Capítulo 18
A Ferrovia de Petrópolis
A Ferrovia de Petrópolis
Considerada uma vitória dos estreitistas, a Cia. Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará, empresa criada para adquirir do Visconde de Mauá sua antiga ferrovia e finalmente chegar ao alto da serra, iria reduzir a bitola de 1.676 mm para 1.000 mm, que permitia melhor inscrição dos equipamentos convencionais nas curvas do trecho de cremalheira, já que não se previa transbordo. Os vagões e carros de passageiros circulariam tanto na linha comum como na linha especial da serra, uma questão que logo estabelecida pelos engenheiros contratados para o projeto: Joaquim Lisboa e Marcelino Ramos da Silva, este ainda jovem, mas que faria longa carreira na ferrovia, implantando linhas por todo o país, mas nenhuma tão desafiante como os seis quilômetros da linha na serra da Estrela.
Da primeira estação, junto ao porto de Mauá, na quota de 4 metros acima do nível do mar, até a estação de Raiz da Serra, 16 quilômetros depois, a linha sobe apenas 44 metros, circulando por terreno plano e alagadiço, com rampa que não excede 1,25% e raios folgados de 290 metros, no mínimo. Mas, para vencer os seis quilômetros até a Rua Tereza, nome que homenageia a Imperatriz, a situação é bem diferente.
Os engenheiros projetaram a linha para seguir pelo vale natural, onde corria o rio Caioaba, pela sua margem esquerda, ou seja, pela encosta direita até o quarto marco quilométrico da linha de cremalheira; atravessando-o numa ponte de pedra, para seguir até o quinto marco pela encosta direita, circundando contrafortes naturais de granito arredondado pela erosão. Durante quase todo o percurso o aclive seria de 15%, os raios de curva sempre com 150 m, devido à padronização imposta pelo sistema de cremalheira de Riggenbach. A partir da estação que seria chamada de Alto da Serra, ponto de quota máxima, superior a 860 metros, a linha passa a ser convencional até a estação final de Petrópolis, 2.782m depois, aonde a rampa de declive chega a 2% e os raios de curva podem ser reduzidos para 90 m. Neste ponto as locomotivas a vapor com sistema de cremalheira, que puxam o trem na subida e servem de freio na descida, são substituídas por locomotivas de simples aderência.
- Pelos meus cálculos, doutor Lisboa, a vigem pela serra pode ser feita em 30 minutos, ou seja, a 12 km/h.
- Ninguém vai andar mais de carruagem pela serra velha, gastando duas horas de viagem.
- Fiz as contas, um sistema ferroviário tradicional, baseado na simples aderência, em rampa batida de 2%, levando o mesmo tempo de viagem, teria que para operar a 80 km/h. Quer saber qual a potência das locomotivas necessária?
- Não, Marcelino, engenheiro deve saber matemática, mas não precisa ficar demonstrando isso o tempo todo!
Estavam previstas nesta linha de serra várias obras de arte, especialmente de drenagem, para evitar que a agressão ao terreno natural, escavado ao longo dos anos pelas enxurradas que descem a serra Estrela, principalmente na época do verão. As três pontes e os dois viadutos representavam os maiores investimentos nos seis quilômetros de ferrovia. Partindo da estação de Raiz da Serra, a primeira obra seria a ponte do Batista, com vão de 8m e 9m de altura em estrutura metálica; a segunda de pedra, atravessaria o rio Caioaba pela primeira vez, com quatro vãos, 20 metros de extensão e altura de 12 metros; a terceira novamente cortaria o Caioaba Mimi em dois arcos, com quatro metros e vão central de 8m e altura de 10m; a quarta obra de arte na seqüência, era a maior, o viaduto da Grota Funda, com vão de 58 metros e altura de 24m e finalmente o próximo viaduto do Bobine, com vão de 33 m dividido em seis partes iguais por cinco pilares de ferro fundido a oito metros de altura. Deste ponto avista-se a baía da Guanabara e num dia límpido observa-se toda a capital do Império do Brasil, que cresce em seu redor.
- Vamos ter muita obra de cantaria, que exigirá profissionais competentes.
- É verdade. Mas não creio que tenhamos dificuldade para encontrá-los, apesar de há muitos anos não se fazer aqui na Província do Rio de Janeiro obras tão desafiadoras, como foi a subida da serra das Araras pela Estrada de Ferro D. Pedro II, que exigiu a abertura de mais de dezesseis túneis até alcançar a margem do Rio Paraíba do Sul.
- Será que conseguiremos encontrar ainda alguns dos que trabalharam na União e Indústria? O falecido comendador Mariano Procópio formou vários artesões alemães e quem sabe alguns antigos ainda estão em forma, mesmo que mais de vinte anos depois?
- Vamos lá, pesquisar estes alemães. Vamos começar primeiro por Petrópolis, pela proximidade da obra. Se nós não encontrarmos ninguém da velha turma teremos que procurar em Juiz de Fora, onde a maioria resolveu se estabelecer.
- Não se misturaram esses alemães, digo os que vieram em 1845, estimulados pelo major Koeller e o mordomo Paulo Barbosa e os que o comendador trouxe, doze anos depois?
- Parece que não. Provavelmente as melhores glebas de Petrópolis já estavam ocupadas e eles preferiram então fundar a nova Colônia São Pedro, também no alto da serra, mas em Juiz de Fora.
- Gostam de serra esses alemães, não é?
- Detestam é o calor, isto sim!
Fazia já um ano que Emilio estava morando em Carracedo, sua terra natal. Precisaria mandar dinheiro para o dono do hotel em Vigo, onde deixara suas esculturas bem guardadas no porão do estabelecimento. Fizera questão de pagar bem para que fossem protegidas como obras de arte, pois se tratava de “verdadeiro tesouro” como disse falando a mais pura verdade, pois no interior dos blocos de pedra que representavam figuras barrocas grotescas, estavam encravadas barras de ouro que soçobraram no Rio Paraibuna quando a mula do ouro se afogou.
Os moradores antigos logo se acostumaram ao novo jeito de Juan, atribuindo suas sutis mudanças de comportamento à falta do neto. Eram também pessoas de espírito recluso, cada um com seus problemas, mas todos da mesma natureza, a ausência de parentes que migraram para outras terras em busca de oportunidades. Desta forma, Emilio programou uma viagem de duas semanas, deixando seu rebanho por conta de vizinhos, devidamente remunerados, e partiu em direção a Vigo. Na sua rota passaria por Ourense, onde teria um destino especial: o antigo bairro judeu da cidade.
Nos últimos meses andara um pouco preocupado, o frio da Galícia comparado com o Brasil parecia não fazer o efeito esperado, pois cada vez mais sentia falta de ar, como se seus pulmões estivessem cheios de pó de granito, ficando cada vez mais duros.
Enquanto viajava, recordava os últimos acontecimentos e as conversas que o levaram àquela solidão, que de modo algum lhe trazia desconforto, pois no próprio Brasil sempre tivera uma vida solitária, já que por não ter se casado, teve que viver sempre por sua conta, resolvendo sozinhos os problemas que surgiam. Mesmo com a proximidade do idioma não lhe parecia fácil a integração com os moradores locais, com costumes tão diferentes, onde tudo era possível e fortunas se faziam e perdiam num piscar de olhos. O sentimento de economia que todos na Galícia cultivavam, pensando em dias piores no futuro (invernos tenebrosos), não era compartilhado pelos brasileiros, um país de eterno verão e onde os escravos, que constituíam grande parte da população só viviam o presente pois o futuro de cada um dependia da vontade do seu dono.
No dia seguinte em que bateu à porta do irmão, raspou a barba e vestiu suas roupas mais largas, ficando mais corpulento, tornando-se idêntico a Juan. Como nunca saíam juntos, passavam um pelo outro com a maior facilidade. O sobrinho-neto, cheio de desejos de aventura, já que o destino dos jovens da Galícia era fazer América e voltar um dia cheio, como o próprio tio-avô, carregado de ouro, estimulou o avô para prosseguir na idéia aparentemente louca, de mais uma vez trocarem de papel.
Na verdade, ponderou Emílio, era como se os dois estivessem tentando recuperar o mesmo tempo perdido: Juan a vida de aventuras, num país em construção e cheio de oportunidades, que o irmão tivera a oportunidade de usufruir; enquanto ele estava atrás da vida pacata de simples pastor, casado Martina,criando filhos, gastando tempo sem fim em leituras, numa Galícia que se cristalizou no tempo.
Ao chegar a Ourense hospedou-se num hotel simples e no dia seguinte foi visitar o bairro judeu. Percorreu as velhas casas e a que morava seu tio estava fechada, com vestígios de estar assim há muito tempo. Continuou caminhando e parou numa pequena loja, tirou a boina ao entrar e se apresentou, cumprimentando em hebraico. Um velho de barbas brancas por trás do balcão levantou os olhos, olhou-o fixamente antes de responde também em hebraico. Mas o vocabulário de Emilio era pobre e ele teve que mudar de idioma para o galego. Descobriu com tristeza que seu tio Prieto há muito morrera e todos os primos haviam imigrado, achava o velho que para os Estados Unidos, onde a colônia judaica não parava de crescer. A casa fora vendida para outros também imigrantes. A última pergunta sobre comerciantes de jóias foi respondida com mais cuidado, quase em segredo. Sim, havia quem comprasse ouro de qualidade, mas funcionando nos fundos de uma sapataria. Haveria uma senha e contra senha, mas aprovado no teste, teria o preço mais justo do que em qualquer outro lugar onde tivesse que justificar a procedência do metal. Ourense, de ouro, mais uma vez justificava o nome dado pelos romanos antes da época cristã.
Na longínqua Paraíba do Sul, um fato que não passou despercebido foi a concessão do título de Segundo Barão de Entre-Rios dado pelo Imperador a Antonio Barroso Pereira, o filho do primeiro barão, no ano de 1877. Por conselho do português Miguel Ribeiro de Sá, o prático fazendeiro inicialmente relutante concordou que o título era importante nas negociações entre seus pares, igualmente membros da nobreza rural. Sua irmã, a Viscondessa, também concordou, pois já estava um processo correndo na Corte que promoveria seu título para Condessa do Rio Novo.
Tuca, morando numa casa de agregado, foi convidado para a festa e vestindo sua melhor roupa não deixou de comparecer. Camila parecia feliz ao lado de seu filho corpulento, com próximos 1,90m de altura, que sobressaía na multidão que assistia à missa de ação de graças celebrada na Capela Nossa Senhora da Piedade, no próprio terreno da fazenda de Cantagalo. No pequeno interior da capela comportavam apenas os convidados especiais, enquanto do lado de fora, centenas de escravos e agregados, provenientes de todas as fazendas próximas que também compareceram, repetiam com dificuldade a liturgia que se passava no interior. Ao final da missa haveria um grande churrasco público, regado a cerveja fabricada em Petrópolis, já que 12 garrotes gordos e 30 capados provenientes da fazenda da Boa União, residência de Antonio Barroso, haviam sido abatidos de véspera e já estavam assando nos grandes braseiros montados sobre o piso do terreiro de secagem de café.
A festa foi até bem tarde, já que a comida farta não poderia faltar nunca, nem que todo o gado do fazendeiro tivesse que ser laçado no pasto. Vários grupos homogêneos se formavam, uns falando de negócios, outros da lavoura e outros, formado por negros e mulatos, abrigados sob a sombra das jabuticabeiras do pomar, era composto de ex-combatente da Guerra do Paraguai. Neste, a postura de Tuca começou a ser debatida, longe de sua presença, que estava em um outro grupo distante, de senhoras, pois Camila fazia questão de estar sempre abraçada ao filho, circulando pela festa com orgulho.
- Com o dinheiro que ele tem, poderia já ter feito alguma coisa pelos irmãos de cor.
- Mulato quando fica rico vira branco...
- Tuca não é desses, é nosso amigo, tem personalidade. Vamos confiar no homem. Tem dinheiro sim, que o espanhol, quem sabe o verdadeiro pai dele deixou antes de voltar para a terrinha. Mas amoitou. Onde? Ninguém sabe. Disse que está esperando a hora certa, feito jararaca no bote. Não é de bater chocalho igual cascavel não!
- Ele escondeu mesmo o dinheiro? – perguntou um negro que também estava no grupo, que outros não conheciam, mas que parecia ser também veterano de guerra.
- Sim, não quis aplicar com o barão não, como o espanhol fazia. Disse que ele ganhava muito em cima. Preferiu deixar debaixo do colchão.
- Debaixo do colchão?
- Modo de dizer, claro. Ele amoitou em algum lugar, ou aplicou na Capital, quando levou o espanhol para embarcar. Ficar dando sopa com aquele dinheirão ele não faria, porque não é besta.
- Mas às vezes está debaixo do colchão sim! – riram todos.
Num outro grupo, de senhores circunspetos, a conversa girava em torno dos apuros financeiros do Visconde de Mauá.
- Já mandou fechar o estaleiro em Ponta da Areia, em Niterói.
- Dizem que o banco Mauá também corre perigo, pode fechar a qualquer momento.
- O banco não; está sólido. Tem muito dinheiro inglês investido ali. É um experiente negociante e, podem ter certeza, vai sair deste pedido de concordata mais rico do que entrou. O Governo Imperial vai lhe dar uma mão, não irão deixar um empreendedor como ele ir à bancarrota.
- Não sei não, pois ganhou muitos inimigos na Corte, por conta da ligação com o Partido Liberal...
- Mas o Imperador é seu amigo, vai ajudar.
- Não creio não, o velho está deixando o governo correr solto. Dizem que só pensa em viajar para o exterior e se o herdeiro do trono não fosse a Princesa, ou seja, se um dos filhos homens, os príncipes Pedro Afonso e o Afonso Pedro estivessem vivos já teria passado o Império para eles.
- Por que não passa para o filho da falecida Princesa Leopoldina? É varão.
- Mas é doido.
- Como doido?
- Puxou pela bisavó, Dona Maria, “a louca”.
- Então a praga que o padre português rogou sobre a dinastia Bragança é verdadeira!
Como acontece nas conversas regadas a bebida alcoólica durantes as festas públicas, muito se fala, muito se ouve, muito se conclui. Na festa de confraternização pelo título de Segundo Barão de Entre-Rios, naquela tarde às margens do Rio Paraíba do Sul também não foi diferente.
A visita dos Pietros da Galícia aos Kling de Petrópolis teve conseqüências inesperadas. Emilio e Juan (Emilio também) quando chegou à casa do alemão Magnus e foi apresentado à numerosa família, não conseguiu tirar os olhos de uma esguia meninota de dezesseis anos, chamada Bernadete. Esticou o máximo seu corpo porque o espanhol, na média, não é tão alto como, também na média, um alemão. Ela parecia ser mais alta do que ele, o que não estava bem dentro do padrão geralmente aceito para um casal. Aproximou-se devagar, criou coragem e perguntou:
- Bernadete não é um nome comum para alemães...
- É por causa da minha madrinha, filha de italianos, que é casada com um tio, irmão de minha mãe.
- Não casam apenas entre alemães?
- Aqui não temos este costume não. Dizem que no Sul e até em Juiz de Fora, onde também houve colonização é assim. Mas aqui não. Em Petrópolis, por causa do Imperador, mora gente de todo lugar do Brasil e até do mundo inteiro...
- Só falta ter alemão casado com mulata.
- Tem muitos, ninguém liga não!
- Pois nós estamos pensando em mudar para esta cidade também, pois meu tio está estranhando o calor do Rio de Janeiro.
- Mas ele não está aqui há muitos anos, como meu pai disse...
- Sim, claro. Mas, depois da doença, deu para sentir um calor excessivo...
- Mudem para cá sim. É uma boa cidade.
O avô e o neto seguiram este conselho e mudaram-se, tornando as visitas à casa dos Kling cada vez mais amiúde, até que o jovem Pietro e Bernadete assumiram diante do gentil Magnus, que estavam de namoro firme. A mãe dela um dia perguntou:
- O rapaz faz o quê, minha filha? Vive de quê?
- Tem economia do avô, dizem.
- Mas isso não é certo. Tem que trabalhar, pegar duro no serviço. Será que é malandro?
- Não, minha mãe. Na Galícia diz que pastoreava, cuidava de criação de ovelhas...
- Aqui não tem disso não, ninguém gosta de comer carne de cabrito, ainda mais carneiro. Mas tem muita vaca. Por que ele não investe em gado como os outros. Podem fabricar queijo, ou criar coelhos...
Colocado diante desta situação, Emilio e o avô resolveram alugar um pequeno sítio, compraram duas dúzias de vacas com bezerros e iniciaram uma fabricação artesanal de queijos, já que os hotéis de Petrópolis, sempre ocupados, garantiam um mercado regular. Foi, portanto, com prazer que o velho Juan voltou a lidar com criações como fizera durante toda sua vida na Galícia. Sentia-se mais feliz, pois a vida de aposentado, sem a cultura necessária para aproveitar as opções que o mercado oferecia, não lhe estava agradando.
- Ainda temos muito ouro, do que o tio Emílio nos deu? – perguntou o neto.
- Quando nós chegamos trocamos uma barra de ouro, que deu para vivermos sem trabalho até agora, mas os mil réis estão se acabando. Temos ainda outras três, formando 750 gramas. Por que pergunta?
- Estou pensando em me casar com Bernadete, gosto dela...
- Vamos então trocar outra, para formar um capital inicial. O pai dela, com certeza, irá ceder um pedaço da gleba dele como dote de casamento. Todos fazem isso por aqui. Mas você não acha que deveríamos escrever uma carta ao seu tio, lá na Galícia, falando desses seus planos. Pode ser que ele não tenha se adaptado...
- Sim, vamos fazer isso. Posso esperar até um ano para concretizar este plano, sem problema algum.
- Fique então noivo, para firmar o compromisso. Esses alemães são desconfiados. Não querem ver ninguém alimentando as lourinhas deles com ilusão, tem que colocar uma aliança no dedo para tranqüilizá-los.
- É uma boa idéia!
Enquanto os espanhóis, dos dois lados do Oceano Atlântico planejavam uma vida simples e pacata, na Vila de Paraíba do Sul, Tuca finalmente concluiu seu plano secreto. Chegara a hora de entrar para a história, tinha dinheiro suficiente para desenvolver as primeiras ações e liderança suficiente junto aos ex-combatentes. Sentou-se então na pequena mesa que dava para a janela, de onde se tinha uma vista das águas barrentas do Rio Paraíba do Sul fluindo lentamente, arrancou uma folha do seu caderno de anotações, que o acompanhava o tempo todo, juntamente com o punhal afiado escondido na bota, começou a redigir uma carta para Galícia, pois estava na hora de ter a parte de seu ouro disponível, pois quando desse início às ações precisaria de muitos recursos.
A segunda parte do plano, que levaria outros três meses, consistiria em percorrer alguns quilombos da Província do Rio de Janeiro, onde sabia moravam também ex-combatentes como ele. O primeiro que visitaria seria na região de Pati do Alferes, onde ainda havia remanescente do Quilombo de Manuel Congo, que seria o símbolo de seu movimento; o segundo a ser pesquisado, também pela proximidade, seria o Quilombo da Serra, em Petrópolis, o terceiro o Quilombo da Serra dos Órgãos, bem debaixo da pedra chamada de Dedo de Deus e, para fechar com chave de ouro, o Quilombo do Lê Blom. Decidido, Tuca foi até a estação de Entre-Rios e pegou o primeiro trem com destino à Corte, planejando descer na estação de Barão de Vassouras. Na própria estação, que fazia serviços de correio para o público, como postagem de carta e envio de telegramas, Tuca entregou sua carta para a Espanha.
Junto da estação havia pontos de charrete e aluguel de animais, para quem não tivesse interesse em utilizar a linha de bonde até o centro da cidade de Vassouras. Tuca conseguiu alugar um animal por uma semana, pois teria uma curta viagem a fazer. O cocheiro responsável não aceitou de primeira, mas diante do maço de notas que foi colocado sobre seu balcão de atendimento, logo concordou. Tuca escolheu um burro alto, pois teria de andar em estradas esburacadas e talvez até subir morros e a este tipo de animal é o mais adequado para tal atividade. A montaria logo sentiu o cavaleiro experiente e rapidamente obedeceu a seu comando. O homem que havia alugado o animal ficou observando-o partir e antes que sumisse na primeira curva do caminho, gritou para outro companheiro:
- Ei Zé, corre aqui antes que o mulato vá embora. Corre!
- Quem? Aquele que segue a meia-marcha montado no burro alto?
- Sim ele mesmo. Não me reconheceu. Mas não é aquele rapaz lá da Vila de Paraíba do Sul que andou envolvido com aquele crime até hoje sem solução perto da estação do Comércio?
- Não vi a cara dele, mas como era? Muito alto?
- Está bem mudado, mas muito alto. Tenho quase certeza. O que estará querendo por estas bandas? Pagou tudo que pedi sem pestanejar – e olha que eu exagerei. Queria o melhor animal por uma semana.
- Acho bom avisar o pessoal lá na fazenda!
- Claro. Se deixarmos passar pode sobrar depois para a gente. Pegue aquela montaria já arreada e vá logo fazer a comunicação. Nossa ordem é ficar atento a qualquer coisa estranha perto da estação de trem, você sabe muito bem. Ficar de olho nos forasteiros que descem na estação e tiram o nosso sossego.
Já era quase o fim do dia quando Tuca finalmente chegou ao local onde existia o Quilombo de Manuel Congo. Começou a indagar sem sucesso até que, de pessoa em pessoa se aproximou de um casebre coberto de palha seca, onde morava um antigo sobrevivente. Como a revolta tinha sido há mais de 40 anos e falar em Manuel Congo em Vassouras era sinal de confusão, Tuca logo percebeu que sua missão não seria tão fácil como planejara. De longe, escondido na vegetação rasteira, dois homens observavam suas andanças, mantendo uma distância suficiente para que não fossem percebidos.
Quando Emilio retornou de Vigo vinha carregado com todas suas esculturas, o que exigiu um grande esforço em subir as escadas com todo aquele peso, ainda mais sabendo que quase trinta quilos de ouro puro encontrava-se no seu interior. Quando colocou a última sobre o assoalho do segundo andar da casa, estava arfando e sentiu a vista ficar escura, parecendo desfalecer.
Ao despertar sentiu o perfume adocicado do fumo de rolo em casa, lembrando-lhe as baforadas da preta velha Donana, com quem há muitos anos não conversava. Provavelmente o esforço fizera seu cérebro misturar velhas lembranças, pois à medida que o ambiente ia ficando normal o perfume desapareceu.
Tinha diante de si um grande problema: onde ocultar aquele tesouro?
Olhando as paredes de pedra da sala, percebeu que com a sua habilidade de canteiro poderia perfeita deslocar algumas, escava-las e inserir os lingotes de ouro por dentro da parede e depois recolocar a pedra no lugar, sem deixar vestígio algum. Procurou grandes blocos mais até a um metro do nível do piso e de imediato identificou seis blocos. Juntou as ferramentas necessárias e pôs-se a trabalhar.
Em quinze dias estava tudo preparado para ocultar todas os 112 lingotes, que corresponderiam a 28 quilos de ouro puro, 24 quilates, oculto em uma casa de pedra de mais de 300 anos, que não valeria nem um quarto de um único lingote. Porém, um pensamento veloz passou por sua cabeça, quem poderia saber deste tesouro oculto? Fazer um mapa e enviar por carta era um risco demasiadamente grande. Além disso, metade pertencia a Tuca o restante era dele mesmo, fruto de seu trabalho. Poderia deixar para o irmão e o sobrinho, porém como legalizar isto? Como não lhe ocorria idéia alguma, decidiu deixar três esculturas, cada uma com dez lingotes de ouro, o que totalizava dois quilos e meio – um bom dinheiro, sem dúvida alguma. Caso morresse de repente, Emilio poderia descobrir onde este ouro estava, bastava quebrar as esculturas. Guardaria o restante, deixando, entretanto uma sutil pista, como um enigma, se eles fossem inteligentes achariam tudo.
Como ao terminar o serviço estava arfando, atribuiu a falta de ar ao pó fino da pedra macia que seus instrumentos de canteiro cortaram com delicadeza para criar encaixes perfeitos.
A crise que se anunciava há alguns anos nos empreendimentos do Visconde de Mauá, explodiu em 1877 quando o Tribunal de Justiça determinou que o processo do empresário contra os operadores ingleses da São Paulo Railway deveria ser julgado em Londres e não no Brasil. Transferido de tribunal, os interesses ingleses prevaleceram e o Visconde de Mauá deixou de receber a dívida que julgava de direito, uma grande fortuna que para vários financistas ingleses entre eles o Barão Rothschild, o maior banqueiro do mundo. Imediatamente todo frágil apoio que ainda possuía na praça do Rio se esvaiu e o maior empreender brasileiro foi à falência, entregando todos seus bens, inclusive pessoais – como a anel da sua mulher que foi retirado do dedo e entregue a um oficial de justiça. Amigos do Visconde de Mauá procuraram o Imperador, pois acreditavam que ele teria autoridade suficiente para impedir outra quebra da soberania nacional por parte dos ingleses. Mas a situação era outra após os pesados endividamentos realizados na Inglaterra por conta da Guerra do Paraguai. Após ouvir as argumentações, o Imperador ponderou:
- Segundo Platão, que foi discípulo e amigo de Sócrates, que nada deixou escrito, este dizia: o mal corresponde à ignorância. A lei é que permite o homem ser bom. E, o homem bom é o homem sábio, aquele capaz de reconhecer sua própria ignorância...
Os interlocutores ficaram aguardando enquanto o Imperador cofiava a barba grisalha procurando relembrar textos gregos que ia traduzindo de memória.
- Expressou esta verdade quando disse: “Tudo que sei é que nada sei!” O cumprimento das leis, justas ou não, é dever do homem justo, para não dar mau exemplo e justificativa ao homem injusto. O cumprimento das leis vigentes é sempre preferível à anarquia. Sabem como morreu Sócrates?
- Sim majestade...
- Morreu cumprindo a lei extremamente severa para uma acusação fútil: estar corrompendo a juventude com suas idéias. Poderia pedir clemência. Mas, se a lei exigia que tomasse cicuta, ainda que fosse uma lei injusta, por coerência deveria cumpri-la. Não aceitou conselhos de ninguém e diante do carrasco incrédulo sorveu todo o líquido verde que lhe foi oferecido numa taça de ouro.
- Mas a justiça, Majestade...
- A maior de todas as justiças não é a dos homens, mas a divina, a da história, assim pensava Sócrates... e estava certo. O Visconde pode ter sido julgado por um juiz que seguiu uma lei, que pode até ser considerada injusta, mas era a Lei. Como Sócrates, nada pode se feito para ajudar o Visconde, que merece toda a consideração do Império, mas o Imperador não está acima das leis. Ele terá um julgamento justo pela história e espero também por Deus.
Cabisbaixos os emissários de Mauá deixaram a sala de audiências. Um deles, do lado de fora comentou:
- Acho que a prognóstico que fizeram sobre ele na última viagem ao Egito, de Rei Filósofo subiu à cabeça dele.
- Tem razão. Não vai muito longe um Império governado por filósofo!
Num dia absolutamente igual a tanto outros em Carracedo, Juan foi avisado da chegada de duas cartas provenientes do Brasil para o seu endereço, mas com destinatários diferentes. A primeira dirigida a Juan e a segunda a Emilio.
- A outra deve ser uma para o meu neto, que se chama Emilio.
- Mas o sobrenome está diferente...
- Erraram, mas é para ele sem dúvida alguma, pois confirma parte do nome e o endereço. Posso encaminhar para ele novamente.
Depois de alguns minutos em dúvida o agente dos Correios entregou as duas cartas a Emilio que logo voltou para casa. A primeira, destinada a Juan, vinha de Petrópolis e ao lê-la viu que seu sobrinho-neto estava pretendendo se casar como uma Kling. Sorriu satisfeito ao se lembrar do desespero do jovem Magnus quando viu seu pai Karl esmagado pela árvore e a satisfação, dias depois, de ter conseguido uma colocação para todos nas obras da estrada de Mariano Procópio. A segunda carta gerou mais preocupação, pois deveria ficar atento para enviar uma grande quantidade de ouro para o Brasil a pedido de Tuca. Por telegrama ele confirmaria a quantidade e o endereço para onde enviar o dinheiro.
O ouro estava bem escondido e, então, ele pensou: e se algo me acontecesse? Quem saberia que sou apenas um fiel depositário de uma fortuna que não me pertence já que foi Tuca quem, arriscando a vida num mergulho profundo nas águas revoltas do Rio Paraibuna, conseguiu descobrir onde estava sepultada a lendária mula do ouro? Sendo um homem solitário, poderia ser vítima de um mal súbito e sem poder avisar aos parentes, a casa poderia ir a leilão, ser demolida...
No dia seguinte, munido de uma bolsa com grande quantidade de pesetas, Emilio procurou o Ayuntamento em A Veiga, o maior povoado entre todos da região que centralizava as questões administrativas, equivalente a prefeitura regional. Fez uma proposta inusitada ao funcionário: queria pagar, por antecipação, todos os impostos da casa por um prazo de dez anos.
- Mas isto nunca foi feito antes, por que, meu senhor? – quis saber o atendente.
- Gostaria de preservar esta residência que pertenceu a meus pais por, pelo menos, dez anos. Meus parentes imigraram para América e, se eu vier a faltar, não gostaria que a casa fosse a leilão por falta de pagamento de impostos.
- O senhor está abrindo uma exceção que não sei como resolver. Mas, não posso deixar de aceitar o pagamento, claro. Darei um recibo correspondente e o senhor trate de registrá-lo legalmente, porque também o faremos. Consulte um advogado para ter segurança de que seu desejo será atendido. Dez anos é um prazo muito longo para a política.
- Eu fico muito agradecido pela compreensão.
- E eu, senhor Juan, fico estupefato: ninguém poderia esperar tal atitude de um espanhol! O senhor está sóbrio, não está?
O quilombo de Petrópolis não era muito grande, mas situado no alto da serra, o melhor caminho era seguir pelo bairro da Mosela. Foi esta a decisão de Tuca quando ao descer na última estação de muda da União e Indústria alugou o animal no ponto terminal das carruagens da União e Indústria, que ainda circulavam com passageiros. Escolheu novamente um burro alto, pois se a estrada fosse igual à de Pati do Alferes andaria muito por trechos perigosos. Já havia caminhado bem meia hora quando avistou um homem de idade conduzindo uma carroça carregada de latões de leite. Não tinha dúvida, estava de diante do mestre Emilio Pietro. Gritou com todos os pulmões:
- Mestre Emílio, mestre Emílio!
O homem freou a carroça e ficou olhando na sua direção, aparentemente sem conhecê-lo. Tuca se aproximou olhando atentamente e não teve dúvida: não poderia ser outra pessoa!
- Mandei uma carta para o senhor na Espanha, mas está aqui?
- Eu fiquei doente... – começou Juan, recitando a ladainha que utilizava sempre que algum antigo conhecido do irmão o interpelava.
- Eu vou precisar do ouro que está guardando. Por que o senhor não me avisou logo que voltou da Espanha?
Juan percebeu que tinha um grande problema pela frente, pois nunca antes alguém se referira ao ouro que havia viabilizado sua viagem e a nova vida que estavam desfrutando. Lamentou não estar com o neto ao lado, que poderia ajudá-lo a sair desta enrascada. Sem saber o que fazer, Juan começou a falar, na maior velocidade possível e num dialeto carregado, o galego da divisa com a Castilla y Leon, entremeado de termos em castelhano, o que provocou de imediato uma expressão de espanto do rapaz de olhos verdes e estatura elevada parado à sua frente.
- Não compreendo nada do que diz – repetiu ele várias vezes.
Retornando para casa, depois do inusitado encontro com o mestre espanhol, que apesar de todo seu esforço parecia não reconhecê-lo, Tuca caminhava intrigado. Durante toda a viagem de Petrópolis até Entre-Rios, que durara seis horas não conseguiu encontrar uma explicação convincente para a atitude do mestre Emilio. Parecia outra pessoa. Porém vira o mestre Emilio embarcar no navio, a sua honestidade era reconhecida por todos. O homem que avistaram não esbanjava riqueza, parecendo ser um trabalhador comum. Forçando a memória, não tinha dúvidas, fisicamente era ele, o mestre Emilio, embora a personalidade parecesse ser de outra pessoa. Será que o ouro teria o poder de abalar as mais sólidas convicções?
Envolvo nesses pensamentos, não percebeu Tuca ao caminhar da estação de muda de mulas da União e Indústria de Entre Rios, até sua casa na fazenda do Cantagalo, a meia légua de distância, que seus seguidores há cerca de um mês estavam cada vez mais próximos. Quando o ruído dos passos à suas costas o fez voltar-se para trás, teve pouco tempo para reagir. Mas, acertou logo um soco no primeiro homem e rapidamente puxou o punhal afiado escondido na da bota para enfrentar o segundo. Porém, o terceiro, mais distante estava apontando uma arma de fogo em sua direção. Viu o clarão do estampido da garrucha, sentiu pontadas por todo o peito, concluindo rapidamente trata-se de uma cartucheira e logo tudo foi ficando escuro, ficando escuro...
Da primeira estação, junto ao porto de Mauá, na quota de 4 metros acima do nível do mar, até a estação de Raiz da Serra, 16 quilômetros depois, a linha sobe apenas 44 metros, circulando por terreno plano e alagadiço, com rampa que não excede 1,25% e raios folgados de 290 metros, no mínimo. Mas, para vencer os seis quilômetros até a Rua Tereza, nome que homenageia a Imperatriz, a situação é bem diferente.
Os engenheiros projetaram a linha para seguir pelo vale natural, onde corria o rio Caioaba, pela sua margem esquerda, ou seja, pela encosta direita até o quarto marco quilométrico da linha de cremalheira; atravessando-o numa ponte de pedra, para seguir até o quinto marco pela encosta direita, circundando contrafortes naturais de granito arredondado pela erosão. Durante quase todo o percurso o aclive seria de 15%, os raios de curva sempre com 150 m, devido à padronização imposta pelo sistema de cremalheira de Riggenbach. A partir da estação que seria chamada de Alto da Serra, ponto de quota máxima, superior a 860 metros, a linha passa a ser convencional até a estação final de Petrópolis, 2.782m depois, aonde a rampa de declive chega a 2% e os raios de curva podem ser reduzidos para 90 m. Neste ponto as locomotivas a vapor com sistema de cremalheira, que puxam o trem na subida e servem de freio na descida, são substituídas por locomotivas de simples aderência.
- Pelos meus cálculos, doutor Lisboa, a vigem pela serra pode ser feita em 30 minutos, ou seja, a 12 km/h.
- Ninguém vai andar mais de carruagem pela serra velha, gastando duas horas de viagem.
- Fiz as contas, um sistema ferroviário tradicional, baseado na simples aderência, em rampa batida de 2%, levando o mesmo tempo de viagem, teria que para operar a 80 km/h. Quer saber qual a potência das locomotivas necessária?
- Não, Marcelino, engenheiro deve saber matemática, mas não precisa ficar demonstrando isso o tempo todo!
Estavam previstas nesta linha de serra várias obras de arte, especialmente de drenagem, para evitar que a agressão ao terreno natural, escavado ao longo dos anos pelas enxurradas que descem a serra Estrela, principalmente na época do verão. As três pontes e os dois viadutos representavam os maiores investimentos nos seis quilômetros de ferrovia. Partindo da estação de Raiz da Serra, a primeira obra seria a ponte do Batista, com vão de 8m e 9m de altura em estrutura metálica; a segunda de pedra, atravessaria o rio Caioaba pela primeira vez, com quatro vãos, 20 metros de extensão e altura de 12 metros; a terceira novamente cortaria o Caioaba Mimi em dois arcos, com quatro metros e vão central de 8m e altura de 10m; a quarta obra de arte na seqüência, era a maior, o viaduto da Grota Funda, com vão de 58 metros e altura de 24m e finalmente o próximo viaduto do Bobine, com vão de 33 m dividido em seis partes iguais por cinco pilares de ferro fundido a oito metros de altura. Deste ponto avista-se a baía da Guanabara e num dia límpido observa-se toda a capital do Império do Brasil, que cresce em seu redor.
- Vamos ter muita obra de cantaria, que exigirá profissionais competentes.
- É verdade. Mas não creio que tenhamos dificuldade para encontrá-los, apesar de há muitos anos não se fazer aqui na Província do Rio de Janeiro obras tão desafiadoras, como foi a subida da serra das Araras pela Estrada de Ferro D. Pedro II, que exigiu a abertura de mais de dezesseis túneis até alcançar a margem do Rio Paraíba do Sul.
- Será que conseguiremos encontrar ainda alguns dos que trabalharam na União e Indústria? O falecido comendador Mariano Procópio formou vários artesões alemães e quem sabe alguns antigos ainda estão em forma, mesmo que mais de vinte anos depois?
- Vamos lá, pesquisar estes alemães. Vamos começar primeiro por Petrópolis, pela proximidade da obra. Se nós não encontrarmos ninguém da velha turma teremos que procurar em Juiz de Fora, onde a maioria resolveu se estabelecer.
- Não se misturaram esses alemães, digo os que vieram em 1845, estimulados pelo major Koeller e o mordomo Paulo Barbosa e os que o comendador trouxe, doze anos depois?
- Parece que não. Provavelmente as melhores glebas de Petrópolis já estavam ocupadas e eles preferiram então fundar a nova Colônia São Pedro, também no alto da serra, mas em Juiz de Fora.
- Gostam de serra esses alemães, não é?
- Detestam é o calor, isto sim!
Fazia já um ano que Emilio estava morando em Carracedo, sua terra natal. Precisaria mandar dinheiro para o dono do hotel em Vigo, onde deixara suas esculturas bem guardadas no porão do estabelecimento. Fizera questão de pagar bem para que fossem protegidas como obras de arte, pois se tratava de “verdadeiro tesouro” como disse falando a mais pura verdade, pois no interior dos blocos de pedra que representavam figuras barrocas grotescas, estavam encravadas barras de ouro que soçobraram no Rio Paraibuna quando a mula do ouro se afogou.
Os moradores antigos logo se acostumaram ao novo jeito de Juan, atribuindo suas sutis mudanças de comportamento à falta do neto. Eram também pessoas de espírito recluso, cada um com seus problemas, mas todos da mesma natureza, a ausência de parentes que migraram para outras terras em busca de oportunidades. Desta forma, Emilio programou uma viagem de duas semanas, deixando seu rebanho por conta de vizinhos, devidamente remunerados, e partiu em direção a Vigo. Na sua rota passaria por Ourense, onde teria um destino especial: o antigo bairro judeu da cidade.
Nos últimos meses andara um pouco preocupado, o frio da Galícia comparado com o Brasil parecia não fazer o efeito esperado, pois cada vez mais sentia falta de ar, como se seus pulmões estivessem cheios de pó de granito, ficando cada vez mais duros.
Enquanto viajava, recordava os últimos acontecimentos e as conversas que o levaram àquela solidão, que de modo algum lhe trazia desconforto, pois no próprio Brasil sempre tivera uma vida solitária, já que por não ter se casado, teve que viver sempre por sua conta, resolvendo sozinhos os problemas que surgiam. Mesmo com a proximidade do idioma não lhe parecia fácil a integração com os moradores locais, com costumes tão diferentes, onde tudo era possível e fortunas se faziam e perdiam num piscar de olhos. O sentimento de economia que todos na Galícia cultivavam, pensando em dias piores no futuro (invernos tenebrosos), não era compartilhado pelos brasileiros, um país de eterno verão e onde os escravos, que constituíam grande parte da população só viviam o presente pois o futuro de cada um dependia da vontade do seu dono.
No dia seguinte em que bateu à porta do irmão, raspou a barba e vestiu suas roupas mais largas, ficando mais corpulento, tornando-se idêntico a Juan. Como nunca saíam juntos, passavam um pelo outro com a maior facilidade. O sobrinho-neto, cheio de desejos de aventura, já que o destino dos jovens da Galícia era fazer América e voltar um dia cheio, como o próprio tio-avô, carregado de ouro, estimulou o avô para prosseguir na idéia aparentemente louca, de mais uma vez trocarem de papel.
Na verdade, ponderou Emílio, era como se os dois estivessem tentando recuperar o mesmo tempo perdido: Juan a vida de aventuras, num país em construção e cheio de oportunidades, que o irmão tivera a oportunidade de usufruir; enquanto ele estava atrás da vida pacata de simples pastor, casado Martina,criando filhos, gastando tempo sem fim em leituras, numa Galícia que se cristalizou no tempo.
Ao chegar a Ourense hospedou-se num hotel simples e no dia seguinte foi visitar o bairro judeu. Percorreu as velhas casas e a que morava seu tio estava fechada, com vestígios de estar assim há muito tempo. Continuou caminhando e parou numa pequena loja, tirou a boina ao entrar e se apresentou, cumprimentando em hebraico. Um velho de barbas brancas por trás do balcão levantou os olhos, olhou-o fixamente antes de responde também em hebraico. Mas o vocabulário de Emilio era pobre e ele teve que mudar de idioma para o galego. Descobriu com tristeza que seu tio Prieto há muito morrera e todos os primos haviam imigrado, achava o velho que para os Estados Unidos, onde a colônia judaica não parava de crescer. A casa fora vendida para outros também imigrantes. A última pergunta sobre comerciantes de jóias foi respondida com mais cuidado, quase em segredo. Sim, havia quem comprasse ouro de qualidade, mas funcionando nos fundos de uma sapataria. Haveria uma senha e contra senha, mas aprovado no teste, teria o preço mais justo do que em qualquer outro lugar onde tivesse que justificar a procedência do metal. Ourense, de ouro, mais uma vez justificava o nome dado pelos romanos antes da época cristã.
Na longínqua Paraíba do Sul, um fato que não passou despercebido foi a concessão do título de Segundo Barão de Entre-Rios dado pelo Imperador a Antonio Barroso Pereira, o filho do primeiro barão, no ano de 1877. Por conselho do português Miguel Ribeiro de Sá, o prático fazendeiro inicialmente relutante concordou que o título era importante nas negociações entre seus pares, igualmente membros da nobreza rural. Sua irmã, a Viscondessa, também concordou, pois já estava um processo correndo na Corte que promoveria seu título para Condessa do Rio Novo.
Tuca, morando numa casa de agregado, foi convidado para a festa e vestindo sua melhor roupa não deixou de comparecer. Camila parecia feliz ao lado de seu filho corpulento, com próximos 1,90m de altura, que sobressaía na multidão que assistia à missa de ação de graças celebrada na Capela Nossa Senhora da Piedade, no próprio terreno da fazenda de Cantagalo. No pequeno interior da capela comportavam apenas os convidados especiais, enquanto do lado de fora, centenas de escravos e agregados, provenientes de todas as fazendas próximas que também compareceram, repetiam com dificuldade a liturgia que se passava no interior. Ao final da missa haveria um grande churrasco público, regado a cerveja fabricada em Petrópolis, já que 12 garrotes gordos e 30 capados provenientes da fazenda da Boa União, residência de Antonio Barroso, haviam sido abatidos de véspera e já estavam assando nos grandes braseiros montados sobre o piso do terreiro de secagem de café.
A festa foi até bem tarde, já que a comida farta não poderia faltar nunca, nem que todo o gado do fazendeiro tivesse que ser laçado no pasto. Vários grupos homogêneos se formavam, uns falando de negócios, outros da lavoura e outros, formado por negros e mulatos, abrigados sob a sombra das jabuticabeiras do pomar, era composto de ex-combatente da Guerra do Paraguai. Neste, a postura de Tuca começou a ser debatida, longe de sua presença, que estava em um outro grupo distante, de senhoras, pois Camila fazia questão de estar sempre abraçada ao filho, circulando pela festa com orgulho.
- Com o dinheiro que ele tem, poderia já ter feito alguma coisa pelos irmãos de cor.
- Mulato quando fica rico vira branco...
- Tuca não é desses, é nosso amigo, tem personalidade. Vamos confiar no homem. Tem dinheiro sim, que o espanhol, quem sabe o verdadeiro pai dele deixou antes de voltar para a terrinha. Mas amoitou. Onde? Ninguém sabe. Disse que está esperando a hora certa, feito jararaca no bote. Não é de bater chocalho igual cascavel não!
- Ele escondeu mesmo o dinheiro? – perguntou um negro que também estava no grupo, que outros não conheciam, mas que parecia ser também veterano de guerra.
- Sim, não quis aplicar com o barão não, como o espanhol fazia. Disse que ele ganhava muito em cima. Preferiu deixar debaixo do colchão.
- Debaixo do colchão?
- Modo de dizer, claro. Ele amoitou em algum lugar, ou aplicou na Capital, quando levou o espanhol para embarcar. Ficar dando sopa com aquele dinheirão ele não faria, porque não é besta.
- Mas às vezes está debaixo do colchão sim! – riram todos.
Num outro grupo, de senhores circunspetos, a conversa girava em torno dos apuros financeiros do Visconde de Mauá.
- Já mandou fechar o estaleiro em Ponta da Areia, em Niterói.
- Dizem que o banco Mauá também corre perigo, pode fechar a qualquer momento.
- O banco não; está sólido. Tem muito dinheiro inglês investido ali. É um experiente negociante e, podem ter certeza, vai sair deste pedido de concordata mais rico do que entrou. O Governo Imperial vai lhe dar uma mão, não irão deixar um empreendedor como ele ir à bancarrota.
- Não sei não, pois ganhou muitos inimigos na Corte, por conta da ligação com o Partido Liberal...
- Mas o Imperador é seu amigo, vai ajudar.
- Não creio não, o velho está deixando o governo correr solto. Dizem que só pensa em viajar para o exterior e se o herdeiro do trono não fosse a Princesa, ou seja, se um dos filhos homens, os príncipes Pedro Afonso e o Afonso Pedro estivessem vivos já teria passado o Império para eles.
- Por que não passa para o filho da falecida Princesa Leopoldina? É varão.
- Mas é doido.
- Como doido?
- Puxou pela bisavó, Dona Maria, “a louca”.
- Então a praga que o padre português rogou sobre a dinastia Bragança é verdadeira!
Como acontece nas conversas regadas a bebida alcoólica durantes as festas públicas, muito se fala, muito se ouve, muito se conclui. Na festa de confraternização pelo título de Segundo Barão de Entre-Rios, naquela tarde às margens do Rio Paraíba do Sul também não foi diferente.
A visita dos Pietros da Galícia aos Kling de Petrópolis teve conseqüências inesperadas. Emilio e Juan (Emilio também) quando chegou à casa do alemão Magnus e foi apresentado à numerosa família, não conseguiu tirar os olhos de uma esguia meninota de dezesseis anos, chamada Bernadete. Esticou o máximo seu corpo porque o espanhol, na média, não é tão alto como, também na média, um alemão. Ela parecia ser mais alta do que ele, o que não estava bem dentro do padrão geralmente aceito para um casal. Aproximou-se devagar, criou coragem e perguntou:
- Bernadete não é um nome comum para alemães...
- É por causa da minha madrinha, filha de italianos, que é casada com um tio, irmão de minha mãe.
- Não casam apenas entre alemães?
- Aqui não temos este costume não. Dizem que no Sul e até em Juiz de Fora, onde também houve colonização é assim. Mas aqui não. Em Petrópolis, por causa do Imperador, mora gente de todo lugar do Brasil e até do mundo inteiro...
- Só falta ter alemão casado com mulata.
- Tem muitos, ninguém liga não!
- Pois nós estamos pensando em mudar para esta cidade também, pois meu tio está estranhando o calor do Rio de Janeiro.
- Mas ele não está aqui há muitos anos, como meu pai disse...
- Sim, claro. Mas, depois da doença, deu para sentir um calor excessivo...
- Mudem para cá sim. É uma boa cidade.
O avô e o neto seguiram este conselho e mudaram-se, tornando as visitas à casa dos Kling cada vez mais amiúde, até que o jovem Pietro e Bernadete assumiram diante do gentil Magnus, que estavam de namoro firme. A mãe dela um dia perguntou:
- O rapaz faz o quê, minha filha? Vive de quê?
- Tem economia do avô, dizem.
- Mas isso não é certo. Tem que trabalhar, pegar duro no serviço. Será que é malandro?
- Não, minha mãe. Na Galícia diz que pastoreava, cuidava de criação de ovelhas...
- Aqui não tem disso não, ninguém gosta de comer carne de cabrito, ainda mais carneiro. Mas tem muita vaca. Por que ele não investe em gado como os outros. Podem fabricar queijo, ou criar coelhos...
Colocado diante desta situação, Emilio e o avô resolveram alugar um pequeno sítio, compraram duas dúzias de vacas com bezerros e iniciaram uma fabricação artesanal de queijos, já que os hotéis de Petrópolis, sempre ocupados, garantiam um mercado regular. Foi, portanto, com prazer que o velho Juan voltou a lidar com criações como fizera durante toda sua vida na Galícia. Sentia-se mais feliz, pois a vida de aposentado, sem a cultura necessária para aproveitar as opções que o mercado oferecia, não lhe estava agradando.
- Ainda temos muito ouro, do que o tio Emílio nos deu? – perguntou o neto.
- Quando nós chegamos trocamos uma barra de ouro, que deu para vivermos sem trabalho até agora, mas os mil réis estão se acabando. Temos ainda outras três, formando 750 gramas. Por que pergunta?
- Estou pensando em me casar com Bernadete, gosto dela...
- Vamos então trocar outra, para formar um capital inicial. O pai dela, com certeza, irá ceder um pedaço da gleba dele como dote de casamento. Todos fazem isso por aqui. Mas você não acha que deveríamos escrever uma carta ao seu tio, lá na Galícia, falando desses seus planos. Pode ser que ele não tenha se adaptado...
- Sim, vamos fazer isso. Posso esperar até um ano para concretizar este plano, sem problema algum.
- Fique então noivo, para firmar o compromisso. Esses alemães são desconfiados. Não querem ver ninguém alimentando as lourinhas deles com ilusão, tem que colocar uma aliança no dedo para tranqüilizá-los.
- É uma boa idéia!
Enquanto os espanhóis, dos dois lados do Oceano Atlântico planejavam uma vida simples e pacata, na Vila de Paraíba do Sul, Tuca finalmente concluiu seu plano secreto. Chegara a hora de entrar para a história, tinha dinheiro suficiente para desenvolver as primeiras ações e liderança suficiente junto aos ex-combatentes. Sentou-se então na pequena mesa que dava para a janela, de onde se tinha uma vista das águas barrentas do Rio Paraíba do Sul fluindo lentamente, arrancou uma folha do seu caderno de anotações, que o acompanhava o tempo todo, juntamente com o punhal afiado escondido na bota, começou a redigir uma carta para Galícia, pois estava na hora de ter a parte de seu ouro disponível, pois quando desse início às ações precisaria de muitos recursos.
A segunda parte do plano, que levaria outros três meses, consistiria em percorrer alguns quilombos da Província do Rio de Janeiro, onde sabia moravam também ex-combatentes como ele. O primeiro que visitaria seria na região de Pati do Alferes, onde ainda havia remanescente do Quilombo de Manuel Congo, que seria o símbolo de seu movimento; o segundo a ser pesquisado, também pela proximidade, seria o Quilombo da Serra, em Petrópolis, o terceiro o Quilombo da Serra dos Órgãos, bem debaixo da pedra chamada de Dedo de Deus e, para fechar com chave de ouro, o Quilombo do Lê Blom. Decidido, Tuca foi até a estação de Entre-Rios e pegou o primeiro trem com destino à Corte, planejando descer na estação de Barão de Vassouras. Na própria estação, que fazia serviços de correio para o público, como postagem de carta e envio de telegramas, Tuca entregou sua carta para a Espanha.
Junto da estação havia pontos de charrete e aluguel de animais, para quem não tivesse interesse em utilizar a linha de bonde até o centro da cidade de Vassouras. Tuca conseguiu alugar um animal por uma semana, pois teria uma curta viagem a fazer. O cocheiro responsável não aceitou de primeira, mas diante do maço de notas que foi colocado sobre seu balcão de atendimento, logo concordou. Tuca escolheu um burro alto, pois teria de andar em estradas esburacadas e talvez até subir morros e a este tipo de animal é o mais adequado para tal atividade. A montaria logo sentiu o cavaleiro experiente e rapidamente obedeceu a seu comando. O homem que havia alugado o animal ficou observando-o partir e antes que sumisse na primeira curva do caminho, gritou para outro companheiro:
- Ei Zé, corre aqui antes que o mulato vá embora. Corre!
- Quem? Aquele que segue a meia-marcha montado no burro alto?
- Sim ele mesmo. Não me reconheceu. Mas não é aquele rapaz lá da Vila de Paraíba do Sul que andou envolvido com aquele crime até hoje sem solução perto da estação do Comércio?
- Não vi a cara dele, mas como era? Muito alto?
- Está bem mudado, mas muito alto. Tenho quase certeza. O que estará querendo por estas bandas? Pagou tudo que pedi sem pestanejar – e olha que eu exagerei. Queria o melhor animal por uma semana.
- Acho bom avisar o pessoal lá na fazenda!
- Claro. Se deixarmos passar pode sobrar depois para a gente. Pegue aquela montaria já arreada e vá logo fazer a comunicação. Nossa ordem é ficar atento a qualquer coisa estranha perto da estação de trem, você sabe muito bem. Ficar de olho nos forasteiros que descem na estação e tiram o nosso sossego.
Já era quase o fim do dia quando Tuca finalmente chegou ao local onde existia o Quilombo de Manuel Congo. Começou a indagar sem sucesso até que, de pessoa em pessoa se aproximou de um casebre coberto de palha seca, onde morava um antigo sobrevivente. Como a revolta tinha sido há mais de 40 anos e falar em Manuel Congo em Vassouras era sinal de confusão, Tuca logo percebeu que sua missão não seria tão fácil como planejara. De longe, escondido na vegetação rasteira, dois homens observavam suas andanças, mantendo uma distância suficiente para que não fossem percebidos.
Quando Emilio retornou de Vigo vinha carregado com todas suas esculturas, o que exigiu um grande esforço em subir as escadas com todo aquele peso, ainda mais sabendo que quase trinta quilos de ouro puro encontrava-se no seu interior. Quando colocou a última sobre o assoalho do segundo andar da casa, estava arfando e sentiu a vista ficar escura, parecendo desfalecer.
Ao despertar sentiu o perfume adocicado do fumo de rolo em casa, lembrando-lhe as baforadas da preta velha Donana, com quem há muitos anos não conversava. Provavelmente o esforço fizera seu cérebro misturar velhas lembranças, pois à medida que o ambiente ia ficando normal o perfume desapareceu.
Tinha diante de si um grande problema: onde ocultar aquele tesouro?
Olhando as paredes de pedra da sala, percebeu que com a sua habilidade de canteiro poderia perfeita deslocar algumas, escava-las e inserir os lingotes de ouro por dentro da parede e depois recolocar a pedra no lugar, sem deixar vestígio algum. Procurou grandes blocos mais até a um metro do nível do piso e de imediato identificou seis blocos. Juntou as ferramentas necessárias e pôs-se a trabalhar.
Em quinze dias estava tudo preparado para ocultar todas os 112 lingotes, que corresponderiam a 28 quilos de ouro puro, 24 quilates, oculto em uma casa de pedra de mais de 300 anos, que não valeria nem um quarto de um único lingote. Porém, um pensamento veloz passou por sua cabeça, quem poderia saber deste tesouro oculto? Fazer um mapa e enviar por carta era um risco demasiadamente grande. Além disso, metade pertencia a Tuca o restante era dele mesmo, fruto de seu trabalho. Poderia deixar para o irmão e o sobrinho, porém como legalizar isto? Como não lhe ocorria idéia alguma, decidiu deixar três esculturas, cada uma com dez lingotes de ouro, o que totalizava dois quilos e meio – um bom dinheiro, sem dúvida alguma. Caso morresse de repente, Emilio poderia descobrir onde este ouro estava, bastava quebrar as esculturas. Guardaria o restante, deixando, entretanto uma sutil pista, como um enigma, se eles fossem inteligentes achariam tudo.
Como ao terminar o serviço estava arfando, atribuiu a falta de ar ao pó fino da pedra macia que seus instrumentos de canteiro cortaram com delicadeza para criar encaixes perfeitos.
A crise que se anunciava há alguns anos nos empreendimentos do Visconde de Mauá, explodiu em 1877 quando o Tribunal de Justiça determinou que o processo do empresário contra os operadores ingleses da São Paulo Railway deveria ser julgado em Londres e não no Brasil. Transferido de tribunal, os interesses ingleses prevaleceram e o Visconde de Mauá deixou de receber a dívida que julgava de direito, uma grande fortuna que para vários financistas ingleses entre eles o Barão Rothschild, o maior banqueiro do mundo. Imediatamente todo frágil apoio que ainda possuía na praça do Rio se esvaiu e o maior empreender brasileiro foi à falência, entregando todos seus bens, inclusive pessoais – como a anel da sua mulher que foi retirado do dedo e entregue a um oficial de justiça. Amigos do Visconde de Mauá procuraram o Imperador, pois acreditavam que ele teria autoridade suficiente para impedir outra quebra da soberania nacional por parte dos ingleses. Mas a situação era outra após os pesados endividamentos realizados na Inglaterra por conta da Guerra do Paraguai. Após ouvir as argumentações, o Imperador ponderou:
- Segundo Platão, que foi discípulo e amigo de Sócrates, que nada deixou escrito, este dizia: o mal corresponde à ignorância. A lei é que permite o homem ser bom. E, o homem bom é o homem sábio, aquele capaz de reconhecer sua própria ignorância...
Os interlocutores ficaram aguardando enquanto o Imperador cofiava a barba grisalha procurando relembrar textos gregos que ia traduzindo de memória.
- Expressou esta verdade quando disse: “Tudo que sei é que nada sei!” O cumprimento das leis, justas ou não, é dever do homem justo, para não dar mau exemplo e justificativa ao homem injusto. O cumprimento das leis vigentes é sempre preferível à anarquia. Sabem como morreu Sócrates?
- Sim majestade...
- Morreu cumprindo a lei extremamente severa para uma acusação fútil: estar corrompendo a juventude com suas idéias. Poderia pedir clemência. Mas, se a lei exigia que tomasse cicuta, ainda que fosse uma lei injusta, por coerência deveria cumpri-la. Não aceitou conselhos de ninguém e diante do carrasco incrédulo sorveu todo o líquido verde que lhe foi oferecido numa taça de ouro.
- Mas a justiça, Majestade...
- A maior de todas as justiças não é a dos homens, mas a divina, a da história, assim pensava Sócrates... e estava certo. O Visconde pode ter sido julgado por um juiz que seguiu uma lei, que pode até ser considerada injusta, mas era a Lei. Como Sócrates, nada pode se feito para ajudar o Visconde, que merece toda a consideração do Império, mas o Imperador não está acima das leis. Ele terá um julgamento justo pela história e espero também por Deus.
Cabisbaixos os emissários de Mauá deixaram a sala de audiências. Um deles, do lado de fora comentou:
- Acho que a prognóstico que fizeram sobre ele na última viagem ao Egito, de Rei Filósofo subiu à cabeça dele.
- Tem razão. Não vai muito longe um Império governado por filósofo!
Num dia absolutamente igual a tanto outros em Carracedo, Juan foi avisado da chegada de duas cartas provenientes do Brasil para o seu endereço, mas com destinatários diferentes. A primeira dirigida a Juan e a segunda a Emilio.
- A outra deve ser uma para o meu neto, que se chama Emilio.
- Mas o sobrenome está diferente...
- Erraram, mas é para ele sem dúvida alguma, pois confirma parte do nome e o endereço. Posso encaminhar para ele novamente.
Depois de alguns minutos em dúvida o agente dos Correios entregou as duas cartas a Emilio que logo voltou para casa. A primeira, destinada a Juan, vinha de Petrópolis e ao lê-la viu que seu sobrinho-neto estava pretendendo se casar como uma Kling. Sorriu satisfeito ao se lembrar do desespero do jovem Magnus quando viu seu pai Karl esmagado pela árvore e a satisfação, dias depois, de ter conseguido uma colocação para todos nas obras da estrada de Mariano Procópio. A segunda carta gerou mais preocupação, pois deveria ficar atento para enviar uma grande quantidade de ouro para o Brasil a pedido de Tuca. Por telegrama ele confirmaria a quantidade e o endereço para onde enviar o dinheiro.
O ouro estava bem escondido e, então, ele pensou: e se algo me acontecesse? Quem saberia que sou apenas um fiel depositário de uma fortuna que não me pertence já que foi Tuca quem, arriscando a vida num mergulho profundo nas águas revoltas do Rio Paraibuna, conseguiu descobrir onde estava sepultada a lendária mula do ouro? Sendo um homem solitário, poderia ser vítima de um mal súbito e sem poder avisar aos parentes, a casa poderia ir a leilão, ser demolida...
No dia seguinte, munido de uma bolsa com grande quantidade de pesetas, Emilio procurou o Ayuntamento em A Veiga, o maior povoado entre todos da região que centralizava as questões administrativas, equivalente a prefeitura regional. Fez uma proposta inusitada ao funcionário: queria pagar, por antecipação, todos os impostos da casa por um prazo de dez anos.
- Mas isto nunca foi feito antes, por que, meu senhor? – quis saber o atendente.
- Gostaria de preservar esta residência que pertenceu a meus pais por, pelo menos, dez anos. Meus parentes imigraram para América e, se eu vier a faltar, não gostaria que a casa fosse a leilão por falta de pagamento de impostos.
- O senhor está abrindo uma exceção que não sei como resolver. Mas, não posso deixar de aceitar o pagamento, claro. Darei um recibo correspondente e o senhor trate de registrá-lo legalmente, porque também o faremos. Consulte um advogado para ter segurança de que seu desejo será atendido. Dez anos é um prazo muito longo para a política.
- Eu fico muito agradecido pela compreensão.
- E eu, senhor Juan, fico estupefato: ninguém poderia esperar tal atitude de um espanhol! O senhor está sóbrio, não está?
O quilombo de Petrópolis não era muito grande, mas situado no alto da serra, o melhor caminho era seguir pelo bairro da Mosela. Foi esta a decisão de Tuca quando ao descer na última estação de muda da União e Indústria alugou o animal no ponto terminal das carruagens da União e Indústria, que ainda circulavam com passageiros. Escolheu novamente um burro alto, pois se a estrada fosse igual à de Pati do Alferes andaria muito por trechos perigosos. Já havia caminhado bem meia hora quando avistou um homem de idade conduzindo uma carroça carregada de latões de leite. Não tinha dúvida, estava de diante do mestre Emilio Pietro. Gritou com todos os pulmões:
- Mestre Emílio, mestre Emílio!
O homem freou a carroça e ficou olhando na sua direção, aparentemente sem conhecê-lo. Tuca se aproximou olhando atentamente e não teve dúvida: não poderia ser outra pessoa!
- Mandei uma carta para o senhor na Espanha, mas está aqui?
- Eu fiquei doente... – começou Juan, recitando a ladainha que utilizava sempre que algum antigo conhecido do irmão o interpelava.
- Eu vou precisar do ouro que está guardando. Por que o senhor não me avisou logo que voltou da Espanha?
Juan percebeu que tinha um grande problema pela frente, pois nunca antes alguém se referira ao ouro que havia viabilizado sua viagem e a nova vida que estavam desfrutando. Lamentou não estar com o neto ao lado, que poderia ajudá-lo a sair desta enrascada. Sem saber o que fazer, Juan começou a falar, na maior velocidade possível e num dialeto carregado, o galego da divisa com a Castilla y Leon, entremeado de termos em castelhano, o que provocou de imediato uma expressão de espanto do rapaz de olhos verdes e estatura elevada parado à sua frente.
- Não compreendo nada do que diz – repetiu ele várias vezes.
Retornando para casa, depois do inusitado encontro com o mestre espanhol, que apesar de todo seu esforço parecia não reconhecê-lo, Tuca caminhava intrigado. Durante toda a viagem de Petrópolis até Entre-Rios, que durara seis horas não conseguiu encontrar uma explicação convincente para a atitude do mestre Emilio. Parecia outra pessoa. Porém vira o mestre Emilio embarcar no navio, a sua honestidade era reconhecida por todos. O homem que avistaram não esbanjava riqueza, parecendo ser um trabalhador comum. Forçando a memória, não tinha dúvidas, fisicamente era ele, o mestre Emilio, embora a personalidade parecesse ser de outra pessoa. Será que o ouro teria o poder de abalar as mais sólidas convicções?
Envolvo nesses pensamentos, não percebeu Tuca ao caminhar da estação de muda de mulas da União e Indústria de Entre Rios, até sua casa na fazenda do Cantagalo, a meia légua de distância, que seus seguidores há cerca de um mês estavam cada vez mais próximos. Quando o ruído dos passos à suas costas o fez voltar-se para trás, teve pouco tempo para reagir. Mas, acertou logo um soco no primeiro homem e rapidamente puxou o punhal afiado escondido na da bota para enfrentar o segundo. Porém, o terceiro, mais distante estava apontando uma arma de fogo em sua direção. Viu o clarão do estampido da garrucha, sentiu pontadas por todo o peito, concluindo rapidamente trata-se de uma cartucheira e logo tudo foi ficando escuro, ficando escuro...
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