sábado, 4 de agosto de 2007

A MULA DO OURO - Capitulo 3

Capítulo 3
Dia-a-dia em uma Fazenda de Café



Enquanto aguardava a chegada do mestre de obra português, Emilio ficou acomodado em um quarto, junto à pequena sede da Fazenda do Cantagalo, que a nova iria substituir. Após o jantar com o major Antonio Barroso e sua esposa, dona Claudina, foi recolher-se cedo, como todos os outros, por volta das oito e meia da noite. Depois de um sono agitado, entrecortado por períodos despertos onde ouvia sons de insetos e pássaros noturnos o tempo todo, Emilio percebeu que o galo lá fora, empoleirado no galho mais alto da goiabeira, estava reduzindo o intervalo entre os cantos.

Acordou e percebeu que era noite ainda, provavelmente o sol vai levar ainda mais de duas horas para nascer. Porém, da fresta da porta vê uma lamparina acesa percorre o corredor com sua chama azulada, proveniente da queima de óleo de mamona, e desaparece na porta dos fundos. É a escrava responsável pela cozinha da sede da fazenda de café.

Apura o ouvido e percebe que, ao mesmo tempo, em um dos quartos da senzala, uma outra cozinheira, a dos escravos, acende o fogo para o café da turma dos pretos que vai seguir para a roça. Os homens solteiros se levantam enquanto os casados tentam aninhar-se às companheiras, pois lá fora, no mês de maio, faz frio de manhã.

De repente o silêncio é quebrado por um toque de sino, às quatro horas. No mês seguinte, no inverno, o toque será às cinco. Todos os homens se levantam e procuram as bicas d’água para espantarem o sono.

Emilio também se levanta e vai até a cozinha. A velha escrava lhe serve uma caneca de café e broa de milho. Vai com a caneca fumegante nas mãos até a porta e observa que os escravos correm para pegar pedaços de mandioca frita, que serve de pão. Cada um pega também uma caneca de café, que engolem rápido porque o feitor vai começar a chamada.

Emilio dirige-se até ele, pedindo para acompanhar o trabalho daquele dia. O feitor fica admirado e logo lhe providencia uma montaria. Os escravos, em fila, seguem para roça, distante meia hora de caminhada rápida; rápida para espantar o frio. Na frente da fila dupla seguem os rapazes mais novos, no centro as mulheres e no rabo da fila os escravos mais velhos. Montado numa mula o feitor não tem posição fixa, uma hora está na frente outra atrás – mas sempre vigiando a todos. Emilio mantém sua posição no final, o que lhe permite observar com atenção e à distância, não desejando com sua presença interferir na rotina do dia-a-dia.

O céu está claro e a lua quase mergulhada por trás dos morros. Chegando cedo irão todos esperar no eito o sol nascer, observando as estrelas se apagarem enquanto um azul escuro vai aos poucos clareando, antes que as nuvens mais altas comecem a avermelhar. Mas por um bom tempo não receberão o calor do sol porque a cerração comum do outono, que vem do Rio Paraíba vai baixar.

Enquanto isso, na sede da fazenda, os serviços prosseguem. Dona Claudina, a mulher do fazendeiro Antonio Barroso também acordou cedo e vai até perto do fogão. A velha escrava cozinheira, mesmo sendo de confiança, com vários anos de convivência, toma à benção respeitosamente.

No curral os retireiros começaram a juntar sem dificuldades as vacas que respondem aos chamados de seus bezerros famintos, que passaram a noite longe de suas companhias, presos no curral, enquanto elas pastavam nas imediações. A ordenha logo começa.

Vindos do paiol, dois escravos carregam cada um dois sacos de milho, com duas arrobas (30 quilos) cada, até o moinho de pedra. Abrem o registro d’água e o põe para trabalhar. Outra dupla de escravos vai ao engenho de café, procede do mesmo modo, desviando a água para a roda dos pilões. Logo dos pilões saem o som compassado e do moinho um chiado constante que vai prosseguir o dia inteiro na mesma toada.

A cerração baixou cobrindo tudo. O fazendeiro Antonio Barroso também se levantou, vai até a varanda, espreguiça e olha em direção à pequena venda que ainda está fechada. Mas ao seu lado, na cobertura baixa, nota uma tropa de mulas composta de sete animais. Um tropeiro passou a noite ali. Chegou de madrugada, sem fazer alarde. Observa um menino passando e dá ordem:
- Tiãozinho, vá lá convidar o tropeiro para tomar café. Veja se ele precisa de milho para os animais. Você sabe quem é?
- É o seu Serpa. Chegou às duas da manhã, meu pai disse. Os cachorros deram sinal.

Num dos quarto da sede, chamada sala de costura, uma mucama, escrava que faz papel de dama de companhia da sinhá, distribui as tarefas do dia para cinco meninas, de 10 a 14 anos:
- Veja lá se não vai morcegar hoje igual foi ontem, Mariazinha. Quero o bordado da toalha todo pronto às cinco da tarde. E no capricho, nada de serviço matado. Senão você não escapa de meia-dúzia de bolos. Você sabe que a sinhá não gosta de ver choro, mas depois quem agüenta cara feia sou eu! Ficar de castigo no caroço de milho já não está adiantando mais...

Depois da caneca de café com leite, o major toma um pouco de café puro e acende seu primeiro cigarro de palha do dia e segue baforando em direção ao tropeiro que prontamente atendeu seu convite.
- Chegaste tarde ontem, Seu Serpa!
- Sim, major. O caminho do porto das Caixas está cada vez pior...
- Mas o tempo está firme, não tem chovido...
- É o movimento de tropa, major. Um sobe e desce de animais sem parar por essa serra... Mulas carregadas, nos dois sentidos: descendo com o café e subindo com ferramentas, farinha e caixas grandes.
- É verdade, só aqui da fazenda temos dez tropas de sete animais viajando constantemente.
- Os caminhos precisam de melhoria, major. O Governo precisa fazer alguma coisa...

O major segue até o pequeno Armazém de Secos e Molhados, ao lado do atalho feito pelo Capitão Tira-Morros na estrada do Caminho Novo. O caixeiro que toma conta para ele do dia-a-dia do negócio, já providenciou a limpeza e arrumação da bagunça que os freqüentadores da noite anterior deixaram. Estava limpando as garrafas que sempre empoeiravam quando o patrão chegou.

- Bom dia, major. O movimento ontem foi grande.
- Fiquei sabendo. Até que horas atendeu?
- Esperei dar meia-noite para fechar. Se continuasse aberto ainda atenderia mais tropas chegando...
- Tudo vai muito bem. A serraria não pára de receber encomenda, o movimento dos tropeiros nos faz trabalhar até de madrugada, o café cada vez pede mais desmatamento... Está faltando é mão-de-obra! As últimas matas azuladas de longe, indicativas de madeira de qualidade, já estão acabando... Logo vai ser apenas o verde escuro dos pés de café.

No eito, quase oito horas da manhã, da panela de ferro no fogão improvisado em plena lavoura de café emanava o cheiro adocicado do feijão preto fervendo com miúdos de porco. O angu também estava no ponto. Os escravos, de longe, não paravam de puxar com as mãos ágeis os grãos vermelhos do café maduro. Enchiam os cestos de taquara trançado (jacás) que eram despejados sobre esteiras, formando montes.

Emilio observa que cada escravo tem uma rua, com duas fileiras de pés de café para colher, sempre despejado no seu monte próprio, devidamente marcado. Os casais colhiam café em ruas juntas, mas a tarefa era tomada em separado e eram auxiliados, nas varreduras, pelos filhos menores. Cada escravo tem sua cota diária, estipulada em função do rendimento da lavoura, devido às condições climáticas. Como havia chovido na quantidade e na hora certa, a colheita na fazenda do Cantagalo terminaria no final de maio.

Às oito em ponto um sinete bateu. Os escravos vieram logo em direção à panela de feijão, fazendo fila. Naquela fazenda a alimentação era farta, ao contrário de outras onde os escravos trabalhavam o dia todo e passavam fome.

Uma outra característica do casal de fazendeiros é a fé católica e um reconhecido bom coração de dona Claudina, que foi transmitida a sua filha Mariana. Não havia na fazenda do Cantagalo nem em qualquer outra da propriedade do casal, tronco nem instrumento de tortura, embora cada feitor andasse com um bacalhau (um chicote de tiras de couro trançadas) dependurado na cintura, pronto para ser usado se necessário. A disciplina era a primeira exigência, quando um escravo não se comportava bem era advertido; se reincidente incorrigível era vendido aos fazendeiros da região do Vale do Paraíba, para os lados de Vassouras. Conforme a infração cometida, havia uma hierarquia. Com toda certeza, alguns escravos preferiam dez vezes a quantidade de bolos (castigo físico considerado leve usado na fazenda) do que serem vendidos para alguns fazendeiros de café do Vale do Paraíba.

Comum nas fazendas de café do Vale, os escravos eram de diversas etnias, evitando-se parentesco. Logo se identificava sua nação como os Congos, Moçambiques, Benguelas e Cabindas, usada muitas vezes como sobrenome. Os africanos recém importados eram chamados boçais, por serem inicialmente ignorantes da língua portuguesa. Depois passava a ser chamado de negro. Os nascidos no Brasil eram chamados de crioulos.

Com o sol quente, no terreiro da fazenda, os meninos também trabalham, revolvendo os grãos que secam com rodos de madeira. No outono o tempo é firme, não há perigo de chuvas repentinas que obrigam recolher depressa para o paiol os grãos já secos.

Nos alpendres, junto à cozinha da fazenda, um grupo de escravas velhas remenda os jacás, as redes e as esteiras, enquanto pitam cachimbos de barro. Outras mais afastadas lavam roupas nos grandes tanques de pedra ao lado da senzala, enquanto cantam e conversam em voz alta.

Na lavoura, os escravos da colheita só podem fumar após o almoço durante o horário de meia-hora, sendo proibido acender fogo junto aos cafezais – com o tempo seco qualquer descuido pode tocar fogo na lavoura. E aí, que prejuízo! Em algumas fazendas o responsável pode vir até a morrer debaixo de castigo. A conta é simples: quantos mil réis vale o escravo? Quanto foi o prejuízo que causou? Sua vida paga? É preciso sempre dar exemplo. Disciplina é a regra número um.

Para o feitor a cozinheira preparava na cuia o angu do fundo do tacho, o feijão, a couve e os melhores torresmos. Tinha direito também a uma sobremesa, uma banana da Terra ou de São Tomé assada nas brasas. A cozinheira fingia não ver que o feitor antes de almoçar tomava uma talagada da cachaça produzida na fazenda. Apenas ele, embora todos os escravos homens tivessem o mesmo desejo. Privilégio de feitor. Para os outros, cachaça só aos domingos ou dia santo.

Na cozinha da fazenda o almoço está pronto às dez e meia e as panelas ficam no fogão aguardando a ordem da dona de casa. Quando se tem convidado de fora, almoça-se na sala grande, com vista para o pátio; nos dias comuns os patrões podem comer na própria cozinha, sentando-se em tamboretes.

Neste dia o major tinha por companhia o mascate Salim. Os turcos, como eram apelidados, embora em grande parte fossem sírios e até italianos, eram simples, respeitosos, bons, amigos das crianças, honestos e destemidos, palmilhando, sem armas, por caminhos solitários, com mercadorias de valor às costas até alcançarem a porteira das fazendas. Mal chegados às varandas ou salas de visitas, que alvoroço para a criançada! As donas de casa, as filhas moças, as mucamas, curiosas e impacientes, de pé ou de cócoras, aguardam o momento da abertura dos baús e canastras.

Quase sempre a mesma rotina se repetia em todas as fazendas: exposta as mercadorias, começam as compras, sempre variadas. Um corte de chita para cada uma das filhas, alguns metros de morim para camisas do marido, rendas, sabonetes, vidros de óleo, pequenos presentes para as madrinhas de seus filhos, mais outros objetos para afilhados e sobrinhos; agulha, dedal, botões de osso e madrepérola, carretéis de linha. Chegada a vez dos brinquedos, um para cada filho menor, um para cada neto. Estão terminadas as compras, o mascate faz a soma e vai receber a importância quando uma das filhas lembra que a mucama não tem um vestido bom para sair. Escolhe um corte de padrão diferente e mais barato. E a cozinheira? Também deve ganhar um vestido; é preciso que não haja descontentamentos. Reabrem-se as compras: pentes, pequenos espelhos, lenços de chita para cabeça, miçangas, um objeto para cada uma das que trabalham em casa ou no terreiro. Alguém lembra uma vizinha que já mandou dois presentes e não recebeu nenhum, ou que já está próximo o casamento ou aniversário de outra. São compras mais difíceis e mais caras. A seguir o mascate recebe as mais diversas encomendas para a outra vez e de todas, sem livro de notas, dará cabal desempenho ao voltar meses depois.

Na casa-grande, depois do almoço, os patrões e os visitantes mais chegados procuravam dormir. É um hábito simples, nem sempre praticado, muito distante da tradicional siesta espanhola. Mesmo nos meses considerados de inverno, por volta do meio-dia o sol esquenta. Portanto, das onze às treze horas é um silêncio completo, todos serviçais de casa procuram andar nas pontas dos pés. No quintal os animais também procuram sombras. Com o sol quente é como se fosse plena madrugada e um silêncio paira sobre a fazenda.

Depois deste descanso, cada um volta ao seu posto de trabalho, uma preta velha torra café, outra, defronte de um grande tacho bate sabão; fervem os tachos de inhame e milho para os porcos, ferve a do açúcar mascavo para clarificar. Pretas velhas fiam, em teares de madeira, os fios de algodão para a roupa dos escravos. Ninguém fica à toa.

Na roça, ao meio-dia, os escravos fizeram outra pausa para um café simples, quinze minutos de descanso para fumar. É preciso que cada um cumpra sua cota. O feitor está autorizado a castigar aqueles considerados malandros. Nas fazendas de café do Vale do Paraíba a disciplina rígida é considerada prova de competência do fazendeiro.

Chegando o fim da tarde, os carros de boi são carregados com o café dos montes. O feitor anda pelas ruas incentivando os escravos que estão atrasados com suas cotas. Alguns se desesperam, pois se por alguma razão sua rua foi menos produtiva, dificilmente consegue convencer o feitor a perdoar o castigo e deixar para cumprir a meta no dia seguinte.

Pior que a dor é apanhar na frente dos companheiros. Ainda mais quando são bons colhedores, têm dedos ágeis, treinados para varrer com rapidez os grãos vermelhos e amarelos que caem sobre as redes, mas que, por falta de sorte ou praga de algum companheiro de olho de secar pimenteira, estão passando por uma fase ruim.

Na fazenda, depois que o sol amainou, ao lado da venda, aproveitando a água farta que vem do córrego que atravessa a fazenda, várias tropas de mula espalhadas são reunidas para retomarem a jornada. Mas as conversas dos tropeiros reunidos em torno do balcão, passando para o caixeiro e outros freqüentadores as novidades que ouviram pelo caminho, em cada rancho que pernoitaram, estão na lembrança de cada um, pois será repetida como um jornal oral. As notícias correm pelo interior na velocidade das tropas, cinco a sete léguas por dia (30 a 42 km). As últimas daquele dia são:
- Não param de derrubar matas para plantar café. O serviço aumenta cada vez mais.
- Para nós, tropeiro, está muito bom assim, quanto mais serviço melhor. Precisamos é de melhores caminhos.
- Não sei o que vai acontecer quando vierem as chuvas de dezembro, janeiro. Os atoleiros vão paralisar tudo.

Na varanda, pitando seu cigarro de palha, o major ouvia o chiado dos carros de boi ao longe. Serviam estes rudimentares e pesados veículos, fabricados na própria fazenda, para o transporte de qualquer coisa. A escolha da madeira era variada: o cedro para a mesa; óleo vermelho ou sucupira para as cambotas; os eixos de madeira dura, jacarandá, ipê ou cabiúna; cerne da garapa para os mancais, que atritando com os eixos produziam a catinga ou chiadeira. Quanto mais carregado o carro, mais alto o som. Ouvindo ele antes da dobra do morro, o Major sabia que a colheita tinha sido farta.

O sol já estava declinando e a Sinhá, na varanda, fechou sua caixa de bordados. Olhou em direção à senzala e viu, sob a grande e velha árvore de Jacarandá (“que algum dia irá valer mais do que toda fazenda” prognosticou um visitante estrangeiro), sua velha comadre D. Lurdinha, rodeada de crianças contando histórias. Era uma encostada ou de casa, pessoa que por alguma razão perdera tudo e, sem parentesco algum, viera morar na fazenda. No caso de D. Lurdinha, o marido, possuía um pequeno sítio para os lados de Queima-Sangue, mas deu para beber e perdeu tudo nas jogatinas em Vassouras. Foi encontrado morto, com rosto enterrado em uma poça de lama. Morte natural ou assassinato? Nem havia se passado uma semana depois do enterro, chegou alguns homens mal-encarados, com papéis assinados, notas promissória de dívida de jogo e tomaram tudo. Bateu na fazenda da Sinhá pedindo abrigo por uns dias, pois tinha escrito carta para os parentes pedindo ajuda e ficaria aguardando a resposta. Enquanto esperava passou a contar histórias para as crianças, histórias de saci, mula-sem-cabeça, caboclo d’água, procissão das almas e muitos casos de fantasmas. Todo dia inventava uma história nova, a criançada prestava toda atenção, dormiam obedientes aos pais, temerosos... Foi ficando e, como era comum em muitas fazendas do Vale do Paraíba, virou da casa. Os parentes nunca responderam ou talvez a carta nunca tenha sido enviada.

Enquanto os escravos descarregavam os carros de boi, o feitor entrou na varanda e respeitosamente tirou o chapéu. O Major convidou-o a sentar-se, enquanto esperavam pelos outros encarregados. Uma menina da cozinha trouxe café quente e broa de milho. Enquanto fumavam iam combinando o serviço para o dia seguinte, pois numa fazenda de café nada era improvisado. Quando os escravos acordavam os feitores já estavam com as tarefas todas demarcadas pelo planejamento do dia anterior.

Antes do sol se esconder atrás das montanhas, deixando o céu avermelhado indicando tempo frio, os escravos recebiam o jantar, a última refeição. Agora, ao contrário de durante o dia, pelo menos naquela fazenda, cada um poderia comer com seu grupo de amigos e parentes. Os casais se reúnem em torno dos filhos. Fumavam e sempre aparecia uma sanfona velha e um canto de lamento brota no meio deles, acompanhado pela batida cadenciada de um atabaque. Na fazenda do major Antonio Barroso a cantoria era permitida, desde que de músicas respeitosas, de preferência cânticos religiosos.

Depois do jantar, oito em ponto, já é noite fechada e um sino bate, avisando ser a hora do silêncio. Da varanda Emilio observa que as portas das senzalas são fechadas por fora e mesmo na sede as lamparinas dos alojamentos dos serviçais são apagadas. Todos vão dormir com os corpos cansados, depois de mais um dia comum na fazenda.

Apenas a sinhá, o major e seus hóspedes permanecerão acordados algumas horas mais. Ela prosseguindo na leitura de um romance em francês, idioma que deve conhecer, mesmo que superficialmente para não fazer feio nos encontros sociais na Corte e, quem sabe, é o desejo secreto de todos os prósperos fazendeiros, quando for contemplada com algum título de nobreza. Primeiro Barão, seguindo de Visconde, Conde e Marquês; nesta escala o último era Duque, mas sem referência de quem tenha sido contemplado.

Em determinados momentos, os hóspedes experientes procuram um canto reservado para conversarem entre si, fumando, deixando o major a sós. Este destranca a gaveta da escrivaninha de jacarandá e puxa um livro de anotações contábeis. Precisa verificar os números do seu comissário.

Durante todo o período áureo das fazendas de café do Vale do Paraíba, entre o produtor, o fazendeiro e o exportador, estava o comissário, que recebia a remessa de café da fazenda e a vendia ao ensacador e este ao exportador. Entre 1821 e 1830 o café correspondia a 18,4% das exportações totais do Brasil, enquanto o açúcar equivalia a 30,1%. Já na década seguinte 1831/1841 o açúcar passou a corresponder a 24% enquanto o café passou a 43,3%, e assim o produto foi num crescimento até o final do século quando chegou a corresponder a 64,5% das exportações, enquanto o açúcar baixou até 6,6%. Depois de 1871 o Brasil chegou a ser responsável pela metade da produção mundial do café. A firma que representava o Major tinha seu escritório e armazém em um grande casarão de construção antiga e sólida, paredes de grossa espessura dividido em andar térreo e sobrado, bem próximo do porto do Rio de Janeiro, no chamado Cais do Pharoux – nome de um hotel localizado em frente. No primeiro andar eram empilhados os sacos de café, tendo em frente, próximo à porta da rua, a mesa onde eram colocadas, sobre folhas de papel azul, as amostras de café. Sentado, ao lado da mesa, o “plantão”, caixeiro responsável para atender, à qualquer hora, um possível comprador. No sobrado, no salão da frente funcionava o escritório da firma; aos fundos, os quartos de hóspedes, empregados e a cozinha.

Cada comissário tinha sua zona preferida ou onde se encontrava o maior número de fregueses. A comissão pelas vendas era de 3%. Nem sempre andava o lavrador em débito com seu comissário. Mudavam-se constantemente as situações de devedor e credor, fechando-se as contas no final de cada semestre. Se o saldo era a favor do lavrador, providenciava a compra de apólices ou ações de companhias ou retinham o capital e pagavam juros de 5 a 7%. Se os comissários eram merecedores de confiança, preferiam muitas vezes os fazendeiros deixar o saldo em suas mãos, rendendo juros.

O mecanismo das transações comerciais entre fazendeiros e comissários era simples: recebiam as remessas de café do interior, procuravam vende-las pelo melhor preço, descontavam módicas comissões, forneciam recursos em forma de ordem de pagamento. Estas ordens de pagamento eram descontadas nos negociantes das cidades e das vilas e muitas delas chegavam às mãos de destinatários com duas ou mais transferências – como um cheque ao portador. Se o saque era vultoso, resultado da compra de escravos, propriedades ou dotes a filhas que se casavam, os fazendeiros davam aviso prévio aos seus comissários ou faziam consulta sobre a possibilidade de ser cumprido o saque e aguardavam a resposta que era rápida e sempre a mesma: receberam a consulta e aguardavam a apresentação da ordem para pronto pagamento. Funcionavam, portanto, como verdadeiros bancos regionais.

No Rio de Janeiro as portas das casas comissárias estavam sempre abertas para hospedarem os fazendeiros e suas famílias, por sua vez, nas fazendas, eram os comissários recebidos com fidalguia. Fazendeiros e comissários... a prosperidade ou ruína de uns e outros andavam sempre ligados.

Já são quase dez horas da noite. Apenas na venda da fazenda a luz azulada dos lampiões alimentados com óleo de mamona produzido ali mesmo irradia sua claridade sobre a estrada prateada pelo luar fraco da minguante. Em vôos rasantes e silenciosos, os caburés-de-orelha, as corujinhas do mato, perseguem as mariposas atraídas pela luz, respeitando o sossego necessário após um dia cansativo numa fazenda de café de Vale do Paraíba.

Do tempo em que passou observando o dia-a-dia na fazenda do major Antonio Barroso, Emilio retirou lições que seriam úteis por toda sua vida. Restava agora aprender sobre técnicas construtivas. O mestre de obra português foi logo explicando de boa vontade. Originário também da região norte de Portugal, vez ou outra utilizava uma expressão galega. Sua fala acelerada parecia, entretanto a Emilio de mais difícil compreensão do que o sotaque mais suave dos brasileiros – originais dos tempos de Pedro Álvares Cabral, segundo diziam.

Na construção se adotaria técnica mista: fundação de granito e paredes de taipa de pilão e pau a pique. A chamada taipa de pilão é um processo antigo de construção, usada pelos jesuítas nas primeiras edificações na Província de São Paulo. Abre-se, bem junto ao local da obra uma grande vala rasa, onde a terra peneirada é misturada com água, fibras vegetais, sangue de gado, crina de animais e estrume de gado. Socava-se então com os pés ou pilão, até se obter uma compactação bem firme. Para a casa do major a argila seria recolhida nos açudes secos, formados pelas cheias do Paraíba, localizadas a menos de 500 metros do local. Em seguida o barro seria despejado em formas da largura da parede e compactado com um pilão de madeira, até que o som emitido tivesse um tom metálico, indicando uma mínima quantidade de vazios. Os vão das portas seriam deixados nos locais determinados e as paredes subiam até a altura do peitoril das janelas, cerca de 90 cm. A partir daí seria utilizada a técnica da taipa de mão, ou pau a pique. Neste caso uma armadura interna de madeira, compostas por peças grossas de madeira verticais formando os pilares e ripas finas amarradas horizontalmente, formando uma grade. Dois trabalhadores, um de cada lado, com as mãos iam preenchendo os vazios. Como este tipo de construção de terra é sensível à ação da água, e sendo o Rio Paraíba imprevisível, o major planejou um grande alicerce de blocos de granito, perfeitamente assentados que além de impermeabilizar a construção dariam um alinhamento perfeito. Um exímio canteiro seria fundamental nesta primeira etapa.

Emilio percebeu que teria um ano de trabalho pela frente. Em poucos dias localizou na fazenda do major as jazidas de granito onde a exploração e o transporte fossem mais fácil e começou a preparar uma turma de operários para a função de auxiliares. O major recomendou que fosse usado o mínimo possível de mão de obra escrava, fundamental para os trabalhos na lavoura de café que duravam todo o ano. Foi-lhe dada autorização para escolher, nos limites da fazenda, uma casa onde iria querer morar, por prazo indeterminado. Emilio lembrou-se de uma casinha com a pintura bem descascada, que parecia abandonada, na estrada que interligava as sedes das fazendas Cantagalo, onde vivia o major Antonio Barroso e Dona Claudina e a fazenda da Boa União, que lhes fora dada como dote de casamento, pertencente à filha do casal, Mariana e ao sobrinho José Antonio Carvalho, o major Carvalhinho.

- Aquela casa mesmo? – indagou o major Antonio Barroso admirado.
- Sim, por que não? Pareceu-me abandonada.
- Sim está fechada há anos. O pessoal tem medo de morar lá... Mas, se realmente quiser, a casa é sua.

Com auxilio de dois homens que trouxe das obras da ponte da Vila de Paraíba do Sul, logo Emilio derrubou o matagal que crescia em volta da casa, substituiu as telhas quebradas e recuperou portas e janelas. Com uma caiação a casa ficou habitável novamente. Os móveis internos, muito simples, foram também recuperados e em menos de uma semana do velho fogão brotou fogo e uma chaleira de café fumegante espraiou o aroma de café fresco por todos os lados. Deve ter ido longe, pois logo Emilio ouviu um bater de palmas tímido e uma voz feminina chamado:
- Ô de casa...
Emilio foi até a porta e deparou com uma preta idosa, de cabelos totalmente brancos com um cachimbo com fornilho de barro apagado nas mãos.
- Pode entrar minha senhora – convidou respeitosamente.
- Obrigado meu branco. Senti o cheirinho de café fresco. Posso fazer uma boca de pito?

Emilio não entendeu a expressão regionalista, mas concluiu que ela estava com vontade de tomar café antes de fumar.
- Claro, acabei de passar. É café aqui da fazenda mesmo.

A velha recebeu a caneca de café nas mãos e sorveu o líquido negro com satisfação, fechando os olhos. Depois foi até o fogão e retirou um galho seco, onde com uma brasa na ponta que usou para acender o cachimbo. Seguiu até a porta e soltou longas baforadas. Emilio ficou em silêncio admirando a satisfação que a velha preta parecia estar tomada.
- A senhora mora perto?
- Sim, meu branco, muito perto. Tenho visto recuperando a velha casinha. Foi bom ter vindo, porque senão ela iria desmoronar. Quando o telhado cai, logo a água da chuva destrói as paredes de barro.
- É verdade.
- Na sua terra não, as casas de pedra resistem muito mais tempo, não é?
- Sim. Mas aqui no Brasil, parece que não apreciam muito as casas de pedras como as da Espanha e do norte de Portugal. A senhora parece ter um bom conhecimento...
- Agente aprende com a idade, moço. Mas, está chegando minha hora. Outro dia volto para tomar este café tão bom.

Emilio foi até o fogão onde colocou a chaleira sobre a chapa de ferro, mas não diretamente no fogo e voltou-se para despedir da velha senhora. Ficou admirado por ela ter saído tão silenciosamente. Foi até a porta e não mais a viu. Correu toda a volta da casa também sem sucesso. Ficou admirado pela velocidade da velha em desaparecer na curva da estrada.

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