sábado, 4 de agosto de 2007

A MULA DO OURO - Capitulo 20

Capitulo 20
Movimentos Abolicionistas

Um jovem espanhol procurando por Tuca não passou despercebido na pequena vila de Paraíba do Sul. Logo os informantes foram convocados a Vassouras e questionados:
- O que o espanhol queria?
- Não disse nada de concreto, apenas ser sobrinho do mestre Emilio que todos sabem voltou para a Espanha. Diz que morreu por lá, mas tinha um acerto com o Tuca.
- Que acerto? Dinheiro guardado?
- Não disse qual tipo de acerto. Na época não encontramos nada na casa, apenas um caderno escrito em uma língua estrangeira, uns falam ser francês, mas está cheio de códigos, não dá para compreender nada.
- Para onde o espanhol foi?
- Voltou para o Rio de Janeiro. Disse estar hospedado lá, mas que voltaria, pois os outros voluntários marcaram um encontro com mais pessoas. Vão confirmar por telegrama que ele vai passar.
- Deixou endereço no Rio?
- Não. Ele é que pegou o endereço de todos.
- Você também deu o seu?
- Não podia recusar.
- Fique atento. Cuidado, não deixem perceber que você é o nosso informante.
- Claro que não!
- Eles não perdoam os traíras, você sabe.

Toda vez que fazia as entregas dos queijos nos hotéis do centro da cidade, Emilio procurava investigar a história de Tuca, da condessa do Rio Novo, anotando todas as informações num caderno de redigia em galego. Chegou à conclusão que duas pessoas não poderiam deixar de ser ouvidas: o barão de Entre-Rios e o barão Ribeiro de Sá. Como eram pessoas importantes, enviou telegrama do Rio de Janeiro, solicitando entrevista com hora marcada. Ribeiro de Sá foi o primeiro a confirmar, obrigando Emilio a tomar novamente o trem de Petrópolis até Mauá, seguindo daí pela baía da Guanabara até a estação Central, mandada edificar por Mariano Procópio, onde comprou uma passagem para a Vila de Paraíba do Sul.
O palacete onde o barão Ribeiro de Sá residia localizava-se há cerca de 500 metros da estação. Era de construção recente, de 1886, de dois pavimentos e quatro fachadas, sendo a principal com duas escadas em curva com piso de granito e corrimão de ferro fundido. Na porta com moldura e soleira em granito via-se um dístico com a data da construção e um frontão triangular contendo o brasão do morador em estuque.
O barão era um senhor alto e corpulento, com barba grisalha com corte semelhante à do Imperador, com 59 anos. Ficou feliz em conhecer Emilio, o sobrinho-neto com o mesmo nome.
- É também canteiro?
- Não, trabalho com indústria de laticínios.
- Em que posso ajudar o jovem que veio da Espanha para nossa terra?
- Tenho uma carta deixada por meu tio, que deve ser entregue pessoalmente, pois aguarda resposta, a um certo Tuca. Porém soube da sua morte e gostaria de saber da existência de algum parente que a pudesse receber. Gostaria também de ter alguma informação sobre o motivo da sua morte, aos 33 anos, idade de Cristo.
Logo o barão indicou o endereço de Camila, junto da estação ferroviária de Entre-Rios. Ficou pensativo e afirmou que só naquele momento se dera conta que ele tinha esta idade. Ficou transtornado quando Emilio fustigou:
- Só falta ter morrido também crucificado.
- Quase isso. Colocaram sim, seu corpo amarrado na cerca de arame farpado da ferrovia com os braços abertos em forma de cruz.
- A polícia descobriu quem foi o autor?
- As investigações deram em nada. A versão que prevaleceu foi de assalto. A chegada do trem traz muita gente, de todas as índoles às vilas. Poderia ter sido seguido por bandidos do Rio de Janeiro, que fizeram o serviço e voltaram de trem.
- O trem acabou com o sossego então?
- Trouxe progresso, sem dúvida, mas mudou tudo. As cidades cortadas pela ferrovia deixam de ser a mesma depois que o trem chega.
- O senhor pode me ajudar no que se refere ao meu acesso ao processo de investigação? As instruções na carta de meu tio são rígidas, infelizmente.
- Claro. Vou fazer um bilhete em papel timbrado com meu brasão. Procure o doutor Lacerda, meu advogado que vai abrir-lhe todas as portas.
De fato, Emilio teve acesso fácil às poucas folhas de depoimentos de amigos e conhecidos da vítima, dos quais anotou os dados fundamentais e retornou logo para o Rio de Janeiro. Antes, porém fez questão de conhecer mais de perto a chamada Ponte da Parahyba, de estrutura metálica em treliça, com peças de ferro da antiga Fundição da Ponta-da-Areia, projeto do engenheiro inglês Douglas Dogdson, empregado do barão de Mauá. Foi concluída em 1857, mas iniciada em 1835, há 50 anos, tendo seu tio-avô trabalhado nos quatro pilares maciços em cantaria lavrada, sob as ordens do major Julio Koeller, autor do plano urbanístico de Petrópolis. Cobrava-se pedágio para sua travessia.
Na semana seguinte foi ao encontro do barão de Entre-Rios, também no palacete deste, já distante quase dois quilômetros da estação ferroviária. A construção era antiga, de 1840, lia-se num dos dois obeliscos de granito colocados na entrada. O barão o esperava na grande varanda, de onde se avistava o Rio Paraíba do Sul formando cachoeiras. O barão era um homem baixo, com rosto raspado, que lhe dava um aspecto mais jovial que os 65 anos que possuía. Agitado, foi logo dizendo:
- O barão Ribeiro de Sá, meu amigo, já me contou a seu respeito. Gostava muito de seu tio-avô, que ajudou bastante meu pai, o primeiro barão de Entre-Rios nesta construção. Tinha a sua idade, meu jovem, quando veio aqui trabalhar, lembro-me bem.
- O Tuca nasceu aqui?
- Sim, em 1845, no dia em que recebíamos a visita do Imperador, aos 20 anos, de passagem, pois estava indo para a atual Juiz de Fora. Por causa da Revolta dos Liberais... Mas isso é história do Brasil, você não deve conhecer.
- Apenas que meu tio contava. Mas convivi pouco mais de sete anos com ele, pois morreu a três anos, em 1882.
- Ano da morte de minha irmã, a Condessa do Rio Novo, também amiga de seu tio. Que coincidência. Mas por que tanta demora na entrega da carta?
- Tinha data certa para ser feita. Infelizmente Tuca foi crucificado, não foi?
Emilio percebeu um choque do fazendeiro, que pareceu irritado com a menção da imagem. Aproveitou então para fustigá-lo:
- Porque não se chegou aos autores deste crime bárbaro e encomendado.
- Você está bem informado, meu jovem!
- O barão Ribeiro de Sá facilitou-me na polícia e as pessoas que ouvi na rua falam que por trás está uma sociedade secreta de fazendeiros escravistas, tanto da Vila de Paraíba do Sul como de Vassouras.
- Lenda. Acredito mais na ação de bandidos do Rio de Janeiro, gente que não presta. Pegam um trem na estação Central e seguem pela ferrovia, descendo numa cidade qualquer e tirando a nossa tranqüilidade.
- Dizem uns que o Tuca pretendia financiar aqui uma associação de Caifáses, como em São Paulo, para financiar a fuga maciça de escravos...
- Você sabe muito para pouco tempo, rapaz. Não dê ouvido aos fuxiqueiros aí da rua não. Cuidado com estes termos também. É estrangeiro, não conhece a cultura, os costumes. Não se parece nada com seu tio, sabe?

Emilio despediu-se e seguiu até a casa da mãe de Tuca, no pátio da estação de Entre-Rios, sabendo que havia tocado num ponto central e que o barão de Entre-Rios ficara incomodado. A senhora que o atendeu na porta, mulata clara e esbelta, aparentando mais de 70 anos, pediu que entrasse e disse logo já o aguardava, pois corria um boato na cidade que um espanhol tinha uma encomenda para Tuca.
- Todo mundo já sabe?
- As paredes têm ouvido, sempre tiveram. A gente quando era escravo aprendia a ouvir de longe, meia palavra bastava... Principalmente quando aparecia gente nova. De repente você descobria e tinha sido vendido para um outro senhor perverso. Questão de sobrevivência, meu filho.
- Conheceu meu tio?
- Muito bem. Mais do que você possa imaginar.
- Falaram-me que ele poderia ser o pai de Tuca, pois lhe deu um bom dinheiro quando retornou para a Espanha.
- Poderia sim, eu teria um imenso prazer em gerar não um, mas vários filhos dele, pois chegamos a ficar noivos e iríamos nos casar com a aprovação de dona Mariana Claudina, mas infelizmente não tive sorte. Não foi seu tio o pai de Tuca. Seu tio não merecia ser enganado e rompi o noivado. Aprendi a pronúncia correta da língua francesa com ele, pois antes falava tudo errado, sabia a tradução das palavras, porque tinha que explicar à minha primeira ama, que não sabia nada. Foi o único homem que me tratou de igual para igual, como gente e não mercadoria. Falava que eu era inteligente. Para um escravo, que vale pela força física, ainda mais sendo mulher, era o maior dos elogios. Amei seu tio.
- Dizem que Tuca financiaria um movimento semelhante ao dos Caifáses...
- Caifáses?
- Vou explicar para a senhora. É um movimento que está cada vez mais forte na província de São Paulo. Organizam fuga coletiva de escravos e os envia primeiro para o quilombo do Jabaquara, daí para a Província do Ceará, que já aboliu a escravidão negra desde 25 de março de 1884. Chegando lá eles viram homens livres.
- Meu Deus... Ninguém sabe disso por aqui. Também todos já foram liberados pela falecida condessa no seu testamento, antes mesmo dessa data aí.
- Os fazendeiros guardam segredo, dona Camila. Morrem de medo por que a pessoa que está liderando o movimento é um Juiz, Antonio Bento de Sousa e Castro, que sabe como travar qualquer reação na justiça. É ainda muito prestigiado na maçonaria.
- Todos os fazendeiros do Vale do Paraíba também são maçons.
- Por isso mesmo, não podem radicalizar ou já teriam mandado matar o Juiz, com toda certeza.
- Estou compreendendo agora. As coisas estão começando a se encaixar, meu filho.
- A senhora ouviu Tuca comentar alguma coisa antes de morrer?
- Falou sim, de um grande plano. Mas, lembro-me agora, não falava deste Antonio Bento não. O nome do homem que ele estava em contato acho que era Gama, Joaquim ou ...
- Luís Gama, com certeza!
- Este mesmo. Quem era?
- Morreu em 1882, depois de Tuca, portanto. Mas era um jornalista baiano, mestiço...
- Pode falar mulato mesmo, tenho orgulho.
- Pois bem era mulato, também maçom, responsável pela libertação, sozinho, de mais de mil escravos. Criou o chamado Clube Radical e ajudou na formação do PRP, Partido Republicano Paulista. Não perdia uma causa na justiça, pois sabia como ninguém manobrar. Agia porém, sempre dentro da lei.
- Tuca falava mesmo que não iria repetir Manuel Congo... Seus amigos, os ex-voluntários da pátria queriam partir para a violência... Mas ele dizia que ganharia a guerra com inteligência.
- Tem muita gente ruim aí pros lados de Vassouras, Pati do Alferes, Valença...
- Sei disso. Sabem do movimento dos Caifáses, mas é proibido falar disso, dona Camila, é tabu.
- Compreendo. Quando eu era menina todo mundo falava em voz baixa era do que os negros, nossos irmãos fizeram no Haiti.
- Foi também um líder inteligente, culto, mas que no final levou tudo à ponta de espada. Perderam o controle, atearam fogo nas plantações, nas casas e enforcaram homens bons, cometendo muita injustiça. Mas era um ódio contido por anos de sofrimento, justificado até. Os negros expulsaram os brancos, mas não conseguiram se firmar como nação. É a mais pobre de todo o Novo Mundo e falam que vai continuar assim por séculos.
- Tem que ser café como leite, não é filho?
- Sim, somos todos iguais. Café com leite, sim senhora.
- Ninguém sabe disso que o moço está dizendo aí não.
- Vou deixar com a senhora um recorte de jornal. Trata-se da homenagem do escritor Raul Pompéia, amigo de Luís Gama, pronunciado num discurso no seu sepultamento. Posso ler para a senhora?
- Sim, meu filho. Leia porque minha vista está cansada, depois eu vou começar a distribuir para o povo ficar sabendo.
- Diz o seguinte:

...não sei que grandeza admirava naquele advogado, a receber constantemente em casa um mundo de gente faminta de liberdade, uns escravos humildes, esfarrapados, implorando libertação, como quem pede esmola; outros mostrando as mãos inflamadas e sangrentas das pancadas que lhes dera um bárbaro senhor; outros... inúmeros. E Luís Gama os recebia a todos com a sua aspereza afável e atraente; e a todos satisfazia, praticando as mas angélicas ações, por entre uma saraivada de grossas pilhérias de velho sargento. Toda essa clientela miserável saía satisfeita, levando este uma consolação, aquele uma promessa, outro a liberdade, alguns um conselho fortificante. E Luís Gama fazia tudo: libertava, consolava, dava conselhos, demandava, sacrificava-se, lutava, exauria-se no próprio ardor, como uma candeia iluminando à custa da própria vida as trevas do desespero daquele povo de infelizes, sem auferir uma sobra de lucro...E, por essa filosofia, empenhava-se de corpo e alma, fazia-se matar pelo bom...Pobre, muito pobre, deixava para os outros tudo o que lhe vinha das mãos de algum cliente mais abastado.

Emilio deixou a casa de Camila emocionada, porém com dúvidas de ter avançado demais, já que como estrangeiro não deveria estar se envolvendo nas questões políticas locais. Foi até à agência da estação comprar o bilhete de volta e descobriu que o trem para o Rio de Janeiro ainda demoraria uma hora. Caminhou então ao longo da linha até chegar às margens de um córrego cristalino, concluindo tratar-se do córrego Puris, que descia das terras da Fazenda da Boa União e iria desaguar no Rio Paraíba do Sul. Estava entretido olhando os peixes barrigudinhos, com cauda multicolorida que refletiam os últimos raios do sol da tarde, quando sentiu o cheiro adocicado do fumo de rolo. Olhou para o lado e viu uma velha negra, aparentando oitenta anos, com cabelos totalmente brancos, que pitava um cachimbo de barro. Possuía um olhar doce e falou sorrindo:
- A benção meu branco.
- Quem sou eu para dar a benção, minha senhora. Tenho é que pedir...
- Fique atento a partir de hoje, filho. Tem gente ruim atrás, vigiando. Pensavam que as idéias do Tuca morreram com ele...
- Como sabe?
- Donana sabe muita coisa. Mas meu branco está no caminho certo, pode prosseguir.
- Não corro risco então em continuar falando dos Caifáses?
- Tem proteção, mas fique atento.
Enquanto conversava, num período que pareceu muito curto, mas que foi longo e passou despercebido porque logo escureceu, Emilio percebeu dois homens de chapéu enterrado na cabeça caminhado na sua direção. Donana olhou-os fixamente em silêncio. Um deles, há pouco mais de vinte metros de distância estancou. O outro que tinha as mãos sob a camisa também parou, como se petrificado. Um olhar de espanto brotou do rosto de cada um, como se tivessem vendo fantasmas. Emilio olhou para o lado e Donana continuava em silêncio apenas observando-os. Eles foram caminhando então de costas, por uns seis metros, até que se desviaram rapidamente pelo lado do Portão Vermelho.
- Vá pegar seu trem que já está chegando, filho. Não conta nada do que ouviu nem do que acabou de ver para o seu avô.

Depois da pompa inaugural, a Estrada de Ferro do Corcovado mostrou-se deficitária, pois o projeto envolvia o Hotel das Parreiras e um coreto de ferro em forma de pavilhão circular, construído no cume da montanha, que ficou conhecido como Chapéu de Sol. Embora a linha tivesse apenas 3.829 metros de extensão, seu desenvolvimento era complexo por conta da natureza. Partindo da estação do Cosme Velho, sobe pelo lado direito do vale do Silvestre, à esquerda da caixa d’água do Morro do Inglês, atravessando este vale por um viaduto de estrutura metálica com três vãos e dois pilares de ferro; cruza o vale do rio Carioca próximo da estação do Silvestre, num grande corte feito na rocha, seguindo pela encosta da margem direita deste rio, transpondo outros dois vales secundários em duas pontes de 5m de extensão cada, chamadas Ponte das Velhas e Ponte das Cebolas, chegando à estação da das Paineiras, 2.715m depois, na cota 464 m. A partir daí, segue pelo dorso da montanha, em forma de corcova, que deu o nome à encosta, chegando 1.114m depois na estação final, na cota 670 m. A partir daí o visitante deveria subir por escadarias mais 40 metros, pois o alto do corcovado está na cota 710m do nível do mar.
Arfando pelo esforço deste ultimo trecho, o visitando tem o sacrifício recompensado pela deslumbrante vista de toda a baía da Guanabara, as paias oceânicas do Rio de Janeiro e Niterói, quando em dia de céu límpido, as montanhas da Corte e o paredão de rocha íngreme das serras Estrela e dos Órgãos, onde se destaca a pico do Dedo de Deus.
Foi a primeira ferrovia do Brasil construída com objetivo exclusivo de lazer, tornando um ponto obrigatório de todo o visitante estrangeiro e mesmo brasileiro que viesse ter afazeres na Corte. O Hotel das Paineiras se tornou também um ponto de atração especial, estando sempre lotado seus 36 apartamentos, pois sua cota permitia que o ar sempre estivesse fresco em seus quartos, por maior que fosse o calor no centro da cidade.
O Imperador que já visitava o local em cavalgadas perigosas, passou a ser um assíduo visitante, acompanhando os ilustres estrangeiros, que lhe permitia praticar os vários idiomas que dominava. A descrição da natureza que ele fazia nestas ocasiões estendia-se além dos limites da visão, como se estivessem numa cota muito mais elevada, que permitia avistar do alto todo o grande Império do Brasil. Às vezes, de frente para o mar, na direção leste, abria os braços mostrando que o país estendia-se de norte a sul, com o vasto interior do país à oeste, às suas costas. Certo dia um padre francês olhou para o Imperador neste gesto teve a visão de uma imensa estátua de um Cristo esculpido de rocha por trás do monarca, vestindo um manto majestoso que lhe descia até os pés; uma imagem vitoriosa, não sofrimento na cruz, como se abençoasse a imensa nação cristã. Comentou com o imperador este lapso, que logo se apagou e o monarca sorriu, dizendo:
- Quem sabe um dia um grande Cristo de pedra nos estará abençoando?

A novidade de Camila logo se espalhou, por conta até do relativo ócio que os escravos libertados da condessa do Rio Novo pareciam querer gozar, ao invés de submeterem aos baixos salários pagos pelo barão de Entre-Rios. Nas terras doadas plantaram pequenas roças de milho, feijão e legumes diversos, que permitia a subsistência, complementada pelos piscosos rios que se encontravam nas Três Barras. Esta ociosidade permitia que qualquer assuntos crescessem e se multiplicasse, a tal ponto que Camila viu-se obrigada a ir até a estação ferroviária e expedir um telegrama para o jovem espanhol, endereçado ao hotel Pharoux.
Emilio leu o telegrama três dias depois, quando foi até a Corte. Respondeu confirmando o encontro com os veteranos Voluntários da Pátria, na casa da própria Camila.
- Repita, meu filho, tudo que você disse sobre esses Caifáses, porque ninguém está acreditando.
- Não é isso, por favor dona Camila – interrompeu o líder – é um tema que nunca antes tínhamos ouvido falar. O Tuca manteve segredo o tempo todo. Viajava sem falar para onde. Eu desconfiava que fosse para a Província de São Paulo, porque comprava bilhete de trem até Barra do Piraí. Um dia percebi que faria baldeação na estação de Cruzeiro, portanto seguiria pela Ferrovia São Paulo ao Rio de Janeiro. Ia sempre de agasalho grosso, permitindo supor que viajava para lugar frio. Mas escondeu tudo...
Emilio repetiu o que sabia, recitando toda a biografia de Luís Gama, o idealizador e do juiz Antonio Bento, atual líder do movimento. Deduziu pelo que ouvira de várias pessoas, inclusive de Camila, que Tuca planejava criar uma filial do movimento Caifás paulista no Vale do Paraíba fluminense, necessitando de recursos para custear a justiça. Finalmente surgiu a pergunta:
- Por que este nome, Caifás?
- O nome Caifás inspira-se na passagem do evangelho de São João, capitulo 11 e versículo 50, que sentencia Caifás, o sumo-sacerdote judeu que condenou Jesus Cristo, dizendo: “Vós nada sabeis, nem compreendeis que convém que um homem morra pelo povo, para que o povo todo não pereça? E entregou Jesus a Pilatos”.
- Desculpe, não compreendemos.
- Um sumo sacerdote representava para os judeus, não esqueça que Jesus Cristo era judeu, o poder civil e religioso, por presidir o Supremo Tribunal daquele povo, chamado Sindédrio. Acontece que os romanos invasores que tomavam conta de tudo, nomeavam e depunham os sumos sacerdotes de acordo com o seu próprio interesse. Em outras palavras, para ser sumo sacerdote dos judeus tinha que rezar na cartilha dos romanos.
- Caifás é o título então?
- Não, Caifás é o nome do sumo sacerdote, que julgou Jesus Cristo, decidindo que ele havia infringido a lei judaica e deveria ser castigado pelos romanos, pelo chefe maior, o Pôncio Pilatos.
- O senhor desculpe, mas todos nós fizemos primeira comunhão, lá mesmo na Capela N.S. da Piedade da fazenda do Cantagalo, mas como a maioria não sabe ler nem escrever, fica difícil guardar esses nomes estrangeiros.
- Sei como é.
- O nome de orixás de candomblé, de macumba, essas coisas trazidas pelos baianos todos sabem de cor – censurou Camila.
- Não sou também muito religioso, mas pesquisei um pouco mais para vir conversar com vocês.
- O Caifás foi como um Judas Iscariote então, um traíra que entregou Jesus? – perguntou o mais forte dos três, que ficara calado o tempo todo.
- Sim, pode-se dizer que sim.
- Então tem um traíra entre nós, porque entregou Tuca?
- Acho que é uma boa dedução – concordou Emilio – por que eu também não acredito nesta história de assaltante do Rio de Janeiro não.

Um mês depois desta visita, os jornais do Rio de Janeiro estamparam uma notícia que deixou Emilio perplexo. Vários escravos e cidadãos livres (ex-escravos alforriados) tiram sido preso como suspeitos de um crime e espancados, alguns deles, com violência até à morte na cadeia pública da vila de Paraíba do Sul. D.Pedro II se inteirou dos fatos e determinou que seu Ministro da Justiça providenciasse de imediato uma mudança no Código Penal, terminando com a pena de açoite. No ano de 1886 foi uma das notícias mais exploradas pela imprensa abolicionista. Imediatamente Emilio seguiu para Entre-Rios e procurou Camila.
- Por que mataram tantos dos voluntários? – quis saber.
- Pagaram o pessoal da cadeia para fazer isso, mas já estão eles todos presos também. Vão responder a inquérito, ficamos sabendo.
- Qual a razão?
- Os voluntários descobriram quem foi o traíra do grupo que estava trabalhando a mando dos fazendeiros. Antes de morrer ele entregou todos, deu o nome de todo mundo. Mas a mulher dele denunciou para quem dava dinheiro e então mandaram prender todo mundo. Mas, os que sobreviveram, estão soltos, com os nomes dos que serão executados.
- Mas descambou assim para a violência?
- Está começando a virar um Haiti.
Emilio pediu-lhe então que, com a sua liderança natural, por ser mãe de Tuca, o primeiro mártir, deveria convencer os outros a aguardarem a Justiça do Império reagir. Houve muita repercussão na imprensa, que estava escondendo estas razões, por interesse financeiro, político ou os dois juntos. Mas, se ficasse claro que estava em curso uma guerra de branco contra negro, toda a simpatia que eles tinham poderia desaparecer. Todo o sacrifício de Tuca e sua estratégia iriam por água abaixo. Ela concordou e ficou de chamar os antigos companheiros do filho à sua casa para uma conversa.
Não sabia porém Emilio, que seus passos estavam sendo seguidos. Tomou o trem de volta para o Rio de Janeiro, embarcando junto com várias pessoas na estação de Entre-Rios, que também desceram na estação Central. Tirou o relógio do bolso e viu que se andasse depressa ainda pegaria o último vapor para Mauá. Havia uma aglomeração de pessoas no embarque, pois era sexta-feira e muitos cariocas estavam subindo a serra.
Na estação de Raiz da Serra, ponto de mudança da locomotiva comum para a de cremalheira, correu para o banheiro do lado de fora, pois a operação demorava alguns minutos. Estava entrando na casinha quando sentiu nas suas costas o cano de uma arma e uma voz áspera dizendo entre os dentes:
- Continua andando, branco, até aquele monte de dormentes. Não olhe para trás porque senão vira peneira aqui mesmo.
Emilio sentiu as pernas bambas e concentrou-se em prender a bexiga. Sempre soubera que estava correndo risco, mas não esperava chegar àquele ponto. Enquanto caminhava na direção indicada, seguido de perto por dois homens, rezava em voz baixa – única coisa que poderia fazer diante daquela situação pois não tinha experiência alguma e armas, lutas ou defesa pessoal. Os dois trens apitaram quase simultaneamente, um avisando que estava subindo a serra e o outro descendo em direção ao porto de Mauá. O ponto de troca estava ficando vazio, sem testemunhas.

O barão Ribeiro de Sá levou um susto quando soube que o barão de Entre-Rios batia à sua porta. Quase sempre ele ia até a sede da fazenda do Cantagalo, atendendo a uma convocação. Seu amigo de longa data entrou e estava visivelmente contrariado.
- O pessoal de Vassouras está passando dos limites.
- O que foi, fizeram alguma coisa com o sobrinho do mestre Emilio?
- Não sei. Mandaram-me uma mensagem cifrada, dizendo que ele esteve na casa de Camila hoje, durante todo o dia, mas que dois pistoleiros estavam na sua cola. Viajaram para o Rio de Janeiro com eles.
- Se matarem o rapaz e não fizerem o serviço direito... Se deixarem qualquer pista, do jeito que as coisas estão, as investigações atualmente em curso na Vila de Paraíba do Sul chegarão até onde ninguém quer. Não sei se vou conseguir controlar as coisas não!
- Já liberei muito dinheiro para ninguém saber de nada. Está ficando muito caro. E qual a serventia? São burros os nossos colegas! Não vêm que a hora é de trabalhar nos bastidores. A abolição está decidida, vem de qualquer maneira, o que interessa agora é garantir as indenizações.
- Vamos convocar a liderança de Vassouras para uma reunião aqui, na Vila de Paraíba. Temos que dar um final neste processo!

Bernadete, com o filho mais velho agarrado ao seu avental e com a menina mais nova no colo, olhava o tempo todo pela janela. Passara da hora de Emilio voltar, pois o último trem da serra já havia chegado até a estação. Estava estranhando o comportamento do seu marido nos últimos dias, as suas viagem inesperadas, o seu estado de tensão, mas como fora educada por sua mãe, os assuntos de homem, os problemas de negócio, devem ser por eles mesmos solucionados. Mas, como mulher, com dois filhos pequenos, não deixava de se preocupar. Não poderia supor que Emilio estava naquele mesmo instante com sua imagem e de seus filhos na cabeça, tendo atrás de si dois homens com chapéus enterrados na cabeça, falando entre os dentes:
- Vai em frente, branco. Segue pela linha serra à cima.
- Vamos matar ele onde? – quis saber o outro.
- Vamos achar um ponto aí por cima, deve ter muito barranco alto...
Emilio sentiu que a urina estava querendo sair e não mais se conteve, sentindo a calça ficar empapada. Já havia presenciado esta reação em animais sendo abatidos e, imediatamente pensou que sua hora estava definitivamente chegando.
No primeiro viaduto os cúmplices se perguntaram:
- Está bom aqui, passa fogo que ele rola barranco abaixo...
Emilio sentiu o cano da garrucha na sua coluna forçando-o a continuar caminhando, enquanto o outro gritou:
- Segue para frente, porque tem casas logo embaixo Vamos achar lugar mais ermo.
Na segunda ponte de pedra, que Emilio sabia ser sobre o rio Caioaba, pois dava para ouvir o ruído da água encachoeirada descendo a serra, recebeu ordem de parar. O comparsa do homem armado foi até o beiral da ponte e tentou olhar para baixo, mas a noite estava muito escura.
- Pelo barulho aqui é alto, para mim está um bom lugar.
- Chegou sua hora, branco...
O que sucedeu após esta frase, muito tempo depois Emilio tentava racionalizar, mas nunca encontrou resposta. Sua lembrança também sempre o traiu, pois foram um conjunto de fatos que fugiam à uma explicação lógica. Tudo começou quando sentiu no ar o perfume forte e adocicado do fumo de rolo. A primeira esperança foi de algum trabalhador de linha, fumante, estar se aproximando e o vento ter levado a fumaça na frente. Mas não se ouvia ruído algum a não ser a água na pequena cachoeira.
- Viu isso Tião?
- O que homem?
- O cachorro preto que passou ali correndo.
- Ta com medo, homem?
- Claro que não. Vamos logo dar conta do serviço...
- Olha, agora eu vi, mas o negócio está voando.
- Que negócio, eu não estou vendo nada.
- Tem um negro ali em pé, está todo de branco. Olha lá, na direita tem mais. Estão todos eles olhando para nós.
Emilio olhava para o lado e nada via, mas percebia que alguma coisa estava assustando seus algozes, pois a pressão da arma diminuiu.
- Estão todos vindo para cá. O que vamos fazer.
- Não sei, homem, é muita gente!
- Veja Tião, eles todos estão um palmo acima da linha, estão pisando no ar!
- Não é coisa boa não, vamos dar no pé, companheiro!
Emilio viu os dois correrem linha abaixo, tropeçando na brita e logo depois ouviu o primeiro grito de pavor, seguido segundos depois de outro mais intenso ainda. Em sua volta o forte cheiro de fumo de rolo. Sem olhar para trás, seguiu serra acima, levando uma hora de caminhada até chegar à estação do Alto, a partir de onde era só descida. Durante todo este tempo o cheiro doce da fumaça igual à do cachimbo da velha negra que encontrara em Entre-Rios, junto do córrego Puris no pátio da estação, não deixou de estar à sua volta, como se fosse uma neblina de proteção.

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