Capítulo 17
Suave Retorno
Suave Retorno
Em 1876, para tratar problemas de saúde da Imperatriz Teresa Cristina, D. Pedro II conseguiu autorização para realizar sua mais longa viagem ao exterior, que durou 18 meses, acompanhado de uma comitiva de 200 pessoas, mas sem ajuda alguma especial de cofres públicos. Além de países da Europa, visitou os Estados Unidos, Canadá e esteve no Egito pela segunda vez.
Nos Estados Unidos, D.Pedro participou de uma Feira Internacional na Filadélfia, comemorativa do primeiro centenário da independência americana. Quando o navio de linha regular em que viajava se aproximou de águas territoriais norte-americanas, uma esquadra o esperava para escoltá-lo até o porto. O presidente americano Ulisses Grant fez questão que o Imperador brasileiro cortasse junto com ele a fita de abertura da exposição.
Durante a visita o Imperador esteve no local onde o jovem professor de linguagem para surdos-mudos de 30 anos, o escocês radicado nos Estados Unidos Alexander Graham Bell expunha seu invento, registrado no escritório de patentes americanos em sete de março do ano anterior. Este aparelho era capaz de transformar as vibrações sonoras emitidas numa extremidade de um condutor metálico em vibrações elétricas, que eram transmitidas através deste condutor até a outra extremidade, onde novamente eram convertidos em vibrações sonoras. Era o telefone, que D. Pedro II ao experimentá-lo bradou:
- Meu Deus, isto fala!
Encomendou imediatamente 100 exemplares para serem instalados na Corte, no Rio de Janeiro e no Palácio de Verão, em Petrópolis. A repercussão na imprensa americana do interesse do Imperador brasileiro contribuiu para que o invento de Graham Bell chamasse a atenção da comissão encarregada de premiar os melhores trabalhos. Porém, como sempre foi comum, apareceram outros inventores contemporâneos que alegavam prioridade, como o italiano Antonio Meucci, que mais de um século depois teve o pioneirismo reconhecida pelo Congresso Americano.
Casos como esses, comuns na história da ciência, não caracterizam plágio, mas mera coincidência compreensível, de pessoas que trabalhando com o mesmo nível e conhecimento, numa mesma época, chega a soluções idênticas para problemas comuns.
No Oriente Médio o Imperador teve a oportunidade de impressionar as platéias ao proferir palestras em árabe e hebraico, idiomas que vinha estudando há vários anos. Nos encontros com personalidades das artes e ciências o Imperador brasileiro gostava de apresentar-se como Pedro de Alcântara um cidadão dotado de vasta cultura e, por coincidência, também dirigente máximo do maior país da América do Sul e um dos mais ricos do mundo, principalmente pelas exportações de café, que garantia uma participação brasileira acima de 50% do total de todos os mercados.
Havia, entretanto, um tema que deixava a Comitiva contrariada e tudo faziam para que não fosse o Imperador questionado. Tratava-se das notícias publicadas na Europa que, baseadas no primeiro recenseamento oficial brasileiro realizado em 1872, apontou uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, sendo o número de escravos correspondia a 1,5 milhão. Portanto, 15% dos brasileiros estavam ainda subordinados ao tratamento dos feitores, ao chicote como castigo físico e à falta de liberdade como suplício moral.
Enquanto o Imperador circulava pela Europa, na Vila de Paraíba do Sul, cercado por um núcleo duro de conservadores escravistas, um pequeno grupo de veteranos Voluntários da Pátria da Guerra do Paraguai conversavam. Abrigados sob a ponte que atravessava o rio de mesmo nome, estavam os três com caniços lançados no rio, como pescadores aguardando pacientemente que as minhocas nos anzóis fossem capazes de atrair os piaus que caçavam lambaris nas corredeiras. Não despertavam suspeitas dos fazendeiros e capatazes das fazendas que passavam pela ponte: três negros alforriados e sem trabalhado tentando tirar do rio a próxima refeição.
- Temos que fazer alguma coisa, Tuca. O tempo está passando. Nós só ficamos nos planos... É preciso agir.
- Compreendo sua ansiedade, Tião, mas não concordo contigo, não dá para repetir o que fez Manuel Congo. Não será pela força que venceremos...
- O boi não sabe a força que tem...
- Mas o boi não somos nós não! O escravo alforriados é que é a parte fraca. O boi é o fazendeiro, o comissário de café e o doutor advogado...
- Então não dá para vencer?
- Claro que dá! A gente não consegue fazer o boi ter vontade de ir onde nós queremos que ela vá? Ou pegamos um boi no colo, como um frango, e o levamos debaixo do braço? Não é preciso ter a mesma força do boi para dominá-lo, é só usar o ferrão na hora certa, espetar no lugar certo.
- Qual seu plano então, Tuca? – perguntou o outro veterano da guerra, também mulato.
- Eu ainda não o tenho todo elaborado, mas vocês sabem: tenho bastante dinheiro. O irmão da viscondessa vive me rodeando por causa disso. Antes não ligava para mim e tudo por quê? Dinheiro! O espanhol Emilio deixava todas suas economias para que ele aplicasse, fazendo agiotagem, ganhando muito mais em cima da poupança do outro. Eu, quando recebi a “doação” do espanhol não fiz a mesma coisa não, escondi bem escondido. Estou agora esperando, igual pescador, só dando linha, sabendo que o peixe está doido na isca... Estou num período de ócio criativo.
- Aonde quer chegar?
- Sei que a crise está brava, o preço de um escravo está caindo a cada dia, por causa do café de São Paulo, da Lei do Ventre, que alforriou todos os nascidos após 1871, dos movimentos dos políticos republicanos... Ter terras e escravos daqui a pouco não vai valer nada no Vale do Paraíba. Tem promissória nas mãos dos comissários rodando há anos, como se fosse dinheiro vivo, mas na hora de sacar vai ser um grande desespero. Por isso, ter dinheiro na mão é o mais importante. Nesta situação, estamos com o ferrão na mão, esperando o boi sossegar, porque não dá para disputar na força com ele.
- Você poderia ser até um pequeno fazendeiro de café, Tuca, com o dinheiro que tem, é o que todo mundo diz! No entanto, não mudou a rotina, vive como agregado na fazenda do Cantagalo, conversa fiado com gente e pesca todo dia. Uns falam até que você não tem dinheiro nenhum, que esta conversa do dinheiro do espanhol é boato. Mas nós sabemos que é verdade. Até quando vamos levar esta vida pachorrenta, feito o Rio Paraíba correndo num remanso, Tuca?
- Eu estou matutando e trabalhando num plano, só que tenho de esperar que chegue a hora certa. Agora, vamos deixar de conversar alto porque vocês estão espantando os peixes!
Na Galícia, já bem instalado e sabendo que o neto de Juan, o menino que o vira pela janela tinha também seu nome, Emilio – uma homenagem póstuma, pensara o avô – foi aos poucos tomando conhecimento do que havia se sucedido na família quando saiu de madrugada deixando apenas uma carta lacônica, pois no momento que escrevera não sabia que rumo de fato sua vida e ele próprio tomariam.
Juan casara-se com Maria, que morrera a apenas dois anos do retorno de Emilio. Tiveram três filhos, a primeira uma menina, mãe de Emilio, seu sobrinho-neto e dois rapazes que imigraram, como a maioria dos homens da Galícia, ambos para Cuba, juntamente com o marido da filha mais velha.
- Como ela se chama?
- Chama-se também Maria, como a mãe.
- Não está viva?
- Não, morreu há pouco mais de um ano, logo depois da mãe, mas deixou-me este tesouro que é o Emílio. Avisei o marido dela por carta, mas ainda não respondeu, embora já faça um ano que enviei. Mas as cartas demoram mesmo muito tempo entre a Espanha e Cuba. Na verdade nem sabemos se eles ainda estão vivos.
- Lamentável. Mas, mudando de assunto, a Galícia desenvolveu pouco...
- Pouco? Aqui tudo parou no tempo! Falam que mais de um milhão de galegos emigraram, pois os números oficiais são mentirosos, por causa da clandestinidade. Até 1853 era proibido emigrar para a América do Sul por causa das febres; depois veio o serviço militar obrigatório, seguido da fiança de 320 reales, que só foi abolida 1873. Quando as pessoas emigram vendem tudo, o que desvaloriza cada vez mais as casas e terras que sobram.
- Isto gera um problema econômico...
- Enquanto os imigrantes vão sozinhos e mandam dinheiro para sustentar a família que fica ainda dá para ir levando, o comércio fica ativo. Mas A Veiga está sentindo, dizem que um terço da sua população foi embora. Carracedo você viu está na mesma e Requeixo também está sofrendo do mesmo mal. Até o povoado de Santa Cristina, com sua bela igreja, que todos apostavam chegaria a superar A Veiga, definhou definitivamente. O que aconteceu aqui na região é um resumo do que aconteceu em toda a Galícia.
- Os que foram não mandam dinheiro para cá?
- Até se assentarem na vida, quando deixam parte da família sim. Mas, tão logo se firmam, mandam buscar a mulher e os filhos, aí então a Galícia não recebe mais nada. Perde mão-de-obra, desvaloriza o que ficou e a situação permanece a mesma... Mas e você, ficou rico no Brasil?
- Vejam vocês mesmo.
Emilio abriu o dois pacotes pesados que trazia retirou as esculturas de granitos, deslocando com cuidado a base de cada uma. Os dois ficaram olhando atentamente, sem compreender. Cuidadosamente inseriu uma faca entre as frestas que apareciam na base e uma pedra, que era o segredo do encaixe e do interior oco, foi deslocada. De dentro da escultura retirou duas barras de ouro de 250 gramas, que só não brilharam mais do que os olhos claros dos dois assustados espectadores.
- É ouro?
- Ouro puro, vinte e quatro quilates.
- Você ficou rico, irmão. Tem também terras, fazendas?
- Não tenho imóvel algum. Tudo que juntei em 40 anos de trabalho cabe numa bolsa como esta.
- Cheia de ouro você pode consegue comprar Carracedo inteira! Talvez até compre A Veiga mesmo.
- Não é minha intenção.
- O que o trouxe aqui então? Cometeu algum crime? Está fugindo?
- Não, claro que não. Estou adoentado e gostaria de, novamente, sentir o ar frio das montanhas, de ler sossegado enquanto as cabras e ovelhas pastam ouvir o latido dos cães as pastoreando, sentir o cheiro desta comida, poder beber todos os dias o vinho tinto... Esta riqueza eu não tinha mais.
- Esta riqueza eu tenho todos os dias e as estou passando por qualquer preço... Como gostaria de estar no seu lugar, lá no Brasil. Sentir o ar quente, ver o colorido das matas, das praias...
- Você pode ter isto tudo no meu lugar, meu irmão.
- Como?
- Invertendo os papéis, trocando os bonés. Nós fazíamos tanto isso no passado, não se recorda?
- Claro. O que nos diferenciava era a cor. Lembro-me bem, até nossa mãe não conseguia nos identificar.
- Você só não conseguia ser habilidoso com a esquerda, não se esqueça que sou canhoto.
- Verdade. Era muito difícil te imitar... Mas o que você está propondo é maluquice. Ir para o Brasil no seu lugar e você ficar por aqui como se fosse eu?
O sobrinho-neto Emilio ficou olhando admirando o conversa dos dois, esboçando um sorriso enigmático.
- Se eu raspar esta barba, deixando apenas o bigode e engordar um pouco mais, quem vai nos diferenciar? O que acha Emilio? – perguntou ao sobrinho-neto.
- Ninguém vai saber mesmo – respondeu com toda a sinceridade o rapaz.
Quando D. Pedro II retornou da viagem em 1877 parecia rejuvenescido pela convivência com a elite intelectual européia, porém os problemas políticos do Império do Brasil haviam se agravado na sua ausência. O primeiro deles foi uma questão religiosa, decorrente da condenação de padres maçons pelos bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa, de Olinda e Belém. Como a Igreja estava ligada ao Governo, que pagava salário aos padres em troca de serviços diversos, entre eles o registro civil realizado nas paróquias, pela constituição brasileira deveria obediência primeira ao Imperador e depois ao Papa. Os bispos, entretanto, seguindo uma nova orientação do Vaticano que proibiram que os religiosos fizessem parte de sociedades secretas, passaram a exigir mais disciplina moral e canônica do clero, fecharam as irmandades que aceitavam membros maçons. A atitude gerou uma grande celeuma na Maçonaria, sociedade secreta da qual toda a elite fazia parte. D. Pedro II, também maçom, ordenou o cancelamento da ordem dos bispos, sendo desobedecido pelos religiosos que optaram pela subordinação ao Papa. Os bispos foram então processados e condenados, mandando o Imperador prende-los, pois no julgamento receberam pena de quatro anos de prisão cada um deles.
Um estremecimento percorreu toda a estrutura de poder, pois a Igreja Católica Apostólica Romana era a religião oficial do Império, logo subordinada ao Imperador. No entanto, como ficava a autoridade do Papa, mundialmente a maior autoridade da igreja? A conclusão óbvia da separação entre os interesses da Igreja e do Estado, lema do movimento republicano, passou a ser discutido amplamente entre a grande maioria católica do país.
Neste mesmo ano, na cidade de São Paulo, foi fundado o Partido Republicano Paulista, reunindo a elite de produtores e comerciantes de café, insatisfeito com a centralização do poder no Rio de Janeiro. Os cafezais fluminenses, mais antigos, vinham apresentando produtividade em declínio, ao contrário dos cafezais paulistas, com novas técnicas de plantio, baseada no trabalho assalariado, terras férteis e de escoamento favorecido pela rede de ferrovia que se espalhava pelo interior em forma de leque.
Na Corte, fortes ventos contrários começaram soprar sobre a fragilizada nau empresarial do Visconde de Mauá. Dívidas não recebidas da guerra do Paraguai, os prejuízos na implantação da ferrovia de Santos a Jundiaí, além de outros investimentos que não deram o retorno esperado no prazo devido, fizeram com que ele fosse obrigado a solicitar em 1875 uma moratória aos credores por três anos.
Esta notícia causou grande alvoroço na Praça do Rio de Janeiro, pois Mauá era o maior empresário nacional, que não dependia diretamente da lavoura do café.
Neste mesmo ano estava também interligada por via ferroviária a Corte à Província de São Paulo, embora fosse necessário transbordo de passageiros e mercadorias em Cruzeiro, pois a linha que vinha de São Paulo era de bitola métrica, enquanto a Estrada de Ferro D. Pedro II era larga (1,60 m).
A questão da bitola ferroviária voltou novamente a ser tema de debates, dividindo tecnicamente a classe técnica entre larguistas e estreitistas, que defendiam, respectivamente, a unificação da malha nacional pela bitola larga (ferrovias mais antigas) ou pela bitola métrica (ferrovias com menor custo de implantação). Nos Estados Unidos, esta questão foi enfrentada presidente Abraham Lincoln, diante das dificuldades percebidas durante a Guerra da Secessão, através de um ato que unificou toda a grande rede americana para a bitola original inglesa de 1.435mm; uma malha de 45 mil quilômetros. No Brasil, entretanto, que nunca atingiria esta extensão, o governo não assumiu um papel normativo, diante dos interesses políticos e econômicos envolvidos nas concessões dadas, que especificavam a bitola a ser utilizada, quase sempre diferente da linha onde se conectaria para obter ganhos no transbordo obrigatório, numa época em que o sistema concorrente com as ferrovias era a tração animal.
Nesta mesma época em que o Imperador retornava ao Rio de Janeiro, também aportava na cidade, vindo da Espanha, um senhor de sessenta e dois anos, também de olhos azuis, com os documentos brasileiros com o nome de Emilio Pietro. Em sua companhia desembarcou também um rapaz, seu sobrinho, que tinha o mesmo nome. O agente da imigração brasileira olhou seus documentos e perguntou:
- O rapaz é seu sobrinho, senhor Pietro, mas não tem o mesmo sobrenome.
Assustado, Juan lembrou-se dos conselhos de Emilio, de responder em galego, mas falando vagarosamente, pois seria mais bem compreendido do que em castelhano. Explicou então, que no seu documento brasileiro, o apellido da mãe, que se posiciona em último lugar, não acompanha as gerações seguintes, mas sim o do pai, que se segue o nome próprio, é colocado no meio.
O fiscal pareceu não entender sua explicação e interrompeu:
- Se o seu sobrinho é menor de idade o senhor é o responsável por ele. Se ele for ficar definitivamente no Brasil é bom providenciar nova documentação.
- Tem prazo para isso?
- Não, quando quiserem. O Brasil está precisando de sangue novo, o governo está incentivando isso. Os imigrantes europeus são todos recebidos de braços abertos.
O neto olhou para seu avô e sorriu. Juntaram suas malas e saíram do cais do porto, observando com olhos admirados a movimentação desordenada na rua, com escravos de ganho passando com mercadorias sendo expostas aos novos viajantes. Seguiram a pé em direção ao Hotel Pharoux, bem de frente, onde ficariam hospedados por trinta dias, até arranjarem uma moradia definitiva.
- Como será que o tio Emilio está se arrumando lá na Galícia?
Carracedo, como vários pequenos pueblos do norte da Espanha, se esvaziava a cada dia, principalmente de pessoas jovens. Por isso, não estranharam quando o neto de Juan viajou sem dizer para onde, aparentemente deixando seu avô sozinho, acompanhado apenas das ovelhas e dos cachorros pastores. Estranharam isto sim, foi o entusiasmo do velho solitário em ficar andando de um lado para outro no povoado, olhando com atenção pequenos detalhes do cotidiano que eles mesmos, moradores já não se importavam: a primeira nevasca do inverno, que fora extremamente rigoroso naquele ano, mas não o impediu de andar com neve até a canela; as águas cristalinas e frias do desgelo, que fazia aumentar o volume nas canaletas que corriam junto aos muros de pedra de junta seca que dividiam as propriedades em pequenos lotes; os galhos secos das árvores que começaram logo a ganhar flores verdes claras, ao primeiro calor da primavera; a animação em tocar o rebanho de ovelhas ladeira acima, levando na sacola livros que eles nunca antes o haviam visto ler. Porém, como os velhos vão adquirindo com o passar dos anos manias próprias, aceitaram que Juan Pietro estava numa fase de mudança, provavelmente sentindo a ausência do neto.
Quando o verão chegou ao Rio de Janeiro, como todo europeu, Emilio e Juan sentiram vontade de fazer como todos os habitantes de posse na Corte faziam: passar o verão em Petrópolis.
Pegaram então um vapor em frente ao hotel Pharoux e durante uma hora viajaram até o fundo da baía da Guanabara, admirando a natureza vigorosa, com tons de verde mais intensos do que a montanhosa Galícia. Ao passarem pela Ilha de Paquetá, Emilio comentou com avô ser o local onde se passa a trama do romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado pela primeira vez em 1845. Ler os escritores locais foi uma das formas aconselhada pelo seu tio de se familiarizarem com a cultura brasileira.
Mas, outro motivo os levava na viagem ao alto da serra, além de escapar do calor do verão no Rio de Janeiro e do risco das epidemias de febre amarela: conhecer de perto o processo da miscigenação cultural, decorrente da imigração alemã para Petrópolis, que havia começado há mais de 32 anos.
O trem que faria o curto percurso de 16 quilômetros estava na primeira estação mais próxima do píer do Porto de Mauá, chamada Guia de Pacobaíba, aguardando a chegada do vapor da mesma empresa: Companhia Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis. Juan perguntou ao neto observando o bilhete:
- Nós vamos de trem até Petrópolis.
- Não, meu avô, o trem nunca chegou lá, apesar de a ferrovia ter sido inaugurada em 1854. Não iremos viajar nem uma hora de trem, depois vamos sacolejar mais de duas em carruagem, serra acima. Todos são obrigados a este sacrifício, até o Imperador.
- Mas o seu tio não disse que o Brasil está mais evoluído em ferrovias do que a Galícia, onde a primeira ferrovia foi inaugurada apenas em 15 de setembro de 1873, mais de vinte anos da primeira ferrovia brasileira?
- Sim, mas não sabem ainda como galgar a serra.
- Mas já não venceram a Serra de Santos, através de um sistema de cabos?
- Pelo que eu andei lendo, o pouco café que atualmente desce por Petrópolis não justifica o investimento, ao contrário da ferrovia São Paulo Railway, a inglesa, que tem o monopólio e é uma das mais lucrativas de todo mundo, pois tem apenas 175 km.
- Vejo que você, Emilio, está realmente estudando a fundo este país!
Não sabia, entretanto a dupla, que este problema de acesso ferroviário a Petrópolis já estava sendo solucionado, embora fosse representar uma vitória dos estreitistas contra os larguistas. Para a implantação das novas ferrovias na acidentada topografia brasileira financiada por empresários privados, os projetistas eram obrigados a fugir de obras de arte de engenharia sofisticada como a Serra das Araras implantadas pela Estrada de Ferro D. Pedro II. Ao invés disso o traçado da linha procurava seguir a conformação natural dos vales, com curvas de pequeno raio, apertadas para contornar as encostas. O tempo dos grandes túneis para vencer montanhas estava ficando para trás na engenharia ferroviária brasileira, adotando-se rampas elevadas de 3,5% e até 4%, quando na bitola larga o máximo permitido era 2%.
O truque de menor base rígida da bitola métrica permitia pequenos raios de curva sem grande sacrifício para a via permanente e passou a ser preferida nas novas linhas que iam sendo implantadas, seguindo a marcha da lavoura do café, sempre em busca de terras virgens. Falava-se até que depois de Que Luz de Minas, a própria Estrada de Ferro D. Pedro II teria sua bitola reduzida para a bitola métrica até Vila Rica de Ouro Preto, capital da província de Minas Gerais. Era uma proposta dos estreitistas, justificando economia, embora contrapostos pelos larguistas, que alegavam que no longo prazo o custo operacional decorrente do necessário transbordo de mercadoria e passageiros compensava o maior investimento no traçado pela bitola larga – não havia acordo entre estas duas correntes que duelavam exibindo infindáveis argumentos técnicos. Os engenheiros da Estrada de Ferro D. Pedro II afirmavam que a qualidade do traçado da linha iria perdurar durante séculos pela sua qualidade, enquanto as linhas de bitola métrica de implantação mais barata não teriam a mesma sobrevida.
Com relação à chegada do trem a Petrópolis, finalmente uma novidade surgiu para viabilizar a chegada da primeira ferrovia à Cidade Imperial: a cremalheira inventada pelo engenheiro suíço Niklaus Riggenbach e testada com sucesso na inauguração em 1871 da primeira ferrovia de montanha a utilizar esta técnica, entre Vitznau e Rigi, na Suíça.
Quando lhe deram conhecimento do projeto, o Imperador logo aprovou a proposta e ficou duplamente satisfeito, pois foi informado que os engenheiros Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares solicitariam também concessão para aplicar o mesmo sistema numa ferrovia até o alto do mirante, que seria chamada Estrada de Ferro do Corcovado.
- São projetos magníficos, senhores. Meu pai, o Imperador Pedro I, se vivo estivesse, seria provavelmente o primeiro a querer andar neste trem.
- Até Petrópolis?
- Claro que não, ele iria preferir a ferrovia para o Corcovado. Subir a cavalo até lá no alto era seu passeio predileto, como também é o meu. Ele ficava horas seguidas admirando a baía da Guanabara, a lagoa Rodrigo de Freitas e Oceano Atlântico, até o sol se pôr, atrás da Pedra da Gávea.
Depois da aprovação do Imperador os investidores despediram-se e na saída comentaram entre si a vitalidade do monarca, depois da longa viagem à Europa, África e América do Norte. Pareceu-lhes que não estava tão preocupado como outros políticos ligados à defesa da monarquia, sobre o movimento crescente dos republicanos, principalmente depois da primeira convenção realizada na cidade de Itu do Partido Republicano Paulista. A crescente produção de café na província de São Paulo, aliada à queda da produção do Vale do Paraíba fluminense era um outro motivo de preocupação, pois a nobreza rural que sustentou a monarquia durante o reinado do Imperador ficava cada dia menos rica, comparando com os novos fazendeiros das terras roxas do interior paulista.
Outra questão que também preocupava a Corte referia-se ao patrimônio dos proprietários de escravos, que observavam uma redução crescente do preço dos escravos a cada ano, uma situação totalmente inesperada: aumentar a produção de café sem a necessidade de mais braço escravo, algo que parecia impossível há 27 anos atrás, quando da Lei Eusébio de Queiroz. Além do movimento republicano, havia também o movimento dos abolicionistas, que conquistavam simpatias em todos os lugares, até entre os próprios monarquista e especialmente na própria Corte, na figura da Princesa Isabel.
- Eu condeno esta exibição permanente pela princesa de ramalhetes de camélias, cultivadas no Quilombo do Le Blom, nas terras do português José Seixas. Estas flores passaram a ser um símbolo deste movimento, que parece aprovado pela própria Corte.
- O Imperador nunca defendeu publicamente a abolição.
- Perderia toda a sustentação política se o fizesse. Mas poderia pedir à filha uma atitude semelhante...
- Estas ambigüidades do Imperador são terríveis...
- Apadrinhar estes negros fujões é mesmo um caso de polícia, que só não vira processo porque este português, o José das Malas, é muito rico e influente. Chega a ter maquinaria a vapor na sua fábrica na rua Gonçalves Dias para não utilizar braço escravo, veja só!
- Dá um péssimo exemplo, pois abrigando os negros em suas terras, recebe destes, por gratidão, um carinho todo especial no cultivo destas flores japonesas, que ninguém poderia imaginar conseguissem serem produzidas aqui no Rio de Janeiro, neste calor infernal. A princesa deveria prestigiar nos seus ramalhetes, a nossa floresta nativa, com tanta flor silvestre brasileira mais bonita!
Quando chegaram a Petrópolis, os dois Emilios foram se hospedar no Hotel do Inglês, como recomendava o Viagem Pitoresca, de Carlos Augusto Taunay, onde planejavam ficar durante todo o mês de janeiro, o mais quente do verão.
Petrópolis nessa estação ficava especialmente movimentada devido à presença do Imperador, que sem comitiva a cercá-lo perambula pela cidade com toda liberdade. Porém, mesmo que fizesse calor na serra não deixava de trajar a pesada casaca negra, que fazia destacar sua barba espessa precocemente grisalha para um homem de pouco mais de cinqüenta anos.
- Gostei do ar puro desta cidade, Emilio. Acho até que poderemos vir a morar aqui, ao invés do Rio de Janeiro.
- Tio Emílio falou ter ajudado na sua construção, vamos ver as obras que ele listou ter trabalhado. Poderemos tentar até o Palácio Imperial, mas deve ser difícil.
- Antes de tentar isso, vamos conhecer este pedaço da Alemanha encravado no alto da serra. Ele nos relatou que ficou amigo de uma família de imigrantes que aqui aportaram em 1845, os Kling. Contou até o acidente com o patriarca, Karl Kling que morreu quando uma árvore que cortava entrelaçou-se nos cipós e caiu sobre ele, deixando viúva e três filhos; o maior Maguns, com apenas quinze anos. Ele ajudou a família desesperada conseguir emprego nas obras da União e Indústria.
- Bem, este agora, deve estar com 47 anos. Podemos procurá-lo.
- Disse que todos eles moravam no bairro da Mosela.
No hotel lhes informaram que para chegar à Mosela, bastava seguir o Rio Piabanha, que corta a cidade até o ponto onde este recebe as águas de um riacho chamado de rio Paulo Barbosa. Seguindo as instruções, a dupla caminhou por uma estrada de terra estreita, com grande movimento de carroças que subia o tempo todo. Reconheceram logo que estavam bem no meio da colônia pela grande quantidade de crianças louras, com a pele rosada pelo sol tropical.
Resolveram então perguntar. Algumas delas custaram entender o que diziam, mas quando descobriram que procuravam os Kling, tudo ficou fácil, pois era uma família numerosa. Prosseguindo na direção indicada foram surpreendidos por um homem gritando:
- Mestre Emílio, mestre Emílio!
Juan e Emilio se entreolharam, percebendo que teriam de enfrentar a situação que ocorreria mais cedo ou mais tarde. Estava na hora do grande teste. Virando o rosto Juan viu um homem se aproximar sorridente e estendendo as mãos.
- Que prazer, mestre Emílio. Ouvi dizer que o senhor tinha voltado para a Espanha...
- Fiquei lá uma temporada sim...
- O senhor esqueceu o português, mestre?
- Ele ficou doente. Mas, deixe-me apresentar, sou também Emílio, seu sobrinho, que serve de companhia por causa da enfermidade...
- Eu sou o Magnus Kling, o senhor não se recorda?
- Que prazer, seu Magnus. Estava mesmo a sua procura, pois meu tio perdeu a memória com a doença, chegando até esquecer o idioma. Ainda mais pessoas e acontecimentos.
- Você fala um português com som estranho, mas dá para entender. Eu sou alemão, cheguei aqui com 15 anos e também não consigo falar o português direito.
- A língua galega é muito parecida com a língua portuguesa, o que facilita um pouco para nós. Mas meu tio, devido à enfermidade, está tendo dificuldade em falar da mesma maneira que estava acostumado antes.
Juan forçou uma expressão distante, como parte do plano que entabularam para quando encontrasse velhos conhecidos do seu irmão que ficara na Espanha com seus documentos.
- Eu sinto muito pela doença. Mas vamos lá até minha casa, onde meus filhos ficarão satisfeitos em vê-lo novamente, principalmente o Adão Kling que também chegou a trabalhar com o senhor. Recorda-se?
- Não, desculpe...
- Eu peço desculpa. É a doença, sei...
- Os médicos lá na Espanha me aconselharam a voltar e conversar com as pessoas novamente, tentando recordar os fatos passados que a memória irá voltar, gradualmente.
- Sei, chamam isso de amnésia, não é?
- Sim é esta doença mesmo. Amnésia.
O neto sorriu para o avô, que piscou o olho quando Magnus olhou para outro lado. Haviam sido aprovados no primeiro teste: a desculpa da amnésia fora perfeita. Mas, pensou como estaria o verdadeiro Emilio se arranjando na Espanha, passando por Juan?
Nos Estados Unidos, D.Pedro participou de uma Feira Internacional na Filadélfia, comemorativa do primeiro centenário da independência americana. Quando o navio de linha regular em que viajava se aproximou de águas territoriais norte-americanas, uma esquadra o esperava para escoltá-lo até o porto. O presidente americano Ulisses Grant fez questão que o Imperador brasileiro cortasse junto com ele a fita de abertura da exposição.
Durante a visita o Imperador esteve no local onde o jovem professor de linguagem para surdos-mudos de 30 anos, o escocês radicado nos Estados Unidos Alexander Graham Bell expunha seu invento, registrado no escritório de patentes americanos em sete de março do ano anterior. Este aparelho era capaz de transformar as vibrações sonoras emitidas numa extremidade de um condutor metálico em vibrações elétricas, que eram transmitidas através deste condutor até a outra extremidade, onde novamente eram convertidos em vibrações sonoras. Era o telefone, que D. Pedro II ao experimentá-lo bradou:
- Meu Deus, isto fala!
Encomendou imediatamente 100 exemplares para serem instalados na Corte, no Rio de Janeiro e no Palácio de Verão, em Petrópolis. A repercussão na imprensa americana do interesse do Imperador brasileiro contribuiu para que o invento de Graham Bell chamasse a atenção da comissão encarregada de premiar os melhores trabalhos. Porém, como sempre foi comum, apareceram outros inventores contemporâneos que alegavam prioridade, como o italiano Antonio Meucci, que mais de um século depois teve o pioneirismo reconhecida pelo Congresso Americano.
Casos como esses, comuns na história da ciência, não caracterizam plágio, mas mera coincidência compreensível, de pessoas que trabalhando com o mesmo nível e conhecimento, numa mesma época, chega a soluções idênticas para problemas comuns.
No Oriente Médio o Imperador teve a oportunidade de impressionar as platéias ao proferir palestras em árabe e hebraico, idiomas que vinha estudando há vários anos. Nos encontros com personalidades das artes e ciências o Imperador brasileiro gostava de apresentar-se como Pedro de Alcântara um cidadão dotado de vasta cultura e, por coincidência, também dirigente máximo do maior país da América do Sul e um dos mais ricos do mundo, principalmente pelas exportações de café, que garantia uma participação brasileira acima de 50% do total de todos os mercados.
Havia, entretanto, um tema que deixava a Comitiva contrariada e tudo faziam para que não fosse o Imperador questionado. Tratava-se das notícias publicadas na Europa que, baseadas no primeiro recenseamento oficial brasileiro realizado em 1872, apontou uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, sendo o número de escravos correspondia a 1,5 milhão. Portanto, 15% dos brasileiros estavam ainda subordinados ao tratamento dos feitores, ao chicote como castigo físico e à falta de liberdade como suplício moral.
Enquanto o Imperador circulava pela Europa, na Vila de Paraíba do Sul, cercado por um núcleo duro de conservadores escravistas, um pequeno grupo de veteranos Voluntários da Pátria da Guerra do Paraguai conversavam. Abrigados sob a ponte que atravessava o rio de mesmo nome, estavam os três com caniços lançados no rio, como pescadores aguardando pacientemente que as minhocas nos anzóis fossem capazes de atrair os piaus que caçavam lambaris nas corredeiras. Não despertavam suspeitas dos fazendeiros e capatazes das fazendas que passavam pela ponte: três negros alforriados e sem trabalhado tentando tirar do rio a próxima refeição.
- Temos que fazer alguma coisa, Tuca. O tempo está passando. Nós só ficamos nos planos... É preciso agir.
- Compreendo sua ansiedade, Tião, mas não concordo contigo, não dá para repetir o que fez Manuel Congo. Não será pela força que venceremos...
- O boi não sabe a força que tem...
- Mas o boi não somos nós não! O escravo alforriados é que é a parte fraca. O boi é o fazendeiro, o comissário de café e o doutor advogado...
- Então não dá para vencer?
- Claro que dá! A gente não consegue fazer o boi ter vontade de ir onde nós queremos que ela vá? Ou pegamos um boi no colo, como um frango, e o levamos debaixo do braço? Não é preciso ter a mesma força do boi para dominá-lo, é só usar o ferrão na hora certa, espetar no lugar certo.
- Qual seu plano então, Tuca? – perguntou o outro veterano da guerra, também mulato.
- Eu ainda não o tenho todo elaborado, mas vocês sabem: tenho bastante dinheiro. O irmão da viscondessa vive me rodeando por causa disso. Antes não ligava para mim e tudo por quê? Dinheiro! O espanhol Emilio deixava todas suas economias para que ele aplicasse, fazendo agiotagem, ganhando muito mais em cima da poupança do outro. Eu, quando recebi a “doação” do espanhol não fiz a mesma coisa não, escondi bem escondido. Estou agora esperando, igual pescador, só dando linha, sabendo que o peixe está doido na isca... Estou num período de ócio criativo.
- Aonde quer chegar?
- Sei que a crise está brava, o preço de um escravo está caindo a cada dia, por causa do café de São Paulo, da Lei do Ventre, que alforriou todos os nascidos após 1871, dos movimentos dos políticos republicanos... Ter terras e escravos daqui a pouco não vai valer nada no Vale do Paraíba. Tem promissória nas mãos dos comissários rodando há anos, como se fosse dinheiro vivo, mas na hora de sacar vai ser um grande desespero. Por isso, ter dinheiro na mão é o mais importante. Nesta situação, estamos com o ferrão na mão, esperando o boi sossegar, porque não dá para disputar na força com ele.
- Você poderia ser até um pequeno fazendeiro de café, Tuca, com o dinheiro que tem, é o que todo mundo diz! No entanto, não mudou a rotina, vive como agregado na fazenda do Cantagalo, conversa fiado com gente e pesca todo dia. Uns falam até que você não tem dinheiro nenhum, que esta conversa do dinheiro do espanhol é boato. Mas nós sabemos que é verdade. Até quando vamos levar esta vida pachorrenta, feito o Rio Paraíba correndo num remanso, Tuca?
- Eu estou matutando e trabalhando num plano, só que tenho de esperar que chegue a hora certa. Agora, vamos deixar de conversar alto porque vocês estão espantando os peixes!
Na Galícia, já bem instalado e sabendo que o neto de Juan, o menino que o vira pela janela tinha também seu nome, Emilio – uma homenagem póstuma, pensara o avô – foi aos poucos tomando conhecimento do que havia se sucedido na família quando saiu de madrugada deixando apenas uma carta lacônica, pois no momento que escrevera não sabia que rumo de fato sua vida e ele próprio tomariam.
Juan casara-se com Maria, que morrera a apenas dois anos do retorno de Emilio. Tiveram três filhos, a primeira uma menina, mãe de Emilio, seu sobrinho-neto e dois rapazes que imigraram, como a maioria dos homens da Galícia, ambos para Cuba, juntamente com o marido da filha mais velha.
- Como ela se chama?
- Chama-se também Maria, como a mãe.
- Não está viva?
- Não, morreu há pouco mais de um ano, logo depois da mãe, mas deixou-me este tesouro que é o Emílio. Avisei o marido dela por carta, mas ainda não respondeu, embora já faça um ano que enviei. Mas as cartas demoram mesmo muito tempo entre a Espanha e Cuba. Na verdade nem sabemos se eles ainda estão vivos.
- Lamentável. Mas, mudando de assunto, a Galícia desenvolveu pouco...
- Pouco? Aqui tudo parou no tempo! Falam que mais de um milhão de galegos emigraram, pois os números oficiais são mentirosos, por causa da clandestinidade. Até 1853 era proibido emigrar para a América do Sul por causa das febres; depois veio o serviço militar obrigatório, seguido da fiança de 320 reales, que só foi abolida 1873. Quando as pessoas emigram vendem tudo, o que desvaloriza cada vez mais as casas e terras que sobram.
- Isto gera um problema econômico...
- Enquanto os imigrantes vão sozinhos e mandam dinheiro para sustentar a família que fica ainda dá para ir levando, o comércio fica ativo. Mas A Veiga está sentindo, dizem que um terço da sua população foi embora. Carracedo você viu está na mesma e Requeixo também está sofrendo do mesmo mal. Até o povoado de Santa Cristina, com sua bela igreja, que todos apostavam chegaria a superar A Veiga, definhou definitivamente. O que aconteceu aqui na região é um resumo do que aconteceu em toda a Galícia.
- Os que foram não mandam dinheiro para cá?
- Até se assentarem na vida, quando deixam parte da família sim. Mas, tão logo se firmam, mandam buscar a mulher e os filhos, aí então a Galícia não recebe mais nada. Perde mão-de-obra, desvaloriza o que ficou e a situação permanece a mesma... Mas e você, ficou rico no Brasil?
- Vejam vocês mesmo.
Emilio abriu o dois pacotes pesados que trazia retirou as esculturas de granitos, deslocando com cuidado a base de cada uma. Os dois ficaram olhando atentamente, sem compreender. Cuidadosamente inseriu uma faca entre as frestas que apareciam na base e uma pedra, que era o segredo do encaixe e do interior oco, foi deslocada. De dentro da escultura retirou duas barras de ouro de 250 gramas, que só não brilharam mais do que os olhos claros dos dois assustados espectadores.
- É ouro?
- Ouro puro, vinte e quatro quilates.
- Você ficou rico, irmão. Tem também terras, fazendas?
- Não tenho imóvel algum. Tudo que juntei em 40 anos de trabalho cabe numa bolsa como esta.
- Cheia de ouro você pode consegue comprar Carracedo inteira! Talvez até compre A Veiga mesmo.
- Não é minha intenção.
- O que o trouxe aqui então? Cometeu algum crime? Está fugindo?
- Não, claro que não. Estou adoentado e gostaria de, novamente, sentir o ar frio das montanhas, de ler sossegado enquanto as cabras e ovelhas pastam ouvir o latido dos cães as pastoreando, sentir o cheiro desta comida, poder beber todos os dias o vinho tinto... Esta riqueza eu não tinha mais.
- Esta riqueza eu tenho todos os dias e as estou passando por qualquer preço... Como gostaria de estar no seu lugar, lá no Brasil. Sentir o ar quente, ver o colorido das matas, das praias...
- Você pode ter isto tudo no meu lugar, meu irmão.
- Como?
- Invertendo os papéis, trocando os bonés. Nós fazíamos tanto isso no passado, não se recorda?
- Claro. O que nos diferenciava era a cor. Lembro-me bem, até nossa mãe não conseguia nos identificar.
- Você só não conseguia ser habilidoso com a esquerda, não se esqueça que sou canhoto.
- Verdade. Era muito difícil te imitar... Mas o que você está propondo é maluquice. Ir para o Brasil no seu lugar e você ficar por aqui como se fosse eu?
O sobrinho-neto Emilio ficou olhando admirando o conversa dos dois, esboçando um sorriso enigmático.
- Se eu raspar esta barba, deixando apenas o bigode e engordar um pouco mais, quem vai nos diferenciar? O que acha Emilio? – perguntou ao sobrinho-neto.
- Ninguém vai saber mesmo – respondeu com toda a sinceridade o rapaz.
Quando D. Pedro II retornou da viagem em 1877 parecia rejuvenescido pela convivência com a elite intelectual européia, porém os problemas políticos do Império do Brasil haviam se agravado na sua ausência. O primeiro deles foi uma questão religiosa, decorrente da condenação de padres maçons pelos bispos Dom Vital e Dom Macedo Costa, de Olinda e Belém. Como a Igreja estava ligada ao Governo, que pagava salário aos padres em troca de serviços diversos, entre eles o registro civil realizado nas paróquias, pela constituição brasileira deveria obediência primeira ao Imperador e depois ao Papa. Os bispos, entretanto, seguindo uma nova orientação do Vaticano que proibiram que os religiosos fizessem parte de sociedades secretas, passaram a exigir mais disciplina moral e canônica do clero, fecharam as irmandades que aceitavam membros maçons. A atitude gerou uma grande celeuma na Maçonaria, sociedade secreta da qual toda a elite fazia parte. D. Pedro II, também maçom, ordenou o cancelamento da ordem dos bispos, sendo desobedecido pelos religiosos que optaram pela subordinação ao Papa. Os bispos foram então processados e condenados, mandando o Imperador prende-los, pois no julgamento receberam pena de quatro anos de prisão cada um deles.
Um estremecimento percorreu toda a estrutura de poder, pois a Igreja Católica Apostólica Romana era a religião oficial do Império, logo subordinada ao Imperador. No entanto, como ficava a autoridade do Papa, mundialmente a maior autoridade da igreja? A conclusão óbvia da separação entre os interesses da Igreja e do Estado, lema do movimento republicano, passou a ser discutido amplamente entre a grande maioria católica do país.
Neste mesmo ano, na cidade de São Paulo, foi fundado o Partido Republicano Paulista, reunindo a elite de produtores e comerciantes de café, insatisfeito com a centralização do poder no Rio de Janeiro. Os cafezais fluminenses, mais antigos, vinham apresentando produtividade em declínio, ao contrário dos cafezais paulistas, com novas técnicas de plantio, baseada no trabalho assalariado, terras férteis e de escoamento favorecido pela rede de ferrovia que se espalhava pelo interior em forma de leque.
Na Corte, fortes ventos contrários começaram soprar sobre a fragilizada nau empresarial do Visconde de Mauá. Dívidas não recebidas da guerra do Paraguai, os prejuízos na implantação da ferrovia de Santos a Jundiaí, além de outros investimentos que não deram o retorno esperado no prazo devido, fizeram com que ele fosse obrigado a solicitar em 1875 uma moratória aos credores por três anos.
Esta notícia causou grande alvoroço na Praça do Rio de Janeiro, pois Mauá era o maior empresário nacional, que não dependia diretamente da lavoura do café.
Neste mesmo ano estava também interligada por via ferroviária a Corte à Província de São Paulo, embora fosse necessário transbordo de passageiros e mercadorias em Cruzeiro, pois a linha que vinha de São Paulo era de bitola métrica, enquanto a Estrada de Ferro D. Pedro II era larga (1,60 m).
A questão da bitola ferroviária voltou novamente a ser tema de debates, dividindo tecnicamente a classe técnica entre larguistas e estreitistas, que defendiam, respectivamente, a unificação da malha nacional pela bitola larga (ferrovias mais antigas) ou pela bitola métrica (ferrovias com menor custo de implantação). Nos Estados Unidos, esta questão foi enfrentada presidente Abraham Lincoln, diante das dificuldades percebidas durante a Guerra da Secessão, através de um ato que unificou toda a grande rede americana para a bitola original inglesa de 1.435mm; uma malha de 45 mil quilômetros. No Brasil, entretanto, que nunca atingiria esta extensão, o governo não assumiu um papel normativo, diante dos interesses políticos e econômicos envolvidos nas concessões dadas, que especificavam a bitola a ser utilizada, quase sempre diferente da linha onde se conectaria para obter ganhos no transbordo obrigatório, numa época em que o sistema concorrente com as ferrovias era a tração animal.
Nesta mesma época em que o Imperador retornava ao Rio de Janeiro, também aportava na cidade, vindo da Espanha, um senhor de sessenta e dois anos, também de olhos azuis, com os documentos brasileiros com o nome de Emilio Pietro. Em sua companhia desembarcou também um rapaz, seu sobrinho, que tinha o mesmo nome. O agente da imigração brasileira olhou seus documentos e perguntou:
- O rapaz é seu sobrinho, senhor Pietro, mas não tem o mesmo sobrenome.
Assustado, Juan lembrou-se dos conselhos de Emilio, de responder em galego, mas falando vagarosamente, pois seria mais bem compreendido do que em castelhano. Explicou então, que no seu documento brasileiro, o apellido da mãe, que se posiciona em último lugar, não acompanha as gerações seguintes, mas sim o do pai, que se segue o nome próprio, é colocado no meio.
O fiscal pareceu não entender sua explicação e interrompeu:
- Se o seu sobrinho é menor de idade o senhor é o responsável por ele. Se ele for ficar definitivamente no Brasil é bom providenciar nova documentação.
- Tem prazo para isso?
- Não, quando quiserem. O Brasil está precisando de sangue novo, o governo está incentivando isso. Os imigrantes europeus são todos recebidos de braços abertos.
O neto olhou para seu avô e sorriu. Juntaram suas malas e saíram do cais do porto, observando com olhos admirados a movimentação desordenada na rua, com escravos de ganho passando com mercadorias sendo expostas aos novos viajantes. Seguiram a pé em direção ao Hotel Pharoux, bem de frente, onde ficariam hospedados por trinta dias, até arranjarem uma moradia definitiva.
- Como será que o tio Emilio está se arrumando lá na Galícia?
Carracedo, como vários pequenos pueblos do norte da Espanha, se esvaziava a cada dia, principalmente de pessoas jovens. Por isso, não estranharam quando o neto de Juan viajou sem dizer para onde, aparentemente deixando seu avô sozinho, acompanhado apenas das ovelhas e dos cachorros pastores. Estranharam isto sim, foi o entusiasmo do velho solitário em ficar andando de um lado para outro no povoado, olhando com atenção pequenos detalhes do cotidiano que eles mesmos, moradores já não se importavam: a primeira nevasca do inverno, que fora extremamente rigoroso naquele ano, mas não o impediu de andar com neve até a canela; as águas cristalinas e frias do desgelo, que fazia aumentar o volume nas canaletas que corriam junto aos muros de pedra de junta seca que dividiam as propriedades em pequenos lotes; os galhos secos das árvores que começaram logo a ganhar flores verdes claras, ao primeiro calor da primavera; a animação em tocar o rebanho de ovelhas ladeira acima, levando na sacola livros que eles nunca antes o haviam visto ler. Porém, como os velhos vão adquirindo com o passar dos anos manias próprias, aceitaram que Juan Pietro estava numa fase de mudança, provavelmente sentindo a ausência do neto.
Quando o verão chegou ao Rio de Janeiro, como todo europeu, Emilio e Juan sentiram vontade de fazer como todos os habitantes de posse na Corte faziam: passar o verão em Petrópolis.
Pegaram então um vapor em frente ao hotel Pharoux e durante uma hora viajaram até o fundo da baía da Guanabara, admirando a natureza vigorosa, com tons de verde mais intensos do que a montanhosa Galícia. Ao passarem pela Ilha de Paquetá, Emilio comentou com avô ser o local onde se passa a trama do romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado pela primeira vez em 1845. Ler os escritores locais foi uma das formas aconselhada pelo seu tio de se familiarizarem com a cultura brasileira.
Mas, outro motivo os levava na viagem ao alto da serra, além de escapar do calor do verão no Rio de Janeiro e do risco das epidemias de febre amarela: conhecer de perto o processo da miscigenação cultural, decorrente da imigração alemã para Petrópolis, que havia começado há mais de 32 anos.
O trem que faria o curto percurso de 16 quilômetros estava na primeira estação mais próxima do píer do Porto de Mauá, chamada Guia de Pacobaíba, aguardando a chegada do vapor da mesma empresa: Companhia Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis. Juan perguntou ao neto observando o bilhete:
- Nós vamos de trem até Petrópolis.
- Não, meu avô, o trem nunca chegou lá, apesar de a ferrovia ter sido inaugurada em 1854. Não iremos viajar nem uma hora de trem, depois vamos sacolejar mais de duas em carruagem, serra acima. Todos são obrigados a este sacrifício, até o Imperador.
- Mas o seu tio não disse que o Brasil está mais evoluído em ferrovias do que a Galícia, onde a primeira ferrovia foi inaugurada apenas em 15 de setembro de 1873, mais de vinte anos da primeira ferrovia brasileira?
- Sim, mas não sabem ainda como galgar a serra.
- Mas já não venceram a Serra de Santos, através de um sistema de cabos?
- Pelo que eu andei lendo, o pouco café que atualmente desce por Petrópolis não justifica o investimento, ao contrário da ferrovia São Paulo Railway, a inglesa, que tem o monopólio e é uma das mais lucrativas de todo mundo, pois tem apenas 175 km.
- Vejo que você, Emilio, está realmente estudando a fundo este país!
Não sabia, entretanto a dupla, que este problema de acesso ferroviário a Petrópolis já estava sendo solucionado, embora fosse representar uma vitória dos estreitistas contra os larguistas. Para a implantação das novas ferrovias na acidentada topografia brasileira financiada por empresários privados, os projetistas eram obrigados a fugir de obras de arte de engenharia sofisticada como a Serra das Araras implantadas pela Estrada de Ferro D. Pedro II. Ao invés disso o traçado da linha procurava seguir a conformação natural dos vales, com curvas de pequeno raio, apertadas para contornar as encostas. O tempo dos grandes túneis para vencer montanhas estava ficando para trás na engenharia ferroviária brasileira, adotando-se rampas elevadas de 3,5% e até 4%, quando na bitola larga o máximo permitido era 2%.
O truque de menor base rígida da bitola métrica permitia pequenos raios de curva sem grande sacrifício para a via permanente e passou a ser preferida nas novas linhas que iam sendo implantadas, seguindo a marcha da lavoura do café, sempre em busca de terras virgens. Falava-se até que depois de Que Luz de Minas, a própria Estrada de Ferro D. Pedro II teria sua bitola reduzida para a bitola métrica até Vila Rica de Ouro Preto, capital da província de Minas Gerais. Era uma proposta dos estreitistas, justificando economia, embora contrapostos pelos larguistas, que alegavam que no longo prazo o custo operacional decorrente do necessário transbordo de mercadoria e passageiros compensava o maior investimento no traçado pela bitola larga – não havia acordo entre estas duas correntes que duelavam exibindo infindáveis argumentos técnicos. Os engenheiros da Estrada de Ferro D. Pedro II afirmavam que a qualidade do traçado da linha iria perdurar durante séculos pela sua qualidade, enquanto as linhas de bitola métrica de implantação mais barata não teriam a mesma sobrevida.
Com relação à chegada do trem a Petrópolis, finalmente uma novidade surgiu para viabilizar a chegada da primeira ferrovia à Cidade Imperial: a cremalheira inventada pelo engenheiro suíço Niklaus Riggenbach e testada com sucesso na inauguração em 1871 da primeira ferrovia de montanha a utilizar esta técnica, entre Vitznau e Rigi, na Suíça.
Quando lhe deram conhecimento do projeto, o Imperador logo aprovou a proposta e ficou duplamente satisfeito, pois foi informado que os engenheiros Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares solicitariam também concessão para aplicar o mesmo sistema numa ferrovia até o alto do mirante, que seria chamada Estrada de Ferro do Corcovado.
- São projetos magníficos, senhores. Meu pai, o Imperador Pedro I, se vivo estivesse, seria provavelmente o primeiro a querer andar neste trem.
- Até Petrópolis?
- Claro que não, ele iria preferir a ferrovia para o Corcovado. Subir a cavalo até lá no alto era seu passeio predileto, como também é o meu. Ele ficava horas seguidas admirando a baía da Guanabara, a lagoa Rodrigo de Freitas e Oceano Atlântico, até o sol se pôr, atrás da Pedra da Gávea.
Depois da aprovação do Imperador os investidores despediram-se e na saída comentaram entre si a vitalidade do monarca, depois da longa viagem à Europa, África e América do Norte. Pareceu-lhes que não estava tão preocupado como outros políticos ligados à defesa da monarquia, sobre o movimento crescente dos republicanos, principalmente depois da primeira convenção realizada na cidade de Itu do Partido Republicano Paulista. A crescente produção de café na província de São Paulo, aliada à queda da produção do Vale do Paraíba fluminense era um outro motivo de preocupação, pois a nobreza rural que sustentou a monarquia durante o reinado do Imperador ficava cada dia menos rica, comparando com os novos fazendeiros das terras roxas do interior paulista.
Outra questão que também preocupava a Corte referia-se ao patrimônio dos proprietários de escravos, que observavam uma redução crescente do preço dos escravos a cada ano, uma situação totalmente inesperada: aumentar a produção de café sem a necessidade de mais braço escravo, algo que parecia impossível há 27 anos atrás, quando da Lei Eusébio de Queiroz. Além do movimento republicano, havia também o movimento dos abolicionistas, que conquistavam simpatias em todos os lugares, até entre os próprios monarquista e especialmente na própria Corte, na figura da Princesa Isabel.
- Eu condeno esta exibição permanente pela princesa de ramalhetes de camélias, cultivadas no Quilombo do Le Blom, nas terras do português José Seixas. Estas flores passaram a ser um símbolo deste movimento, que parece aprovado pela própria Corte.
- O Imperador nunca defendeu publicamente a abolição.
- Perderia toda a sustentação política se o fizesse. Mas poderia pedir à filha uma atitude semelhante...
- Estas ambigüidades do Imperador são terríveis...
- Apadrinhar estes negros fujões é mesmo um caso de polícia, que só não vira processo porque este português, o José das Malas, é muito rico e influente. Chega a ter maquinaria a vapor na sua fábrica na rua Gonçalves Dias para não utilizar braço escravo, veja só!
- Dá um péssimo exemplo, pois abrigando os negros em suas terras, recebe destes, por gratidão, um carinho todo especial no cultivo destas flores japonesas, que ninguém poderia imaginar conseguissem serem produzidas aqui no Rio de Janeiro, neste calor infernal. A princesa deveria prestigiar nos seus ramalhetes, a nossa floresta nativa, com tanta flor silvestre brasileira mais bonita!
Quando chegaram a Petrópolis, os dois Emilios foram se hospedar no Hotel do Inglês, como recomendava o Viagem Pitoresca, de Carlos Augusto Taunay, onde planejavam ficar durante todo o mês de janeiro, o mais quente do verão.
Petrópolis nessa estação ficava especialmente movimentada devido à presença do Imperador, que sem comitiva a cercá-lo perambula pela cidade com toda liberdade. Porém, mesmo que fizesse calor na serra não deixava de trajar a pesada casaca negra, que fazia destacar sua barba espessa precocemente grisalha para um homem de pouco mais de cinqüenta anos.
- Gostei do ar puro desta cidade, Emilio. Acho até que poderemos vir a morar aqui, ao invés do Rio de Janeiro.
- Tio Emílio falou ter ajudado na sua construção, vamos ver as obras que ele listou ter trabalhado. Poderemos tentar até o Palácio Imperial, mas deve ser difícil.
- Antes de tentar isso, vamos conhecer este pedaço da Alemanha encravado no alto da serra. Ele nos relatou que ficou amigo de uma família de imigrantes que aqui aportaram em 1845, os Kling. Contou até o acidente com o patriarca, Karl Kling que morreu quando uma árvore que cortava entrelaçou-se nos cipós e caiu sobre ele, deixando viúva e três filhos; o maior Maguns, com apenas quinze anos. Ele ajudou a família desesperada conseguir emprego nas obras da União e Indústria.
- Bem, este agora, deve estar com 47 anos. Podemos procurá-lo.
- Disse que todos eles moravam no bairro da Mosela.
No hotel lhes informaram que para chegar à Mosela, bastava seguir o Rio Piabanha, que corta a cidade até o ponto onde este recebe as águas de um riacho chamado de rio Paulo Barbosa. Seguindo as instruções, a dupla caminhou por uma estrada de terra estreita, com grande movimento de carroças que subia o tempo todo. Reconheceram logo que estavam bem no meio da colônia pela grande quantidade de crianças louras, com a pele rosada pelo sol tropical.
Resolveram então perguntar. Algumas delas custaram entender o que diziam, mas quando descobriram que procuravam os Kling, tudo ficou fácil, pois era uma família numerosa. Prosseguindo na direção indicada foram surpreendidos por um homem gritando:
- Mestre Emílio, mestre Emílio!
Juan e Emilio se entreolharam, percebendo que teriam de enfrentar a situação que ocorreria mais cedo ou mais tarde. Estava na hora do grande teste. Virando o rosto Juan viu um homem se aproximar sorridente e estendendo as mãos.
- Que prazer, mestre Emílio. Ouvi dizer que o senhor tinha voltado para a Espanha...
- Fiquei lá uma temporada sim...
- O senhor esqueceu o português, mestre?
- Ele ficou doente. Mas, deixe-me apresentar, sou também Emílio, seu sobrinho, que serve de companhia por causa da enfermidade...
- Eu sou o Magnus Kling, o senhor não se recorda?
- Que prazer, seu Magnus. Estava mesmo a sua procura, pois meu tio perdeu a memória com a doença, chegando até esquecer o idioma. Ainda mais pessoas e acontecimentos.
- Você fala um português com som estranho, mas dá para entender. Eu sou alemão, cheguei aqui com 15 anos e também não consigo falar o português direito.
- A língua galega é muito parecida com a língua portuguesa, o que facilita um pouco para nós. Mas meu tio, devido à enfermidade, está tendo dificuldade em falar da mesma maneira que estava acostumado antes.
Juan forçou uma expressão distante, como parte do plano que entabularam para quando encontrasse velhos conhecidos do seu irmão que ficara na Espanha com seus documentos.
- Eu sinto muito pela doença. Mas vamos lá até minha casa, onde meus filhos ficarão satisfeitos em vê-lo novamente, principalmente o Adão Kling que também chegou a trabalhar com o senhor. Recorda-se?
- Não, desculpe...
- Eu peço desculpa. É a doença, sei...
- Os médicos lá na Espanha me aconselharam a voltar e conversar com as pessoas novamente, tentando recordar os fatos passados que a memória irá voltar, gradualmente.
- Sei, chamam isso de amnésia, não é?
- Sim é esta doença mesmo. Amnésia.
O neto sorriu para o avô, que piscou o olho quando Magnus olhou para outro lado. Haviam sido aprovados no primeiro teste: a desculpa da amnésia fora perfeita. Mas, pensou como estaria o verdadeiro Emilio se arranjando na Espanha, passando por Juan?
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