mas implica em muito corte em rocha, na serra do Taquaril.
- Vossa Majestade pode perceber que, com a produção de café aumentando a cada dia, o governo deve dar prioridade aos investimentos em estradas – afirmou com suavidade o coronel Hilário.
- Felizmente, Imperador, a nova tarifa Alves Branco está reforçando os cofres púbicos – emendou o filho do major Antonio Barroso.
O Imperador ouvia em silêncio e comentou:
- Temos muitas prioridades... Algumas, realmente só dependem de investimentos públicos. Para as estradas, que são complemento das fazendas, os investimentos poderão ser feito por particulares. Temos projetos de ferrovias concedidos...
- Mas quando teremos finalmente os trens? Desde 1835 temos a concessão dada ao médico Thomas Crochrane pelo Regente Feijó. É uma ferrovia importante, que vai ligar a Corte às Províncias de Minas Gerais e São Paulo... – afirmou novamente o jovem Antonio Barroso, que parecia satisfeito em demonstrar seus conhecimentos de economia para a comitiva imperial.
- Esta concessão foi mais um erro de Feijó – vaticinou o coronel Hilário, aproveitando a oportunidade de criticar um membro do Partido Liberal – O inglês não tem recursos...
- Por que foi dada, então? – perguntou o major Carvalhinho, já sabendo a resposta.
- Provavelmente por causa de compromissos com o Almirante Crochrane, seu pai – comentou Hilário.
- Vossa Alteza sabia que este inglês montou um circo de cavalinhos? Passou por aqui, na Vila de Paraíba do Sul, antes de seguir para a Vila de Vassouras. Ergueu a lona no terreno do lado da igreja matriz e fez as apresentações com os cavalinhos, atraindo gente de todo o tipo e no final falou sobre as vantagens de comprarem as ações da sua companhia para o povo.
- Alguém comprou? – perguntou um ajudante de ordem do Imperador.
- Não, ninguém comprou. Onde já se viu, usar circo para oferecer papéis. Será que na Inglaterra é assim?
Todos sorriram. Apenas o Imperador manteve a seriedade, parecendo estar com o pensamento distante daquela conversa fútil.
Repentinamente, um choro forte de criança recém-nascida, pareceu despertar o Imperador e surpreendeu a todos. O som vinha da ala oeste da casa. Camila deu a luz, concluiu o major Antonio Barroso.
A Imperatriz Tereza Cristina, que estava descansando acordou sobressaltada. Havia deixado em Petrópolis, aos cuidados de suas amas de leite, seu filho de apenas três meses, o príncipe Dom Afonso, que nascera em 23 de fevereiro daquele ano de 1845. Reagindo como qualquer mãe, deixou de lado o protocolo manifestou vontade de conhecer a criança recém-nascida.
- Mas é filho de uma escrava, alteza.
- Escrava? Aqui na mansão?
- É da mucama da filha do fazendeiro – sussurrou uma de suas damas de companhia.
- Quero ver assim mesmo – decidiu a Imperatriz.
As senhoras rodearam a criança que tentava sorver o leite ainda inexistente de Camila. A Imperatriz aproximou-se e perguntou:
- É menina ou varão? - ao invés de "fêmea" ou "macho", tratamento dado aos escravos que nasciam.
- É um menino, alteza – respondeu Mariana Claudina.
A Imperatriz desatou um dos cordões de ouro que usava, onde existia uma pequena medalha e disse:
- É uma imagem de minha terra, a Itália, de minha santa de devoção: Nossa Senhora da Piedade, Pietá. Que ela tenha piedade e zele por essa criança... – disse oferecendo o colar a Camila que estava pálida e com os olhos lacrimejantes.
Todos os presentes abaixaram as cabeças, fazendo uma reverência. Camila, atordoada pela perda de sangue, aconchegava a criança nos braços, rezando em silêncio, pedindo que Deus lhe desse, naquele momento, apenas o leite necessário para amamentar seu filho. O filho do pai desconhecido por todos – menos por ela.
No dia seguinte, os membros da comitiva despertaram, como de costume neste tipo de jornada, às três horas da manhã. Partiram enfrentando o nevoeiro que nas manhãs de maio, nascia do rio devido ao choque térmico entre a temperatura do ar e da água fria e, condensando-se em gotículas minúsculas se esparramava pelas margens, deixando tudo envolto em um manto branco. O Caminho Novo estava sinalizada, com moirões e pedras, caiados de branco.
Antes de cruzarem a ponte de Madureira, em Monte Serrat, que separa as Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais, sob a proteção do grande maciço de granito de 450 metros de altura, quase em prumo, D. Pedro II deu ordem para que sua carruagem parasse. Olhou atentamente em volta e mandou chamar o coronel Hilário, que acompanhava a comitiva e ficara mais perto da carruagem real quando o Caminho Novo estava cortando suas terras. O Imperador desceu do veículo, Hilário colocou-se ao seu lado pronto para responder qualquer pergunta.
- Foi esta ponte que os mineiros do partido liberal atearam fogo em 42?
- Sim majestade. Ela era coberta. Na reforma o Major Koeller suprimiu o telhado. Os pilares eram de blocos de granito, foram bem construídos e nada sofreram, mas todo o madeiramento foi perdido.
No meio da ponte, autoridades da Província de Minas, inclusive o coronel José Inácio, proprietário da fazenda São Mateus, onde D.Pedro II ficaria hospedado aguardavam a comitiva. D. Pedro II fez questão de descer de sua carruagem e atravessou a ponte a pé até ao centro. Cumprimentou a todos e despediu-se dos anfitriões da Província do Rio de Janeiro, que não seguiriam para Minas Gerais.
À frente da comitiva mineira estava o alemão Henrique Halfeld, já conhecido do Imperador, pois recebera elogios de Caxias por sua participação ao lado do império na Revolta Liberal de 1842. Halfeld, desde 1836 havia sido nomeado engenheiro da Província de Minas Gerais e designado para construir a Estrada do Paraibuna, ligando Vila Rica (capital da província) até a ponte que acabavam de atravessar. Alto, com farto bigode um tanto grisalho aos 48 anos, apresentou ao imperador um jovem atarracado engenheiro de barbas cerradas, de 24 anos, que mais tarde se tornaria um grande amigo: Mariano Procópio Ferreira Lage, recém-chegado da Europa com idéias desenvolvimentistas.
Koeller cumprimentou efusivamente Mariano, também seu conhecido. A estes quatro personagens estaria interligada a história da chegada do grupo de colonos alemães para povoar a cidade de Petrópolis, por sugestão de Paulo Barbosa da Silva, o Mordomo Imperial, já que neste mesmo ano, em janeiro, tinha sido iniciada, sob a direção de Koeller, as obras de construção do palácio de verão do imperador.
Logo que cruza a ponte sobre o Rio Paraibuna, o Caminho Novo passa em frente às edificações do Registro, onde existe um hotel, estrebarias e armazéns, dando conforto aos viajantes, enquanto se examina a documentação de liberação de passagem de uma província para outra. Da ponte até ao povoado de Simão Pereira, olhando à esquerda permite-se uma grande visão lateral do maciço de Paraibuna. A Imperatriz, que acompanhou todo o trajeto sem maiores comentários, pois o marido parecia mais concentrado na leitura que trazia desde Petrópolis do que na paisagem, não conseguiu conter a admiração e comentou:
- Eu já tinha visto desenhos e até fotografias desta pedra, mas ao vivo é muito mais imponente. Parece uma pirâmide do Egito!
- É mais uma esfinge, dona Teresa, indagando aos viajantes: “decifra-me ou te devoro”.
A Imperatriz sorriu, concluindo que o livro em francês que o marido tinha nas mãos provavelmente falava das manobras de Napoleão Bonaparte no Egito, pesquisas sobre interpretação de hieróglifos ou mesmo as últimas novidades sobre os mistérios do embalsamamento de múmias. Percebeu que o marido estava bem humorado e comentou:
- Ontem nasceu um verdadeiro brasileirinho.
- Ouvi o choro. Era mesmo filho de escrava?
- Sim.
- Ali, bem na casa grande, num dia de visita como a nossa?
- Foi um parto prematuro, disseram. A mulher é ama da filha do major Barroso, nosso anfitrião e se acidentou antes da nossa chegada. Uma mulata muito bonita que gerou uma criança mais clara ainda.
- O Brasil vai ser o país da miscigenação, mistura de raças...
- Falam que só de gente vira-latas, como os cachorros...
- A Imperatriz tem ouvido opinião de radicais, provavelmente os que defendem o casamento entre primos...
- Nós somos primos, D. Pedro!
- É verdade – sorriu o imperador, segurando a mão da mulher, uma intimidade raramente vista, principalmente durante suas viagens, quando o povo procurava o tempo todo enxergar através das cortinas, quem estava no interior das carruagens fortemente protegida.
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