Capítulo 14
Derrotas e Vitórias
Derrotas e Vitórias
Apesar da guerra no sul distante, as festas na Corte e imediações não foram interrompidas, sendo um exemplo a que aconteceu no dia 7 de setembro de 1867, na fazenda do Visconde de Rio Preto, Domingos Custódio Guimarães, em Valença.
A festa de aniversário comemorava a abertura do Ramal de Porto das Flores da rodovia União e Indústria, partindo de Paraibuna. O anfitrião convidou o comendador Mariano Procópio, com garantia de exportação não inferior a 100 mil arrobas. Foram construídas duas pontes sobre o rio Preto, ligando as províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Para a festa, além dos fazendeiros vizinhos, foram convidados comerciantes do Rio de Janeiro, senadores e deputados provinciais. Mandara iluminar com lanternas de variadas cores o caminho que ligava o povoado de Porto das Flores até sua fazenda, enquanto duas bandas de música alternavam-se executando o repertório.
Quando alvoreceu, iniciaram o hino nacional, saudado por morteiros, ouvindo-se ao mesmo tempo o rodar de muitas carroças da União e Indústria, conduzindo quinhentas sacas de café com duas mil arrobas. Ás onze horas foi servido o almoço em baixelas de prata e finos cristais. Depois, espalharam-se os convidados, visitando uns grupos as dependências da fazenda, as oficinas e cavalariças ou interessando-se pelos pomares, onde frutas raras eram cultivadas; outros grupos entretinham-se no bilhar e diversos jogos. As senhoras conversavam nos salões ou iram repousar em seus quartos.
À tarde o Visconde foi mostrar ao comendador Mariano Procópio a fazenda da Luanda, seguindo ao longo das margens do rio Preto. O Visconde fazia questão de guiar o carro e quando passavam pela ponte sobre a foz do rio das Flores, os cavalos espantaram-se e o Visconde teve grande dificuldade em contê-los.
Na planície, dominada por um morro apelidado de Pão de Açúcar, estavam em plena florescência, cem mil pés de café de sete anos. A tosca residência, que há 30 anos fora onde o Visconde começara sua fortuna ainda estava de pé. Pararam e foi servido champanhe, frutas e doces. Regressaram à fazenda às seis da tarde. Quando passou pela porteira foi saudado por um alegre dobrado tocado pela banda e vivas ao Visconde do Rio Preto foram ouvidos por todos os lados. Ao descer do carro, das janelas atiravam-lhe uma chuva de pétalas de rosas e a banda tocou o hino nacional. Ao terminar toda a elite da Corte aplaudiu o Visconde, que empalidecera e pareceu perder o equilíbrio. A ver isso o visconde de Bom Retiro, seu amigo, ampara-o, levando-o para o salão, onde ele caiu sobre o sofá, fulminado por uma sincope cardíaca.
- Domingos, o que é isto? – perguntou o visconde surpreendido pelo desfalecimento.
Os médicos, que eram muitos na festa, acudiram.
- Não é possível! – gritou a viscondessa, atirando-se sobre o corpo já inanimado do marido. Gritos, soluços de parentes a quem ele protegia, lamentos de escravos também eram ouvidos.
Depois, um silêncio sepulcral. No salão de cima ninguém mais pensou em banquete. O palacete continuou, todavia, tal como estava: profusamente iluminado. Nas mesinhas espalhadas no jardim sentavam-se discretamente alguns convidados, enquanto outros velavam o corpo do anfitrião, até o amanhecer.
Retornando da festa melancolicamente encerrada, o recém nomeado visconde e a viscondessa do Rio Novo, seguiam na diligência em direção à fazenda do Cantagalo, acompanhados de Antonio Barroso.
- Que morte gloriosa! – afirmou o visconde.
- Que comentário, meu marido! – censurou Mariana Claudina.
- Mas não é verdade, primo? Morrer no dia do próprio aniversário, recebendo aplausos sob os acordes finais do hino nacional...
- Vamos pensar nos nossos que estão agora morrendo no sul, vítimas de tiro, faca ou doença. O que será que está acontecendo com o Tuca?
Enquanto a guerra não avançava no sul, pois os paraguaios estavam bem protegidos por fortalezas que impediram o avanço das tropas comandadas por Mitre, a coluna que partira para recuperar as cidades invadidas na Província de Mato Grosso passava por um grande apuro, mas não por causa dos paraguaios.
Depois de Campinas a coluna comandada pelo coronel Manuel Pedro Drago recebeu reforços dos mineiros em Uberaba, atingindo um efetivo de três mil homens. Percorreram mais de mil e quinhentos quilômetros por terra até alcançar Coxim, na Província do Mato Grosso, aonde chegaram a dezembro de 1865. Não houve, entretanto os esperados combates, pois a cidade tinha sido abandonada pelos paraguaios. Prosseguiram viagem, lentamente, até Miranda, alcançada em setembro do ano seguinte. A cidade também fora abandonada. Não havia mais paraguaio algum em território brasileiro. Resolveram acampar e aguardar instruções do Rio de Janeiro.
A paisagem plana e a vegetação de árvores retorcidas, típicas do cerrado, foi uma surpresa para os olhos de Tuca, nascido entre montanhas e acostumado às trilhas nas serras fluminenses e mineiras, onde um inimigo pode estar espreitando na próxima curva fechada da estrada. Também o surpreendeu a grande quantidade de aves que habitavam as áreas alagadiças por ocasião das chuvas, a grande quantidade de jacarés de papo-amarelo e piranhas, que inibiam o banho nu nos dias de grande calor. Nas lagoas, quando a água desce, os peixes carnívoros ficam especialmente agressivos e mais de um caso foi contado de soldado que virou um cantor castrati, capaz de emitir um som agudo inimitável. Para estes soldados voluntários da pátria, a castração era um castigo pior do que a morte; portanto, o cuidado com as lagoas repletas de piranhas era a primeira preocupação da tropa.
Tuca passou várias horas em conversa com o tenente Alfredo Taunay, até que este se enamorou de uma jovem índia, quando a viu montada sobre um boi grande e manso, viajando com os pais. Comprou-a por 500 mil reis e viveu momentos idílicos, que afirmou talvez nunca mais tivesse outra vez na vida, quando nus, como Adão e Eva no Paraíso, desfrutavam das corredeiras frescas, que nascem no alto da Serra da Bodoquena e vai alimentar o Rio Miranda, que corre entre grandes desfiladeiros de rocha calcária escavada pelo rio.
Tuca, já promovido a Cabo, invejou o oficial ao ouvir seus relatos, em francês, para que outros soldados não pudessem participar. Contou-lhe Tuca então, idílio semelhante por ele vivido, só que em situação inversa, quem era socialmente superior, era a mulher, da família dos Teixeira Leite, enquanto ele era, então, um simples escravo, só liberto graças à lei dos voluntários da pátria. Taunay pediu que ele descrevesse, com toda exatidão possível a emoção que vivera, como se fosse um escritor romântico querendo absorver sensações.
Em janeiro o comando mudou, assumindo o coronel Carlos de Morais Camisão, que com 1.680 homens, praticamente a metade original, decidiu invadir o território paraguaio. O maior inimigo até então, como analisaram Taunay e Tuca eram três tipos diferentes de doença. A primeira fazia os soldados ficaram cansados em uma curta caminhada, com dificuldade respiratória, obrigando-os a permanecer na maioria das vezes amontoados. Isto aumentava a contaminação de piolhos entre os soldados. Mas, a pior delas, era uma diarréia volumosa, aquosa, esbranquiçada, parecendo água de arroz. Em poucos dias o doente perdia peso e cor. Como estavam acampados quase sempre perto de lagoas, parecia que sua água, por maior que fosse o volume, se tornava venenosa.
Taunay e outros oficiais assim como Tuca e alguns soldados resolveram adotar por contra própria remédios naturais: consumiam grande quantidade de frutas e leite das poucas vacas selvagens com bezerro que conseguiram capturar, enquanto a maioria dos soldados preferia o charque, farinha e cachaça (escondida); tomavam banho diário, sem medo de enfrentar a correnteza do Rio Miranda, temendo muito mais as piranhas castradoras e, finalmente, enchendo seus cantis com água pura de riachos, por mais longe que tivesse de andar, evitando a água próxima das lagoas, quando era impossível, a conselho de Taunay, Tuca só bebia água fervida. Adotaram, instintivamente, a profilaxia mais adequada para evitar o beribéri (carência de vitamina B1 existente nos alimentos ricos em tiamina,como cereais em grãos, leite e frutas); o tifo provocado pela proliferação de piolho humano que se reproduz em aglomerações onde existe falta de higiene e a cólera, que é transmitida através da ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes humanas.
Com muita dificuldade por causa das torrenciais chuvas de verão, que formava grandes charcos pantanosos no terreno plano, a coluna comandada pelo coronel Camisão chegou até o povoado de Laguna. Foi quando começaram a aparecer soldados paraguaios, primeiramente em pequenos grupos, em ataques surpresas, mas depois em grupos maiores a cavalo. Provavelmente a penetração brasileira no território fora comunicada e de Assunção vieram reforços.
As notícias que os batedores que conseguiam atravessar a linha inimiga não eram boas, pois os reforços solicitados pelo coronel Camisão não tinham data de chegar. Como não poderia garantir o território conquistado, tiveram que retornar, provendo uma grande retirada, que mais tarde foi cuidadosamente relatada pelo tenente Taunay num livro redigido em francês: A Retirada da Laguna.
A fome, a doença e os ataques paraguaios reduziram o contingente a cerca de 700 homens, com baixa de 60%, quando em abril de 1868 conseguiram chegar a Coxim. Souberam então, das mudanças na frente de batalha no sul, com a substituição, desde 13 de janeiro, do general argentino pelo Marques de Caxias, apesar de já estar com 64 anos.
Taunay recebe autorização para retornar para o Rio de Janeiro enquanto Tuca e os demais soldados sobreviventes são enviados para se juntar às tropas do sul, onde ficariam até o final da guerra, que seria para ele, agora, sangrenta e cruel.
Logo ao assumir, Caxias organizou um corpo de saúde para conter as epidemias e um sistema logístico para melhor abastecer as tropas. Depois adotou as táticas militares que sua vasta experiência indicava.
Embora no início da guerra a diferença de contingente fosse grande: 18 mil homens do exército brasileiro contra 70 mil do exército paraguaio, o militar brasileiro era mais profissional, com uma tradição guerreira herdada de Portugal. Assim como Caxias, outros generais veteranos como Osório e Porto Alegre, vitoriosos em várias e sucessivas guerras internacionais (1850 a 1852, contra Oribe e Rosas; 1864 contra Aguirre), além de várias revoluções internas. Existiam tradicionais Escolas Militares de formação, Oficiais de Estado-Maior, Corpo de Engenheiros, Serviços de Saúde e outras unidades especializadas que faziam com que o militar brasileiro fosse mais bem preparado. As maiores fortalezas do Paraguai, como Humaitá foram também projetadas por engenheiros militares brasileiros.
O armamento brasileiro era mais moderno, a artilharia dispunha de canhões “La Hitte”, raiados, lançados em 1855, que tinham maior alcance e precisão do que os antigos canhões fundidos paraguaios que lançavam projéteis esféricos.
A estratégia militar também foi logo revista, já que a do general Mitre não obtivera sucesso em dois anos de tentativa de furar o bloqueio paraguaio. Caxias adotou manobras militares clássicas das guerras napoleônicas, como a manobra de flanco para conquistar a fortaleza de Humaitá e a marcha de flanco para contornar as posições paraguaias de Piquiciri
Caxias fez uso intensivo da marinha em operação combinada com o exército. A marinha brasileira, muito mais poderosa, logo assumiu o controle do acesso à bacia do Prata e foi se fortalecendo ainda mais no decorrer da guerra, passando a empregar os encouraçados, vasos de guerra totalmente metálicos, com casco protegido por chapa de aço da espessura de cinco cm (duas polegadas), capazes de resistir aos projéteis dos antigos canhões paraguaios.
Com este armamento moderno, Caixas logo ordenou a passagem da esquadra brasileira pelos fortes de Curupaiti e Humaitá, que defendiam o rio Paraguai, realizada com êxito, dando início à manobra de flanco, visando cortar as linhas de suprimento vindas de Assunção. Com cerco vigoroso, Humaitá que havia resistido dois anos caiu em 25 de julho de 1866, pouco mais de seis meses depois de Caxias ter assumido.
Outra grande novidade bélica implantada por Caxias foi o uso de balões cativos, que permitiam uma perfeita visão do terreno, já que não existiam cartas ou mapas da desconhecida e inóspita região de operações, nem se dispunham de guias confiáveis.
Deste modo, enquanto os países que formavam a Tríplice Aliança podiam ir modernizando seu equipamento bélico, o Paraguai sitiado podia contar apenas com o grande espírito patriótico de seu povo, habilmente trabalhado pela imprensa de Assunção, já que a maior parte da população havia sido alfabetizada.
Vencido o forte de Humaitá, rumo a Assunção, o exército de Caxias avançou 200 km até Palmas, detendo-se no arroio de Piquissiri, onde o terreno favorecia a defesa paraguaia. Ao invés do combate direto, fez o exército atravessar o rio, iniciando uma manobra de flanco, ao construir na margem direita, em 23 dias apenas a Estrada Chaco, que permitiu o exército atravessar os pântanos. Correndo grande risco, mas tendo sorte, fez o exército atravessar de volta para a margem esquerda do rio Paraguai, que logo se encheu com as fortes chuvas de verão que antecipara. Encontrava-se agora na retaguarda de Piquissiri, isolando de Assunção a última grande linha de defesa, dando inicio à dezembrada, série de vitórias ocorridas no mês de dezembro.
A primeira vitória significativa de Caxias foi obtida no dia 6 de dezembro, ao tomar Piquissiri, quando ao ocupar a ponte de Itororó, Caxias, aos 65 anos de idade, partiu a galope em direção ao inimigo, com a espada em punho gritando: “sigam-me os que forem brasileiros!” não sendo morto por pura sorte, mas entusiasmando todos os soldados por sua coragem; no dia 11 foi a vez de Avaí, seguido de Lomas Valentinas no dia 21 e com a rendição de Angustura no dia 30 o exército paraguaio é vencido de forma inapelável.
Assunção, bombardeada e evacuada foi ocupada pelas forças do Império Brasileiro em primeiro de janeiro de 1869, para aguardar a chegada de Caxias, que se deu no dia 5. Solano Lopez, entretanto, não aceitou a intimação e ao invés de render-se procurou refugio no interior do país, para iniciar combates de guerrilha de resistência às tropas invasoras.
Caxias, adoentado e cansado, não quis persegui-lo, passando o comando e voltando para o Rio de Janeiro, onde teve uma fria recepção, pois o Imperador o queria à frente da batalha até a conclusão da guerra. Todavia, para Caxias, a guerra havia terminado, o Paraguai estava destruído, caçar Solano Lopez, que em dois anos de governo, após a morte de seu pai, levara o país a uma guerra impossível de ser vencida, não faria parte do currículo do velho militar que por tantos anos sustentara a integridade territorial do Império.
Enquanto no sul a prolongada guerra caminhava para o fim, no Vale do Paraíba importantes acontecimentos se desenrolavam. Com a chega dos trilhos a Entre-Rios, a Cia. União e Indústria ficou totalmente sem cargas, pois não fazia sentido pagar mais caro e levar mais tempo transportando o café da zona da mata mineira para o Rio de Janeiro apenas para utilizá-la.
D. Pedro II adotou então as seguintes providências: pelo decreto 4.320 de 13 de janeiro de 1869 passa todos os bens da Cia. União e Indústria, de quem era também o maior acionista, para a sua ferrovia expressando:
Considerando as vantagens que devem resultar para a Estrada de Ferro D. Pedro II de se transferir para a mesma o serviço de transporte de gêneros e produtos atualmente a cargo da Cia. União e Indústria, evitando-se assim os efeitos de uma concorrência nociva a ambas...
No dia seguinte o deputado pela Província de Minas Gerais desde 1861 e comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, ex-presidente da Cia. União e Indústria assume o comando da Estrada de Ferro D. Pedro II. Com total apoio do Imperador, de quem era amigo, logo Mariano impõe um novo ritmo de construções como a nova estação da Corte e o prolongamento em direção ao Rio das Velhas, optando definitivamente pela travessia da Serra da Mantiqueira pela Garganta de João Aires, e prosseguir com a linha em direção a São Paulo. A ferrovia a partir de Entre-Rios, seguiria então paralela à estrada da União e Indústria até Juiz de Fora, seguindo o traçado do Caminho Novo.
O Visconde do Rio Novo, por suas ações políticas bem sucedidas, fez grandes avanços nessa carreira, chegando a ocupar a presidência da câmara de vereadores de Petrópolis, um cargo equivalente a prefeito. No entanto seu coração não resistiu a taxa pressão e, aos 53 anos morre de um ataque fulminante.
A Viscondessa do Rio Novo chorou a morte do marido e o sepultou na Capela N. S. da Piedade, ao lado do tio, o barão de Entre-Rios.
O espanhol Emilio Prieto esteve ao seu lado na vigília do corpo do Visconde do Rio, que desde que o conhecera como major Carvalhinho, sempre lhe dera abrigo e proteção. Num momento de tranqüilidade, quando o galo no alto da goiabeira, ignorando o movimento anormal na madrugada na sede da fazenda amiudava seu canto, indicando que o dia estava prestes a nascer, comentou com o espanhol:
- Nem parece que já se passaram 35 anos desde sua chegada aqui, mestre Emilio. Quantas mudanças, não é verdade?
- Sim, viscondessa. E muitas mudanças ainda virão. Uma guerra não acaba com um tratado de paz, mas continua, pois uma sociedade ferida sempre reage.
- Tantos jovens perdendo a vida. Onde estará Tuca agora? O visconde, que tinha um carinho especial por ele, teria com toda certeza sua alma mais leve se visse o rapaz forte que ficou carregando-o no caixão.
- Ele esperava o fim da guerra a qualquer momento, não é verdade?
- Sim. Sempre que se encontra com o Imperador, o que era freqüente por causa de seu cargo na câmara, tentava perceber alguma indecisão ou compaixão; mas não: o Imperador sempre estava irredutível. A guerra só terminaria com Solano Lopez preso ou morto em combate. Se não, dizia, ninguém mais teria sossego pois tinha liderança sobre a população suficiente para novas escaramuças. O problema é que com essa guerra sem fim os jovens continuam morrendo. O senhor não pensa em Tuca, mestre?
- Sim senhora viscondessa. Eu também sempre penso em onde estará o nosso Tuca? Será que se incorporou ao exército comando pelo Conde D’Eu, o marido da Princesa Isabel, que assumiu no lugar do Marques de Caxias? Estará vivo ou morreu como tantos outros jovens?
A partir de agosto de 1869 a guerra se tornou irregular, com várias batalhas isoladas de um remanescente de exército paraguaio desarticulado. O sentimento de defesa da pátria estava, entretanto impregnado em todos, visto até com ares de fanatismo pelo exército da Tríplice Aliança.
Tuca, de fato, havia se incorporado ao exército de Caxias e participara das últimas batalhas, antes da entrada das tropas na capital de Assunção. Todos achavam que a guerra estava terminada, porém do interior vinham notícias de que Solano Lopez estava reunindo uma grande força e viria retomar a capital de seu país. O sentimento dos paraguaios para com os soldados era de invasores de seu país. Algumas vezes, gritavam de longe: “macaquitos, macaquitos!”. A imprensa oficial fora desmantelada, mas exemplares antigos dos jornais, como o El Semanário, órgão oficial de pregação psicológica que estimulava o ardor combatente e outros periódicos: El Centinela, Cacique Lambaré e o Cabichui, onde o Imperador, a Imperatriz e os principais chefes militares eram representados com caricaturas de macacos, numa evidente alusão à grande quantidade de negros alforriados nas tropas brasileiras. A publicação do exército A Saudade depois da ocupação passou a ser o órgão de divulgação imprensa mais divulgado.
Os soldados foram liberados para saquear à vontade, se apropriando do pouco que restava da população empobrecida pela guerra. Haviam filas intermináveis de pessoas com vasilhas de comida nas mãos, aguardado serem alimentados por provisões que abasteciam as tropas, já que a agricultura praticada no Paraguai era de subsistência. As mulheres paraguaias da camada mais baixa social, com fortes traços indígenas, vendiam uma mercadoria cada vez mais desvalorizada: seu próprio corpo.
No dia 16 de agosto, Tuca foi convocado para combater num local denominado pelos brasileiros de Campo Grande e pelos guaranis de Nhu Guaçu. Fazia muito frio e a tropa deslocava-se com cuidado pela região plana, mas com matas esparsas, onde o inimigo se escondia. Ao lado de outros dois soldados, como cabo, Tuca liderava este pequeno grupo que se aproximava de um matagal, quando foram surpreendidos por disparos de fuzil. Seu melhor amigo que viera também de Paraíba do Sul foi ferido mortalmente e enquanto esvaia em sangue nos braços de Tuca pediu: “vingue-me”. Tuca deixou o companheiro pálido apoiado com a cabeça sobre os braços do outro soldado e, tirando sua faca da bota começou a rastejar em direção ao local de onde saíra o tiro, desviando-se para a esquerda visando uma manobra de flanco. O soldado paraguaio movimentava-se o tempo todo, parecendo inseguro. Tuca aproximou-se lentamente por trás e saltou sobre o inimigo, passando sua faca afiada pela jugular. Do pequeno corte brotou sangue vermelho intenso e viu então Tuca, com pavor, que acabara de tirar a vida de um menino de no máximo treze anos.
Quando retornou ao destacamento ao fim da que foi a última grande batalha da guerra, recebeu a confirmação da utilização do lado paraguaio de meninos que lutaram por não haver mais homens adultos disponíveis.
Outros encontros deste tipo se sucederam, já que se adotava uma manobra de resistência de guerrilha. Da Corte vinha ordem taxativa de só encerrar a guerra quando o dirigente maior paraguaio fosse eliminado. De batedores do exército veio a confirmação de que Solano Lopez encontrava-se entrincheirado nas cordilheiras denominadas de Cerro Cora. Localizado e perseguido foi mortamente ferido por lança pelo cabo brasileiro Francisco Lacerda, conhecido como Chico Diabo. Antes de receber um tiro de misericórdia ergueu a espada e bradou: Morro com a minha pátria!
No relatório que o Conde D’Eu fez ao seu sogro anotou que a espada de Solano Lopez, incrustada de brilhantes, tinha a ponta quebrada. Era o dia 1º. de março de 1870 e foi dado um ponto final na guerra que inicialmente inesperada, já que o Paraguai dispunha de mais de 70 mil homens treinados, enquanto o exército brasileiro dispunha de apenas 18 mil espalhados por todo o território nacional; que pareceu fácil após as primeiras batalhas, quando se conseguiu o controle dos rios, único meio de penetração já que a mata fechada e as áreas pantanosas dificultavam o avanço terrestre; que envolveu mais de 140 mil combatentes brasileiros, dos quais 33 mil perderam a vida e milhares ficaram feridos e aleijados para sempre; aniquilou cerca de 90% da população adulta masculina do Paraguai e, nas proféticas últimas palavras do ditador impulsivo, aniquilou também uma economia emergente, que havia conquistado grandes progressos sociais, como a abolição da escravidão e a alfabetização em larga escala da população guarani. O Paraguai morreu com o ditador.
Depois da morte do Visconde do Rio Novo, Mariana Claudina nunca mais voltou à casa de Petrópolis que seu pai e o marido havia construído com objetivos políticos. Mandou fechar as portas, dispensou os empregados contratados e ordenou que a escrava Elvira, que fora comprada em Petrópolis pelo barão em 1867, viesse trabalhar na fazenda do Cantagalo.
Numa tarde quente de verão, quando um mormaço provocado pelo céu nublado tornava a o dia cansativo, mesmo para quem não está exercendo atividade física alguma, chega à sede da fazenda do Cantagalo duas pessoas: um padre, com sua batina negra e um outro senhor de terno escuro. Antes de subir às escadarias um escravo que colhia o café que secava ao sol com medo da chuva os atende e logo se dirige à cozinha. Vieram de Petrópolis especialmente para visitar a Viscondessa.
Imediatamente recebem o convite para se dirigirem à sala. Solicitam porém ser atendidos na própria varanda, onde corre uma brisa fresca que sopra do Rio Paraíba do Sul. O senhor tira respeitosamente o chapéu quando Mariana Claudina se aproxima e faz as apresentações:
- Meu nome é Cristiano Nogueira e este é o padre Nicolau Germain, coadjutor do Cônego Correia, vigário de Petrópolis.
Camila logo percebeu, pelo forte sotaque, que o sacerdote era francês. Soube posteriormente que chegara ao Brasil em 1854, como náufrago e viveu de trabalhos braçais até que chegaram da Europa os documentos comprovando que poderia exercer funções eclesiásticas. Percebeu que o sacerdote suava em demasia, o tempo todo se abanando com o chapéu. Provavelmente desconhecia a má fama do verão em Entre-Rios. Tocou o sinete e pediu que fosse servida limonada para os visitantes e ficou aguardando o motivo da visita.
- Eu acredito, viscondessa, que a educação moral, civil e religiosa é a base que sustenta o edifício social. Como nem sempre esta base pode ser garantida a todos os cristãos, principalmente aos órfãos, criamos o Asilo de Santa Isabel, destinado ao amparo e à educação de meninas pobres. Já estamos com mais de uma centena de alunas...
- Já ouvi falar do trabalho do senhor. Fizemos inclusive contribuições, já que a Princesa Isabel dava-lhes apoio.
- Pois agora viscondessa, viemos solicitar mais uma vez a sua ajuda. Sabemos que a sua casa na Avenida do Imperador número 58 está fechada desde a morte do visconde. E, para nós seria muito importante poder ampliar o atendimento...
A Viscondessa ouviu com atenção todas as justificativas prontamente decidiu:
- Posso emprestar-lhes, por cinco anos, sem necessidade de pagamento algum este imóvel para que os senhores instalem nele o Asilo. No final deste prazo, poderei vender-lhes em condições especiais, pois depois da morte do visconde e de meu pai, este imóvel não nos tem mais a serventia que motivou sua construção.
Quando estava aguardando a desmobilização, Tuca viu de longe o seu amigo e companheiro da campanha no Mato Grosso, o tenente Taunay. Aproximou-se, fez continência e verificou que este havia sido promovido. Taunay sentiu-se feliz em reencontrar o suboficial experiente que sobrevivera também. Marcaram um encontro para relembrar os velhos momentos num dos bares que proliferavam em Assunção. Tuca logo perguntou em francês:
- Combateu muito, capitão Alfredo?
- Apenas com a caneta. Eu agora sou o relator do exército. Acho que vou virar escritor.
- Tem mesmo muita experiência para contar.
- E você, depois da guerra, o que vai fazer?
- Vou voltar para a Vila de Paraíba, ver se meu antigo serviço ainda existe. Não sei se a ferrovia parou ou continuou.
- Se fala da Estrada de Ferro D. Pedro II saiba que ela continua, as obras não pararam e estão agora para os lados da Província de Minas Gerais. Seu diretor-presidente é o comendador Mariano Procópio.
- O da Companhia União e Indústria?
- A rodovia acabou, foi absorvida pela ferrovia. Falam até em jogar uma linha sobre seu antigo leito para chegar até Petrópolis pelo outro lado, pois não sabem ainda como subir a serra.
- Vou também tentar procurar a Eufrásia. Quem sabe agora, herói de guerra, o pai dela não se incomode tanto. Se não for ela, outra mulher bonita de Vassouras também serve. Terra de mulher bonita, capitão!
- Comparada com estas índias paraguaias as brasileiras, principalmente as mestiças são insuperáveis, não é?
- Sim. O senhor capitão, deve fazer uma visita a Vassouras. Eu, um simples soldado, não tenho muitas chances, mas o senhor, um oficial graduado, que participou da guerra desde o início...
- Vou lá sim. Quem sabe acabo me casando por lá!
A festa de aniversário comemorava a abertura do Ramal de Porto das Flores da rodovia União e Indústria, partindo de Paraibuna. O anfitrião convidou o comendador Mariano Procópio, com garantia de exportação não inferior a 100 mil arrobas. Foram construídas duas pontes sobre o rio Preto, ligando as províncias de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Para a festa, além dos fazendeiros vizinhos, foram convidados comerciantes do Rio de Janeiro, senadores e deputados provinciais. Mandara iluminar com lanternas de variadas cores o caminho que ligava o povoado de Porto das Flores até sua fazenda, enquanto duas bandas de música alternavam-se executando o repertório.
Quando alvoreceu, iniciaram o hino nacional, saudado por morteiros, ouvindo-se ao mesmo tempo o rodar de muitas carroças da União e Indústria, conduzindo quinhentas sacas de café com duas mil arrobas. Ás onze horas foi servido o almoço em baixelas de prata e finos cristais. Depois, espalharam-se os convidados, visitando uns grupos as dependências da fazenda, as oficinas e cavalariças ou interessando-se pelos pomares, onde frutas raras eram cultivadas; outros grupos entretinham-se no bilhar e diversos jogos. As senhoras conversavam nos salões ou iram repousar em seus quartos.
À tarde o Visconde foi mostrar ao comendador Mariano Procópio a fazenda da Luanda, seguindo ao longo das margens do rio Preto. O Visconde fazia questão de guiar o carro e quando passavam pela ponte sobre a foz do rio das Flores, os cavalos espantaram-se e o Visconde teve grande dificuldade em contê-los.
Na planície, dominada por um morro apelidado de Pão de Açúcar, estavam em plena florescência, cem mil pés de café de sete anos. A tosca residência, que há 30 anos fora onde o Visconde começara sua fortuna ainda estava de pé. Pararam e foi servido champanhe, frutas e doces. Regressaram à fazenda às seis da tarde. Quando passou pela porteira foi saudado por um alegre dobrado tocado pela banda e vivas ao Visconde do Rio Preto foram ouvidos por todos os lados. Ao descer do carro, das janelas atiravam-lhe uma chuva de pétalas de rosas e a banda tocou o hino nacional. Ao terminar toda a elite da Corte aplaudiu o Visconde, que empalidecera e pareceu perder o equilíbrio. A ver isso o visconde de Bom Retiro, seu amigo, ampara-o, levando-o para o salão, onde ele caiu sobre o sofá, fulminado por uma sincope cardíaca.
- Domingos, o que é isto? – perguntou o visconde surpreendido pelo desfalecimento.
Os médicos, que eram muitos na festa, acudiram.
- Não é possível! – gritou a viscondessa, atirando-se sobre o corpo já inanimado do marido. Gritos, soluços de parentes a quem ele protegia, lamentos de escravos também eram ouvidos.
Depois, um silêncio sepulcral. No salão de cima ninguém mais pensou em banquete. O palacete continuou, todavia, tal como estava: profusamente iluminado. Nas mesinhas espalhadas no jardim sentavam-se discretamente alguns convidados, enquanto outros velavam o corpo do anfitrião, até o amanhecer.
Retornando da festa melancolicamente encerrada, o recém nomeado visconde e a viscondessa do Rio Novo, seguiam na diligência em direção à fazenda do Cantagalo, acompanhados de Antonio Barroso.
- Que morte gloriosa! – afirmou o visconde.
- Que comentário, meu marido! – censurou Mariana Claudina.
- Mas não é verdade, primo? Morrer no dia do próprio aniversário, recebendo aplausos sob os acordes finais do hino nacional...
- Vamos pensar nos nossos que estão agora morrendo no sul, vítimas de tiro, faca ou doença. O que será que está acontecendo com o Tuca?
Enquanto a guerra não avançava no sul, pois os paraguaios estavam bem protegidos por fortalezas que impediram o avanço das tropas comandadas por Mitre, a coluna que partira para recuperar as cidades invadidas na Província de Mato Grosso passava por um grande apuro, mas não por causa dos paraguaios.
Depois de Campinas a coluna comandada pelo coronel Manuel Pedro Drago recebeu reforços dos mineiros em Uberaba, atingindo um efetivo de três mil homens. Percorreram mais de mil e quinhentos quilômetros por terra até alcançar Coxim, na Província do Mato Grosso, aonde chegaram a dezembro de 1865. Não houve, entretanto os esperados combates, pois a cidade tinha sido abandonada pelos paraguaios. Prosseguiram viagem, lentamente, até Miranda, alcançada em setembro do ano seguinte. A cidade também fora abandonada. Não havia mais paraguaio algum em território brasileiro. Resolveram acampar e aguardar instruções do Rio de Janeiro.
A paisagem plana e a vegetação de árvores retorcidas, típicas do cerrado, foi uma surpresa para os olhos de Tuca, nascido entre montanhas e acostumado às trilhas nas serras fluminenses e mineiras, onde um inimigo pode estar espreitando na próxima curva fechada da estrada. Também o surpreendeu a grande quantidade de aves que habitavam as áreas alagadiças por ocasião das chuvas, a grande quantidade de jacarés de papo-amarelo e piranhas, que inibiam o banho nu nos dias de grande calor. Nas lagoas, quando a água desce, os peixes carnívoros ficam especialmente agressivos e mais de um caso foi contado de soldado que virou um cantor castrati, capaz de emitir um som agudo inimitável. Para estes soldados voluntários da pátria, a castração era um castigo pior do que a morte; portanto, o cuidado com as lagoas repletas de piranhas era a primeira preocupação da tropa.
Tuca passou várias horas em conversa com o tenente Alfredo Taunay, até que este se enamorou de uma jovem índia, quando a viu montada sobre um boi grande e manso, viajando com os pais. Comprou-a por 500 mil reis e viveu momentos idílicos, que afirmou talvez nunca mais tivesse outra vez na vida, quando nus, como Adão e Eva no Paraíso, desfrutavam das corredeiras frescas, que nascem no alto da Serra da Bodoquena e vai alimentar o Rio Miranda, que corre entre grandes desfiladeiros de rocha calcária escavada pelo rio.
Tuca, já promovido a Cabo, invejou o oficial ao ouvir seus relatos, em francês, para que outros soldados não pudessem participar. Contou-lhe Tuca então, idílio semelhante por ele vivido, só que em situação inversa, quem era socialmente superior, era a mulher, da família dos Teixeira Leite, enquanto ele era, então, um simples escravo, só liberto graças à lei dos voluntários da pátria. Taunay pediu que ele descrevesse, com toda exatidão possível a emoção que vivera, como se fosse um escritor romântico querendo absorver sensações.
Em janeiro o comando mudou, assumindo o coronel Carlos de Morais Camisão, que com 1.680 homens, praticamente a metade original, decidiu invadir o território paraguaio. O maior inimigo até então, como analisaram Taunay e Tuca eram três tipos diferentes de doença. A primeira fazia os soldados ficaram cansados em uma curta caminhada, com dificuldade respiratória, obrigando-os a permanecer na maioria das vezes amontoados. Isto aumentava a contaminação de piolhos entre os soldados. Mas, a pior delas, era uma diarréia volumosa, aquosa, esbranquiçada, parecendo água de arroz. Em poucos dias o doente perdia peso e cor. Como estavam acampados quase sempre perto de lagoas, parecia que sua água, por maior que fosse o volume, se tornava venenosa.
Taunay e outros oficiais assim como Tuca e alguns soldados resolveram adotar por contra própria remédios naturais: consumiam grande quantidade de frutas e leite das poucas vacas selvagens com bezerro que conseguiram capturar, enquanto a maioria dos soldados preferia o charque, farinha e cachaça (escondida); tomavam banho diário, sem medo de enfrentar a correnteza do Rio Miranda, temendo muito mais as piranhas castradoras e, finalmente, enchendo seus cantis com água pura de riachos, por mais longe que tivesse de andar, evitando a água próxima das lagoas, quando era impossível, a conselho de Taunay, Tuca só bebia água fervida. Adotaram, instintivamente, a profilaxia mais adequada para evitar o beribéri (carência de vitamina B1 existente nos alimentos ricos em tiamina,como cereais em grãos, leite e frutas); o tifo provocado pela proliferação de piolho humano que se reproduz em aglomerações onde existe falta de higiene e a cólera, que é transmitida através da ingestão de água ou alimentos contaminados com fezes humanas.
Com muita dificuldade por causa das torrenciais chuvas de verão, que formava grandes charcos pantanosos no terreno plano, a coluna comandada pelo coronel Camisão chegou até o povoado de Laguna. Foi quando começaram a aparecer soldados paraguaios, primeiramente em pequenos grupos, em ataques surpresas, mas depois em grupos maiores a cavalo. Provavelmente a penetração brasileira no território fora comunicada e de Assunção vieram reforços.
As notícias que os batedores que conseguiam atravessar a linha inimiga não eram boas, pois os reforços solicitados pelo coronel Camisão não tinham data de chegar. Como não poderia garantir o território conquistado, tiveram que retornar, provendo uma grande retirada, que mais tarde foi cuidadosamente relatada pelo tenente Taunay num livro redigido em francês: A Retirada da Laguna.
A fome, a doença e os ataques paraguaios reduziram o contingente a cerca de 700 homens, com baixa de 60%, quando em abril de 1868 conseguiram chegar a Coxim. Souberam então, das mudanças na frente de batalha no sul, com a substituição, desde 13 de janeiro, do general argentino pelo Marques de Caxias, apesar de já estar com 64 anos.
Taunay recebe autorização para retornar para o Rio de Janeiro enquanto Tuca e os demais soldados sobreviventes são enviados para se juntar às tropas do sul, onde ficariam até o final da guerra, que seria para ele, agora, sangrenta e cruel.
Logo ao assumir, Caxias organizou um corpo de saúde para conter as epidemias e um sistema logístico para melhor abastecer as tropas. Depois adotou as táticas militares que sua vasta experiência indicava.
Embora no início da guerra a diferença de contingente fosse grande: 18 mil homens do exército brasileiro contra 70 mil do exército paraguaio, o militar brasileiro era mais profissional, com uma tradição guerreira herdada de Portugal. Assim como Caxias, outros generais veteranos como Osório e Porto Alegre, vitoriosos em várias e sucessivas guerras internacionais (1850 a 1852, contra Oribe e Rosas; 1864 contra Aguirre), além de várias revoluções internas. Existiam tradicionais Escolas Militares de formação, Oficiais de Estado-Maior, Corpo de Engenheiros, Serviços de Saúde e outras unidades especializadas que faziam com que o militar brasileiro fosse mais bem preparado. As maiores fortalezas do Paraguai, como Humaitá foram também projetadas por engenheiros militares brasileiros.
O armamento brasileiro era mais moderno, a artilharia dispunha de canhões “La Hitte”, raiados, lançados em 1855, que tinham maior alcance e precisão do que os antigos canhões fundidos paraguaios que lançavam projéteis esféricos.
A estratégia militar também foi logo revista, já que a do general Mitre não obtivera sucesso em dois anos de tentativa de furar o bloqueio paraguaio. Caxias adotou manobras militares clássicas das guerras napoleônicas, como a manobra de flanco para conquistar a fortaleza de Humaitá e a marcha de flanco para contornar as posições paraguaias de Piquiciri
Caxias fez uso intensivo da marinha em operação combinada com o exército. A marinha brasileira, muito mais poderosa, logo assumiu o controle do acesso à bacia do Prata e foi se fortalecendo ainda mais no decorrer da guerra, passando a empregar os encouraçados, vasos de guerra totalmente metálicos, com casco protegido por chapa de aço da espessura de cinco cm (duas polegadas), capazes de resistir aos projéteis dos antigos canhões paraguaios.
Com este armamento moderno, Caixas logo ordenou a passagem da esquadra brasileira pelos fortes de Curupaiti e Humaitá, que defendiam o rio Paraguai, realizada com êxito, dando início à manobra de flanco, visando cortar as linhas de suprimento vindas de Assunção. Com cerco vigoroso, Humaitá que havia resistido dois anos caiu em 25 de julho de 1866, pouco mais de seis meses depois de Caxias ter assumido.
Outra grande novidade bélica implantada por Caxias foi o uso de balões cativos, que permitiam uma perfeita visão do terreno, já que não existiam cartas ou mapas da desconhecida e inóspita região de operações, nem se dispunham de guias confiáveis.
Deste modo, enquanto os países que formavam a Tríplice Aliança podiam ir modernizando seu equipamento bélico, o Paraguai sitiado podia contar apenas com o grande espírito patriótico de seu povo, habilmente trabalhado pela imprensa de Assunção, já que a maior parte da população havia sido alfabetizada.
Vencido o forte de Humaitá, rumo a Assunção, o exército de Caxias avançou 200 km até Palmas, detendo-se no arroio de Piquissiri, onde o terreno favorecia a defesa paraguaia. Ao invés do combate direto, fez o exército atravessar o rio, iniciando uma manobra de flanco, ao construir na margem direita, em 23 dias apenas a Estrada Chaco, que permitiu o exército atravessar os pântanos. Correndo grande risco, mas tendo sorte, fez o exército atravessar de volta para a margem esquerda do rio Paraguai, que logo se encheu com as fortes chuvas de verão que antecipara. Encontrava-se agora na retaguarda de Piquissiri, isolando de Assunção a última grande linha de defesa, dando inicio à dezembrada, série de vitórias ocorridas no mês de dezembro.
A primeira vitória significativa de Caxias foi obtida no dia 6 de dezembro, ao tomar Piquissiri, quando ao ocupar a ponte de Itororó, Caxias, aos 65 anos de idade, partiu a galope em direção ao inimigo, com a espada em punho gritando: “sigam-me os que forem brasileiros!” não sendo morto por pura sorte, mas entusiasmando todos os soldados por sua coragem; no dia 11 foi a vez de Avaí, seguido de Lomas Valentinas no dia 21 e com a rendição de Angustura no dia 30 o exército paraguaio é vencido de forma inapelável.
Assunção, bombardeada e evacuada foi ocupada pelas forças do Império Brasileiro em primeiro de janeiro de 1869, para aguardar a chegada de Caxias, que se deu no dia 5. Solano Lopez, entretanto, não aceitou a intimação e ao invés de render-se procurou refugio no interior do país, para iniciar combates de guerrilha de resistência às tropas invasoras.
Caxias, adoentado e cansado, não quis persegui-lo, passando o comando e voltando para o Rio de Janeiro, onde teve uma fria recepção, pois o Imperador o queria à frente da batalha até a conclusão da guerra. Todavia, para Caxias, a guerra havia terminado, o Paraguai estava destruído, caçar Solano Lopez, que em dois anos de governo, após a morte de seu pai, levara o país a uma guerra impossível de ser vencida, não faria parte do currículo do velho militar que por tantos anos sustentara a integridade territorial do Império.
Enquanto no sul a prolongada guerra caminhava para o fim, no Vale do Paraíba importantes acontecimentos se desenrolavam. Com a chega dos trilhos a Entre-Rios, a Cia. União e Indústria ficou totalmente sem cargas, pois não fazia sentido pagar mais caro e levar mais tempo transportando o café da zona da mata mineira para o Rio de Janeiro apenas para utilizá-la.
D. Pedro II adotou então as seguintes providências: pelo decreto 4.320 de 13 de janeiro de 1869 passa todos os bens da Cia. União e Indústria, de quem era também o maior acionista, para a sua ferrovia expressando:
Considerando as vantagens que devem resultar para a Estrada de Ferro D. Pedro II de se transferir para a mesma o serviço de transporte de gêneros e produtos atualmente a cargo da Cia. União e Indústria, evitando-se assim os efeitos de uma concorrência nociva a ambas...
No dia seguinte o deputado pela Província de Minas Gerais desde 1861 e comendador Mariano Procópio Ferreira Lage, ex-presidente da Cia. União e Indústria assume o comando da Estrada de Ferro D. Pedro II. Com total apoio do Imperador, de quem era amigo, logo Mariano impõe um novo ritmo de construções como a nova estação da Corte e o prolongamento em direção ao Rio das Velhas, optando definitivamente pela travessia da Serra da Mantiqueira pela Garganta de João Aires, e prosseguir com a linha em direção a São Paulo. A ferrovia a partir de Entre-Rios, seguiria então paralela à estrada da União e Indústria até Juiz de Fora, seguindo o traçado do Caminho Novo.
O Visconde do Rio Novo, por suas ações políticas bem sucedidas, fez grandes avanços nessa carreira, chegando a ocupar a presidência da câmara de vereadores de Petrópolis, um cargo equivalente a prefeito. No entanto seu coração não resistiu a taxa pressão e, aos 53 anos morre de um ataque fulminante.
A Viscondessa do Rio Novo chorou a morte do marido e o sepultou na Capela N. S. da Piedade, ao lado do tio, o barão de Entre-Rios.
O espanhol Emilio Prieto esteve ao seu lado na vigília do corpo do Visconde do Rio, que desde que o conhecera como major Carvalhinho, sempre lhe dera abrigo e proteção. Num momento de tranqüilidade, quando o galo no alto da goiabeira, ignorando o movimento anormal na madrugada na sede da fazenda amiudava seu canto, indicando que o dia estava prestes a nascer, comentou com o espanhol:
- Nem parece que já se passaram 35 anos desde sua chegada aqui, mestre Emilio. Quantas mudanças, não é verdade?
- Sim, viscondessa. E muitas mudanças ainda virão. Uma guerra não acaba com um tratado de paz, mas continua, pois uma sociedade ferida sempre reage.
- Tantos jovens perdendo a vida. Onde estará Tuca agora? O visconde, que tinha um carinho especial por ele, teria com toda certeza sua alma mais leve se visse o rapaz forte que ficou carregando-o no caixão.
- Ele esperava o fim da guerra a qualquer momento, não é verdade?
- Sim. Sempre que se encontra com o Imperador, o que era freqüente por causa de seu cargo na câmara, tentava perceber alguma indecisão ou compaixão; mas não: o Imperador sempre estava irredutível. A guerra só terminaria com Solano Lopez preso ou morto em combate. Se não, dizia, ninguém mais teria sossego pois tinha liderança sobre a população suficiente para novas escaramuças. O problema é que com essa guerra sem fim os jovens continuam morrendo. O senhor não pensa em Tuca, mestre?
- Sim senhora viscondessa. Eu também sempre penso em onde estará o nosso Tuca? Será que se incorporou ao exército comando pelo Conde D’Eu, o marido da Princesa Isabel, que assumiu no lugar do Marques de Caxias? Estará vivo ou morreu como tantos outros jovens?
A partir de agosto de 1869 a guerra se tornou irregular, com várias batalhas isoladas de um remanescente de exército paraguaio desarticulado. O sentimento de defesa da pátria estava, entretanto impregnado em todos, visto até com ares de fanatismo pelo exército da Tríplice Aliança.
Tuca, de fato, havia se incorporado ao exército de Caxias e participara das últimas batalhas, antes da entrada das tropas na capital de Assunção. Todos achavam que a guerra estava terminada, porém do interior vinham notícias de que Solano Lopez estava reunindo uma grande força e viria retomar a capital de seu país. O sentimento dos paraguaios para com os soldados era de invasores de seu país. Algumas vezes, gritavam de longe: “macaquitos, macaquitos!”. A imprensa oficial fora desmantelada, mas exemplares antigos dos jornais, como o El Semanário, órgão oficial de pregação psicológica que estimulava o ardor combatente e outros periódicos: El Centinela, Cacique Lambaré e o Cabichui, onde o Imperador, a Imperatriz e os principais chefes militares eram representados com caricaturas de macacos, numa evidente alusão à grande quantidade de negros alforriados nas tropas brasileiras. A publicação do exército A Saudade depois da ocupação passou a ser o órgão de divulgação imprensa mais divulgado.
Os soldados foram liberados para saquear à vontade, se apropriando do pouco que restava da população empobrecida pela guerra. Haviam filas intermináveis de pessoas com vasilhas de comida nas mãos, aguardado serem alimentados por provisões que abasteciam as tropas, já que a agricultura praticada no Paraguai era de subsistência. As mulheres paraguaias da camada mais baixa social, com fortes traços indígenas, vendiam uma mercadoria cada vez mais desvalorizada: seu próprio corpo.
No dia 16 de agosto, Tuca foi convocado para combater num local denominado pelos brasileiros de Campo Grande e pelos guaranis de Nhu Guaçu. Fazia muito frio e a tropa deslocava-se com cuidado pela região plana, mas com matas esparsas, onde o inimigo se escondia. Ao lado de outros dois soldados, como cabo, Tuca liderava este pequeno grupo que se aproximava de um matagal, quando foram surpreendidos por disparos de fuzil. Seu melhor amigo que viera também de Paraíba do Sul foi ferido mortalmente e enquanto esvaia em sangue nos braços de Tuca pediu: “vingue-me”. Tuca deixou o companheiro pálido apoiado com a cabeça sobre os braços do outro soldado e, tirando sua faca da bota começou a rastejar em direção ao local de onde saíra o tiro, desviando-se para a esquerda visando uma manobra de flanco. O soldado paraguaio movimentava-se o tempo todo, parecendo inseguro. Tuca aproximou-se lentamente por trás e saltou sobre o inimigo, passando sua faca afiada pela jugular. Do pequeno corte brotou sangue vermelho intenso e viu então Tuca, com pavor, que acabara de tirar a vida de um menino de no máximo treze anos.
Quando retornou ao destacamento ao fim da que foi a última grande batalha da guerra, recebeu a confirmação da utilização do lado paraguaio de meninos que lutaram por não haver mais homens adultos disponíveis.
Outros encontros deste tipo se sucederam, já que se adotava uma manobra de resistência de guerrilha. Da Corte vinha ordem taxativa de só encerrar a guerra quando o dirigente maior paraguaio fosse eliminado. De batedores do exército veio a confirmação de que Solano Lopez encontrava-se entrincheirado nas cordilheiras denominadas de Cerro Cora. Localizado e perseguido foi mortamente ferido por lança pelo cabo brasileiro Francisco Lacerda, conhecido como Chico Diabo. Antes de receber um tiro de misericórdia ergueu a espada e bradou: Morro com a minha pátria!
No relatório que o Conde D’Eu fez ao seu sogro anotou que a espada de Solano Lopez, incrustada de brilhantes, tinha a ponta quebrada. Era o dia 1º. de março de 1870 e foi dado um ponto final na guerra que inicialmente inesperada, já que o Paraguai dispunha de mais de 70 mil homens treinados, enquanto o exército brasileiro dispunha de apenas 18 mil espalhados por todo o território nacional; que pareceu fácil após as primeiras batalhas, quando se conseguiu o controle dos rios, único meio de penetração já que a mata fechada e as áreas pantanosas dificultavam o avanço terrestre; que envolveu mais de 140 mil combatentes brasileiros, dos quais 33 mil perderam a vida e milhares ficaram feridos e aleijados para sempre; aniquilou cerca de 90% da população adulta masculina do Paraguai e, nas proféticas últimas palavras do ditador impulsivo, aniquilou também uma economia emergente, que havia conquistado grandes progressos sociais, como a abolição da escravidão e a alfabetização em larga escala da população guarani. O Paraguai morreu com o ditador.
Depois da morte do Visconde do Rio Novo, Mariana Claudina nunca mais voltou à casa de Petrópolis que seu pai e o marido havia construído com objetivos políticos. Mandou fechar as portas, dispensou os empregados contratados e ordenou que a escrava Elvira, que fora comprada em Petrópolis pelo barão em 1867, viesse trabalhar na fazenda do Cantagalo.
Numa tarde quente de verão, quando um mormaço provocado pelo céu nublado tornava a o dia cansativo, mesmo para quem não está exercendo atividade física alguma, chega à sede da fazenda do Cantagalo duas pessoas: um padre, com sua batina negra e um outro senhor de terno escuro. Antes de subir às escadarias um escravo que colhia o café que secava ao sol com medo da chuva os atende e logo se dirige à cozinha. Vieram de Petrópolis especialmente para visitar a Viscondessa.
Imediatamente recebem o convite para se dirigirem à sala. Solicitam porém ser atendidos na própria varanda, onde corre uma brisa fresca que sopra do Rio Paraíba do Sul. O senhor tira respeitosamente o chapéu quando Mariana Claudina se aproxima e faz as apresentações:
- Meu nome é Cristiano Nogueira e este é o padre Nicolau Germain, coadjutor do Cônego Correia, vigário de Petrópolis.
Camila logo percebeu, pelo forte sotaque, que o sacerdote era francês. Soube posteriormente que chegara ao Brasil em 1854, como náufrago e viveu de trabalhos braçais até que chegaram da Europa os documentos comprovando que poderia exercer funções eclesiásticas. Percebeu que o sacerdote suava em demasia, o tempo todo se abanando com o chapéu. Provavelmente desconhecia a má fama do verão em Entre-Rios. Tocou o sinete e pediu que fosse servida limonada para os visitantes e ficou aguardando o motivo da visita.
- Eu acredito, viscondessa, que a educação moral, civil e religiosa é a base que sustenta o edifício social. Como nem sempre esta base pode ser garantida a todos os cristãos, principalmente aos órfãos, criamos o Asilo de Santa Isabel, destinado ao amparo e à educação de meninas pobres. Já estamos com mais de uma centena de alunas...
- Já ouvi falar do trabalho do senhor. Fizemos inclusive contribuições, já que a Princesa Isabel dava-lhes apoio.
- Pois agora viscondessa, viemos solicitar mais uma vez a sua ajuda. Sabemos que a sua casa na Avenida do Imperador número 58 está fechada desde a morte do visconde. E, para nós seria muito importante poder ampliar o atendimento...
A Viscondessa ouviu com atenção todas as justificativas prontamente decidiu:
- Posso emprestar-lhes, por cinco anos, sem necessidade de pagamento algum este imóvel para que os senhores instalem nele o Asilo. No final deste prazo, poderei vender-lhes em condições especiais, pois depois da morte do visconde e de meu pai, este imóvel não nos tem mais a serventia que motivou sua construção.
Quando estava aguardando a desmobilização, Tuca viu de longe o seu amigo e companheiro da campanha no Mato Grosso, o tenente Taunay. Aproximou-se, fez continência e verificou que este havia sido promovido. Taunay sentiu-se feliz em reencontrar o suboficial experiente que sobrevivera também. Marcaram um encontro para relembrar os velhos momentos num dos bares que proliferavam em Assunção. Tuca logo perguntou em francês:
- Combateu muito, capitão Alfredo?
- Apenas com a caneta. Eu agora sou o relator do exército. Acho que vou virar escritor.
- Tem mesmo muita experiência para contar.
- E você, depois da guerra, o que vai fazer?
- Vou voltar para a Vila de Paraíba, ver se meu antigo serviço ainda existe. Não sei se a ferrovia parou ou continuou.
- Se fala da Estrada de Ferro D. Pedro II saiba que ela continua, as obras não pararam e estão agora para os lados da Província de Minas Gerais. Seu diretor-presidente é o comendador Mariano Procópio.
- O da Companhia União e Indústria?
- A rodovia acabou, foi absorvida pela ferrovia. Falam até em jogar uma linha sobre seu antigo leito para chegar até Petrópolis pelo outro lado, pois não sabem ainda como subir a serra.
- Vou também tentar procurar a Eufrásia. Quem sabe agora, herói de guerra, o pai dela não se incomode tanto. Se não for ela, outra mulher bonita de Vassouras também serve. Terra de mulher bonita, capitão!
- Comparada com estas índias paraguaias as brasileiras, principalmente as mestiças são insuperáveis, não é?
- Sim. O senhor capitão, deve fazer uma visita a Vassouras. Eu, um simples soldado, não tenho muitas chances, mas o senhor, um oficial graduado, que participou da guerra desde o início...
- Vou lá sim. Quem sabe acabo me casando por lá!
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