Capítulo 5
O Jovem Imperador
O Jovem Imperador
Emilio ficou aguardando a ordem de começar o serviço para o major Carvalhinho. Numa tarde de sábado, quando após o almoço por ele próprio preparado, estava sob a sobra de uma árvore, lendo um dos livros emprestados pela esposa do major Carvalhinho, foi surpreendido pela passagem de Valenciano na sua porta.
- Pensei que estivesse para os lados de Minas, homem.
- Estive lá sim, mas voltei rápido. Fiquei mais tempo foi na Corte. Temos grandes notícias.
- De política ou de economia?
- Dos dois. A coisa está fervendo dos dois lados. Acho que vão antecipar a maioridade do nosso Imperador. É um movimento dos liberais, mas está ganhando força até junto aos conservadores. Ou o Brasil faz isso ou o antigo império português vai acabar fragmentado como o espanhol. Logo, logo surge por aqui um Simão Bolívar também, para dividir este grande Brasil.
- Pode ser. E a economia, qual a novidade?
- O trem vai chegar.
- Trem?
- Sim a força do vapor. A água fervente vai pode acabar com a força do escravo e dos animais. Isto para mim, que vivo de abastecer os tropeiros, será a perdição.
Emílio ficou em silêncio alguns instantes, em dúvida sobre a questão que faria, mas se animou:
- Valenciano, há uma coisa que gostaria de perguntar a você, que sabe de tudo, mas estou um pouco sem jeito.
- Fale homem!
- Naquele domingo, na fazenda do major Carvalhinho, eu avistei uma morena esguia...
- Só pode estar falando da Camila.
- Você a conhece?
- Claro. Eu que a trouxe, juntamente com a mãe, a Tônia, para ser aia da Dona Mariana Claudina. Como o major viaja muito, nas suas andanças atrás de políticos, ela me encomendou uma dama de companhia. As comprei em Minas Gerais, em São João Del Rei e as revendi para o major Carvalhinho.
- São escravas?
- Sim, mas não parecem. Vou contar a história delas, que é muito triste.
Enquanto Valenciano ia relatando o drama particular, Emilio formava na mente as imagens. Um português, que chegou tardiamente a Minas Gerais à procura de ouro, depois de algumas tentativas nos morros e córregos já muito explorados, resolveu montaram um pequeno comércio. Adquiriu alguns escravos de um lote novo de africanos, entre elas uma que veio da Guiné, a Tônia. Passou alguns anos e se afeiçoou dela e ela dele. Quando Tônia ficou grávida, resolveu que iria dar-lhe alforria, para que a filha nascesse livre. Porém, por causa de uma briga tola entre dois bêbados em seu armazém, foi mortalmente ferido por um tiro de garrucha disparado acidentalmente. Como não tinha herdeiros conhecidos, os bens foram vendidos em leilão e o dinheiro depositado em juízo, até que algum herdeiro fosse encontrado. Tônia, grávida de sete meses, foi arrolada, juntamente com outros dois escravos, como bem. Quem a arrematou foi uma velha e rica senhora viúva que precisava de uma cozinheira. Como a Tônia tinha fama de fazer bons petiscos no armazém do português, foi muito disputada. Quando a menina nasceu, uma mulata bem clarinha, porém com os olhos negros como a mãe, não puxando os olhos azul água do pai português do norte, a velha prometeu que lhe daria alforria. Tônia ficou feliz, pois pelo menos sua filha estaria livre do jugo da escravidão. Mas o destino foi cruel. A velha deixou que os anos passassem sem cumprir a promessa. Matriculou a menina na escola para que ela aprendesse a ler e a poupasse de esforçar a vista já cansada. Chegou até pagar professor particular para que a menina logo desenvolvesse na leitura. Nem mesmo ao morrer, vítima de um derrame repentino, deixou algo escrito ou a carta de alforria prometida. O único filho desta senhora, que morava na Corte, nem se deu ao trabalho de verificar o que herdaria. Indicou de lá um representante legal e deu ordem para que os bens fossem vendidos em leilão público e o dinheiro apurado enviado para a Corte. Passando na ocasião pelo local, como havia recebido a encomenda de conseguir em Minas uma dama de companhia que soubesse ler, fosse educada e regulasse idade com a fazendeira Mariana Claudina, não perdeu tempo e arrematou as duas, mãe e filha. Sabia que não deveria separar as duas. Ganhou um bom dinheiro na transação e foi elogiado: uma ótima cozinheira chegou à fazenda da Boa União e uma dama de companhia amável passou acompanhar de perto e de total confiança os passos da fazendeira, que apesar de casada há quase dez anos não conseguiam ter filhos. Infelizmente, a chance que as duas tiveram na vida de conseguirem as cartas de alforria por duas vezes, o destino não quis que acontecesse.
Menos de um mês depois deste encontro, Emilio começou os trabalhos na fazenda do major Carvalhinho. Todo o dia acordava cedo e seguia em direção à fazenda com o coração cheio de esperanças; mas, voltava para casa frustrado. Quando tinha que devolver os livros à Dona Claudina esperava que ela estivesse a sós na varanda, o que acontecia às tardes, quando a encontrava bordando. Seus encontros não duravam mais de meia hora, o tempo todo falando em francês, como ela queria. Camila, entretanto, nunca estava presente. Resolveu então tentar outra tática, iria mais cedo. Quando seu relógio de bolso indicou ser treze horas e reinava um grande silêncio na casa, foi até a porta da cozinha e bateu palmas de leve. Uma escrava veio atender e ele disse que gostaria de entregar o livro emprestado pela Sinhá, já que naquele dia teria um compromisso, necessitando sair mais cedo.
- Sinhá está descansando. Mas vou chamar minha filha.
Emilio concluiu que havia falado com a escrava Tônia e sua filha só poderia ser a mulher que esperava rever.
Quando Camila apareceu na porta da cozinha, Emilio retirou o chapéu respeitosamente. Ela arregalou os olhos, admirada, pois não lembrava de haver recebido tal tratamento de outro homem branco.
- Estou devolvendo o livro, é de Honoré de Balzac... Tem continuação, seria possível...
- Sim, eu pegarei para o senhor, Sinhá deu ordem para atendê-lo quando quisesse.
- Está em francês...
- Leio francês.
- Lê?
- Sim, e a continuação é melhor do que a primeira parte – respondeu sorrindo.
- Parle pá français, certamanit?
- Oui!
Emilio entabulou algumas frases em francês sobre o livro que acabara de ler. Percebeu que a pronúncia de Camila deixava a desejar. Com toda certeza tinha pouca prática de conversar no idioma, mas demonstrava conhecer bem o vocabulário, caso típico de autoapredizagem. Emilio sorriu diante da situação: uma escrava mulata no Brasil falando francês com um estranho sotaque e discutindo literatura. Percebeu, todavia, que ela estava interessada na conversa, com toda certeza tentando captar a pronúncia exata das palavras que estava habituada apenas a ler.
- Terei que passar a devolver os livros sempre neste horário. Tem problema para você?
- Não, sinta-se à vontade. Fico sempre à toa, lendo enquanto Sinhá está descansando.
- Ótimo – deixou escapar Emilio sorridente, no que foi correspondido por Camila.
Na véspera do feriado de sete de setembro de 1839, quando em todo Império seria comemorado o “dia da independência”, quando Emilio estava preparando seu café, percebeu a presença da preta velha antes mesmo de ouvir suas palmas e o suave: “Ô de casa!”.
- Há quanto tempo a senhora não vem fazer a boca de pito?
- É, tem bastante tempo...
- Pode pegar o café no fogão e fique à vontade. As coisas têm corrido bem...
- Sei disso – sorriu soltando baforadas de fumaça de seu cachimbo.
- Sabe?
- A gente vai ficando velha e sabendo cada vez mais das coisas que se passam em volta. Um dia vai saber como é.
- Tenho feito bons amigos...
- Amigas também.
- Sim. Amigas também...
- Mas o que devo o prazer de sua visita, depois de tanto tempo?
- Estava passando por aqui, senti o cheiro do café recém-coado...
- Ora, deve ter outro motivo. A senhora sempre acerta o que está me preocupando.
- É sorte de gente velha em acertar os palpites. Mas, vou te dar um conselho: tire logo de seu esconderijo os mil réis que está recebendo do major Antonio Barroso. Tem gente já de olho. Por aqui há muita gente ruim, meu branco.
- Como vão descobrir o esconderijo, é muito difícil.
- Nada é difícil para esta gente. Siga o conselho do Valenciano e consulte o filho do major Antonio Barroso. Ele pode guardar o dinheiro para o branco e até pagar juros.
- Verdade?
- Sim, fale com ele...
Neste instante a velha cambaleou, como se estivesse zonza. Emilio correu em sua direção e segurou-a pelo braço, conduzindo até um tamborete de três pés. Ela sentou-se, fechou os olhos e murmurou: “Libertou”.
- Quem? O que foi?
- Manuel Congo. Acabou de ser enforcado.
- Agora?
- Sim, exatamente agora, lá na Vila de Vassouras. Sua mulher foi obrigada a assistir, junto com o filho. Está chorando... Mas os outros todos estão rindo.
- A senhora está imaginando?
- Sim, meu branco, eu estou imaginando.
Depois, arregalando bem os olhos, levantou-se e encheu outra caneca de café fumegante. Deu mais umas baforadas e caminhou para a porta, olhando para trás quando Emilio a indagou:
- Sabe, até hoje eu nunca perguntei o nome da senhora.
- Ana. Ana de Guiné. Ou então Donana, como sou mais conhecida.
Uma chama crepitou no fogão, Emilio voltou-se para olhar e quando virou o seu rosto em direção à porta a velha já tinha ido embora, sorrateira e ligeira como sempre.
No dia seguinte, mesmo sendo sete de setembro, Emilio retirou todas sua economia do esconderijo, colocou o dinheiro em um saco usado para transportar café e foi até à fazenda do Cantagalo, onde com toda certeza encontraria o filho do major Antonio Barroso. A conversa foi rápida, ele ficou surpreso com a quantidade de dinheiro que Emilio havia juntado, devidamente justificado por uma vida simples e sem vícios.
- Na Espanha nós sofremos muito com o inverno, com a terra seca, por isso os espanhóis são muito econômicos.
- Pão-duro quer dizer – corrigiu o filho do fazendeiro.
- Não conheço esta expressão...
- Estão certos. Um país só desenvolve quando existe poupança que pode ser bem aplicada. A sua será bem aplicada, tenha certeza, espanhol.
Como operário especializado, Emilio sempre conseguia impor o preço pelo valor do seu serviço, razão pela qual aprimorava cada vez mais a qualidade do trabalho. Ficou, admirado com a taxa de 5% ao ano que o filho do fazendeiro afirmou que conseguiria pela aplicação. Recebeu promissórias nominais como recibo, assinou o livro caixa de registro e voltou satisfeito para casa. Ao entrar, seus olhos treinados para detalhes, acostumados a perceber os veios nas pedras de granito onde a cunha deveria ser inserida, notou que alguns livros estavam ligeiramente fora de posição, os dois quadros na parede um pouco inclinados. Foi até o fogão, sob o monte de lenha que ficava perto do fogo para secar, sob o qual um tijolo deslocado escondia um pequeno cofre, também parecia revirado. Ou seria impressão, devido à advertência de Donana, que seu esconderijo fora realmente descoberto?
Os meses de primavera e verão daquele ano seriam lembrados mais tarde por Emilio como os mais felizes de sua vida, pelos freqüentes encontros com Camila. Embora fossem com tempo marcado, sempre entre as doze e trinta e quatorze horas, sob o olhar nem sempre aprovador da escrava Tônia, sua mãe, esta hora e meia de conversas parecia durar muito menos. Provocava sua admiração os dentes alvíssimos e a inteligência da mulata, que rapidamente aprendia a pronunciar corretamente o francês, imitando-o sorridente. De vez em quando, quando voltava para casa, Emilio se perguntava: estaria se apaixonando outra vez?
Quando terminou o verão, Emilio foi convocado para uma reunião na sede da fazenda do Cantagalo. Sobre a grande mesa de refeição os rolos de setenta desenhos feitos pelo major Júlio Koeller. Era uma cópia do projeto que ele acabara de apresentar à Assembléia Fluminense de uma nova estrada, ligando o Porto da Estrela, atravessando a Serra Estrela pelo Caminho das Tropas até Paraibuna. Do lado da Província de Minas Gerais, outro oficial alemão, o major Henrique Halfeld também concluíra o seu projeto, melhorando o traçado da Estrada Real, da ponte de Madureira, em frente à grande Pedra de Paraibuna até a cidade de Barbacena, na Borda do Campo, no alto da Serra da Mantiqueira.
- Esta obra vai ajudar a resolver nossos problemas de escoamento – concluiu o major Antonio Barroso.
- Neste ano – afirmou o filho do major, consultando suas anotações – o café brasileiro vai representar 40% da produção mundial. E o a Província do Rio de Janeiro, responde por mais de 70% da produção nacional.
- Haja tropa de mulas, também – ponderou o major Koeller.
- Se não fosse estas revoltas nas Províncias, tudo estaria uma maravilha... A maioridade de D. Pedro II é a única solução para unificar o país. É uma idéia do Partido Liberal, mas tem sentido. O nosso Coronel Luiz Alves de Lima, atualmente o Presidente da Província do Maranhão, acabou com a Balaiada, mas se continuar assim vai ter que seguir para o Rio Grande do Sul, para dar fim na República Rio-Grandense.
No mês de julho, aconteceu o ato chamado pelos adversários políticos, membros do Partido Conservador, de o Golpe da Maioridade. Segundo eles, uma manobra do Partido Liberal destinada a assumir o poder, contando com a inexperiência do jovem imperador de apenas 15 anos, que indagado respondeu: “Quero-a já!”.
O major Carvalhinho fez questão de ler para todos os presentes o teor da declaração liberal:
A Assembléia Geral Legislativa do Brasil, reconhecendo o feliz desenvolvimento intelectual de S.M.I. o Senhor D. Pedro II, com que a Divina Providência favoreceu o Império de Santa Cruz; reconhecendo igualmente os males inerentes a governos excepcionais, e presenciando o desejo unânime do povo desta capital; convencida de que com este desejo está de acordo o de todo o Império, para conferir-se ao mesmo Augusto Senhor o exercício dos poderes que, pela Constituição lhe competem, houve por bem, por tão poderosos motivos, declará-lo em maioridade, para o efeito de entrar imediatamente no pleno exercício desses poderes, como Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.
- Isto é manobra dos liberais – afirmou o major Antonio Barroso.
- Se for, vão dar com os burros n’água – emendou o major Carvalhinho – o menino tem gênio, puxou pelo pai, D. Pedro I e pela avó, Dona Carlota Joaquina. Mas é dissimulado, sabe o que quer e é inteligente como a mãe, a Imperatriz Leopoldina, da Áustria. O menino é muito aplicado nos estudos e sempre teve ótimos professores. Fala alemão e francês desde criança. Tenho fontes seguras a respeito disto. Os liberais vão quebrar a cara se estão pensando em manipulá-lo!
Aprovado o ato, a coroação do monarca aconteceu no ano seguinte, em 18 de julho de 1841, no mesmo dia em que o coronel Luiz Alves de Lima e Silva recebeu o título de Barão de Caxias. Retornou vitorioso ao Rio de Janeiro, eleito deputado pela Província do Maranhão e torna-se a partir daí o poderoso braço direito do jovem Imperador, enquanto durou o II Reinado.
Para Emilio, estas reviravoltas políticas pareciam-lhe estranha comparada com a relativa disciplina espanhola na administração do poder. Mas, não estava disposto a gastar energias em entender o que se passava com a política à sua volta, se isto fosse roubar a atenção que precisava dispensar à sua bela Camila. Porém, os seus interesses em alongar cada vez mais as conversas na hora da sesta, já tinham ultrapassado a cozinha.
Certa tarde Mariana Claudina manda aviso que o convocou a sua presença. Emilio vai encontrá-la na varanda da sede da fazenda Boa União, onde esperou com o chapéu nas mãos. Ela não demorou em considerações pois após um cumprimento formal disse:
- Senhor Prieto, tenho ouvido rumores e gostaria de sua confirmação. É a respeito de minha mucama, a Camila...
- Tenho por ela uma grande admiração, senhora...
- Mas o senhor há de convir, trata-se de uma negra, escrava. Um homem branco, de posses como o senhor, poderia...
- O coração tem razões que a razão desconhece...
- Isto está sempre escrito nos romances, mas na vida real...
- A senhora é contra?
- Não se trata disto. Gosto muito de Camila, é minha fiel companheira. Não gostaria de vê-la sofrer.
- Minhas intenções são exatamente iguais. Não quero vê-la sofre e gostaria de dar-lhe mais felicidade, uma vida de liberdade, um futuro...
- Vejo que está apaixonado, senhor Prieto. Sei que Camila está vivendo o mesmo sentimento. Vá lá, tem minha autorização para um namoro e noivado.
Emilio não conseguiu conter o sorriso de felicidade. A fazendeira continuou:
- Mas, deverão ter uma rotina, sem encontros furtivos. Poderá vir aos sábados à tarde e ficar com ela até anoitecer e também participar das nossas missas aos domingos, pela manhã.
- Sim senhora, de acordo.
- Bem, agora vou chamar meu marido, o major José Antonio que anda muito preocupado com a morosidade de sua obra do armazém que nunca termina. Agora, com o meu consentimento de se encontrar com Camila a obra vai terminar logo, não é? – concluiu com um sorriso maroto.
Emilio aguardou a chegada do major Carvalhinho que, além de exigir pressa pediu um favor especial: gostaria de ter um caixeiro português para trabalhar no seu novo Armazém.
- Os portugueses e é que têm vocação para o comércio. Andei pesquisando na Corte, só vai para frente comércio que tem à frente um português. Nós brasileiros somos da terra, da lida com os animais, com os escravos e eles são bons no comércio.
Emilio prometeu escrever para seu antigo mestre Ribeiro de Sá, que morava em Penafiel, a pouca distância da cidade do Porto, pedindo seu auxílio. O major Carvalhinho ficou satisfeito.
O verão de 1842 foi extremante chuvoso na região paulista, acima da vila de Paraíba do Sul. O rio subiu muito de nível, saiu do leito e arrancou árvores grossas nas suas margens que, descendo em fortes corredeiras, enganchou-se nos pilares em construção da ponte, destruindo trabalho de anos. Os fazendeiros da margem esquerda ficaram apavorados, pois todo transporte pelo Caminho Novo começou a ficar prejudicado, pois as barcaças utilizadas sofreram também danos com as fortes chuvas.
Mas não foram apenas no aspecto econômico os problemas daquele ano. Adotando decisões centralizadoras, orientadas pelo Partido Conservador, o jovem imperador desagradou os liberais – confirmando a previsão política do major Carvalhinho.
Em março o Barão de Caxias foi investido no cargo de Comandante das Armas da Corte e, após o levante iniciado na Província de São Paulo, suscitado pelo Partido Liberal, D. Pedro II o nomeia Vice-Presidente da Província revoltosa, dando-lhe carta branca de ação na missão de pacificar a região. O barão de Caxias usaria a tática de manobras bem sucedidas anteriormente, que minimizavam os prejuízos e rapidamente curavam os ressentimentos. Reunia grande força bélica, cercava os revoltosos e, humildemente, oferecia a paz. Os fanáticos geralmente faziam algumas exigências orgulhosas, como afastamento das tropas, que Caxias de pronto atendia. Oferecia perdão aos abusos cometidos e até indenizações. Conseguia a paz sem muitos esforços e até, em certos casos, a adesão de antigos rivais. Apesar de fortemente armado diante da força adversária, sempre preferia o caminho da negociação e diplomacia. Era um pacificador, embora algum líder tenha pagado com a própria vida, dependurados com a língua para fora numa corda de enforcamento, quando foi necessário um tratamento exemplar, caso dos líderes da revolta da balaiada no Maranhão e do quilombo de Manuel Congo, em Pati do Alferes.
Mas, nesta revolta, os paulistas não estavam sozinhos, pois logo o movimento de rebeldia insurgiu também na Província de Minas Gerais, sob a liderança de Teófilo Otoni. Enquanto Caxias seguia para São Paulo, os mineiros liberais atearam fogo à Imperial Ponte de Madureira, na divisa das Províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro, interrompendo o transporte de tropas – exatamente no período de escoamento da safra.
Pacificado São Paulo, Caxias seguiu para Minas Gerais com suas tropas. Ocupou na Vila de Paraíba do Sul o morro conhecido como Pedra da Tocaia, de onde se tinha uma estratégica posição do Caminho Novo e ocupou também o alto da Pedra de Paraibuna, para conter um eventual avanço das tropas de Minas em direção à Corte e partiu para o ataque. Os revoltosos concentrados em Barbacena, recuaram para o interior da Província e a batalha final deu-se na Vila de Sabará. O processo de cerco e rendição repetiu-se como em São Paulo, conseguindo a paz, embora gerando ressentimentos que nunca cicatrizaram.
O major Júlio Koeller foi chamado para reparar a ponte, viabilizando a implantação pelo major Carvalhinho e seu sogro, de uma serraria de grande capacidade a meio caminho entre as sedes da fazenda Boa União e do Cantagalo. A região de sua fazenda, entre os rios Piabanha, Paraibuna e Paraíba do Sul sempre foi rica em madeira nobre. Nesta reforma mudou o projeto original da ponte, que tinha o tabuleiro coberto, para reduzir os custos e acelerar os trabalhos. A falta da ponte exigia que as tropas de mulas atravessassem as águas revoltas do Rio Paraibuna sobre as pedras, junto dos sólidos pilares de granito, única parte que sobrou do incêndio. Algumas rolaram rio abaixo, como algumas carregadas de ouro, segundo a lenda, antes da ponte existir.
Conseqüência indireta desta revolta e da instalação da serraria foi o acidente fatal que provocou a morte de um escravo, quando uma tora de mais de dois metros de diâmetro rolou sobre ele. Nos últimos minutos de vida rogou a São Sebastião, pedido que aliviasse sua dor. Depois que morreu uma cruz, fabricada com a madeira da tora que o matou foi erguida próximo da serraria. Todas as segundas feiras encontrava-se velas acesas em sua volta e alguns negros mais antigos chegaram a pedir que o major autorizasse a construção de uma capela, devota a São Sebastião também. Mas o major tinha outras preocupações.
Foi ainda em 1842 que chegou para trabalhar na casa comercial do major Carvalhinho, com 13 anos de idade, Miguel Ribeiro de Sá – neto do mestre canteiro português de Emilio. Sentindo-se seu padrinho, este logo cuidou de familiarizá-lo com a política do novo país, que estava em polvorosa.
O Imperador Pedro II, diante do sucesso de Caxias na Revolta Liberal em Minas Gerais e São Paulo, resolveu enfrentar a mais antiga rebelião do Império, que ameaçava dividir a nação: a Revolta Farropilha, que se iniciou em 1835, quando o jovem imperador era um menino de nove anos e tinha como tutor José Bonifácio. Nomeou no mesmo ano o Duque de Caxias, promovido a Marechal de Campo com menos de quarenta anos, como Presidente da Província do Rio Grande do Sul e o encarrega da missão de extinguir a República Rio-Grandense, como se auto-denominavam. Caxias partiu imediatamente do Rio de Janeiro para uma missão militar e diplomática das mais difíceis, pois os dois grupos rivais que lutavam entre si no Sul estavam unidos na luta contra o Império.
O ano de 1843 iniciou bem mais suave. O jovem Imperador de 18 anos consegue num acordo casamento na Corte européia, com uma prima distante, Tereza Cristina Maria de Bourbon-Duas Sicílias, nascida em Nápoles, em 30 de maio de 1822 – portanto dois anos mais velha que ele, nascido em dois de dezembro de 1825. Casam-se por procuração em Nápoles no dia 30 de maio de 1843 e em pessoa no Rio de Janeiro em quatro de setembro do mesmo ano.
O major Carvalhinho, sempre afinado com a política de bastidores da Corte, cochichou:
- Quase que o homem desiste do casamento...
- Por quê? – quiseram saber seu tio e primos.
- Dona Tereza Cristina era diferente da mulher do quadro que ele recebeu. Uma jovem linda, posando diante do vulcão Vesúvio soltando rolos de fumaça.
- Foi enganado, então?
- Creio que foi, digamos... uma inspiração do artista que a pintou. O Imperador se apaixonou pela mulher do quadro. Quando viu a princesa...
- Ela é feia assim?
- Era gordinha, baixinha e mancava de uma perna...
- Ele, um rapaz alto, barba escura cerrada, tão culto e vistoso...
- Dizem que só consumou o casamento quando o seu amigo, o mordomo Paulo Barbosa disse que ele deveria cumprir sua obrigação, pelo bem do país...
- Será mesmo verdade?
- É o que dizem, mas na Corte, vocês sabem, rola fuxico o tempo todo.
Resolvido este problema de sucessão, mais político do que amoroso, o jovem Imperador parte para novas conquistas. Tinha para isto bons auxiliares. Dentre estes personagens históricos importantes e de inteira confiança do jovem Imperador, um que mesmo não tendo a mesma visibilidade de Caxias, destaca-se é o Mordomo Imperial Paulo Barbosa da Silva, que cuidava mais do que do dia-a-dia dos Palácios da Quinta da Boa Vista e do Paço a Cidade. O major Carvalhinho prevê:
- O Imperador é corajoso. Mandou Caxias para o Rio Grande do Sul e vai agora enfrentar o nosso tabu: a Síndrome do Haiti.
- Como? – quis saber seu primo e cunhado Antonio Barroso.
- Vai branquear o Império. Estou bem informado. Paulo Barbosa já convenceu o Imperador Pedro II a quitar logo a dívida que seu pai fez e está em litígio na justiça, relativo à compra da fazenda do Córrego Seco. Juntamente com o major Júlio Koeller projetou um grande Palácio de Verão aqui na serra, bem na rota do Caminho das Tropas. Ao redor deste palácio será instalada uma colônia agrícola, mas não de negros, mas de lavradores alemães. Vão cultivar maçãs, peras, pêssego e outras frutas da Europa.
- Alemães?
- Sim, por incrível que pareça.
- Tem dedo do Koeller aí, sem dúvida. Vai trazer seus patrícios...
- Certamente!
- Mas ele não saiu mal com os orçamentos da ponte de Paraíba que nunca acabou? Não está respondendo processo, acusado de desfalque?
- Sim, mas isto é briga com o Presidente da Província do Rio de Janeiro. Com o Governo Imperial ele está muito bem. O Imperador quando gosta de uma pessoa passa por cima de tudo, você sabe.
- Tem mais novidades?
- Sim. Esta você não vai acreditar, mas é de fonte segura. Já foi escolhido o nome da nova vila que será criada por decreto.
- Qual?
- Petrópolis, a Cidade de Pedro.
- Como?
- Petro, de Dom Pedro e Polis, de cidade em grego.
- Será possível? Daqui a pouco teremos também Teresópolis, a cidade da Imperatriz Tereza Cristina?
- Não ouvi falar disso, mas pode ser. Quem sabe no futuro?
- Pensei que estivesse para os lados de Minas, homem.
- Estive lá sim, mas voltei rápido. Fiquei mais tempo foi na Corte. Temos grandes notícias.
- De política ou de economia?
- Dos dois. A coisa está fervendo dos dois lados. Acho que vão antecipar a maioridade do nosso Imperador. É um movimento dos liberais, mas está ganhando força até junto aos conservadores. Ou o Brasil faz isso ou o antigo império português vai acabar fragmentado como o espanhol. Logo, logo surge por aqui um Simão Bolívar também, para dividir este grande Brasil.
- Pode ser. E a economia, qual a novidade?
- O trem vai chegar.
- Trem?
- Sim a força do vapor. A água fervente vai pode acabar com a força do escravo e dos animais. Isto para mim, que vivo de abastecer os tropeiros, será a perdição.
Emílio ficou em silêncio alguns instantes, em dúvida sobre a questão que faria, mas se animou:
- Valenciano, há uma coisa que gostaria de perguntar a você, que sabe de tudo, mas estou um pouco sem jeito.
- Fale homem!
- Naquele domingo, na fazenda do major Carvalhinho, eu avistei uma morena esguia...
- Só pode estar falando da Camila.
- Você a conhece?
- Claro. Eu que a trouxe, juntamente com a mãe, a Tônia, para ser aia da Dona Mariana Claudina. Como o major viaja muito, nas suas andanças atrás de políticos, ela me encomendou uma dama de companhia. As comprei em Minas Gerais, em São João Del Rei e as revendi para o major Carvalhinho.
- São escravas?
- Sim, mas não parecem. Vou contar a história delas, que é muito triste.
Enquanto Valenciano ia relatando o drama particular, Emilio formava na mente as imagens. Um português, que chegou tardiamente a Minas Gerais à procura de ouro, depois de algumas tentativas nos morros e córregos já muito explorados, resolveu montaram um pequeno comércio. Adquiriu alguns escravos de um lote novo de africanos, entre elas uma que veio da Guiné, a Tônia. Passou alguns anos e se afeiçoou dela e ela dele. Quando Tônia ficou grávida, resolveu que iria dar-lhe alforria, para que a filha nascesse livre. Porém, por causa de uma briga tola entre dois bêbados em seu armazém, foi mortalmente ferido por um tiro de garrucha disparado acidentalmente. Como não tinha herdeiros conhecidos, os bens foram vendidos em leilão e o dinheiro depositado em juízo, até que algum herdeiro fosse encontrado. Tônia, grávida de sete meses, foi arrolada, juntamente com outros dois escravos, como bem. Quem a arrematou foi uma velha e rica senhora viúva que precisava de uma cozinheira. Como a Tônia tinha fama de fazer bons petiscos no armazém do português, foi muito disputada. Quando a menina nasceu, uma mulata bem clarinha, porém com os olhos negros como a mãe, não puxando os olhos azul água do pai português do norte, a velha prometeu que lhe daria alforria. Tônia ficou feliz, pois pelo menos sua filha estaria livre do jugo da escravidão. Mas o destino foi cruel. A velha deixou que os anos passassem sem cumprir a promessa. Matriculou a menina na escola para que ela aprendesse a ler e a poupasse de esforçar a vista já cansada. Chegou até pagar professor particular para que a menina logo desenvolvesse na leitura. Nem mesmo ao morrer, vítima de um derrame repentino, deixou algo escrito ou a carta de alforria prometida. O único filho desta senhora, que morava na Corte, nem se deu ao trabalho de verificar o que herdaria. Indicou de lá um representante legal e deu ordem para que os bens fossem vendidos em leilão público e o dinheiro apurado enviado para a Corte. Passando na ocasião pelo local, como havia recebido a encomenda de conseguir em Minas uma dama de companhia que soubesse ler, fosse educada e regulasse idade com a fazendeira Mariana Claudina, não perdeu tempo e arrematou as duas, mãe e filha. Sabia que não deveria separar as duas. Ganhou um bom dinheiro na transação e foi elogiado: uma ótima cozinheira chegou à fazenda da Boa União e uma dama de companhia amável passou acompanhar de perto e de total confiança os passos da fazendeira, que apesar de casada há quase dez anos não conseguiam ter filhos. Infelizmente, a chance que as duas tiveram na vida de conseguirem as cartas de alforria por duas vezes, o destino não quis que acontecesse.
Menos de um mês depois deste encontro, Emilio começou os trabalhos na fazenda do major Carvalhinho. Todo o dia acordava cedo e seguia em direção à fazenda com o coração cheio de esperanças; mas, voltava para casa frustrado. Quando tinha que devolver os livros à Dona Claudina esperava que ela estivesse a sós na varanda, o que acontecia às tardes, quando a encontrava bordando. Seus encontros não duravam mais de meia hora, o tempo todo falando em francês, como ela queria. Camila, entretanto, nunca estava presente. Resolveu então tentar outra tática, iria mais cedo. Quando seu relógio de bolso indicou ser treze horas e reinava um grande silêncio na casa, foi até a porta da cozinha e bateu palmas de leve. Uma escrava veio atender e ele disse que gostaria de entregar o livro emprestado pela Sinhá, já que naquele dia teria um compromisso, necessitando sair mais cedo.
- Sinhá está descansando. Mas vou chamar minha filha.
Emilio concluiu que havia falado com a escrava Tônia e sua filha só poderia ser a mulher que esperava rever.
Quando Camila apareceu na porta da cozinha, Emilio retirou o chapéu respeitosamente. Ela arregalou os olhos, admirada, pois não lembrava de haver recebido tal tratamento de outro homem branco.
- Estou devolvendo o livro, é de Honoré de Balzac... Tem continuação, seria possível...
- Sim, eu pegarei para o senhor, Sinhá deu ordem para atendê-lo quando quisesse.
- Está em francês...
- Leio francês.
- Lê?
- Sim, e a continuação é melhor do que a primeira parte – respondeu sorrindo.
- Parle pá français, certamanit?
- Oui!
Emilio entabulou algumas frases em francês sobre o livro que acabara de ler. Percebeu que a pronúncia de Camila deixava a desejar. Com toda certeza tinha pouca prática de conversar no idioma, mas demonstrava conhecer bem o vocabulário, caso típico de autoapredizagem. Emilio sorriu diante da situação: uma escrava mulata no Brasil falando francês com um estranho sotaque e discutindo literatura. Percebeu, todavia, que ela estava interessada na conversa, com toda certeza tentando captar a pronúncia exata das palavras que estava habituada apenas a ler.
- Terei que passar a devolver os livros sempre neste horário. Tem problema para você?
- Não, sinta-se à vontade. Fico sempre à toa, lendo enquanto Sinhá está descansando.
- Ótimo – deixou escapar Emilio sorridente, no que foi correspondido por Camila.
Na véspera do feriado de sete de setembro de 1839, quando em todo Império seria comemorado o “dia da independência”, quando Emilio estava preparando seu café, percebeu a presença da preta velha antes mesmo de ouvir suas palmas e o suave: “Ô de casa!”.
- Há quanto tempo a senhora não vem fazer a boca de pito?
- É, tem bastante tempo...
- Pode pegar o café no fogão e fique à vontade. As coisas têm corrido bem...
- Sei disso – sorriu soltando baforadas de fumaça de seu cachimbo.
- Sabe?
- A gente vai ficando velha e sabendo cada vez mais das coisas que se passam em volta. Um dia vai saber como é.
- Tenho feito bons amigos...
- Amigas também.
- Sim. Amigas também...
- Mas o que devo o prazer de sua visita, depois de tanto tempo?
- Estava passando por aqui, senti o cheiro do café recém-coado...
- Ora, deve ter outro motivo. A senhora sempre acerta o que está me preocupando.
- É sorte de gente velha em acertar os palpites. Mas, vou te dar um conselho: tire logo de seu esconderijo os mil réis que está recebendo do major Antonio Barroso. Tem gente já de olho. Por aqui há muita gente ruim, meu branco.
- Como vão descobrir o esconderijo, é muito difícil.
- Nada é difícil para esta gente. Siga o conselho do Valenciano e consulte o filho do major Antonio Barroso. Ele pode guardar o dinheiro para o branco e até pagar juros.
- Verdade?
- Sim, fale com ele...
Neste instante a velha cambaleou, como se estivesse zonza. Emilio correu em sua direção e segurou-a pelo braço, conduzindo até um tamborete de três pés. Ela sentou-se, fechou os olhos e murmurou: “Libertou”.
- Quem? O que foi?
- Manuel Congo. Acabou de ser enforcado.
- Agora?
- Sim, exatamente agora, lá na Vila de Vassouras. Sua mulher foi obrigada a assistir, junto com o filho. Está chorando... Mas os outros todos estão rindo.
- A senhora está imaginando?
- Sim, meu branco, eu estou imaginando.
Depois, arregalando bem os olhos, levantou-se e encheu outra caneca de café fumegante. Deu mais umas baforadas e caminhou para a porta, olhando para trás quando Emilio a indagou:
- Sabe, até hoje eu nunca perguntei o nome da senhora.
- Ana. Ana de Guiné. Ou então Donana, como sou mais conhecida.
Uma chama crepitou no fogão, Emilio voltou-se para olhar e quando virou o seu rosto em direção à porta a velha já tinha ido embora, sorrateira e ligeira como sempre.
No dia seguinte, mesmo sendo sete de setembro, Emilio retirou todas sua economia do esconderijo, colocou o dinheiro em um saco usado para transportar café e foi até à fazenda do Cantagalo, onde com toda certeza encontraria o filho do major Antonio Barroso. A conversa foi rápida, ele ficou surpreso com a quantidade de dinheiro que Emilio havia juntado, devidamente justificado por uma vida simples e sem vícios.
- Na Espanha nós sofremos muito com o inverno, com a terra seca, por isso os espanhóis são muito econômicos.
- Pão-duro quer dizer – corrigiu o filho do fazendeiro.
- Não conheço esta expressão...
- Estão certos. Um país só desenvolve quando existe poupança que pode ser bem aplicada. A sua será bem aplicada, tenha certeza, espanhol.
Como operário especializado, Emilio sempre conseguia impor o preço pelo valor do seu serviço, razão pela qual aprimorava cada vez mais a qualidade do trabalho. Ficou, admirado com a taxa de 5% ao ano que o filho do fazendeiro afirmou que conseguiria pela aplicação. Recebeu promissórias nominais como recibo, assinou o livro caixa de registro e voltou satisfeito para casa. Ao entrar, seus olhos treinados para detalhes, acostumados a perceber os veios nas pedras de granito onde a cunha deveria ser inserida, notou que alguns livros estavam ligeiramente fora de posição, os dois quadros na parede um pouco inclinados. Foi até o fogão, sob o monte de lenha que ficava perto do fogo para secar, sob o qual um tijolo deslocado escondia um pequeno cofre, também parecia revirado. Ou seria impressão, devido à advertência de Donana, que seu esconderijo fora realmente descoberto?
Os meses de primavera e verão daquele ano seriam lembrados mais tarde por Emilio como os mais felizes de sua vida, pelos freqüentes encontros com Camila. Embora fossem com tempo marcado, sempre entre as doze e trinta e quatorze horas, sob o olhar nem sempre aprovador da escrava Tônia, sua mãe, esta hora e meia de conversas parecia durar muito menos. Provocava sua admiração os dentes alvíssimos e a inteligência da mulata, que rapidamente aprendia a pronunciar corretamente o francês, imitando-o sorridente. De vez em quando, quando voltava para casa, Emilio se perguntava: estaria se apaixonando outra vez?
Quando terminou o verão, Emilio foi convocado para uma reunião na sede da fazenda do Cantagalo. Sobre a grande mesa de refeição os rolos de setenta desenhos feitos pelo major Júlio Koeller. Era uma cópia do projeto que ele acabara de apresentar à Assembléia Fluminense de uma nova estrada, ligando o Porto da Estrela, atravessando a Serra Estrela pelo Caminho das Tropas até Paraibuna. Do lado da Província de Minas Gerais, outro oficial alemão, o major Henrique Halfeld também concluíra o seu projeto, melhorando o traçado da Estrada Real, da ponte de Madureira, em frente à grande Pedra de Paraibuna até a cidade de Barbacena, na Borda do Campo, no alto da Serra da Mantiqueira.
- Esta obra vai ajudar a resolver nossos problemas de escoamento – concluiu o major Antonio Barroso.
- Neste ano – afirmou o filho do major, consultando suas anotações – o café brasileiro vai representar 40% da produção mundial. E o a Província do Rio de Janeiro, responde por mais de 70% da produção nacional.
- Haja tropa de mulas, também – ponderou o major Koeller.
- Se não fosse estas revoltas nas Províncias, tudo estaria uma maravilha... A maioridade de D. Pedro II é a única solução para unificar o país. É uma idéia do Partido Liberal, mas tem sentido. O nosso Coronel Luiz Alves de Lima, atualmente o Presidente da Província do Maranhão, acabou com a Balaiada, mas se continuar assim vai ter que seguir para o Rio Grande do Sul, para dar fim na República Rio-Grandense.
No mês de julho, aconteceu o ato chamado pelos adversários políticos, membros do Partido Conservador, de o Golpe da Maioridade. Segundo eles, uma manobra do Partido Liberal destinada a assumir o poder, contando com a inexperiência do jovem imperador de apenas 15 anos, que indagado respondeu: “Quero-a já!”.
O major Carvalhinho fez questão de ler para todos os presentes o teor da declaração liberal:
A Assembléia Geral Legislativa do Brasil, reconhecendo o feliz desenvolvimento intelectual de S.M.I. o Senhor D. Pedro II, com que a Divina Providência favoreceu o Império de Santa Cruz; reconhecendo igualmente os males inerentes a governos excepcionais, e presenciando o desejo unânime do povo desta capital; convencida de que com este desejo está de acordo o de todo o Império, para conferir-se ao mesmo Augusto Senhor o exercício dos poderes que, pela Constituição lhe competem, houve por bem, por tão poderosos motivos, declará-lo em maioridade, para o efeito de entrar imediatamente no pleno exercício desses poderes, como Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.
- Isto é manobra dos liberais – afirmou o major Antonio Barroso.
- Se for, vão dar com os burros n’água – emendou o major Carvalhinho – o menino tem gênio, puxou pelo pai, D. Pedro I e pela avó, Dona Carlota Joaquina. Mas é dissimulado, sabe o que quer e é inteligente como a mãe, a Imperatriz Leopoldina, da Áustria. O menino é muito aplicado nos estudos e sempre teve ótimos professores. Fala alemão e francês desde criança. Tenho fontes seguras a respeito disto. Os liberais vão quebrar a cara se estão pensando em manipulá-lo!
Aprovado o ato, a coroação do monarca aconteceu no ano seguinte, em 18 de julho de 1841, no mesmo dia em que o coronel Luiz Alves de Lima e Silva recebeu o título de Barão de Caxias. Retornou vitorioso ao Rio de Janeiro, eleito deputado pela Província do Maranhão e torna-se a partir daí o poderoso braço direito do jovem Imperador, enquanto durou o II Reinado.
Para Emilio, estas reviravoltas políticas pareciam-lhe estranha comparada com a relativa disciplina espanhola na administração do poder. Mas, não estava disposto a gastar energias em entender o que se passava com a política à sua volta, se isto fosse roubar a atenção que precisava dispensar à sua bela Camila. Porém, os seus interesses em alongar cada vez mais as conversas na hora da sesta, já tinham ultrapassado a cozinha.
Certa tarde Mariana Claudina manda aviso que o convocou a sua presença. Emilio vai encontrá-la na varanda da sede da fazenda Boa União, onde esperou com o chapéu nas mãos. Ela não demorou em considerações pois após um cumprimento formal disse:
- Senhor Prieto, tenho ouvido rumores e gostaria de sua confirmação. É a respeito de minha mucama, a Camila...
- Tenho por ela uma grande admiração, senhora...
- Mas o senhor há de convir, trata-se de uma negra, escrava. Um homem branco, de posses como o senhor, poderia...
- O coração tem razões que a razão desconhece...
- Isto está sempre escrito nos romances, mas na vida real...
- A senhora é contra?
- Não se trata disto. Gosto muito de Camila, é minha fiel companheira. Não gostaria de vê-la sofrer.
- Minhas intenções são exatamente iguais. Não quero vê-la sofre e gostaria de dar-lhe mais felicidade, uma vida de liberdade, um futuro...
- Vejo que está apaixonado, senhor Prieto. Sei que Camila está vivendo o mesmo sentimento. Vá lá, tem minha autorização para um namoro e noivado.
Emilio não conseguiu conter o sorriso de felicidade. A fazendeira continuou:
- Mas, deverão ter uma rotina, sem encontros furtivos. Poderá vir aos sábados à tarde e ficar com ela até anoitecer e também participar das nossas missas aos domingos, pela manhã.
- Sim senhora, de acordo.
- Bem, agora vou chamar meu marido, o major José Antonio que anda muito preocupado com a morosidade de sua obra do armazém que nunca termina. Agora, com o meu consentimento de se encontrar com Camila a obra vai terminar logo, não é? – concluiu com um sorriso maroto.
Emilio aguardou a chegada do major Carvalhinho que, além de exigir pressa pediu um favor especial: gostaria de ter um caixeiro português para trabalhar no seu novo Armazém.
- Os portugueses e é que têm vocação para o comércio. Andei pesquisando na Corte, só vai para frente comércio que tem à frente um português. Nós brasileiros somos da terra, da lida com os animais, com os escravos e eles são bons no comércio.
Emilio prometeu escrever para seu antigo mestre Ribeiro de Sá, que morava em Penafiel, a pouca distância da cidade do Porto, pedindo seu auxílio. O major Carvalhinho ficou satisfeito.
O verão de 1842 foi extremante chuvoso na região paulista, acima da vila de Paraíba do Sul. O rio subiu muito de nível, saiu do leito e arrancou árvores grossas nas suas margens que, descendo em fortes corredeiras, enganchou-se nos pilares em construção da ponte, destruindo trabalho de anos. Os fazendeiros da margem esquerda ficaram apavorados, pois todo transporte pelo Caminho Novo começou a ficar prejudicado, pois as barcaças utilizadas sofreram também danos com as fortes chuvas.
Mas não foram apenas no aspecto econômico os problemas daquele ano. Adotando decisões centralizadoras, orientadas pelo Partido Conservador, o jovem imperador desagradou os liberais – confirmando a previsão política do major Carvalhinho.
Em março o Barão de Caxias foi investido no cargo de Comandante das Armas da Corte e, após o levante iniciado na Província de São Paulo, suscitado pelo Partido Liberal, D. Pedro II o nomeia Vice-Presidente da Província revoltosa, dando-lhe carta branca de ação na missão de pacificar a região. O barão de Caxias usaria a tática de manobras bem sucedidas anteriormente, que minimizavam os prejuízos e rapidamente curavam os ressentimentos. Reunia grande força bélica, cercava os revoltosos e, humildemente, oferecia a paz. Os fanáticos geralmente faziam algumas exigências orgulhosas, como afastamento das tropas, que Caxias de pronto atendia. Oferecia perdão aos abusos cometidos e até indenizações. Conseguia a paz sem muitos esforços e até, em certos casos, a adesão de antigos rivais. Apesar de fortemente armado diante da força adversária, sempre preferia o caminho da negociação e diplomacia. Era um pacificador, embora algum líder tenha pagado com a própria vida, dependurados com a língua para fora numa corda de enforcamento, quando foi necessário um tratamento exemplar, caso dos líderes da revolta da balaiada no Maranhão e do quilombo de Manuel Congo, em Pati do Alferes.
Mas, nesta revolta, os paulistas não estavam sozinhos, pois logo o movimento de rebeldia insurgiu também na Província de Minas Gerais, sob a liderança de Teófilo Otoni. Enquanto Caxias seguia para São Paulo, os mineiros liberais atearam fogo à Imperial Ponte de Madureira, na divisa das Províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro, interrompendo o transporte de tropas – exatamente no período de escoamento da safra.
Pacificado São Paulo, Caxias seguiu para Minas Gerais com suas tropas. Ocupou na Vila de Paraíba do Sul o morro conhecido como Pedra da Tocaia, de onde se tinha uma estratégica posição do Caminho Novo e ocupou também o alto da Pedra de Paraibuna, para conter um eventual avanço das tropas de Minas em direção à Corte e partiu para o ataque. Os revoltosos concentrados em Barbacena, recuaram para o interior da Província e a batalha final deu-se na Vila de Sabará. O processo de cerco e rendição repetiu-se como em São Paulo, conseguindo a paz, embora gerando ressentimentos que nunca cicatrizaram.
O major Júlio Koeller foi chamado para reparar a ponte, viabilizando a implantação pelo major Carvalhinho e seu sogro, de uma serraria de grande capacidade a meio caminho entre as sedes da fazenda Boa União e do Cantagalo. A região de sua fazenda, entre os rios Piabanha, Paraibuna e Paraíba do Sul sempre foi rica em madeira nobre. Nesta reforma mudou o projeto original da ponte, que tinha o tabuleiro coberto, para reduzir os custos e acelerar os trabalhos. A falta da ponte exigia que as tropas de mulas atravessassem as águas revoltas do Rio Paraibuna sobre as pedras, junto dos sólidos pilares de granito, única parte que sobrou do incêndio. Algumas rolaram rio abaixo, como algumas carregadas de ouro, segundo a lenda, antes da ponte existir.
Conseqüência indireta desta revolta e da instalação da serraria foi o acidente fatal que provocou a morte de um escravo, quando uma tora de mais de dois metros de diâmetro rolou sobre ele. Nos últimos minutos de vida rogou a São Sebastião, pedido que aliviasse sua dor. Depois que morreu uma cruz, fabricada com a madeira da tora que o matou foi erguida próximo da serraria. Todas as segundas feiras encontrava-se velas acesas em sua volta e alguns negros mais antigos chegaram a pedir que o major autorizasse a construção de uma capela, devota a São Sebastião também. Mas o major tinha outras preocupações.
Foi ainda em 1842 que chegou para trabalhar na casa comercial do major Carvalhinho, com 13 anos de idade, Miguel Ribeiro de Sá – neto do mestre canteiro português de Emilio. Sentindo-se seu padrinho, este logo cuidou de familiarizá-lo com a política do novo país, que estava em polvorosa.
O Imperador Pedro II, diante do sucesso de Caxias na Revolta Liberal em Minas Gerais e São Paulo, resolveu enfrentar a mais antiga rebelião do Império, que ameaçava dividir a nação: a Revolta Farropilha, que se iniciou em 1835, quando o jovem imperador era um menino de nove anos e tinha como tutor José Bonifácio. Nomeou no mesmo ano o Duque de Caxias, promovido a Marechal de Campo com menos de quarenta anos, como Presidente da Província do Rio Grande do Sul e o encarrega da missão de extinguir a República Rio-Grandense, como se auto-denominavam. Caxias partiu imediatamente do Rio de Janeiro para uma missão militar e diplomática das mais difíceis, pois os dois grupos rivais que lutavam entre si no Sul estavam unidos na luta contra o Império.
O ano de 1843 iniciou bem mais suave. O jovem Imperador de 18 anos consegue num acordo casamento na Corte européia, com uma prima distante, Tereza Cristina Maria de Bourbon-Duas Sicílias, nascida em Nápoles, em 30 de maio de 1822 – portanto dois anos mais velha que ele, nascido em dois de dezembro de 1825. Casam-se por procuração em Nápoles no dia 30 de maio de 1843 e em pessoa no Rio de Janeiro em quatro de setembro do mesmo ano.
O major Carvalhinho, sempre afinado com a política de bastidores da Corte, cochichou:
- Quase que o homem desiste do casamento...
- Por quê? – quiseram saber seu tio e primos.
- Dona Tereza Cristina era diferente da mulher do quadro que ele recebeu. Uma jovem linda, posando diante do vulcão Vesúvio soltando rolos de fumaça.
- Foi enganado, então?
- Creio que foi, digamos... uma inspiração do artista que a pintou. O Imperador se apaixonou pela mulher do quadro. Quando viu a princesa...
- Ela é feia assim?
- Era gordinha, baixinha e mancava de uma perna...
- Ele, um rapaz alto, barba escura cerrada, tão culto e vistoso...
- Dizem que só consumou o casamento quando o seu amigo, o mordomo Paulo Barbosa disse que ele deveria cumprir sua obrigação, pelo bem do país...
- Será mesmo verdade?
- É o que dizem, mas na Corte, vocês sabem, rola fuxico o tempo todo.
Resolvido este problema de sucessão, mais político do que amoroso, o jovem Imperador parte para novas conquistas. Tinha para isto bons auxiliares. Dentre estes personagens históricos importantes e de inteira confiança do jovem Imperador, um que mesmo não tendo a mesma visibilidade de Caxias, destaca-se é o Mordomo Imperial Paulo Barbosa da Silva, que cuidava mais do que do dia-a-dia dos Palácios da Quinta da Boa Vista e do Paço a Cidade. O major Carvalhinho prevê:
- O Imperador é corajoso. Mandou Caxias para o Rio Grande do Sul e vai agora enfrentar o nosso tabu: a Síndrome do Haiti.
- Como? – quis saber seu primo e cunhado Antonio Barroso.
- Vai branquear o Império. Estou bem informado. Paulo Barbosa já convenceu o Imperador Pedro II a quitar logo a dívida que seu pai fez e está em litígio na justiça, relativo à compra da fazenda do Córrego Seco. Juntamente com o major Júlio Koeller projetou um grande Palácio de Verão aqui na serra, bem na rota do Caminho das Tropas. Ao redor deste palácio será instalada uma colônia agrícola, mas não de negros, mas de lavradores alemães. Vão cultivar maçãs, peras, pêssego e outras frutas da Europa.
- Alemães?
- Sim, por incrível que pareça.
- Tem dedo do Koeller aí, sem dúvida. Vai trazer seus patrícios...
- Certamente!
- Mas ele não saiu mal com os orçamentos da ponte de Paraíba que nunca acabou? Não está respondendo processo, acusado de desfalque?
- Sim, mas isto é briga com o Presidente da Província do Rio de Janeiro. Com o Governo Imperial ele está muito bem. O Imperador quando gosta de uma pessoa passa por cima de tudo, você sabe.
- Tem mais novidades?
- Sim. Esta você não vai acreditar, mas é de fonte segura. Já foi escolhido o nome da nova vila que será criada por decreto.
- Qual?
- Petrópolis, a Cidade de Pedro.
- Como?
- Petro, de Dom Pedro e Polis, de cidade em grego.
- Será possível? Daqui a pouco teremos também Teresópolis, a cidade da Imperatriz Tereza Cristina?
- Não ouvi falar disso, mas pode ser. Quem sabe no futuro?
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