Capítulo 16
A Mula do Ouro
Por ordem expressa do Imperador a Estrada de Ferro D. Pedro II deveria atingir a cidade de Juiz de Fora na data prevista originalmente por Mariano Procópio, para isso determinando que o professor e engenheiro da Escola Militar Bento José Ribeiro Sobragy assumiria a direção da ferrovia, o que aconteceu em 16 de abril de 1873. Tratava-se de profissional de estreita confiança do Imperador que já havia autorizado que ele ocupasse o mesmo cargo entre 14 de dezembro de 1865, quando substituiu Cristiano Otoni até 13 de janeiro de 1869, quando foi substituído por Mariano Procópio, por conta da absorção da Cia. União e Indústria pela ferrovia.
Entretanto, como perdurava a suspeita de fraudes contábeis na administração Mariano Procópio, a auditoria reduzia o ritmo das obras, exigindo que muitas fossem dadas como concluídas e terminadas às pressas, com o objetivo principal de “dar passagem” ao trem inaugural, pois em dezembro de 1875 o Imperador fazia questão de ir pessoalmente à cidade cortar a faixa de abertura da estação de Juiz de Fora que seu falecido amigo tivera maior carinho em projetar.
Dentre as obras que ficaram para trás, para serem concluídas posteriormente, estava a ponte metálica em treliça, situada a menos de mil metros rio acima da ponte rodoviária do Paraibuna. Neste ponto a ferrovia que vinha circulando no território da província de Minas Gerais após cruzar a ponte de Serraria, novamente retornava para a província do Rio de Janeiro, embora, poucos quilômetros depois, novamente e de forma definitiva a Estrada de Ferro D. Pedro II voltasse para a província de Minas Gerais.
Como o verão estava especialmente tórrido naquele ano, Tuca que trabalhava com uma tropa de doze animais transportando as pedras lavradas pela equipe do mestre Pietro para o acabamento dos encontros da ponte, resolveu mergulhar no rio num final de tarde. Neste ponto onde a ponte estava sendo construída o rio se tornava estreito e profundo, formando rodamoinhos. Era um local onde outros nadadores não se atreviam, pois achavam que a corredeira os tragaria para o sumidouro. Tuca, porém, percebendo uma incrível semelhança do local com o movimento da água do Rio Paraíba do Sul que tão bem conhecia, também fazia junto à grande ilha a jusante da cachoeira de Cantagalo, deixou seu corpo ser sugado pela correnteza. Antes de mergulhar encheu seus pulmões com uma grande golfada de ar e liberou o corpo. A pressão da água logo o levou para o fundo. Sob as águas escuras do Rio Paraibuna foi tateando as pedras, sentindo o leito rochoso, procurando a mesma formação natural que suspeitava poder existir. Depois de vários mergulhos finalmente a encontrou, deixando que a força da água arrastasse seu corpo, sob uma laje que se projetava. Numa grota submersa, escura, uma bolsa de ar se formava. Pôs a cabeça para fora d’água e respirou um ar pesado e recendendo a mofo, enquanto ouvia o ruído da água do Rio Paraibuna correndo sobre as pedras cinco metros acima de sua cabeça. A escuridão, porém era total, nada se avistando. Tirou todo seu corpo para fora d’água e rastejou dentro da gruta, que não teria mais do que um metro de altura. Tateando com as mãos percebeu vestígios de ossos de animais. Concluiu que valeria a pena investigar com mais detalhes. Mergulhou novamente na água e deixou que a força da correnteza o arrastasse rio abaixo, logo emergindo à luz solar.
Dias depois, Tuca mergulhou de novamente, trazendo desta vez um isqueiro de pedra e uma vela, protegidos por uma lona impermeável. Repetiu a manobra, deixando que a força da correnteza o arrastasse para baixo da laje e penetrou na caverna. Ao acender a vela viu sob a claridade tênue os ossos de animais esbranquiçados e um alforje de couro, endurecido pelo tempo. Como estava quebradiço o rompeu com facilidade, revelando sob a luz da vela o brilho inconfundível de barras de ouro. Havia descoberto, escondido por uma lâmina de cinco metros d’água o local onde foram parar as mulas carregadas de ouro que tentavam driblavam a barreira fiscal de Paraibuna e foram tragadas pela água e sugadas para dentro da gruta submersa. Achara a lendária mula do ouro.
Tuca guardou segredo por alguns meses, sem saber como dar o passo seguinte. Até que um dia a oportunidade surgiu, quando o mestre Emilio Pietro o chamou. As obras estavam no fim e já havia recebido ordem da administração de desmobilizar as equipe de trabalhadores. O serviço da ferrovia seguia agora com toda intensidade em direção a Barbacena, enfrentando o último grande obstáculo até as margens do rio São Francisco, a meta final da Estrada de Ferro D. Pedro II de interligar a Corte com as províncias da região Nordeste, sem utilizar a navegação por cabotagem.
- Tuca, você já deve ter percebido que os serviços estão terminando. Está sendo o último dispensado, mas infelizmente temos que parar, até surgir outra oportunidade mais próxima, já que não pretendo prosseguir acompanhando a ferrovia. Como você faz parte da minha equipe há muitos anos, gostaria de informar que manterei seu salário, pelo menos por mais três meses, até que uma nova empreitada surja. Isto é, se for de seu interesse...
- Não será necessário, mestre.
- Como não? Como irá se manter?
- Sei como resolver este problema.
- Pois eu me preocupo com você Tuca. Criou inimigos em Vassouras, sabe bem. Mesmo com a morte do doutor Joaquim Teixeira Leite, o cúmplice sobrevivente está apenas esperando surgir uma oportunidade e irá vingar os antigos comparsas, você sabe. Graças a Deus o processo não prosseguiu na polícia, resultando o processo num inquérito de morte dupla, permitindo que fosse sumariamente arquivado. Mas pode ser reaberto a qualquer momento, basta uma denúncia bem fundamentada...
- Sei que o senhor pagou para isso, mestre Emilio...
- Como soube?
- Essas coisas vazam. Provavelmente alguém não ficou satisfeito com a divisão.
- Sei também que se empenhou por mim, quando fizeram a manobra de compra, aceita até por quem sempre passou as mãos na minha cabeça, desde pequeno...
- Como soube?
- Foi numa conversa entre os Voluntários de Paraíba do Sul. As paredes das casas grandes das fazendas têm ouvidos. Muitas vezes um pajem ou mucama não ouve a conversa toda, principalmente quando as amas conversam em voz baixa, por isso inventam na senzala a parte que faltou. Mas, juntando um pedaço aqui, outro pedaço acolá, é possível formar uma imagem perfeita.
- Como um mosaico cheio de cacos.
- Sim, como um mosaico. Se não fosse o suborno na polícia, muito dinheiro gasto pelo senhor, capaz até de fazer o doutor Joaquim mudar de estratégia eu morreria numa cela da cadeia de Vassouras. Do mesmo modo, se não fosse sua insistência, ao defender a minha inscrição no corpo de Voluntários da Pátria, iria morrer de forma ainda mais cruel, pagando novenas e mais novenas de bacalhau numa fazenda qualquer afastada na Vila de Vassouras. Devo, portanto, duas vezes minha vida ao senhor...
- Fiz tudo isto porque foi necessário. No caso do suborno, contrariando todos os meus princípios.
- Sei disso, mestre Emílio. Não é necessário justificar. Mas gostaria de reembolsá-lo, pagar-lhe de alguma forma.
- Mas como, Tuca? Você é um simples trabalhador...
- Suponha que, por um milagre divino, eu consiga todo o dinheiro necessário para que o senhor se aposentasse definitivamente e fosse cuidar desta sua falta de ar. O que o senhor faria com este dinheiro?
- Se isto fosse possível... Deixe-me pensar... Bem, depois de tantos anos no Brasil, tenho vontade de sentir o frescor da neve novamente. Tomar vinho tinto todos os dias, comer queijo produzido com leite de ovelha, saborear os embutidos de Castilla e Leon, especialmente os da província de Salamanca...
- O senhor sempre guardou dinheiro, não foi?
- Claro, está tudo bem aplicado com o irmão da Viscondessa, rende juros anuais que são capitalizados, mas não seria suficiente para que eu pudesse parar de trabalhar como mestre canteiro. Tenho ainda muita pedra para ser quebrada pela frente, filho...
- Pois eu tenho um segredo para contar-lhe e, mais ainda, gostaria de pedir a sua ajuda.
- Pode pedir. Que ajuda?
- Vou dividir a fortuna que achei em partes iguais, pois lhe devo minha vida duas vezes, mas gostaria que guardasse mais de dez arrobas de barra de puro ouro. Um tesouro que encontrei, aqui perto mesmo, debaixo destas águas douradas pelo sol.
- Que tesouro Tuca?
- Algo que pode tornar nossos sonhos uma realidade: achei a mula do ouro!
No ano de 1875 completou o prazo de cinco anos que fora cedida por empréstimo a residência de verão em Petrópolis da viscondessa Mariana Claudina na Rua do Imperador 58, onde funcionava o Asilo Santa Isabel. Segundo avaliações, a residência estava calculada em 40 contos de reis. Novamente o sacerdote, agora com três freiras que trabalhavam com as duas centenas de alunas internas, foi de Petrópolis a Entre-Rios procurar resolver o problema. Depois de ouvir as ponderações a viscondessa do Rio Novo decidiu que poderia vender-lhes o imóvel por 24 contos, para pagamento em longo prazo. O padre Nicolau deu graças aos céus e agradeceu o espírito benemérito da nobre senhora e proferiu:
- Nós não temos agora, viscondessa, nem mesmo 24 mil réis, quanto mais 24 contos. Mas, com a graça de Deus haveremos de conseguir os recursos suficientes, pois o primeiro grande passo já foi dado, graças ao espírito benemérito da senhora.
Ao completar a empreitada de construção da estrada de ferro, o engenheiro Henrique Dumont resolveu de fato se mudar de Cabangu, na vila de Palmira. Consultou seu sogro, o comendador Paula Lima e pesquisou várias fazendas ao longo da Estrada de Ferro D. Pedro II, optando por uma boa faixa de terra, com preço baixo, na localidade de Casal, na Vila de Valença, próximo ao povoado de Rio das Flores, no Vale do Paraíba, onde estava concentrada a maior produção cafeeira do Brasil.
Embora não tivesse prática de agricultura, sua formação de engenheiro na Escola de Artes e Ofício de Paris permitiu que rapidamente assimilasse os aspectos econômicos da lavoura. Em um caderno foi anotando os dados estatísticos da região nos últimos trinta anos, alguns deles oficiais, mas a maioria decorrente de conversa com antigos fazendeiros mais experientes, que não se negavam a falar sobre os aspectos técnicos da sua profissão, alguns deles registrando inclusive em livro, como o Memória sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro, de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, segundo barão de Pati do Alferes, publicado pela primeira vez em 1847 e reeditado pela terceira vez em 1873.
À medida que estudava foi percebendo que não fizera um bom negócio na aquisição daquela fazenda. A produtividade das terras na região estava decaindo, os cafezais envelhecidos cada ano produziam menos e o cultivo em ruas mais apertadas ajudava a proliferar as pragas. A mão-de-obra escrava também não tinha o mesmo rendimento de anos atrás e os novos escravos “baianos” eram de lida muito mais difícil do que os boçais africanos – era o diagnóstico de todos os velhos fazendeiros.
Henrique resolveu estender sua pesquisa na direção sul, ao longo da linha, para verificar se a situação era uma característica apenas do médio Vale do Paraíba ou se estenderia também à região paulista. Foi-lhe indicado que procurasse em Resende o médico Dr. Luís Pereira Barreto, graduado na Bélgica, mas que entendia de café como ninguém.
- Mas vá de preferência sábado, porque ele desde 1870 está clinicando em Jacareí, onde se casou e está na fazenda do pai, em Resende, apenas nos fins de semana - aconselharam.
Seguindo as instruções, depois de avisá-lo com antecedência por telegrama da visita, Henrique Dumont foi procurar o Dr. Luis Barreto. Após as apresentações, logo deu para perceber que se entenderiam muito bem, pois ambos eram positivistas. Esta filosofia materialista e empírica considera que o homem é o inventor da história e a ciência é capaz de explicar tudo. Moralmente aproxima-se da cristã ortodoxa, mas sem respeitar a gerência da igreja católica, centralizadora em excesso, que tolhe o desenvolvimento, o progresso, em nome de uma ordem pouco inteligente. No seu período na Europa fez amizade com outros brasileiros também adeptos, mas principalmente de Pierre Laffitte, que fora discípulo de Auguste Comte, o fundador da doutrina positivista.
- O café no Vale do Paraíba está com os dias contados, Dr. Henrique. Durante anos e anos foi tratado como uma riqueza extrativa. As terras agora estão exauridas. Plantam sem respeitar as curvas de nível do terreno, apenas para facilitar a fiscalização no trabalho de colheita. Toda parte nutritiva do solo, a parte superficial, desce nas enxurradas até o Rio Paraíba, que vai ficando cada vez mais assoreado na região de Campos dos Goitacás, onde a declividade é reduzida.
- Sob o ponto de vista da engenharia sua descrição está perfeita, doutor Luís – concordou Henrique.
- O futuro do Brasil está no interior paulista! Em termos topográficos a diferença é muito grande, pois enquanto aqui, por causa da Serra do Mar na margem direita e da Serra da Mantiqueira na margem esquerda, quase todas as fazendas têm terreno acidentado, exigindo um plantio descontinuo, apenas nas encostas dos montes, no oeste paulista o plantio pode se prolongar de maneira contínua por quilômetros!
- Interessante...
- E o solo então, Dr. Henrique? Que maravilha! Terra roxa, oriunda da decomposição de rochas vulcânicas, rica em sais minerais. Pode-se plantar direto, sem precisar queimar para formar cinza.
- A topografia ajuda então a manter os nutrientes.
- Claro. É preciso apenas cuidar para respeitar o relevo, plantando em curvas de nível, senão criam-se grandes voçorocas que pode levar tudo a perder.
- Acaba-se com o sistema de ruas, com as plantações em fila subindo ao longo das encostas?
- Exatamente. A própria topografia vai indicar então que a melhor maneira de conseguir mão-de-obra produtiva, mais fácil de gerenciar a colheita é através de parcerias, onde os parceiros ganham também com a produção, não mais como no trabalho escravo, na base do chicote.
- O que está de acordo com a tendência inexorável da abolição que vai chegar, mais cedo ou mais tarde.
- Quanto mais cedo eliminarmos do Brasil esta injustiça melhor. O negro escravo é nosso irmão, não se justifica esta exploração que confronta totalmente com o nosso lema: amor como princípio, ordem como base e progresso como fim!
- Bem, quanto à fertilidade do solo e a técnica de exploração estou convencido. Mas qual espécie melhor se adapta...
- Vejo que o senhor desconhece o café Bourbon, não é?
Depois de uma breve explanação, onde detalhou os anos de pesquisa no viveiro de mudas da fazenda de seu pai, quando chegou a obter por cruzamento híbrido de espécies diferentes de café, uma variedade de grande produtividade que batizou de Bourbon, o engenheiro concluiu:
- Mais uma vez me convenceu. Agora sobre o escoamento. Aqui temos uma ferrovia que acompanha toda a lavoura...
- Resolvido também, meu caro engenheiro. Parece incrível dizer isto hoje, mas o porto de Santos irá superar em produção o porto da Corte. A “inglesa” a São Paulo Railway, que liga Santos a Jundiaí foi inaugurada há pouco, em 1868, mas seu movimento cresce todo anos. A Paulista, uma ferrovia que nasceu de investimento de fazendeiros paulistas, sem ajuda alguma do Governo Imperial, prolongou a inglesa, partindo de Jundiaí, passou por Campinas e segue para Itu, aonde chegou agora, em 1873. Outras ferrovias, como a Mogiana e a Sorocabana começam a ser construídas nos próximos dois anos, até 1875. Todas vão desembocar em Santos. Sei que o senhor foi empreiteiro da Estrada de Ferro D. Pedro II, que tem investimentos aqui no vale fluminense, mas, sinto muito, o futuro é o Oeste Paulista!
- O senhor me convenceu Dr. Luis. Quando for visitar aquela região eu faço questão de acompanhá-lo.
- Estou mesmo pensando em organizar uma verdadeira caravana de fazendeiros aqui do vale que tenham visão de futuro. O senhor, Dr. Henrique, como engenheiro, fará parte dela, sem dúvida alguma!
- Será então a Caravana Barreto?
- Se no futuro ficar conhecida por este nome será uma gentileza da história. Está mesmo animado?
- Se for necessário liquido tudo que tenho aqui e sigo para lá!
- Certo. Como se diz aqui no Vale, ditado de mineiro: boi que chega primeiro bebe a água limpa, não é verdade? As melhores terras serão dos visionários, como creio, nós dois podemos nos considerar!
Todos ficaram admirados com a decisão súbita, mas compreenderam a desilusão de Emilio Prieto e seu desejo de retornar ao país de origem, aos 61 anos, por alegados problemas de saúde.depois de mais de quarenta anos no Brasil. O fazendeiro Antonio Barroso pediu-lhe prazo de sessenta dias para quitar todo o investimento, mas não deixaria de pagar nenhum rendimento devido.
Emilio fechou com Tuca um acordo: levaria para a Europa todas barras de ouro e deixaria com ele os mil réis do Império do Brasil que precisasse, como conversão, pois poderia gerar suspeita se ele, um ex-escravo, surgisse de repente com barras de ouro. Além disso, para justificar o súbito enriquecimento de Tuca, antes de partir faria uma “doação” equivalente à metade de todas suas economias de 40 anos que foram aplicadas com o dono da fazenda da Boa União.
Esta decisão, sim, causou grande surpresa chegando muitos a comentar que finalmente o misterioso pai de Tuca se revelara.
Enquanto aguardava, Emilio aproveitou para esculpir, usando granito e madeira de lei, peças ocas onde as barras foram camufladas. Essas “obras de arte”, de qualidade e gosto duvidoso seriam embarcadas para Europa como carga pessoal. Apenas ele e Tuca souberam do estratagema.
Aproveitando o recém inaugurado cabo de comunicação do Brasil com a Europa, Emilio prometeu que assim que Tuca necessitasse dispor de sua parte ele tomaria providência para que o dinheiro equivalente ao ouro que estava guardando chegasse às suas mãos.
Quando Emilio embarcou no vapor que o conduziria à Europa e acenou para Tuca do convés, não conseguiu conter as lágrimas. Estava se despedindo de anos de experiência inesquecível, a vida lhe proporcionara experiências totalmente diferente do que lhe estava reservado como simples pastor de ovelhas nas montanhas da Galícia. E ele não deixava de se perguntar, o que teria acontecido com sua família, especialmente com seu irmão gêmeo Juan? Teria casado com Maria, seu primeiro amor juvenil? Tiveram filhos? Netos?
O navio zarpou ao entardecer e rapidamente deixou a baía da Guanabara, junto à grande silhueta de granito do pão de açúcar colorida de vermelho pelos últimos raios daquele mês de junho. Chegaria à Europa em pleno verão, o que seria interessante por causa do choque térmico, pois seu corpo provavelmente estranharia o frio da Galícia, depois de tantos anos vivendo em um país tropical.
A força constante do vapor fez a viagem transcorrer na metade do tempo que levou há mais de 40 anos, vindo da Ilha dos Açores num barco à vela. O destino do paquete francês em que viajava era o porto de Lisboa, seguindo depois para Vigo, na Galícia, onde desembarcaria. O navio levava vários passageiros para outros portos europeus, mas seus companheiros de viagem, burgueses brasileiros e estrangeiros retornando tinham, na sua maioria, apenas dois destino: Paris e Londres.
Depois de dois dias atracado em Lisboa, o navio finalmente prosseguiu viagem até Vigo, chegando pela manhã. Emilio desceu, apresentou seus documentos brasileiros, os únicos que tinha, pois saíra clandestino da Galícia e o agente da alfândega estranhou tanta escultura de madeira e granito.
- Carga pesada, senhor! – comentou o agente em galego.
- Anos de trabalho – respondeu em português, que foi perfeitamente compreendido.
- Qual sua profissão?
- Artista, escultor.
- Quanto vale a carga que está transportando.
- São obras de arte e o valor é incalculável.
Não estava mentindo, pois realmente no interior de cada peça de pedra, cuidadosamente escavada escondia barras de ouro que no total chegava próximo aos 30 quilos, já que eram 120 lingotes de presumíveis 250 gramas, distribuídos em 12 “esculturas” cada uma delas com dez lingotes, um valor realmente incalculável.
Logo que desceu, Emilio procurou um hotel próximo do porto, pois deveria planejar bem sua aparição súbita no pueblo de Carracedo, no contraforte da serra Calva, no sul da Galícia. Decidiu que ficaria uma semana na cidade, recuperando o sotaque galego, depois de muitos anos sem usar a língua materna. Na biblioteca pública procurou os livros de história contemporânea, folheou a coleção de periódicos e, por fim se considerou apto a emitir um diagnóstico: muito pouco havia mudado na sua região natal nos 42 anos de ausência.
A viagem de Vigo até Carracedo, distante 250 km demoraria vários dias de carruagem, pois não havia trem e a estrada não era pavimentada como a União e Indústria, onde se podia desenvolver 20 km/h. Para a viagem arranjara poucas roupas em uma pequena valise e levava apenas duas das esculturas, as outras deixou bem guardada no porão do hotel, pagando uma estadia antecipada por um ano, argumentando que pretendia testar a recepção no mercado de sua obra de arte antes de comercializá-las. Recordou-se que o dono do hotel fez uma expressão desanimadora diante das peças, realmente grotescas, sem muita arte, mas como ele pagava bem nada falou e prometeu guardá-las com todo o cuidado no porão do edifício.
A paisagem que Emilio via desenrolar pela janela da carruagem fazia com que sua memória fosse gradativamente recuperando cenas antigas: ovelhas pastando em aclives suaves, propriedades divididas por grossos muros de pedra de junta seca, casas também de pedra com abrigo para animais no porão e muitos cachorros pastores, iguais aos que possuía na infância. Aspirou bem o ar que entrava, filtrando todos os aromas que vinha do campo, o que fazia retornar cenas de infância que pensara ter perdido para sempre. Fechou os olhos e prosseguiu, tentando identificar cada cheiro, pois isto parecia ativar sua memória.
Quando finalmente desceu no ponto final e começou a descer uma pequena encosta até sua antiga casa, foi reconhecendo inalteradas as velhas construções entre as ruas estreitas do povoado. Não sabia, todavia, se a antiga casa de seus pais ainda pertencia à família. Pelo horário as ruas estavam ainda mais vazias, pois os poucos moradores estavam certamente mergulhados numa profunda siesta.
Ouviu um tilintar de sinos e logo um pequeno rebanho formado por oito vacas leiteiras estavam passando sendo, conduzidas por um senhor que parecia ter sua idade. Ele desviou o olhar dos animais, parecendo reconhecer-lhe. Levou os dedos ao chapéu para cumprimentá-la, enquanto procurava descobrir quem seria. Emilio deu mais uns passos e olhou para trás, percebendo que ele havia reduzido os passos e olhava em sua direção. Concluiu: ou ela me confundiu com Juan ou pensou estar vendo fantasma. Mas como os animais se afastavam, ele logo correu atrás deles. Ao longo o som dos sinos diminuíam, parecendo-lhe perder-se em velhas lembranças da infância, pois nunca antes no Brasil, vira vaca alguma usando tal apetrecho. Apenas as mulas madrinhas tinham este privilégio.
À medida que caminhava ladeira abaixo, percebia que, confrontando com a paisagem que trazia na memória, poucas foram as mudança nos imóveis e na própria vegetação, estando até reconhecendo alguns carvalhos de sua infância, mais velhos e encorpados. Na paisagem de fundo, o perfil da cordilheira de montanhas da serra Calva estava inalterável.
Ao se aproximar da casa dos seus pais, também intacta apenas mais envelhecida, pois a pintura das janelas mantinha ainda a mesma cor, viu um filete de fumaça branca saindo pela chaminé. Provavelmente estavam preparando o almoço tardio, pensou.
No porão, onde os animais ficavam presos, quando estava a 50 m da casa, um cachorro pastor levantou-se abanando o rabo e veio até o início da escada. Mas à medida que olhava fixamente para ele parou de agitar a cauda. Quando ele chegou mais perto o cachorro estranhou seu cheiro começou a rosnar e a ladrar furiosamente.
Por trás da janela a cortina se movimentou e um menino, de aproximadamente dezesseis anos, ficou olhando para fora com cara de assustado. Depois a porta abriu e Emilio pareceu se ver, como num espelho, olhando fixamente em sua direção, apenas um pouco mais gordo, sem barba e com roupas escuras como se usava antigamente na Galícia. Gritou tentando abafar o som dos latidos do cachorro:
- Ei Juan, sou eu, Emilio.
- Emilio?
- Sim, estou de volta!
- Emilio!
Falou as últimas palavras descendo correndo pelas escadas de pedra. Veio até ele e o abraçou com força. Juan vociferou uma reprimenda ao cachorro que imediatamente parou de latir e, com rabo entre as pernas foi-se esconder. Convidou que o irmão entrasse. Emilio subiu as escadas na frente e logo estava de novo em casa de seus pais, 42 anos depois.
Seguiu-se horas e horas de conversas ininterruptas, incapazes de esgotar os anos de ausência que separaram os irmãos gêmeos antes tão próximos.
A Mula do Ouro
Por ordem expressa do Imperador a Estrada de Ferro D. Pedro II deveria atingir a cidade de Juiz de Fora na data prevista originalmente por Mariano Procópio, para isso determinando que o professor e engenheiro da Escola Militar Bento José Ribeiro Sobragy assumiria a direção da ferrovia, o que aconteceu em 16 de abril de 1873. Tratava-se de profissional de estreita confiança do Imperador que já havia autorizado que ele ocupasse o mesmo cargo entre 14 de dezembro de 1865, quando substituiu Cristiano Otoni até 13 de janeiro de 1869, quando foi substituído por Mariano Procópio, por conta da absorção da Cia. União e Indústria pela ferrovia.
Entretanto, como perdurava a suspeita de fraudes contábeis na administração Mariano Procópio, a auditoria reduzia o ritmo das obras, exigindo que muitas fossem dadas como concluídas e terminadas às pressas, com o objetivo principal de “dar passagem” ao trem inaugural, pois em dezembro de 1875 o Imperador fazia questão de ir pessoalmente à cidade cortar a faixa de abertura da estação de Juiz de Fora que seu falecido amigo tivera maior carinho em projetar.
Dentre as obras que ficaram para trás, para serem concluídas posteriormente, estava a ponte metálica em treliça, situada a menos de mil metros rio acima da ponte rodoviária do Paraibuna. Neste ponto a ferrovia que vinha circulando no território da província de Minas Gerais após cruzar a ponte de Serraria, novamente retornava para a província do Rio de Janeiro, embora, poucos quilômetros depois, novamente e de forma definitiva a Estrada de Ferro D. Pedro II voltasse para a província de Minas Gerais.
Como o verão estava especialmente tórrido naquele ano, Tuca que trabalhava com uma tropa de doze animais transportando as pedras lavradas pela equipe do mestre Pietro para o acabamento dos encontros da ponte, resolveu mergulhar no rio num final de tarde. Neste ponto onde a ponte estava sendo construída o rio se tornava estreito e profundo, formando rodamoinhos. Era um local onde outros nadadores não se atreviam, pois achavam que a corredeira os tragaria para o sumidouro. Tuca, porém, percebendo uma incrível semelhança do local com o movimento da água do Rio Paraíba do Sul que tão bem conhecia, também fazia junto à grande ilha a jusante da cachoeira de Cantagalo, deixou seu corpo ser sugado pela correnteza. Antes de mergulhar encheu seus pulmões com uma grande golfada de ar e liberou o corpo. A pressão da água logo o levou para o fundo. Sob as águas escuras do Rio Paraibuna foi tateando as pedras, sentindo o leito rochoso, procurando a mesma formação natural que suspeitava poder existir. Depois de vários mergulhos finalmente a encontrou, deixando que a força da água arrastasse seu corpo, sob uma laje que se projetava. Numa grota submersa, escura, uma bolsa de ar se formava. Pôs a cabeça para fora d’água e respirou um ar pesado e recendendo a mofo, enquanto ouvia o ruído da água do Rio Paraibuna correndo sobre as pedras cinco metros acima de sua cabeça. A escuridão, porém era total, nada se avistando. Tirou todo seu corpo para fora d’água e rastejou dentro da gruta, que não teria mais do que um metro de altura. Tateando com as mãos percebeu vestígios de ossos de animais. Concluiu que valeria a pena investigar com mais detalhes. Mergulhou novamente na água e deixou que a força da correnteza o arrastasse rio abaixo, logo emergindo à luz solar.
Dias depois, Tuca mergulhou de novamente, trazendo desta vez um isqueiro de pedra e uma vela, protegidos por uma lona impermeável. Repetiu a manobra, deixando que a força da correnteza o arrastasse para baixo da laje e penetrou na caverna. Ao acender a vela viu sob a claridade tênue os ossos de animais esbranquiçados e um alforje de couro, endurecido pelo tempo. Como estava quebradiço o rompeu com facilidade, revelando sob a luz da vela o brilho inconfundível de barras de ouro. Havia descoberto, escondido por uma lâmina de cinco metros d’água o local onde foram parar as mulas carregadas de ouro que tentavam driblavam a barreira fiscal de Paraibuna e foram tragadas pela água e sugadas para dentro da gruta submersa. Achara a lendária mula do ouro.
Tuca guardou segredo por alguns meses, sem saber como dar o passo seguinte. Até que um dia a oportunidade surgiu, quando o mestre Emilio Pietro o chamou. As obras estavam no fim e já havia recebido ordem da administração de desmobilizar as equipe de trabalhadores. O serviço da ferrovia seguia agora com toda intensidade em direção a Barbacena, enfrentando o último grande obstáculo até as margens do rio São Francisco, a meta final da Estrada de Ferro D. Pedro II de interligar a Corte com as províncias da região Nordeste, sem utilizar a navegação por cabotagem.
- Tuca, você já deve ter percebido que os serviços estão terminando. Está sendo o último dispensado, mas infelizmente temos que parar, até surgir outra oportunidade mais próxima, já que não pretendo prosseguir acompanhando a ferrovia. Como você faz parte da minha equipe há muitos anos, gostaria de informar que manterei seu salário, pelo menos por mais três meses, até que uma nova empreitada surja. Isto é, se for de seu interesse...
- Não será necessário, mestre.
- Como não? Como irá se manter?
- Sei como resolver este problema.
- Pois eu me preocupo com você Tuca. Criou inimigos em Vassouras, sabe bem. Mesmo com a morte do doutor Joaquim Teixeira Leite, o cúmplice sobrevivente está apenas esperando surgir uma oportunidade e irá vingar os antigos comparsas, você sabe. Graças a Deus o processo não prosseguiu na polícia, resultando o processo num inquérito de morte dupla, permitindo que fosse sumariamente arquivado. Mas pode ser reaberto a qualquer momento, basta uma denúncia bem fundamentada...
- Sei que o senhor pagou para isso, mestre Emilio...
- Como soube?
- Essas coisas vazam. Provavelmente alguém não ficou satisfeito com a divisão.
- Sei também que se empenhou por mim, quando fizeram a manobra de compra, aceita até por quem sempre passou as mãos na minha cabeça, desde pequeno...
- Como soube?
- Foi numa conversa entre os Voluntários de Paraíba do Sul. As paredes das casas grandes das fazendas têm ouvidos. Muitas vezes um pajem ou mucama não ouve a conversa toda, principalmente quando as amas conversam em voz baixa, por isso inventam na senzala a parte que faltou. Mas, juntando um pedaço aqui, outro pedaço acolá, é possível formar uma imagem perfeita.
- Como um mosaico cheio de cacos.
- Sim, como um mosaico. Se não fosse o suborno na polícia, muito dinheiro gasto pelo senhor, capaz até de fazer o doutor Joaquim mudar de estratégia eu morreria numa cela da cadeia de Vassouras. Do mesmo modo, se não fosse sua insistência, ao defender a minha inscrição no corpo de Voluntários da Pátria, iria morrer de forma ainda mais cruel, pagando novenas e mais novenas de bacalhau numa fazenda qualquer afastada na Vila de Vassouras. Devo, portanto, duas vezes minha vida ao senhor...
- Fiz tudo isto porque foi necessário. No caso do suborno, contrariando todos os meus princípios.
- Sei disso, mestre Emílio. Não é necessário justificar. Mas gostaria de reembolsá-lo, pagar-lhe de alguma forma.
- Mas como, Tuca? Você é um simples trabalhador...
- Suponha que, por um milagre divino, eu consiga todo o dinheiro necessário para que o senhor se aposentasse definitivamente e fosse cuidar desta sua falta de ar. O que o senhor faria com este dinheiro?
- Se isto fosse possível... Deixe-me pensar... Bem, depois de tantos anos no Brasil, tenho vontade de sentir o frescor da neve novamente. Tomar vinho tinto todos os dias, comer queijo produzido com leite de ovelha, saborear os embutidos de Castilla e Leon, especialmente os da província de Salamanca...
- O senhor sempre guardou dinheiro, não foi?
- Claro, está tudo bem aplicado com o irmão da Viscondessa, rende juros anuais que são capitalizados, mas não seria suficiente para que eu pudesse parar de trabalhar como mestre canteiro. Tenho ainda muita pedra para ser quebrada pela frente, filho...
- Pois eu tenho um segredo para contar-lhe e, mais ainda, gostaria de pedir a sua ajuda.
- Pode pedir. Que ajuda?
- Vou dividir a fortuna que achei em partes iguais, pois lhe devo minha vida duas vezes, mas gostaria que guardasse mais de dez arrobas de barra de puro ouro. Um tesouro que encontrei, aqui perto mesmo, debaixo destas águas douradas pelo sol.
- Que tesouro Tuca?
- Algo que pode tornar nossos sonhos uma realidade: achei a mula do ouro!
No ano de 1875 completou o prazo de cinco anos que fora cedida por empréstimo a residência de verão em Petrópolis da viscondessa Mariana Claudina na Rua do Imperador 58, onde funcionava o Asilo Santa Isabel. Segundo avaliações, a residência estava calculada em 40 contos de reis. Novamente o sacerdote, agora com três freiras que trabalhavam com as duas centenas de alunas internas, foi de Petrópolis a Entre-Rios procurar resolver o problema. Depois de ouvir as ponderações a viscondessa do Rio Novo decidiu que poderia vender-lhes o imóvel por 24 contos, para pagamento em longo prazo. O padre Nicolau deu graças aos céus e agradeceu o espírito benemérito da nobre senhora e proferiu:
- Nós não temos agora, viscondessa, nem mesmo 24 mil réis, quanto mais 24 contos. Mas, com a graça de Deus haveremos de conseguir os recursos suficientes, pois o primeiro grande passo já foi dado, graças ao espírito benemérito da senhora.
Ao completar a empreitada de construção da estrada de ferro, o engenheiro Henrique Dumont resolveu de fato se mudar de Cabangu, na vila de Palmira. Consultou seu sogro, o comendador Paula Lima e pesquisou várias fazendas ao longo da Estrada de Ferro D. Pedro II, optando por uma boa faixa de terra, com preço baixo, na localidade de Casal, na Vila de Valença, próximo ao povoado de Rio das Flores, no Vale do Paraíba, onde estava concentrada a maior produção cafeeira do Brasil.
Embora não tivesse prática de agricultura, sua formação de engenheiro na Escola de Artes e Ofício de Paris permitiu que rapidamente assimilasse os aspectos econômicos da lavoura. Em um caderno foi anotando os dados estatísticos da região nos últimos trinta anos, alguns deles oficiais, mas a maioria decorrente de conversa com antigos fazendeiros mais experientes, que não se negavam a falar sobre os aspectos técnicos da sua profissão, alguns deles registrando inclusive em livro, como o Memória sobre a Fundação e Custeio de uma Fazenda na Província do Rio de Janeiro, de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, segundo barão de Pati do Alferes, publicado pela primeira vez em 1847 e reeditado pela terceira vez em 1873.
À medida que estudava foi percebendo que não fizera um bom negócio na aquisição daquela fazenda. A produtividade das terras na região estava decaindo, os cafezais envelhecidos cada ano produziam menos e o cultivo em ruas mais apertadas ajudava a proliferar as pragas. A mão-de-obra escrava também não tinha o mesmo rendimento de anos atrás e os novos escravos “baianos” eram de lida muito mais difícil do que os boçais africanos – era o diagnóstico de todos os velhos fazendeiros.
Henrique resolveu estender sua pesquisa na direção sul, ao longo da linha, para verificar se a situação era uma característica apenas do médio Vale do Paraíba ou se estenderia também à região paulista. Foi-lhe indicado que procurasse em Resende o médico Dr. Luís Pereira Barreto, graduado na Bélgica, mas que entendia de café como ninguém.
- Mas vá de preferência sábado, porque ele desde 1870 está clinicando em Jacareí, onde se casou e está na fazenda do pai, em Resende, apenas nos fins de semana - aconselharam.
Seguindo as instruções, depois de avisá-lo com antecedência por telegrama da visita, Henrique Dumont foi procurar o Dr. Luis Barreto. Após as apresentações, logo deu para perceber que se entenderiam muito bem, pois ambos eram positivistas. Esta filosofia materialista e empírica considera que o homem é o inventor da história e a ciência é capaz de explicar tudo. Moralmente aproxima-se da cristã ortodoxa, mas sem respeitar a gerência da igreja católica, centralizadora em excesso, que tolhe o desenvolvimento, o progresso, em nome de uma ordem pouco inteligente. No seu período na Europa fez amizade com outros brasileiros também adeptos, mas principalmente de Pierre Laffitte, que fora discípulo de Auguste Comte, o fundador da doutrina positivista.
- O café no Vale do Paraíba está com os dias contados, Dr. Henrique. Durante anos e anos foi tratado como uma riqueza extrativa. As terras agora estão exauridas. Plantam sem respeitar as curvas de nível do terreno, apenas para facilitar a fiscalização no trabalho de colheita. Toda parte nutritiva do solo, a parte superficial, desce nas enxurradas até o Rio Paraíba, que vai ficando cada vez mais assoreado na região de Campos dos Goitacás, onde a declividade é reduzida.
- Sob o ponto de vista da engenharia sua descrição está perfeita, doutor Luís – concordou Henrique.
- O futuro do Brasil está no interior paulista! Em termos topográficos a diferença é muito grande, pois enquanto aqui, por causa da Serra do Mar na margem direita e da Serra da Mantiqueira na margem esquerda, quase todas as fazendas têm terreno acidentado, exigindo um plantio descontinuo, apenas nas encostas dos montes, no oeste paulista o plantio pode se prolongar de maneira contínua por quilômetros!
- Interessante...
- E o solo então, Dr. Henrique? Que maravilha! Terra roxa, oriunda da decomposição de rochas vulcânicas, rica em sais minerais. Pode-se plantar direto, sem precisar queimar para formar cinza.
- A topografia ajuda então a manter os nutrientes.
- Claro. É preciso apenas cuidar para respeitar o relevo, plantando em curvas de nível, senão criam-se grandes voçorocas que pode levar tudo a perder.
- Acaba-se com o sistema de ruas, com as plantações em fila subindo ao longo das encostas?
- Exatamente. A própria topografia vai indicar então que a melhor maneira de conseguir mão-de-obra produtiva, mais fácil de gerenciar a colheita é através de parcerias, onde os parceiros ganham também com a produção, não mais como no trabalho escravo, na base do chicote.
- O que está de acordo com a tendência inexorável da abolição que vai chegar, mais cedo ou mais tarde.
- Quanto mais cedo eliminarmos do Brasil esta injustiça melhor. O negro escravo é nosso irmão, não se justifica esta exploração que confronta totalmente com o nosso lema: amor como princípio, ordem como base e progresso como fim!
- Bem, quanto à fertilidade do solo e a técnica de exploração estou convencido. Mas qual espécie melhor se adapta...
- Vejo que o senhor desconhece o café Bourbon, não é?
Depois de uma breve explanação, onde detalhou os anos de pesquisa no viveiro de mudas da fazenda de seu pai, quando chegou a obter por cruzamento híbrido de espécies diferentes de café, uma variedade de grande produtividade que batizou de Bourbon, o engenheiro concluiu:
- Mais uma vez me convenceu. Agora sobre o escoamento. Aqui temos uma ferrovia que acompanha toda a lavoura...
- Resolvido também, meu caro engenheiro. Parece incrível dizer isto hoje, mas o porto de Santos irá superar em produção o porto da Corte. A “inglesa” a São Paulo Railway, que liga Santos a Jundiaí foi inaugurada há pouco, em 1868, mas seu movimento cresce todo anos. A Paulista, uma ferrovia que nasceu de investimento de fazendeiros paulistas, sem ajuda alguma do Governo Imperial, prolongou a inglesa, partindo de Jundiaí, passou por Campinas e segue para Itu, aonde chegou agora, em 1873. Outras ferrovias, como a Mogiana e a Sorocabana começam a ser construídas nos próximos dois anos, até 1875. Todas vão desembocar em Santos. Sei que o senhor foi empreiteiro da Estrada de Ferro D. Pedro II, que tem investimentos aqui no vale fluminense, mas, sinto muito, o futuro é o Oeste Paulista!
- O senhor me convenceu Dr. Luis. Quando for visitar aquela região eu faço questão de acompanhá-lo.
- Estou mesmo pensando em organizar uma verdadeira caravana de fazendeiros aqui do vale que tenham visão de futuro. O senhor, Dr. Henrique, como engenheiro, fará parte dela, sem dúvida alguma!
- Será então a Caravana Barreto?
- Se no futuro ficar conhecida por este nome será uma gentileza da história. Está mesmo animado?
- Se for necessário liquido tudo que tenho aqui e sigo para lá!
- Certo. Como se diz aqui no Vale, ditado de mineiro: boi que chega primeiro bebe a água limpa, não é verdade? As melhores terras serão dos visionários, como creio, nós dois podemos nos considerar!
Todos ficaram admirados com a decisão súbita, mas compreenderam a desilusão de Emilio Prieto e seu desejo de retornar ao país de origem, aos 61 anos, por alegados problemas de saúde.depois de mais de quarenta anos no Brasil. O fazendeiro Antonio Barroso pediu-lhe prazo de sessenta dias para quitar todo o investimento, mas não deixaria de pagar nenhum rendimento devido.
Emilio fechou com Tuca um acordo: levaria para a Europa todas barras de ouro e deixaria com ele os mil réis do Império do Brasil que precisasse, como conversão, pois poderia gerar suspeita se ele, um ex-escravo, surgisse de repente com barras de ouro. Além disso, para justificar o súbito enriquecimento de Tuca, antes de partir faria uma “doação” equivalente à metade de todas suas economias de 40 anos que foram aplicadas com o dono da fazenda da Boa União.
Esta decisão, sim, causou grande surpresa chegando muitos a comentar que finalmente o misterioso pai de Tuca se revelara.
Enquanto aguardava, Emilio aproveitou para esculpir, usando granito e madeira de lei, peças ocas onde as barras foram camufladas. Essas “obras de arte”, de qualidade e gosto duvidoso seriam embarcadas para Europa como carga pessoal. Apenas ele e Tuca souberam do estratagema.
Aproveitando o recém inaugurado cabo de comunicação do Brasil com a Europa, Emilio prometeu que assim que Tuca necessitasse dispor de sua parte ele tomaria providência para que o dinheiro equivalente ao ouro que estava guardando chegasse às suas mãos.
Quando Emilio embarcou no vapor que o conduziria à Europa e acenou para Tuca do convés, não conseguiu conter as lágrimas. Estava se despedindo de anos de experiência inesquecível, a vida lhe proporcionara experiências totalmente diferente do que lhe estava reservado como simples pastor de ovelhas nas montanhas da Galícia. E ele não deixava de se perguntar, o que teria acontecido com sua família, especialmente com seu irmão gêmeo Juan? Teria casado com Maria, seu primeiro amor juvenil? Tiveram filhos? Netos?
O navio zarpou ao entardecer e rapidamente deixou a baía da Guanabara, junto à grande silhueta de granito do pão de açúcar colorida de vermelho pelos últimos raios daquele mês de junho. Chegaria à Europa em pleno verão, o que seria interessante por causa do choque térmico, pois seu corpo provavelmente estranharia o frio da Galícia, depois de tantos anos vivendo em um país tropical.
A força constante do vapor fez a viagem transcorrer na metade do tempo que levou há mais de 40 anos, vindo da Ilha dos Açores num barco à vela. O destino do paquete francês em que viajava era o porto de Lisboa, seguindo depois para Vigo, na Galícia, onde desembarcaria. O navio levava vários passageiros para outros portos europeus, mas seus companheiros de viagem, burgueses brasileiros e estrangeiros retornando tinham, na sua maioria, apenas dois destino: Paris e Londres.
Depois de dois dias atracado em Lisboa, o navio finalmente prosseguiu viagem até Vigo, chegando pela manhã. Emilio desceu, apresentou seus documentos brasileiros, os únicos que tinha, pois saíra clandestino da Galícia e o agente da alfândega estranhou tanta escultura de madeira e granito.
- Carga pesada, senhor! – comentou o agente em galego.
- Anos de trabalho – respondeu em português, que foi perfeitamente compreendido.
- Qual sua profissão?
- Artista, escultor.
- Quanto vale a carga que está transportando.
- São obras de arte e o valor é incalculável.
Não estava mentindo, pois realmente no interior de cada peça de pedra, cuidadosamente escavada escondia barras de ouro que no total chegava próximo aos 30 quilos, já que eram 120 lingotes de presumíveis 250 gramas, distribuídos em 12 “esculturas” cada uma delas com dez lingotes, um valor realmente incalculável.
Logo que desceu, Emilio procurou um hotel próximo do porto, pois deveria planejar bem sua aparição súbita no pueblo de Carracedo, no contraforte da serra Calva, no sul da Galícia. Decidiu que ficaria uma semana na cidade, recuperando o sotaque galego, depois de muitos anos sem usar a língua materna. Na biblioteca pública procurou os livros de história contemporânea, folheou a coleção de periódicos e, por fim se considerou apto a emitir um diagnóstico: muito pouco havia mudado na sua região natal nos 42 anos de ausência.
A viagem de Vigo até Carracedo, distante 250 km demoraria vários dias de carruagem, pois não havia trem e a estrada não era pavimentada como a União e Indústria, onde se podia desenvolver 20 km/h. Para a viagem arranjara poucas roupas em uma pequena valise e levava apenas duas das esculturas, as outras deixou bem guardada no porão do hotel, pagando uma estadia antecipada por um ano, argumentando que pretendia testar a recepção no mercado de sua obra de arte antes de comercializá-las. Recordou-se que o dono do hotel fez uma expressão desanimadora diante das peças, realmente grotescas, sem muita arte, mas como ele pagava bem nada falou e prometeu guardá-las com todo o cuidado no porão do edifício.
A paisagem que Emilio via desenrolar pela janela da carruagem fazia com que sua memória fosse gradativamente recuperando cenas antigas: ovelhas pastando em aclives suaves, propriedades divididas por grossos muros de pedra de junta seca, casas também de pedra com abrigo para animais no porão e muitos cachorros pastores, iguais aos que possuía na infância. Aspirou bem o ar que entrava, filtrando todos os aromas que vinha do campo, o que fazia retornar cenas de infância que pensara ter perdido para sempre. Fechou os olhos e prosseguiu, tentando identificar cada cheiro, pois isto parecia ativar sua memória.
Quando finalmente desceu no ponto final e começou a descer uma pequena encosta até sua antiga casa, foi reconhecendo inalteradas as velhas construções entre as ruas estreitas do povoado. Não sabia, todavia, se a antiga casa de seus pais ainda pertencia à família. Pelo horário as ruas estavam ainda mais vazias, pois os poucos moradores estavam certamente mergulhados numa profunda siesta.
Ouviu um tilintar de sinos e logo um pequeno rebanho formado por oito vacas leiteiras estavam passando sendo, conduzidas por um senhor que parecia ter sua idade. Ele desviou o olhar dos animais, parecendo reconhecer-lhe. Levou os dedos ao chapéu para cumprimentá-la, enquanto procurava descobrir quem seria. Emilio deu mais uns passos e olhou para trás, percebendo que ele havia reduzido os passos e olhava em sua direção. Concluiu: ou ela me confundiu com Juan ou pensou estar vendo fantasma. Mas como os animais se afastavam, ele logo correu atrás deles. Ao longo o som dos sinos diminuíam, parecendo-lhe perder-se em velhas lembranças da infância, pois nunca antes no Brasil, vira vaca alguma usando tal apetrecho. Apenas as mulas madrinhas tinham este privilégio.
À medida que caminhava ladeira abaixo, percebia que, confrontando com a paisagem que trazia na memória, poucas foram as mudança nos imóveis e na própria vegetação, estando até reconhecendo alguns carvalhos de sua infância, mais velhos e encorpados. Na paisagem de fundo, o perfil da cordilheira de montanhas da serra Calva estava inalterável.
Ao se aproximar da casa dos seus pais, também intacta apenas mais envelhecida, pois a pintura das janelas mantinha ainda a mesma cor, viu um filete de fumaça branca saindo pela chaminé. Provavelmente estavam preparando o almoço tardio, pensou.
No porão, onde os animais ficavam presos, quando estava a 50 m da casa, um cachorro pastor levantou-se abanando o rabo e veio até o início da escada. Mas à medida que olhava fixamente para ele parou de agitar a cauda. Quando ele chegou mais perto o cachorro estranhou seu cheiro começou a rosnar e a ladrar furiosamente.
Por trás da janela a cortina se movimentou e um menino, de aproximadamente dezesseis anos, ficou olhando para fora com cara de assustado. Depois a porta abriu e Emilio pareceu se ver, como num espelho, olhando fixamente em sua direção, apenas um pouco mais gordo, sem barba e com roupas escuras como se usava antigamente na Galícia. Gritou tentando abafar o som dos latidos do cachorro:
- Ei Juan, sou eu, Emilio.
- Emilio?
- Sim, estou de volta!
- Emilio!
Falou as últimas palavras descendo correndo pelas escadas de pedra. Veio até ele e o abraçou com força. Juan vociferou uma reprimenda ao cachorro que imediatamente parou de latir e, com rabo entre as pernas foi-se esconder. Convidou que o irmão entrasse. Emilio subiu as escadas na frente e logo estava de novo em casa de seus pais, 42 anos depois.
Seguiu-se horas e horas de conversas ininterruptas, incapazes de esgotar os anos de ausência que separaram os irmãos gêmeos antes tão próximos.
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