Capítulo 15
Difícil Retorno
Difícil Retorno
Apesar da crítica situação financeira do país decorrente do endividamento provocado pela guerra, foi mantido o ritmo das obras de prolongamento da Estrada de Ferro D. Pedro II. Mariano Procópio, incansável e bem articulado politicamente, não deixava que o orçamento faltasse, pois há dez anos, desde a inauguração da rodovia União e Indústria, era deputado provincial representando Minas Gerais. A doação das terras da fazenda Cantagalo e Boa União cortadas pela ferrovia, bem como a grande área cedida para o pátio da estação de Entre-Rios e o novo Depósito de Locomotivas fizeram uma grande diferença, contribuindo para que os custos de implantação fossem reduzidos.
Para comemorar a nova investida da ferrovia em direção ao rio São Francisco, mandou construir uma histórica em agosto de 1871, bem de frente à chave que mudava a linha em direção a Minas Gerais. Mandou fundir nas oficinas da ferrovia três grandes placas de bronze e as pregou nas faces sem porta, com os seguintes dizeres:
Pelo Ministério de 16 de julho de 1868 sendo Ministro da Agricultura Comercio e Obras Publicas o Exmo. Sr. Cons. Diogo D’Albuquerque foi apresentada a proposta para o prolongamento até o Rio das Velhas
Por ordem do Exmo. Sr. Cons. Theodoro Prado, Ministro da Agricultura Comercio e Obras Publicas exaras em oficio de 17 de julho de 1871 oram começados os trabalhos da Linha Central ao Rio das Velhas.
Sob o reinado do S. M. O. Imperador senhor D. Pedro Segundo foram inaugurados os trabalhos da Linha do Centro em seis de agosto de 1871.
Quando as cortinas que cobriam as placas foram descerradas pelo comendador Mariano Procópio, na presença do e da viscondessa do Rio Novo, este comentou:
- Esta é uma cabine histórica. As placas de bronze são um símbolo de eternidade, de uma importante decisões políticas. Irão durar para sempre e serão respeitadas pelos vários dirigentes que esta terra conhecer no futuro.
- Assim espero senhor comendador. Que esta terra no futuro dirigentes capazes de fazer cumprir este veredicto!
A manutenção dos ritmos da obra da Estrada de Ferro D. Pedro II, a maior empresa do país em investimento, superando qualquer outra do maior empresário do Império, o Barão de Mauá, tinha todavia outras explicações além de escoar o café: a necessidade de gerar trabalho.
Em meados de 1870, com o final da guerra, começaram a chegar ao Vale do Paraíba as primeiras tropas vitoriosas no Paraguai, já que a desmobilização começara em maio. Um problema surgiu: o que fazer com os ex-soldados, os Voluntários da Pátria agora não mais escravos?
Em muitos casos, após o desfile os combatentes retornaram à suas fazendas de origem, com medalhas de heroísmo pregada na casaca, ferimentos de combate e o peito estufado de orgulho, mas viam-se forçados a uma situação constrangedora, que logo provocava indignação: compartilhar a mesmas senzalas ocupadas por seus parentes.
Alguns mais ousados resolviam partir e tentar a sorte sozinhos na Corte, formando grupos com amigos também ex-combatentes; outros porém, resignados aceitavam emprego com baixos salários nas fazendas de onde vieram, não desfrutando de um tratamento muito diferente do que era dado aos escravos, com a única exceção do castigo físico, pois seria uma agressão passível de processo, já que a lei concedia este privilégio apenas aos proprietários de escravos.
Com Tuca não foi diferente e procurou seu emprego novamente com o mestre canteiro Emilio Pietro. Outros companheiros, entretanto, depois do tratamento recebido durante a guerra, onde se desenvolveu um forte espírito de fraternidade, já que se combate muito mais pelos companheiros de tropa do que pelas cores da bandeira, foram para o Rio de Janeiro, onde ficaram aguardando o recebimento dos soldos atrasados. A velha rotina da lavoura não mais os seduzia, pois devido ao tratamento dado pelos feitores aos seus parentes escravos, continuavam sentindo-se como tal.
Sem moradia na Corte, ficaram acampados no alto do morro próximo ao Ministério da Guerra, no extremo do pátio da Estação Central. Derrubaram a vegetação rasteira que cobria o morro, arbustos conhecidos como favela, improvisaram cabanas rudimentares e sem ter o que fazer, além de vigiar do alto os movimentos no ministério, ocupavam-se de batuques, danças e capoeira. Enquanto não vinha o dinheiro do soldo, estes soldados, taxados de desocupados ou favelados inauguram um sistema social estável e perene, cuja duração superou à das placas de bronze da Cabine Histórica de Entre-Rios.
Na Vila de Paraíba do Sul, um pequeno grupo de desocupados foi também formado, recusando-se a pegar na enxada nas condições anteriores. Tuca, que era o único que chegara a ser suboficial, pois fora nomeado cabo nos primeiros anos de batalha, participava de encontros aos sábados e ficou sabendo de associações formadas na Corte por antigos ex-combatentes, muitos deles oficiais do corpo permanente da marinha e do exército, que achavam merecer mais espaço no poder. Idéias antigas, que o Paraguai já havia implantado, como a alforria automática dos filhos de escravas nascidas após determinada data, estava novamente sendo discutida, como uma maneira gradativa de terminar com a escravidão, ao invés da medida abrupta adotada nos Estados Unidos que gerou uma guerra civil.
Ao procurar saber notícias de Eufrásia, Tuca foi informado de que a mãe dela havia morrido, mas o pai, apesar de adoentado, vigiava as duas filhas todo o tempo. Pensou então se deveria ir ou não a Vassouras. Pensando no risco que correria, já que acabando de chegar da guerra sentia-se estranho em sua própria terra, decidiu buscar uma oportunidade mais favorável. Concentrou-se então no trabalho da ferrovia, que consistia em participar como tropeiro contratado da abertura de um curto túnel, numa curva da ferrovia na margem esquerda do Rio Paraibuna, bem próximo à formação rochosa denominada pedra do sapo, na outra margem e, simultaneamente, no transporte de rochas para a construção dos pilares da grande ponte que atravessava o rio próximo da fazenda de Serraria, que pertencera ao barão do Piabanha, o major Hilário de Carvalho, que havia morrido logo no início da guerra, em 1865.
Mudou-se para um acampamento junto às obras e, para aumentar o rendimento trabalhava também aos sábados e domingos. Nas poucas horas de folga gastava observando o reflexo do entardecer nas águas escuras do Paraibuna, que brilhava como se fosse folheado a ouro. Em muitas ocasiões tinha por perto o mestre canteiro espanhol, que parecia muito mais fadigado do que ele.
- Tenho notado o senhor com dificuldade para respirar ou é impressão?
- Tem razão, creio que é devido ao pó das escavações e do cinzel. Afinal de contas são mais 35 anos quebrando granito...
- O senhor precisava descansar mais...
Também como uma conseqüências do fim da Guerra do Paraguai, em três de dezembro de 1870 foi redigido pelo jornalista Quintino Bocaiúva e assinado por vários funcionários públicos, empresários e políticos, dentre eles Cristiano Otoni, o Manifesto Republicano. Tratava-se de uma declaração de membros dissidentes do Partido Liberal que criaram o jornal A República, onde pregava a queda da monarquia e sua substituição por um novo regime político capaz de resolver os problemas econômicos decorrentes da elevação da dívida brasileira em libras esterlinas que gerava inflação.
Quando recebeu o marques de São Vicente, que presidia o Conselho de Ministros e viu sobre a mesa de trabalho do Imperador um exemplar do jornal, este comentou:
- Muitos dos que assinaram são ocupantes de cargos públicos, nomeados pelo governo. Não considero que diante disto – apontou para a lista de assinaturas – possam continuar a exercê-los!
- O país que se governe como entender e dê razão a quem tiver – respondeu o Imperador.
O marques de São Vicente ponderou, mas sem sucesso pois ele foi taxativo:
- Ora, se os brasileiros não me quiserem como Imperador, irei ser professor.
Para o marques e outros assessores próximos aquela não fora a primeira vez que o Imperador manifestava aborrecimento com a rotina política, cheia de intrigas e interesses conflitantes. Embora muitas vezes exercendo o poder de forma efetiva, o Imperador procurava transmitir em todas as oportunidades que sua vocação era o saber, a cultura, sentindo-se melhor diante de uma platéia de alunos atentos, onde todo seu conhecimento arduamente conquistado pudesse ser transmitido, do que diante de políticos bajuladores. Dominava vários idiomas estrangeiros, a língua nativa o tupi, línguas mortas como grego e latim e outras consideradas até exóticas, como hebraico, árabe e sânscrito, o idioma sagrado dos hindus. Entretanto, não era professor e nem tinha alunos.
Quando ia até Petrópolis, longe do dia-a-dia político da Corte, o Imperador sentia-se à vontade, percorrendo a cidade a pé, sempre com um livro nas mãos, cumprimentado pessoas e visitando exposições. Foi numa destas reclusões de verão, quando a febre amarela ainda assustava os moradores do Rio de Janeiro, que o Imperador recebeu a notícia de que sua filha mais nova, a Princesa Leopoldina Teresa, aos 23 anos, havia morrido no dia 7 de fevereiro de 1871, de parto. Imediatamente pediu licença ao Congresso e marcou sua primeira viagem à Europa.
Houve certa dificuldade em aprovar a licença, pois o trono passaria às mãos da Princesa Isabel, de 24 anos e, indiretamente, ao seu marido, Gastão de Orleãns, o conde D’Eu um estrangeiro. Além disso, líderes do Partido Conservador trabalhavam no projeto de lei que iria garantir alforria automática aos filhos de escravas nascidos a partir de certa data. Quando esta última questão foi colocada ao Imperador, este argumentou que talvez fosse uma boa idéia sua filha sancionar a lei, uma vez que atrelaria sua figura a um futuro certo e de grande simpatia popular: a abolição da escravatura.
Dada a autorização pelo Congresso o Imperador pode viajar, chegando em 12 de junho do mesmo ano a Lisboa. Foi então informado de que ele e a mulher poderiam desembarcar, mas sua numerosa comitiva deveria cumprir a quarentena legal imposta pelas autoridades lusitanas para todos viajantes procedentes da América do Sul. Imediatamente retrucou:
- Por que só eu e a Tereza? A ordem não é para todos?
Aguardou então, como os demais passageiros o período de observação estabelecido pelas autoridades sanitárias e firmou uma postura que caracterizaria o caráter oficial de suas viagens ao exterior, identificando-se como um Imperador Cidadão – se é que isto pudesse ser assimilado por outras pessoas além dele próprio.
Para a imprensa e opinião pública externa, esta postura gerava uma imagem positiva de alguém que praticava a virtude da humildade; para outros, entretanto, tudo não passava de falsa modéstia, pois tão logo abria a boca o Imperador deixava transparecer seu grande conhecimento de ciências e letras e um completo domínio de vários idiomas.
Nesta primeira viagem ao exterior, além de países da Europa como Portugal, Espanha, França, Bélgica, Alemanha e Áustria, D. Pedro II visitou também o Egito. No dia 3 de novembro, quando apresentou uma palestra sobre o “vandalismo dos viajantes” no Instituto Egípcio do Cairo, o vice-rei comovido com suas palavras e o discurso em árabe ofereceu-lhe de presente a múmia sacerdotisa Sha-amun-em-su. No seu retorno o sarcófago passaria a ocupar posição destacada no gabinete de estudos do Imperador, bem próximo da janela.
Como fora planejado, na sua ausência coube à Princesa Isabel assinar no dia 29 de setembro a Lei do Ventre Livre, proposta pelo gabinete conservador presidido pelo Visconde do Rio Branco em 27 de maio de 1871, bastante semelhante à implantada no Paraguai pelo pai de Solano López em 1852. A lei declarava de condição livre os filhos de mulher escrava nascidos a partir de sua promulgação, mas os mantinha sob a tutela dos senhores de sua mãe até atingirem a idade de 21 anos.
- É mão de gato, dá com uma e tira com outra! – foi o comentário dos insatisfeitos.
Quando a publicação da lei foi enviada para todas as comarcas, os fazendeiros de café, especialmente os do Vale do Paraíba, procuram se reunir em grupo para discuti-la. Para alguns isto significava um afastamento gradual da monarquia para com a causa da lavoura, toda baseada no trabalho escravo dos negros. Portanto, era preciso discutir a respeito, foi o pensamento geral.
Na fazenda do Cantagalo, ressentindo a falta do primo e cunhado morto em 1869, quando ocupava a Presidência da Câmara Municipal de Petrópolis, um cargo de grande importância e que para aprovação necessitava da autorização informal do Imperador, Antonio Barroso filho mandou chamar o português Miguel Ribeiro de Sá. Aos 45 anos de idade, ele era o maior comerciante da Vila de Paraíba do Sul, proprietário de vários armazéns de secos e molhados, lojas de armarinho e investimentos na especulação com o café. Mas não foi por questões financeiras o convite do fazendeiro, mas pela vocação manifestada e interesse pela política do português.
- Pois bem, senhor Ribeiro de Sá, o que me diz desta nova lei? O que será dos fazendeiros daqui para frente?
Sorridente e simpático, devido aos 30 anos de prática de atender fregueses de várias categorias desde quando vindo da pequena Penafiel começara como simples caixeiro no Armazém de Secos e Molhados da fazenda da Boa União, Miguel respondeu:
- De imediato não vai mudar nada, pois os ingênuos, como são chamados os filhos de escravas a partir desta data, terão que prestar serviço ao legítimo proprietário da sua mãe até aos 21 anos. Talvez ocorra um aumento das mortes na infância, já que muitos fazendeiros acharão que não valerá a pena cuidar, ou investir como dizem, num bem que não lhes pertence.
- Sob o ângulo econômico sua análise está perfeita. E sobre os aspectos políticos, isto significa o afastamento da Corte?
- Posso fazer uma viagem especial à Corte, já no primeiro trem de amanhã e consultar as bases do Partido Conservador. Creio que no máximo em uma semana poderei dar-lhe um panorama mais nítido de como ficou a situação política.
- O senhor sabe que nunca tive jeito nem interesse por esta arte, a política.
- Compreendo sim senhor, não se preocupe. Tanto seu pai o barão de Entre-Rios como seu primo o barão do Rio Novo, sabiam exercê-la bem. Eu, modestamente, estou pronto para ajudá-lo neste aspecto.
- Faça isso e não se arrependerá, pois terá todo o apoio da nossa influência e os recursos financeiros que precisar na sua carreira política. Não adianta nada saber das coisas pela leitura do Diário Oficial e outros jornais da Corte; temos que saber antes o que vai ser publicado e estar de acordo, não é verdade?
- Sim a publicação é uma mera formalidade. As decisões são tomadas antes e não depois.
Considerados por muitos como simples intriga política contra Mariano Procópio, que apesar de ter as suas empresas falidas e exercer um cargo administrativo, aumentava cada vez sua fortuna pessoal, surgiram insinuações de mau uso do recurso público sob sua gestão. Indignado e com a honra atingida pelas acusações de fraude, Mariano logo tratou de publicar desmentidos, já que se originava de família abastada, sendo sua mãe a baronesa de Santana uma grande proprietária de fazenda de café, possuindo outras fontes de recursos além dos investimentos em transporte. Porém, o desgaste emocional foi fatal para o dinâmico empresário que, em 14 de fevereiro de 1872, aos 51 morreu de um fulminante ataque cardíaco.
O Imperador ao tomar conhecimento do fato, quando ainda estava no exterior, ficou especialmente desgostoso, pois admirava e tinha grande amizade pelo deputado mineiro, recordando-se das horas felizes que passara observando os astros do alto do rochedo em Juiz de Fora, que ficou conhecido como Morro do Imperador, com a luneta que lhe fora presenteada. Da mesma forma, mais de uma vez foi-lhe dito que o castelo de tijolos fabricados pelos operários da rodovia União e Indústria, junto da estação terminal de Rio Novo, fora construído especialmente para hospedá-lo quando visitava a cidade. Porém, guardando mais para si, o Imperador recordou o major Júlio Koeller, que como Mariano perdeu a vida muito cedo e também sob um nuvem de suspeição.
Ponderou: “Será este o destino dos empreendedores no Brasil? Fazer, construir quando a cultura jurídica herdada da colonização é mais de discutir, debater, argumentar, contra-argumentar, planejar e nunca executar? Ganhar dinheiro fazendo planejamento e não correndo nunca o risco de uma execução mal sucedida? Será que para fazer neste ambiente restritivo significa sempre atropelar leis e, por isso, mais cedo ou mais tarde, ter que responder por crimes?”
Depois de alguns instantes repassando estas indagações, e como especial tributo ao amigo morto prematuramente, o Imperador decidiu que todos os projetos previstos por Mariano Procópio na ferrovia não sofreriam descontinuidade e seriam realizados no prazo por ele estabelecido.
Apesar de a linha ferroviária estar prevista para chegar à grande estação de Juiz de Fora em 1875, no início de 1873 já estava em obra a chamado Curva da Ferradura, um longo desenvolvimento da linha em meia encosta de uma curva de grande raio que em aclive de 2% terminava exatamente na Garganta de João Ayres, o ponto de menor quota para travessia da Serra da Mantiqueira, explorado pela primeira vez por Garcia Paes Leme, no princípio do século XVIII, quando estava abrindo o Caminho Novo. Exatamente no meio do seu desenvolvimento, junto a uma nascente de água que filtrava da Mantiqueira, havia uma casa simples de ferroviário. Nela morava o empreiteiro e engenheiro Henrique Dumont e sua mulher grávida do seu sexto filho. Dumont era o responsável pela obra da linha na serra, contratado pelo comendador Mariano Procópio.
A morte do comendador, apesar de todo interesse do Imperador na sua continuidade, gerou problemas de contratação, pois o novo diretor da Estrada de Ferro D. Pedro II, Elisário Antonio dos Santos, oficial da marinha, tinha dificuldades em compreender a nova tecnologia de transportes, além dos naturais rearranjo de interesses quando ocorre mudança na administração.
Henrique Dumont estava cansado do serviço com data certa para ser concluído, ponderou se valeria a pena continuar investindo na atividade. Conhecendo o dinamismo de Mariano Procópio era possível ganhar um bom dinheiro, pois os prazos eram sempre muito apertados, mas numa nova administração teria que passar por um período de aprendizagem. Pensou então, por que não investir sua energia em outra atividade, talvez que desse melhor resultado financeiro, como a lavoura de café?
Numa manhã fria de julho, no dia 20 de julho de 1873, no dia do aniversário do engenheiro Henrique Dumont, sua mulher deu a luz a um menino. O pequeno Alberto, assim se chamaria, nasceu às margens da linha em construção, foi enxugado com a água retirada da nascente de pedra, filho de um empreiteiro ferroviário e, portanto, com todas as condições de seguir igual destino profissional, pois a ferrovia tem esta característica. Porém, o destino desta vez, lhe reservaria algo muito maior do que os limites estreitos das paralelas de aço dos trilhos assentados sobre dormentes de madeira da Estrada de Ferro D. Pedro II.
Em Vassouras todos se assustaram com a morte inesperada do doutor Joaquim José Teixeira Leite, deixando órfãs de mãe e pai duas irmãs: Francisca e Eufrásia. Mas como esta não fora a única morte na família em curto espaço de tempo, o inventário da avó, a baronesa de Campo Belo, também em 1873, agregou em terras mais fortuna às irmãs, que somada à grande herança em papéis deixada pelo pai, tornaram-nas possuidoras de um patrimônio equivalente à dotação recebida naquele ano pelo Imperador D. Pedro II do Tesouro Nacional – ou seja, o correspondente a 5% das receitas de imposto do império no ano anterior. Porém, no testamento redigido pelo pai, a fortuna foi dividida em três partes para as duas filhas: um terço para cada uma e o terço restante seria dividido entre as irmãs, mas com cláusula de usufruto vitalício, aplicado em fundos públicos inalienáveis, de transmissão sucessiva. Inegavelmente o pai das duas receava que, na sua ausência uma paixão amorosa desastrosa pudesse dilapidar os bens deixados por ele.
Aos 23 anos Eufrásia e Francisca com 28, apesar de bonitas, poderiam ser consideradas encalhadas para casamento. Geralmente as “primas” escolhidas para casamentos entre parentes tinham entre 15 e 17 anos. Sem explicações lógicas pelo aparente desinteresse por afoitos pretendentes, as duas resolveram realizar um sonho de todas as moças ricas: morar em Paris.
- Estou vendo, aqui Chiquinha, que o vapor Chimborazo zarpa em quinze dias.
- E o que faremos em Paris, Eufrásia?
- Ora, vamos viver da renda das aplicações! Ou você prefere investir em café?
- Deus me livre! Vi como meu pai sofreu e como nossos tios sofrem ainda...
Arrumaram apressadamente suas bagagens, liquidaram as pendências imediatas e estabeleceram procuradores de confiança, logo embarcaram. Á bordo do Chimborazo viajavam vários ilustres passageiros, além das milionárias irmãs Teixeira Leite. Estes passageiros de primeira classe se encontravam três vezes por dia no amplo salão de jantar, no andar mais alto do navio.
A fortuna das irmãs que viajavam para Paris era motivo de conversas reservadas e um atrativo para candidatos sedutores, que sempre que podia as assediavam. Um deles, um rapaz esbelto, de insinuante bigode, pernambucano e muito falante, chamado Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, mas que se apresentava como Joaquim Nabuco. Ao ver as duas donzelas solitárias à mesa, não se fez de rogado e logo se aproximou. Eufrásia e Francisca se encantaram com a inteligência vivaz do filho do jurista e político baiano, que era cerca de um ano mais velho do que Eufrásia. Viajava a Paris para realizar estudos próprios com o dinheiro herdado da venda do Engenho Serraria, pela morte de sua madrinha.
Depois que já tinham estabelecido certa intimidade, Eufrásia certa vez perguntou:
- Com que idade o senhor se diplomou?
- Foi em 1870, eu tinha então 20 e poucos anos.
- Entrou muito cedo então na Faculdade?
- Comecei na Faculdade de Direito de São Paulo em 1866, mas diplomei-me no Recife. Mas não gosto muito de direito, prefiro literatura, política...
No Paço da Cidade, o Imperador Pedro II viu sobre sua mesa o processo de concessão do título de Visconde a Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá. Ergueu os olhos para o secretário e fez sinal com a cabeça para que ele iniciasse a justificativa.
- Ele é o maior investidor do Império, sem dúvida alguma, um verdadeiro símbolo. Está agora investindo numa nova empresa, a Companhia de Abastecimento de Água do Rio de Janeiro que vai acabar com as limitações do aqueduto da Lapa. É o maior investidor em ferrovias do Brasil: a Estrada de Ferro do Paraná, a Santos-Jundiaí e mesmo a primeira, a que lhe valeu o título de barão...
- Mas é muito chegado aos ingleses?
- Oficialmente se desligou da Carruthers & Cia.em 1845, há quase trinta anos, mas continua com esta imagem de emissário dos britânicos... Mas agora está brigando com eles, por causa da Santos-Jundiaí.
- Tem razão. Ajudou-nos bastante na Guerra do Paraguai, temos que reconhecer...
- Se hoje temos informação instantânea do que ocorre na Europa, devemos é graças ao Cabo Telegráfico Submarino inaugurado por ele em 1872. Aliás, Imperador, considero esta obra mais importante do que a primeira ferrovia brasileira por ele implantada, que nunca chegou a Petrópolis.
- Tem razão. Podemos condicionar o título a isso: a ferrovia vai chegar finalmente a Petrópolis ou terei de continuar subindo de carruagem?
- Creio que não. Lembre-se que ele nos ajudou também quando investiu em 1856, junto com o inglês Thomas Crochrane na Estrada de Ferro Tijuca, uma ferrovia urbana. Não deu certo, pois a ferrovia faliu em 1868, mas o inglês nos deu sossego, aceitando a indenização e transferindo sua concessão que tinha direito para a Cia. Estrada de Ferro D. Pedro II.
- É verdade. Temos de reconhecer que muitas vezes o barão de Mauá fez negócio arriscado apenas para as causas de interesses do Governo – assentiu o Imperador.
- Ele merece o título então?
- Sim. Pode marcar: no dia 26 de junho de 1874 Irineu Evangelista de Souza será Visconde com Grandeza de Mauá.
- Temos agora, Alteza, o caso dos fazendeiros do Vale do Paraíba.
- O que querem? Mais títulos?
- Não é apenas isso. Percebe-se um clima de insatisfação generalizado, segundo estamos informados, decorrente da Lei do Ventre Livre... Eu poderia sugerir uma visita às principais lideranças da região, como Vossa Alteza realizou em 1848.
- Boa idéia. Mas, desta vez, quem viajará em viagem oficial será a Princesa Isabel e o Conde D’Eu. Cabe a ela tranqüilizá-los. Eu prefiro ficar por conta de meus livros.
O experiente secretário particular do Imperador ficou em silêncio, como se concordando, mas com um misto de preocupação. Ele e outros haviam notado que após a viagem ao exterior o monarca demonstrava achar cada vez mais enfadonho o dia-a-dia do Paço Cidade e da Quinta. Traços de contentamento eram observados apenas quando estava em Petrópolis. Parecia-lhes que o Imperador trocaria de bom grado uma permanência prolongada na Europa, onde teria à sua disposição vários programas culturais, do que suportar os bajuladores e interesseiros que o rodeavam todos os dias. Sendo esta, talvez, a razão secreta da indicação da Princesa Isabel, a sucessora, para estreitar os contatos com a elite agrária da Província do Rio de Janeiro que sempre lhe dera sustentação política.
Estando todos de acordo com a determinação do Imperador, preparou-se uma longa viagem, seguindo o mesmo roteiro da viagem de 1848, estendendo-a todavia até Valença onde a produção de café crescera nos últimos anos e em Vassouras que podia ser considerada a “capital” do Vale do Paraíba. A ferrovia que interligava Valença à Estrada de Ferro D. Pedro II fora inaugurada no dia 18 maio pelo 1871 pelo Imperador e desde então se torna uma grande fonte de receita para a ferrovia, pelo café que trazia da região do rio Preto.
Nas cerimônias públicas, o conde D’Eu, Príncipe Consorte, colocava-se sempre um passo atrás da Princesa, objetivando transmitir a todos que ela, brasileira, é quem seria a futura Imperatriz. As mulheres nestes encontros logo a rodeavam, tal como abelhas em torno de sua rainha; da parte do conde, como oficial vitorioso que terminara em nome do Imperador com a guerra no sul, tinha muitas historia de coragem para contar, que de igual forma o rodeavam com respeito, tolerando seu forte sotaque francês. Era um estrangeiro de fato, mas que havia corrido risco de vida pelo país.
Foi durante esta viagem que um destacado membro da comissão, o capitão engenheiro Alfredo Taunay, que também era deputado provincial por Goiás pelo Partido Conservador, estreitou seus laços com a filha do barão de Vassouras, Cristina Teixeira Leite.
Numa noite, na varada do amplo palacete do barão, estando os dois à sós, já que a Princesa Isabel e o Conde D’Eu monopolizavam as atenções, recordando-se Alfredo dos casos que lhe contara durante a retirada da Laguna o cabo encarregado das tropas de carga, sobre o tórrido romance que tivera com uma adolescente da cidade, disse-lhe que pensava escrever um romance com tal enredo e conseguiu fazer os olhos dela brilharem intensamente. Como poderia aquele rapaz educado adivinhar um segredo tão bem guardado na grande família Teixeira Leite? Estaria ele de posse de alguma informação confidencial ou seria simples intuição? Alfredo fingiu não perceber e avançou até onde se recordava, sempre alegando que seria um projeto de romance, já que tinha dois outros já escritos aguardando publicação e, como escritor, estava sempre pesquisando. Este aparente sexto sentido fez com que ela se apaixonasse perdidamente pelo sedutor escritor, no que foi correspondida.
A partir daquele encontro, Alfredo todos os finais de semana, terminado os trabalhos da Câmara de Deputados, pegava um trem da Estrada de Ferro D. Pedro II e seguia até a antiga estação de Vassouras, rebatizada como Barão de Vassouras pois o nome original havia sido dada à estação terminal da Estrada de Ferro Carril Vassourense, que operava desde 1872 um bonde tracionado a burro, ligando o centro da cidade à estação da Linha do Centro.
A aproximação de Alfredo e Cristina, romperia uma tradição na família Teixeira Leite, uma das filhas não se casaria com um primo, mas com alguém de fora, porém igualmente entrosado na Corte; ou melhor, muito mais, porque o pai de Alfredo, Felix Emílio Taunay além de pintor foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes e era grande amigo do Imperador que o recebia todos os sábados para uma conversa de no mínimo duas horas. Alfredo desde criança, juntamente com sua irmã, fora companheiro de brincadeiras das princesas Isabel e Leopoldina, distinguido especialmente quando o próprio Imperador entregou-lhe a medalha de premiação como aluno da Escola D. Pedro II, em 1858. Foi também o Imperador um dos primeiros a ver os originais de Alfredo como escritor, fazendo-lhe críticas pelo excessivo anglicismo na redação. O casamento, portanto, reunia fortuna de um lado e grande prestígio na Corte por outro. O amor, fonte permanente de inspiração do escritor, existia; porém não com a intensidade do que o jovem militar sentira e vivera com a índia que comprara, quando perambulavam nus, tal qual Adão e Eva nas águas claras que corriam pelos desfiladeiros do longínquo rio Aquidauana, que nasce na serra de Maracaju, no Mato Grosso. No ano de 1874, Alfredo e Cristina se casaram, numa comemoração promovida pelo barão de Vassouras que se estendeu por uma semana.
Durante a permanência de Joaquim Nabuco na Europa, entre encontros com intelectuais e políticos, entremeados por longos períodos de anotações nas grandes bibliotecas de Paris e Londres, reservava tempo para ver Eufrásia Teixeira Leite. Numa dessas ocasiões, quando os dois caminhavam de mãos dadas, às margens do rio Sena em Paris, aproveitando o ar fresco da tarde primaveril como anônimos enamorados que eram, os dois interesses momentâneos de Joaquim Nabuco, a questão social e a política do escravo brasileiro frente à burguesia se fundiram, numa conversa que se iniciou de forma banal:
- A cor do Brasil não é verde e amarelo, mas a do café-com-leite. Temos províncias como o Rio de Janeiro e a Bahia, onde o café, trazido pelo sangue africano predomina, em outras, mas em outras como Santa Catarina e São Paulo, predominando o leite trazido pelos imigrantes alemães e italianos...
- Que pensamento estranho, Joaquim, para um passeio às margens do rio Sena, numa tarde de primavera em Paris – censurou Eufrásia.
- A distância permite que eu enxergue melhor o meu país.
- Compreendo. Para enxergar a montanha toda é preciso se afastar dela...
- Kant, um filósofo que ultimamente tenho estudado, fala um pouco disso, Eufrásia, mas não desta maneira tão direta. Diz, em outras palavras, aliás, trabalhar palavras é a arte da filosofia - que o mundo é como o enxergamos, a realidade é uma abstração.
- A realidade uma abstração?
- O mundo para mim é de uma maneira, para você é de outra, para um velho escravo africano é de outra, para um jovem escravo mulato, filho de mãe negra e pai branco desconhecido é de outra...
Eufrásia empalideceu e como se assustada, reduziu o passo, interrompendo o ritmo da caminhada. Nabuco, com a alta sensibilidade que iria projetá-lo durante sua carreira diplomática, percebeu que havia tocado algo sensível, não reagiu de imediato. Como um bom jogador, que avalia as cartas nas mãos do adversário observando suas mínimas reações corporais, estendeu mais um pouco suas reflexões pelo campo filosófico, o que pareceu acalmar Eufrásia, mas logo voltou a jogar seus trunfos na mesa:
- Uma jovem, branca, rica, com um mundo colorido pela frente, que venha se apaixonar, talvez até por um impulso juvenil, por um sedutor mulato, poderia assumir este amor?
Eufrásia parou e olhou fixamente os olhos castanhos de Joaquim, que sorriu, fazendo seus dentes claros e perfeitos destacar sob o espesso bigode. Ele continuou:
- Este é um cenário hipotético, Eufrásia, mas muito comum no Nordeste. É também um tema que está sempre sendo reprisado na literatura: o doce amor proibido. Barreiras que insistem em separar os apaixonados, devido a diferença social, econômica, política... E até de cor da pele!
- Tem razão. Este é um tema já muito reprisado na literatura...
- Não é preciso recorrer aos escritores antigos. Esta situação é real e pode estar acontecendo agora. Veja aquele casal lá na frente, que caminha de mãos dadas, como nós...
- Não é o nosso caso.
- Claro que não, somos iguais socialmente, economicamente (talvez eu nem tanto quanto você), politicamente e na cor da pele. Porém, quem garante que um de nós dois não passou por este mesmo drama?
Eufrásia sentiu um estremecimento pelo corpo, provocado por velhas lembranças. No mesmo instante, em seu pensamento, as águas claras do rio Sena se transformaram nas águas barrenta do Rio Paraíba do Sul; a fresca brisa primaveril européia, pelo calor sufocante das tardes de verão no Vale do Paraíba e a delicadeza do cavalheiro que lhe acompanhava pela vigor de Tuca que fazia seu corpo de menina moça arrepiar-se toda quando o via. Um apetite sexual que ela era incapaz de controlar e que só foi interrompida quando o pai lhe tirou de Vassouras, mandando-a morar no Rio de Janeiro, na casa da família em Laranjeiras.
Controlando com esforço a emoção provocada pelas lembranças, continuou caminhando, de cabeça baixa, mas distante, observando a relva verde que crescia vigorosa, após o derretimento da neve, parecendo ter deixando o solo adubado.
Joaquim Nabuco atento, teve a convicção de que achara o fio da meada: uma possível explicação sobre o “encalhe” de moça tão cobiçada. Eufrásia era rica, bonita e sempre fora assediada por vários primos igualmente bem sucedidos, ansiosos todos para consolidarem fortunas. Nabuco pensou: seria ela uma donzela mortalmente ferida no coração pela seta lançada por um Cupido diabólico, desses que estimulam especialmente os amores proibidos?
Continuaram a caminhar em silêncio por alguns instantes, até que Joaquim abraçou-a pela cintura, interrompendo seus passos. Puxando seu rosto suavemente fez seus lábios se encontrarem com uma decisão na cabeça: iria fazê-la esquecer o passado, despertando-lhe novamente os impulsos de mulher. Nem que para isso tivesse que ser também um amante secreto.
Para comemorar a nova investida da ferrovia em direção ao rio São Francisco, mandou construir uma histórica em agosto de 1871, bem de frente à chave que mudava a linha em direção a Minas Gerais. Mandou fundir nas oficinas da ferrovia três grandes placas de bronze e as pregou nas faces sem porta, com os seguintes dizeres:
Pelo Ministério de 16 de julho de 1868 sendo Ministro da Agricultura Comercio e Obras Publicas o Exmo. Sr. Cons. Diogo D’Albuquerque foi apresentada a proposta para o prolongamento até o Rio das Velhas
Por ordem do Exmo. Sr. Cons. Theodoro Prado, Ministro da Agricultura Comercio e Obras Publicas exaras em oficio de 17 de julho de 1871 oram começados os trabalhos da Linha Central ao Rio das Velhas.
Sob o reinado do S. M. O. Imperador senhor D. Pedro Segundo foram inaugurados os trabalhos da Linha do Centro em seis de agosto de 1871.
Quando as cortinas que cobriam as placas foram descerradas pelo comendador Mariano Procópio, na presença do e da viscondessa do Rio Novo, este comentou:
- Esta é uma cabine histórica. As placas de bronze são um símbolo de eternidade, de uma importante decisões políticas. Irão durar para sempre e serão respeitadas pelos vários dirigentes que esta terra conhecer no futuro.
- Assim espero senhor comendador. Que esta terra no futuro dirigentes capazes de fazer cumprir este veredicto!
A manutenção dos ritmos da obra da Estrada de Ferro D. Pedro II, a maior empresa do país em investimento, superando qualquer outra do maior empresário do Império, o Barão de Mauá, tinha todavia outras explicações além de escoar o café: a necessidade de gerar trabalho.
Em meados de 1870, com o final da guerra, começaram a chegar ao Vale do Paraíba as primeiras tropas vitoriosas no Paraguai, já que a desmobilização começara em maio. Um problema surgiu: o que fazer com os ex-soldados, os Voluntários da Pátria agora não mais escravos?
Em muitos casos, após o desfile os combatentes retornaram à suas fazendas de origem, com medalhas de heroísmo pregada na casaca, ferimentos de combate e o peito estufado de orgulho, mas viam-se forçados a uma situação constrangedora, que logo provocava indignação: compartilhar a mesmas senzalas ocupadas por seus parentes.
Alguns mais ousados resolviam partir e tentar a sorte sozinhos na Corte, formando grupos com amigos também ex-combatentes; outros porém, resignados aceitavam emprego com baixos salários nas fazendas de onde vieram, não desfrutando de um tratamento muito diferente do que era dado aos escravos, com a única exceção do castigo físico, pois seria uma agressão passível de processo, já que a lei concedia este privilégio apenas aos proprietários de escravos.
Com Tuca não foi diferente e procurou seu emprego novamente com o mestre canteiro Emilio Pietro. Outros companheiros, entretanto, depois do tratamento recebido durante a guerra, onde se desenvolveu um forte espírito de fraternidade, já que se combate muito mais pelos companheiros de tropa do que pelas cores da bandeira, foram para o Rio de Janeiro, onde ficaram aguardando o recebimento dos soldos atrasados. A velha rotina da lavoura não mais os seduzia, pois devido ao tratamento dado pelos feitores aos seus parentes escravos, continuavam sentindo-se como tal.
Sem moradia na Corte, ficaram acampados no alto do morro próximo ao Ministério da Guerra, no extremo do pátio da Estação Central. Derrubaram a vegetação rasteira que cobria o morro, arbustos conhecidos como favela, improvisaram cabanas rudimentares e sem ter o que fazer, além de vigiar do alto os movimentos no ministério, ocupavam-se de batuques, danças e capoeira. Enquanto não vinha o dinheiro do soldo, estes soldados, taxados de desocupados ou favelados inauguram um sistema social estável e perene, cuja duração superou à das placas de bronze da Cabine Histórica de Entre-Rios.
Na Vila de Paraíba do Sul, um pequeno grupo de desocupados foi também formado, recusando-se a pegar na enxada nas condições anteriores. Tuca, que era o único que chegara a ser suboficial, pois fora nomeado cabo nos primeiros anos de batalha, participava de encontros aos sábados e ficou sabendo de associações formadas na Corte por antigos ex-combatentes, muitos deles oficiais do corpo permanente da marinha e do exército, que achavam merecer mais espaço no poder. Idéias antigas, que o Paraguai já havia implantado, como a alforria automática dos filhos de escravas nascidas após determinada data, estava novamente sendo discutida, como uma maneira gradativa de terminar com a escravidão, ao invés da medida abrupta adotada nos Estados Unidos que gerou uma guerra civil.
Ao procurar saber notícias de Eufrásia, Tuca foi informado de que a mãe dela havia morrido, mas o pai, apesar de adoentado, vigiava as duas filhas todo o tempo. Pensou então se deveria ir ou não a Vassouras. Pensando no risco que correria, já que acabando de chegar da guerra sentia-se estranho em sua própria terra, decidiu buscar uma oportunidade mais favorável. Concentrou-se então no trabalho da ferrovia, que consistia em participar como tropeiro contratado da abertura de um curto túnel, numa curva da ferrovia na margem esquerda do Rio Paraibuna, bem próximo à formação rochosa denominada pedra do sapo, na outra margem e, simultaneamente, no transporte de rochas para a construção dos pilares da grande ponte que atravessava o rio próximo da fazenda de Serraria, que pertencera ao barão do Piabanha, o major Hilário de Carvalho, que havia morrido logo no início da guerra, em 1865.
Mudou-se para um acampamento junto às obras e, para aumentar o rendimento trabalhava também aos sábados e domingos. Nas poucas horas de folga gastava observando o reflexo do entardecer nas águas escuras do Paraibuna, que brilhava como se fosse folheado a ouro. Em muitas ocasiões tinha por perto o mestre canteiro espanhol, que parecia muito mais fadigado do que ele.
- Tenho notado o senhor com dificuldade para respirar ou é impressão?
- Tem razão, creio que é devido ao pó das escavações e do cinzel. Afinal de contas são mais 35 anos quebrando granito...
- O senhor precisava descansar mais...
Também como uma conseqüências do fim da Guerra do Paraguai, em três de dezembro de 1870 foi redigido pelo jornalista Quintino Bocaiúva e assinado por vários funcionários públicos, empresários e políticos, dentre eles Cristiano Otoni, o Manifesto Republicano. Tratava-se de uma declaração de membros dissidentes do Partido Liberal que criaram o jornal A República, onde pregava a queda da monarquia e sua substituição por um novo regime político capaz de resolver os problemas econômicos decorrentes da elevação da dívida brasileira em libras esterlinas que gerava inflação.
Quando recebeu o marques de São Vicente, que presidia o Conselho de Ministros e viu sobre a mesa de trabalho do Imperador um exemplar do jornal, este comentou:
- Muitos dos que assinaram são ocupantes de cargos públicos, nomeados pelo governo. Não considero que diante disto – apontou para a lista de assinaturas – possam continuar a exercê-los!
- O país que se governe como entender e dê razão a quem tiver – respondeu o Imperador.
O marques de São Vicente ponderou, mas sem sucesso pois ele foi taxativo:
- Ora, se os brasileiros não me quiserem como Imperador, irei ser professor.
Para o marques e outros assessores próximos aquela não fora a primeira vez que o Imperador manifestava aborrecimento com a rotina política, cheia de intrigas e interesses conflitantes. Embora muitas vezes exercendo o poder de forma efetiva, o Imperador procurava transmitir em todas as oportunidades que sua vocação era o saber, a cultura, sentindo-se melhor diante de uma platéia de alunos atentos, onde todo seu conhecimento arduamente conquistado pudesse ser transmitido, do que diante de políticos bajuladores. Dominava vários idiomas estrangeiros, a língua nativa o tupi, línguas mortas como grego e latim e outras consideradas até exóticas, como hebraico, árabe e sânscrito, o idioma sagrado dos hindus. Entretanto, não era professor e nem tinha alunos.
Quando ia até Petrópolis, longe do dia-a-dia político da Corte, o Imperador sentia-se à vontade, percorrendo a cidade a pé, sempre com um livro nas mãos, cumprimentado pessoas e visitando exposições. Foi numa destas reclusões de verão, quando a febre amarela ainda assustava os moradores do Rio de Janeiro, que o Imperador recebeu a notícia de que sua filha mais nova, a Princesa Leopoldina Teresa, aos 23 anos, havia morrido no dia 7 de fevereiro de 1871, de parto. Imediatamente pediu licença ao Congresso e marcou sua primeira viagem à Europa.
Houve certa dificuldade em aprovar a licença, pois o trono passaria às mãos da Princesa Isabel, de 24 anos e, indiretamente, ao seu marido, Gastão de Orleãns, o conde D’Eu um estrangeiro. Além disso, líderes do Partido Conservador trabalhavam no projeto de lei que iria garantir alforria automática aos filhos de escravas nascidos a partir de certa data. Quando esta última questão foi colocada ao Imperador, este argumentou que talvez fosse uma boa idéia sua filha sancionar a lei, uma vez que atrelaria sua figura a um futuro certo e de grande simpatia popular: a abolição da escravatura.
Dada a autorização pelo Congresso o Imperador pode viajar, chegando em 12 de junho do mesmo ano a Lisboa. Foi então informado de que ele e a mulher poderiam desembarcar, mas sua numerosa comitiva deveria cumprir a quarentena legal imposta pelas autoridades lusitanas para todos viajantes procedentes da América do Sul. Imediatamente retrucou:
- Por que só eu e a Tereza? A ordem não é para todos?
Aguardou então, como os demais passageiros o período de observação estabelecido pelas autoridades sanitárias e firmou uma postura que caracterizaria o caráter oficial de suas viagens ao exterior, identificando-se como um Imperador Cidadão – se é que isto pudesse ser assimilado por outras pessoas além dele próprio.
Para a imprensa e opinião pública externa, esta postura gerava uma imagem positiva de alguém que praticava a virtude da humildade; para outros, entretanto, tudo não passava de falsa modéstia, pois tão logo abria a boca o Imperador deixava transparecer seu grande conhecimento de ciências e letras e um completo domínio de vários idiomas.
Nesta primeira viagem ao exterior, além de países da Europa como Portugal, Espanha, França, Bélgica, Alemanha e Áustria, D. Pedro II visitou também o Egito. No dia 3 de novembro, quando apresentou uma palestra sobre o “vandalismo dos viajantes” no Instituto Egípcio do Cairo, o vice-rei comovido com suas palavras e o discurso em árabe ofereceu-lhe de presente a múmia sacerdotisa Sha-amun-em-su. No seu retorno o sarcófago passaria a ocupar posição destacada no gabinete de estudos do Imperador, bem próximo da janela.
Como fora planejado, na sua ausência coube à Princesa Isabel assinar no dia 29 de setembro a Lei do Ventre Livre, proposta pelo gabinete conservador presidido pelo Visconde do Rio Branco em 27 de maio de 1871, bastante semelhante à implantada no Paraguai pelo pai de Solano López em 1852. A lei declarava de condição livre os filhos de mulher escrava nascidos a partir de sua promulgação, mas os mantinha sob a tutela dos senhores de sua mãe até atingirem a idade de 21 anos.
- É mão de gato, dá com uma e tira com outra! – foi o comentário dos insatisfeitos.
Quando a publicação da lei foi enviada para todas as comarcas, os fazendeiros de café, especialmente os do Vale do Paraíba, procuram se reunir em grupo para discuti-la. Para alguns isto significava um afastamento gradual da monarquia para com a causa da lavoura, toda baseada no trabalho escravo dos negros. Portanto, era preciso discutir a respeito, foi o pensamento geral.
Na fazenda do Cantagalo, ressentindo a falta do primo e cunhado morto em 1869, quando ocupava a Presidência da Câmara Municipal de Petrópolis, um cargo de grande importância e que para aprovação necessitava da autorização informal do Imperador, Antonio Barroso filho mandou chamar o português Miguel Ribeiro de Sá. Aos 45 anos de idade, ele era o maior comerciante da Vila de Paraíba do Sul, proprietário de vários armazéns de secos e molhados, lojas de armarinho e investimentos na especulação com o café. Mas não foi por questões financeiras o convite do fazendeiro, mas pela vocação manifestada e interesse pela política do português.
- Pois bem, senhor Ribeiro de Sá, o que me diz desta nova lei? O que será dos fazendeiros daqui para frente?
Sorridente e simpático, devido aos 30 anos de prática de atender fregueses de várias categorias desde quando vindo da pequena Penafiel começara como simples caixeiro no Armazém de Secos e Molhados da fazenda da Boa União, Miguel respondeu:
- De imediato não vai mudar nada, pois os ingênuos, como são chamados os filhos de escravas a partir desta data, terão que prestar serviço ao legítimo proprietário da sua mãe até aos 21 anos. Talvez ocorra um aumento das mortes na infância, já que muitos fazendeiros acharão que não valerá a pena cuidar, ou investir como dizem, num bem que não lhes pertence.
- Sob o ângulo econômico sua análise está perfeita. E sobre os aspectos políticos, isto significa o afastamento da Corte?
- Posso fazer uma viagem especial à Corte, já no primeiro trem de amanhã e consultar as bases do Partido Conservador. Creio que no máximo em uma semana poderei dar-lhe um panorama mais nítido de como ficou a situação política.
- O senhor sabe que nunca tive jeito nem interesse por esta arte, a política.
- Compreendo sim senhor, não se preocupe. Tanto seu pai o barão de Entre-Rios como seu primo o barão do Rio Novo, sabiam exercê-la bem. Eu, modestamente, estou pronto para ajudá-lo neste aspecto.
- Faça isso e não se arrependerá, pois terá todo o apoio da nossa influência e os recursos financeiros que precisar na sua carreira política. Não adianta nada saber das coisas pela leitura do Diário Oficial e outros jornais da Corte; temos que saber antes o que vai ser publicado e estar de acordo, não é verdade?
- Sim a publicação é uma mera formalidade. As decisões são tomadas antes e não depois.
Considerados por muitos como simples intriga política contra Mariano Procópio, que apesar de ter as suas empresas falidas e exercer um cargo administrativo, aumentava cada vez sua fortuna pessoal, surgiram insinuações de mau uso do recurso público sob sua gestão. Indignado e com a honra atingida pelas acusações de fraude, Mariano logo tratou de publicar desmentidos, já que se originava de família abastada, sendo sua mãe a baronesa de Santana uma grande proprietária de fazenda de café, possuindo outras fontes de recursos além dos investimentos em transporte. Porém, o desgaste emocional foi fatal para o dinâmico empresário que, em 14 de fevereiro de 1872, aos 51 morreu de um fulminante ataque cardíaco.
O Imperador ao tomar conhecimento do fato, quando ainda estava no exterior, ficou especialmente desgostoso, pois admirava e tinha grande amizade pelo deputado mineiro, recordando-se das horas felizes que passara observando os astros do alto do rochedo em Juiz de Fora, que ficou conhecido como Morro do Imperador, com a luneta que lhe fora presenteada. Da mesma forma, mais de uma vez foi-lhe dito que o castelo de tijolos fabricados pelos operários da rodovia União e Indústria, junto da estação terminal de Rio Novo, fora construído especialmente para hospedá-lo quando visitava a cidade. Porém, guardando mais para si, o Imperador recordou o major Júlio Koeller, que como Mariano perdeu a vida muito cedo e também sob um nuvem de suspeição.
Ponderou: “Será este o destino dos empreendedores no Brasil? Fazer, construir quando a cultura jurídica herdada da colonização é mais de discutir, debater, argumentar, contra-argumentar, planejar e nunca executar? Ganhar dinheiro fazendo planejamento e não correndo nunca o risco de uma execução mal sucedida? Será que para fazer neste ambiente restritivo significa sempre atropelar leis e, por isso, mais cedo ou mais tarde, ter que responder por crimes?”
Depois de alguns instantes repassando estas indagações, e como especial tributo ao amigo morto prematuramente, o Imperador decidiu que todos os projetos previstos por Mariano Procópio na ferrovia não sofreriam descontinuidade e seriam realizados no prazo por ele estabelecido.
Apesar de a linha ferroviária estar prevista para chegar à grande estação de Juiz de Fora em 1875, no início de 1873 já estava em obra a chamado Curva da Ferradura, um longo desenvolvimento da linha em meia encosta de uma curva de grande raio que em aclive de 2% terminava exatamente na Garganta de João Ayres, o ponto de menor quota para travessia da Serra da Mantiqueira, explorado pela primeira vez por Garcia Paes Leme, no princípio do século XVIII, quando estava abrindo o Caminho Novo. Exatamente no meio do seu desenvolvimento, junto a uma nascente de água que filtrava da Mantiqueira, havia uma casa simples de ferroviário. Nela morava o empreiteiro e engenheiro Henrique Dumont e sua mulher grávida do seu sexto filho. Dumont era o responsável pela obra da linha na serra, contratado pelo comendador Mariano Procópio.
A morte do comendador, apesar de todo interesse do Imperador na sua continuidade, gerou problemas de contratação, pois o novo diretor da Estrada de Ferro D. Pedro II, Elisário Antonio dos Santos, oficial da marinha, tinha dificuldades em compreender a nova tecnologia de transportes, além dos naturais rearranjo de interesses quando ocorre mudança na administração.
Henrique Dumont estava cansado do serviço com data certa para ser concluído, ponderou se valeria a pena continuar investindo na atividade. Conhecendo o dinamismo de Mariano Procópio era possível ganhar um bom dinheiro, pois os prazos eram sempre muito apertados, mas numa nova administração teria que passar por um período de aprendizagem. Pensou então, por que não investir sua energia em outra atividade, talvez que desse melhor resultado financeiro, como a lavoura de café?
Numa manhã fria de julho, no dia 20 de julho de 1873, no dia do aniversário do engenheiro Henrique Dumont, sua mulher deu a luz a um menino. O pequeno Alberto, assim se chamaria, nasceu às margens da linha em construção, foi enxugado com a água retirada da nascente de pedra, filho de um empreiteiro ferroviário e, portanto, com todas as condições de seguir igual destino profissional, pois a ferrovia tem esta característica. Porém, o destino desta vez, lhe reservaria algo muito maior do que os limites estreitos das paralelas de aço dos trilhos assentados sobre dormentes de madeira da Estrada de Ferro D. Pedro II.
Em Vassouras todos se assustaram com a morte inesperada do doutor Joaquim José Teixeira Leite, deixando órfãs de mãe e pai duas irmãs: Francisca e Eufrásia. Mas como esta não fora a única morte na família em curto espaço de tempo, o inventário da avó, a baronesa de Campo Belo, também em 1873, agregou em terras mais fortuna às irmãs, que somada à grande herança em papéis deixada pelo pai, tornaram-nas possuidoras de um patrimônio equivalente à dotação recebida naquele ano pelo Imperador D. Pedro II do Tesouro Nacional – ou seja, o correspondente a 5% das receitas de imposto do império no ano anterior. Porém, no testamento redigido pelo pai, a fortuna foi dividida em três partes para as duas filhas: um terço para cada uma e o terço restante seria dividido entre as irmãs, mas com cláusula de usufruto vitalício, aplicado em fundos públicos inalienáveis, de transmissão sucessiva. Inegavelmente o pai das duas receava que, na sua ausência uma paixão amorosa desastrosa pudesse dilapidar os bens deixados por ele.
Aos 23 anos Eufrásia e Francisca com 28, apesar de bonitas, poderiam ser consideradas encalhadas para casamento. Geralmente as “primas” escolhidas para casamentos entre parentes tinham entre 15 e 17 anos. Sem explicações lógicas pelo aparente desinteresse por afoitos pretendentes, as duas resolveram realizar um sonho de todas as moças ricas: morar em Paris.
- Estou vendo, aqui Chiquinha, que o vapor Chimborazo zarpa em quinze dias.
- E o que faremos em Paris, Eufrásia?
- Ora, vamos viver da renda das aplicações! Ou você prefere investir em café?
- Deus me livre! Vi como meu pai sofreu e como nossos tios sofrem ainda...
Arrumaram apressadamente suas bagagens, liquidaram as pendências imediatas e estabeleceram procuradores de confiança, logo embarcaram. Á bordo do Chimborazo viajavam vários ilustres passageiros, além das milionárias irmãs Teixeira Leite. Estes passageiros de primeira classe se encontravam três vezes por dia no amplo salão de jantar, no andar mais alto do navio.
A fortuna das irmãs que viajavam para Paris era motivo de conversas reservadas e um atrativo para candidatos sedutores, que sempre que podia as assediavam. Um deles, um rapaz esbelto, de insinuante bigode, pernambucano e muito falante, chamado Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, mas que se apresentava como Joaquim Nabuco. Ao ver as duas donzelas solitárias à mesa, não se fez de rogado e logo se aproximou. Eufrásia e Francisca se encantaram com a inteligência vivaz do filho do jurista e político baiano, que era cerca de um ano mais velho do que Eufrásia. Viajava a Paris para realizar estudos próprios com o dinheiro herdado da venda do Engenho Serraria, pela morte de sua madrinha.
Depois que já tinham estabelecido certa intimidade, Eufrásia certa vez perguntou:
- Com que idade o senhor se diplomou?
- Foi em 1870, eu tinha então 20 e poucos anos.
- Entrou muito cedo então na Faculdade?
- Comecei na Faculdade de Direito de São Paulo em 1866, mas diplomei-me no Recife. Mas não gosto muito de direito, prefiro literatura, política...
No Paço da Cidade, o Imperador Pedro II viu sobre sua mesa o processo de concessão do título de Visconde a Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá. Ergueu os olhos para o secretário e fez sinal com a cabeça para que ele iniciasse a justificativa.
- Ele é o maior investidor do Império, sem dúvida alguma, um verdadeiro símbolo. Está agora investindo numa nova empresa, a Companhia de Abastecimento de Água do Rio de Janeiro que vai acabar com as limitações do aqueduto da Lapa. É o maior investidor em ferrovias do Brasil: a Estrada de Ferro do Paraná, a Santos-Jundiaí e mesmo a primeira, a que lhe valeu o título de barão...
- Mas é muito chegado aos ingleses?
- Oficialmente se desligou da Carruthers & Cia.em 1845, há quase trinta anos, mas continua com esta imagem de emissário dos britânicos... Mas agora está brigando com eles, por causa da Santos-Jundiaí.
- Tem razão. Ajudou-nos bastante na Guerra do Paraguai, temos que reconhecer...
- Se hoje temos informação instantânea do que ocorre na Europa, devemos é graças ao Cabo Telegráfico Submarino inaugurado por ele em 1872. Aliás, Imperador, considero esta obra mais importante do que a primeira ferrovia brasileira por ele implantada, que nunca chegou a Petrópolis.
- Tem razão. Podemos condicionar o título a isso: a ferrovia vai chegar finalmente a Petrópolis ou terei de continuar subindo de carruagem?
- Creio que não. Lembre-se que ele nos ajudou também quando investiu em 1856, junto com o inglês Thomas Crochrane na Estrada de Ferro Tijuca, uma ferrovia urbana. Não deu certo, pois a ferrovia faliu em 1868, mas o inglês nos deu sossego, aceitando a indenização e transferindo sua concessão que tinha direito para a Cia. Estrada de Ferro D. Pedro II.
- É verdade. Temos de reconhecer que muitas vezes o barão de Mauá fez negócio arriscado apenas para as causas de interesses do Governo – assentiu o Imperador.
- Ele merece o título então?
- Sim. Pode marcar: no dia 26 de junho de 1874 Irineu Evangelista de Souza será Visconde com Grandeza de Mauá.
- Temos agora, Alteza, o caso dos fazendeiros do Vale do Paraíba.
- O que querem? Mais títulos?
- Não é apenas isso. Percebe-se um clima de insatisfação generalizado, segundo estamos informados, decorrente da Lei do Ventre Livre... Eu poderia sugerir uma visita às principais lideranças da região, como Vossa Alteza realizou em 1848.
- Boa idéia. Mas, desta vez, quem viajará em viagem oficial será a Princesa Isabel e o Conde D’Eu. Cabe a ela tranqüilizá-los. Eu prefiro ficar por conta de meus livros.
O experiente secretário particular do Imperador ficou em silêncio, como se concordando, mas com um misto de preocupação. Ele e outros haviam notado que após a viagem ao exterior o monarca demonstrava achar cada vez mais enfadonho o dia-a-dia do Paço Cidade e da Quinta. Traços de contentamento eram observados apenas quando estava em Petrópolis. Parecia-lhes que o Imperador trocaria de bom grado uma permanência prolongada na Europa, onde teria à sua disposição vários programas culturais, do que suportar os bajuladores e interesseiros que o rodeavam todos os dias. Sendo esta, talvez, a razão secreta da indicação da Princesa Isabel, a sucessora, para estreitar os contatos com a elite agrária da Província do Rio de Janeiro que sempre lhe dera sustentação política.
Estando todos de acordo com a determinação do Imperador, preparou-se uma longa viagem, seguindo o mesmo roteiro da viagem de 1848, estendendo-a todavia até Valença onde a produção de café crescera nos últimos anos e em Vassouras que podia ser considerada a “capital” do Vale do Paraíba. A ferrovia que interligava Valença à Estrada de Ferro D. Pedro II fora inaugurada no dia 18 maio pelo 1871 pelo Imperador e desde então se torna uma grande fonte de receita para a ferrovia, pelo café que trazia da região do rio Preto.
Nas cerimônias públicas, o conde D’Eu, Príncipe Consorte, colocava-se sempre um passo atrás da Princesa, objetivando transmitir a todos que ela, brasileira, é quem seria a futura Imperatriz. As mulheres nestes encontros logo a rodeavam, tal como abelhas em torno de sua rainha; da parte do conde, como oficial vitorioso que terminara em nome do Imperador com a guerra no sul, tinha muitas historia de coragem para contar, que de igual forma o rodeavam com respeito, tolerando seu forte sotaque francês. Era um estrangeiro de fato, mas que havia corrido risco de vida pelo país.
Foi durante esta viagem que um destacado membro da comissão, o capitão engenheiro Alfredo Taunay, que também era deputado provincial por Goiás pelo Partido Conservador, estreitou seus laços com a filha do barão de Vassouras, Cristina Teixeira Leite.
Numa noite, na varada do amplo palacete do barão, estando os dois à sós, já que a Princesa Isabel e o Conde D’Eu monopolizavam as atenções, recordando-se Alfredo dos casos que lhe contara durante a retirada da Laguna o cabo encarregado das tropas de carga, sobre o tórrido romance que tivera com uma adolescente da cidade, disse-lhe que pensava escrever um romance com tal enredo e conseguiu fazer os olhos dela brilharem intensamente. Como poderia aquele rapaz educado adivinhar um segredo tão bem guardado na grande família Teixeira Leite? Estaria ele de posse de alguma informação confidencial ou seria simples intuição? Alfredo fingiu não perceber e avançou até onde se recordava, sempre alegando que seria um projeto de romance, já que tinha dois outros já escritos aguardando publicação e, como escritor, estava sempre pesquisando. Este aparente sexto sentido fez com que ela se apaixonasse perdidamente pelo sedutor escritor, no que foi correspondida.
A partir daquele encontro, Alfredo todos os finais de semana, terminado os trabalhos da Câmara de Deputados, pegava um trem da Estrada de Ferro D. Pedro II e seguia até a antiga estação de Vassouras, rebatizada como Barão de Vassouras pois o nome original havia sido dada à estação terminal da Estrada de Ferro Carril Vassourense, que operava desde 1872 um bonde tracionado a burro, ligando o centro da cidade à estação da Linha do Centro.
A aproximação de Alfredo e Cristina, romperia uma tradição na família Teixeira Leite, uma das filhas não se casaria com um primo, mas com alguém de fora, porém igualmente entrosado na Corte; ou melhor, muito mais, porque o pai de Alfredo, Felix Emílio Taunay além de pintor foi diretor da Escola Nacional de Belas Artes e era grande amigo do Imperador que o recebia todos os sábados para uma conversa de no mínimo duas horas. Alfredo desde criança, juntamente com sua irmã, fora companheiro de brincadeiras das princesas Isabel e Leopoldina, distinguido especialmente quando o próprio Imperador entregou-lhe a medalha de premiação como aluno da Escola D. Pedro II, em 1858. Foi também o Imperador um dos primeiros a ver os originais de Alfredo como escritor, fazendo-lhe críticas pelo excessivo anglicismo na redação. O casamento, portanto, reunia fortuna de um lado e grande prestígio na Corte por outro. O amor, fonte permanente de inspiração do escritor, existia; porém não com a intensidade do que o jovem militar sentira e vivera com a índia que comprara, quando perambulavam nus, tal qual Adão e Eva nas águas claras que corriam pelos desfiladeiros do longínquo rio Aquidauana, que nasce na serra de Maracaju, no Mato Grosso. No ano de 1874, Alfredo e Cristina se casaram, numa comemoração promovida pelo barão de Vassouras que se estendeu por uma semana.
Durante a permanência de Joaquim Nabuco na Europa, entre encontros com intelectuais e políticos, entremeados por longos períodos de anotações nas grandes bibliotecas de Paris e Londres, reservava tempo para ver Eufrásia Teixeira Leite. Numa dessas ocasiões, quando os dois caminhavam de mãos dadas, às margens do rio Sena em Paris, aproveitando o ar fresco da tarde primaveril como anônimos enamorados que eram, os dois interesses momentâneos de Joaquim Nabuco, a questão social e a política do escravo brasileiro frente à burguesia se fundiram, numa conversa que se iniciou de forma banal:
- A cor do Brasil não é verde e amarelo, mas a do café-com-leite. Temos províncias como o Rio de Janeiro e a Bahia, onde o café, trazido pelo sangue africano predomina, em outras, mas em outras como Santa Catarina e São Paulo, predominando o leite trazido pelos imigrantes alemães e italianos...
- Que pensamento estranho, Joaquim, para um passeio às margens do rio Sena, numa tarde de primavera em Paris – censurou Eufrásia.
- A distância permite que eu enxergue melhor o meu país.
- Compreendo. Para enxergar a montanha toda é preciso se afastar dela...
- Kant, um filósofo que ultimamente tenho estudado, fala um pouco disso, Eufrásia, mas não desta maneira tão direta. Diz, em outras palavras, aliás, trabalhar palavras é a arte da filosofia - que o mundo é como o enxergamos, a realidade é uma abstração.
- A realidade uma abstração?
- O mundo para mim é de uma maneira, para você é de outra, para um velho escravo africano é de outra, para um jovem escravo mulato, filho de mãe negra e pai branco desconhecido é de outra...
Eufrásia empalideceu e como se assustada, reduziu o passo, interrompendo o ritmo da caminhada. Nabuco, com a alta sensibilidade que iria projetá-lo durante sua carreira diplomática, percebeu que havia tocado algo sensível, não reagiu de imediato. Como um bom jogador, que avalia as cartas nas mãos do adversário observando suas mínimas reações corporais, estendeu mais um pouco suas reflexões pelo campo filosófico, o que pareceu acalmar Eufrásia, mas logo voltou a jogar seus trunfos na mesa:
- Uma jovem, branca, rica, com um mundo colorido pela frente, que venha se apaixonar, talvez até por um impulso juvenil, por um sedutor mulato, poderia assumir este amor?
Eufrásia parou e olhou fixamente os olhos castanhos de Joaquim, que sorriu, fazendo seus dentes claros e perfeitos destacar sob o espesso bigode. Ele continuou:
- Este é um cenário hipotético, Eufrásia, mas muito comum no Nordeste. É também um tema que está sempre sendo reprisado na literatura: o doce amor proibido. Barreiras que insistem em separar os apaixonados, devido a diferença social, econômica, política... E até de cor da pele!
- Tem razão. Este é um tema já muito reprisado na literatura...
- Não é preciso recorrer aos escritores antigos. Esta situação é real e pode estar acontecendo agora. Veja aquele casal lá na frente, que caminha de mãos dadas, como nós...
- Não é o nosso caso.
- Claro que não, somos iguais socialmente, economicamente (talvez eu nem tanto quanto você), politicamente e na cor da pele. Porém, quem garante que um de nós dois não passou por este mesmo drama?
Eufrásia sentiu um estremecimento pelo corpo, provocado por velhas lembranças. No mesmo instante, em seu pensamento, as águas claras do rio Sena se transformaram nas águas barrenta do Rio Paraíba do Sul; a fresca brisa primaveril européia, pelo calor sufocante das tardes de verão no Vale do Paraíba e a delicadeza do cavalheiro que lhe acompanhava pela vigor de Tuca que fazia seu corpo de menina moça arrepiar-se toda quando o via. Um apetite sexual que ela era incapaz de controlar e que só foi interrompida quando o pai lhe tirou de Vassouras, mandando-a morar no Rio de Janeiro, na casa da família em Laranjeiras.
Controlando com esforço a emoção provocada pelas lembranças, continuou caminhando, de cabeça baixa, mas distante, observando a relva verde que crescia vigorosa, após o derretimento da neve, parecendo ter deixando o solo adubado.
Joaquim Nabuco atento, teve a convicção de que achara o fio da meada: uma possível explicação sobre o “encalhe” de moça tão cobiçada. Eufrásia era rica, bonita e sempre fora assediada por vários primos igualmente bem sucedidos, ansiosos todos para consolidarem fortunas. Nabuco pensou: seria ela uma donzela mortalmente ferida no coração pela seta lançada por um Cupido diabólico, desses que estimulam especialmente os amores proibidos?
Continuaram a caminhar em silêncio por alguns instantes, até que Joaquim abraçou-a pela cintura, interrompendo seus passos. Puxando seu rosto suavemente fez seus lábios se encontrarem com uma decisão na cabeça: iria fazê-la esquecer o passado, despertando-lhe novamente os impulsos de mulher. Nem que para isso tivesse que ser também um amante secreto.
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