Capítulo 19
Grandes Riscos
Grandes Riscos
Camila acordou assustada com batidas na porta da fazenda, já com mais de cinco pessoas cercando o local. A viscondessa também acordou sobressaltada e as duas ficaram como que paralisadas quando os homens disseram diretamente:
- Mataram o Tuca. Ele está pendurado na cerca de arame farpado da ferrovia.
O quadro, mesmo para quem não o conhecia, era chocante: amarrado na cerca de arame, com a cabeça pendente, os braços abertos e travados pelo arame o corpo ensangüentado de Tuca lembrava uma imagem de Jesus Cristo crucificado. Quem fizera aquilo tinha realmente a intenção de chocar. Enquanto os homens o retiravam da trágica posição, outros vinham correndo gritando:
- A casa dele foi toda revirada.
- Acharam o bloco de anotação que sempre andava com ele?
- Não, as roupas foram todas rasgadas e não tinha nada nos bolsos. Foi assalto, sem dúvida nenhuma.
Camila aproximou-se do filho e percebeu por um fio de sangue no pescoço que o cordão de ouro com a medalha de N. S. da Piedade, que ele ganhara no dia em que nasceu, há 33 anos, quando da primeira visita do Imperador no Vale do Paraíba, havia sido arrancada com violência.
No dia do casamento do seu neto em Petrópolis com a jovem Bernadete Kling, Juan ficou pensativo, com uma grande dúvida: deveria ou não contar o episódio do mulato que o confundira com o irmão e falara de ouro para seu neto. Não quis contar antes porque o menino só falava no casamento cada vez mais próximo e não considerava justo preocupá-lo, pois o tema ouro é sempre grave. Sua divagação foi interrompida por uma batida amistosa nas suas costas:
- Não fique triste, homem. Hoje é dia de alegria, eu estou dando minha filha e você apenas um sobrinho...
Emilio sorriu constrangido para o alemão Magnus, que evidentemente havia exagerado na cerveja forte produzida pelos patrícios e respondeu:
- Estava com o pensamento longe... Lembrava na mãe e avó de Emilio, lá na Galícia. Com certeza gostariam de estar nesta festa maravilhosa.
- Pois deixe de pensar coisas tristes, vou trazer-lhe alguma bebida para esquecer o passado. Vinho ou cerveja?
- Vinho, tinto se possível.
Enquanto saboreava a bebida que na Espanha todo o dia tomava, mas que no Brasil pelo alto imposto de importação, de mais de 50% de taxa, seu consumo diário era proibitivo, o mestre Emilio procurou se entrosar entre os convidados. De longe observava que o neto estava totalmente integrado aos alemães que comemoravam mais um casamento na colônia. Distraiu-se novamente quando Maguns volta a despertá-lo:
- Grandes notícias, mestre Emílio. Sua aposentadoria como criador de vacas vai ter de acabar.
- Como?
- Está aqui meu amigo Hans, que sabe de fonte limpa que vão investir pesado na implantação da linha para Petrópolis. Será um sistema de cremalheira, em rampa de 15%. Serão necessários vários canteiros experientes como o senhor para vencer as dificuldades da serra.
Juan empalideceu. Nada sabia sobre cantaria, seu único trabalho na Galícia fora construir muros de junta seca, encaixando as pedras naturais, recolhidas em qualquer encosta, uma nas outras, sem oloca-las em faces perfeitas. Estava habituado, isto sim, por anos de prática, era com a pecuária e a criação de ovelhas e alguns porcos. Sorveu um grande gole de vinho enquanto pensava no que dizer. O alemão continuou:
- Vamos voltar aos velhos tempos de obra de cantaria aqui na serra, mestre Emilio!
- O senhor poderia formar uma turma especial, mestre, pois há anos não se tem este tipo de serviço na nossa região e os oficiais perderam toda a prática.
- Vamos esperar a hora certa, vamos esperar – foi a única expressão que lhe veio à cabeça.
- Ele tem razão – concluiu Magus olhando para o amigo Hans.
- Como assim?
- Estes políticos vivem prometendo, prometendo. Estou com ele. Vamos esperar acontecer. Aí então a mão-de-obra aparece. Não podemos criar ilusão no povo!
Quando o ano de 1880 chegou, o engenheiro Henrique Dumont já havia decido: venderia pela melhor oferta sua fazenda em Casal, onde nada de grande poderia ser feito, e mudaria definitivamente para o interior paulista. Faria parte da Caravana de Barreto e implantaria a maior fazenda de café do interior paulista.
Em pouco tempo juntou as economias e com um sócio adquiriu a fazenda Arienduva, próximo da vila de Ribeirão Preto. Derrubou a mata, plantou cinco milhões de pés de café e fez uma rede de quase cem quilômetros de linhas férreas no seu interior. Tornar-se-ia em dez anos o Rei do Café.
O pequeno Alberto, já com sete anos, demonstrava uma rara habilidade mecânica e foi autorizado pelo pai a operar locomoveis, espécie de trator a vapor, de grandes rodas, utilizadas na preparação da terra para o plantio de café.
Enquanto as matas iam sendo derrubadas no interior da província de São Paulo para novas fazendas de café, deixando exposta a terra roxa e porosa de alta fertilidade, no Vale do Paraíba as velhas lavouras, plantadas nas encostas dos morros, sem respeitar curvas de nível, perdiam a cada ano a produtividade, exigindo novas derrubadas da Mata Atlântica que já demonstrava sinal de esgotamento. Na província do Rio de Janeiro, onde a cultura era ainda mais antiga do que no trecho paulista e as terras eram muito valorizadas, para se conseguir a mesma produção por área plantada os fazendeiros passaram a diminuir a largura das ruas, o que contribuía para a proliferação das pragas e dificultava a colheita. O rendimento caía a cada ano.
Com relação à mão-de-obra que a cultura de café é intensiva, depois da frustrada experiência da parceira colono-fazendeiro implantada pelo Senador Vergueiro, ficou claro que o trabalho assalariado era a melhor opção. Em pouco tempo os próprios imigrantes, organizados em cooperativas, tornaram-se também produtores, passando a comprar as fazendas dos primeiros exploradores que, ao educar seus filhos na Europa, não conseguiam mais descendentes interessados no difícil e arriscado trabalho da lavoura. Esses doutores preferiam a vida regular das cidades, aplicando o capital proveniente da venda das fazendas distantes. Os imigrantes investidores, por outro lado, serviam de exemplos para outros mais novos e trabalhavam com um afinco nunca visto antes no Brasil. Os defensores do processo de clarificação do país tinham argumentos irrefutáveis para enfrentar os sentimentais abolicionistas.
No vale do Paraíba fluminense, todavia, estava ainda em jogo o reconhecimento nobiliário. Neste mesmo ano a Viscondessa do Rio Novo, viúva há 11 anos, reconhecidamente uma benemérita caridosa foi agraciada por D. Pedro II com o título de Condessa. Imediatamente abriu processo para o próximo passo: o título de Marquesa do Rio Novo.
A festa de comemoração, todavia, não teve a mesma repercussão da realizada pelo irmão três anos atrás. Restringiu-se a uma missa em ação de graças na capela de Nossa Senhora da Piedade na própria fazenda do Cantagalo, pois a viúva sentia-se doente, padecendo de um mal que os médicos do Rio de Janeiro e Petrópolis não conseguiam diagnosticar.
Certo dia de rotina, chega ao sítio do mestre Emilio os enviados dos engenheiros responsáveis pela obra da linha de cremalheira da Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará. Felizmente, na ocasião o neto estava presente, o que tranqüilizou Juan.
- Para cumprimos o prazo, mestre Emilio vamos abrir várias frentes de trabalho. Começamos primeiro na raiz da serra, onde a rampa é suave, não chegando a 8%, mas logo depois seguirá sempre em 15% e quando atingirmos o Viaduto da Grota Funda. Em todo trecho será preciso muita obra de cantaria. Nós pensamos no senhor...
- Mas já está tudo aprovado mesmo?
- Sim, o decreto número 8.120 de 31 de maio de 1881 aprovou os estatutos da nova ferrovia e as obras começaram em agosto do mesmo ano. Não vai faltar dinheiro para os investimentos, pois o projeto foi muito bem elaborado.
- Os senhores sabem que eu já me aposentei...
- O que nos levou a convidá-lo, mestre Emilio, não foi tanto a nossa obra não, mas o recente Decreto Imperial de número 8.372, de sete de janeiro deste ano, de 1882, que autoriza o engenheiro Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares a implantarem uma outra ferrovia, no morro do corcovado. Se não garantirmos o senhor, os outros poderão convidá-lo. Vai ser uma corrida para ver quem termina primeiro... São dois grupos que querem a todo custo agradar o Imperador.
- E se meu avô garantir que não trabalha em nenhuma das duas obras?
- O senhor pode dar esta palavra? Eles, que começarão depois da nossa obra, mas como são apenas quatro quilômetros, contra os seis quilômetros nossos, podem nos passar à frente. Politicamente, o senhor sabe...
- Têm a minha palavra, não trabalharei ou ajudarei nenhuma das duas obras. Depois dos sessenta anos resolvi mudar de profissão, não sou mais um canteiro, mas um pecuarista. Ou não posso fazer isso? Começar vida nova depois dos sessenta?
- Claro que pode mestre Emilio. Saiba o senhor que pode se considerar um homem feliz, nesta fase da vida começar tudo novamente, da estaca zero...
Emilio olhou para o avô que lhe piscou o olho, travando um sorriso.
Na Espanha Emilio (Juan) também mantinha sua vida pacata, de pastoreio, correspondendo com o irmão e sobrinho-neto duas vezes por ano. Ficou sabendo que o jovem Emilio seria pai pela primeira vez. Levou as ovelhas para o pasto de verão, na parte mais alta da encosta que subia em direção à serra Calva e procurou um abrigo à sombra, pois fazia calor. Entre as rochas percebeu um movimento e ficou observando o trabalho de tecer uma teia por uma aranha rajada. Ao contrário do Brasil, onde o calor parece estimular a proliferação de milhares de espécies de insetos diferentes, nos países de clima frio observa-se uma variedade menor.
A aranha subia na pedra, alcançava uma ponta mais saliente e deixava o corpo cair, preso por uma teia fina que saía de seu abdome. O vento a impulsionava para outro ponto, onde ela fixava a teia e subia novamente na pedra, repetindo o movimento, formando primeiro um triângulo, firmemente ancorado. Emilio como uma criança, ficou observando o trabalho do inseto. Concluído os pontos extremos, a aranha começou a tecer uma espiral a partir das extremidades, que se foi fechando até o centro. Depois de uma hora de trabalho a teia estava pronta e a aranha ficou no centro, abrindo as seis pernas, cada extremidade posicionada sobre um fio da seda, pronto para receber o sinal de qualquer vibração provocada por algum inseto alado que ficasse aderido aos fios viscosos.
Emilio refletiu sobre a teia espiralada e a imagem desenhada por sua vida e de seu irmão, que partindo de um mesmo ponto, tomaram rumos diametralmente opostos. Logo eles, gêmeos idênticos e, portanto, de personalidade e traços físicos semelhantes. Trocaram de posições, todavia, para terem a mesma vivência, o mesmo nível de conhecimento. Teciam como a aranha, uma rede de conhecimento.
Deitado na relva, observando os blocos de nuvens formando desenhos aleatórios no céu, Emilio sentiu lágrimas vir aos olhos por causa da solidão. Mas tarde pensou ter adormecido e sonhado, pois um inconfundível aroma doce de fumo de rolo chegou a suas narinas.
- Acordou meu branco?
- Donana, o que faz aqui? Como é possível.
- Tudo é possível quando se quer, meu branco.
- Há quantos anos não vejo a senhora...
- Nunca mais chamou meu branco. Eu ficava de longe, só observando.
- Chamei agora? Não estou preparando café algum para a senhora fazer a boca de pito.
- Seus olhos e seu coração me chamaram, meu branco. E eu estou aqui, para trocar um dedo de prosa. O menino Tuca está te preocupando?
- Sim, tenho pensado muito nele, mandou-me uma carta...
- Ele não vai precisar mais de nada do que está guardando não.
- Como sabe que guardo algo?
- Não vai precisar do ouro que o branco escondeu por trás da parede de pedra não.
- Pois falou que iria.
- Não vai mais não, tem agora outra missão.
- Ele fez tanto esforço pelo ouro.
- Esse ouro é proveniente de muito sofrimento, não pode ver a luz do sol não, meu branco. Está condenado a ficar só no escuro, escondido, como estava debaixo da terra e os nossos irmãos tiveram que suar sangue para tirá-lo de lá.
- Tem razão. Sendo da época do Ciclo do Ouro saiu debaixo da terra em Vila Rica, sabe lá com quanto sacrifício; viajou enrolado, escondido para não brilhar; ficou debaixo das águas escuras do Rio Paraibuna por anos sem conta; eu mesmo o escondi em esculturas e depois por trás da parede de pedra. Tem razão, sempre no escuro.
- Quanto sacrifício e sofrimento por uma coisa que não pode aparecer à luz do sol, não é meu branco?
- Por que tem então, tanto valor?
- Valor para muitos homens é o que se dá não o que se tem!
Emilio arregalou os olhos assustados, virou o rosto em todas as direções e nada viu além das ovelhas pastando e os dois cães dormitando sob a sombra de um arbusto. Sonhara, sem dúvida alguma. Aspirou fundo e pensou sentir diluindo na brisa o perfume adocicado do fumo de rolo do cachimbo de Donana, tal como acontecia na casinha do local que passou a se chamar Portão Vermelho, depois que a rodovia União e Indústria instalou ali um ponto de pedágio, no longínquo povoado de Entre-Rios na distante Vila de Paraíba do Sul, do outro lado do Oceano Atlântico.
No outro lado do Atlântico, na Vila de Paraíba do Sul, o estado de saúde da condessa do Rio Novo vinha se agravando dia-a-dia. Estava cada vez mais magra e abatida, sem ânimo para a vida – dizia. Vários médicos consultados no Rio de Janeiro sugeriram então, que ela fosse procurar especialistas em Londres.
Receando não voltar viva da viagem, a condessa mandou convocar seu amigo e antigo servidor, o vereador pela Vila de Paraíba do Sul Miguel Ribeiro de Sá, para juntos elaborarem o testamento. Todas as pendências ainda não resolvidas foram então pelos dois fixados, já que a condessa não tinha descendentes diretos. O testamento foi lacrado e a condessa embarcou num vapor para Londres.
Nem um mês se passou após sua chegada e numa tarde fria de junho de 1882, a mensagem que chegou pelo cabo submarino implantado pelo Visconde de Mauá em 1874 trazia uma notícia terrível: a Condessa do Rio Novo estava morta, não resistira ao tratamento que fora se submeter em Londres.
Na Vila de Paraíba e em Petrópolis as igrejas avisadas fizeram-se toar os sinos em sinal de pesar e missas foram imediatamente encomendadas. As duzentas alunas do Asilo Santa Isabel, no ponto mais nobre de Petrópolis, no número 58 da Avenida do Imperador, onde antes era a residência de verão dos maiores fazendeiros da região do médio vale do Paraíba foram chamadas para uma ladainha especial.
O corpo embalsamado da condessa chegou ao Rio de Janeiro no primeiro vapor que partiu de Londres e imediatamente foi transladado para o túmulo especialmente preparado no interior da Capela de N. S. da Piedade, ao lado do túmulo de seu pai, da mãe e do marido. Toda a família da fazenda do Cantagalo finalmente se juntou, por trás do altar principal, no interior da capela.
Dias depois o testamento de Mariana Claudina Pereira Carvalho, a condessa do Rio Novo, foi aberto e na leitura realizada pelo testamenteiro, o vereador Miguel Ribeiro de Sá, dentre as cláusulas principais destacava-se:
1) Alforria para todos os escravos da fazenda de Cantagalo e cessão de terras para que eles constituíssem uma Colônia;
2) Legalização das terras cedidas pelo pai para a Estrada de Ferro D. Pedro II, ainda não assinada em termos documentais;
3) Criação de uma Irmandade N. S. da Piedade, com a finalidade de subsidiar, através de laudêmio, cobrado sobre as terras demarcadas para este fim na fazenda do Cantagalo, a Casa de Caridade N. S. da Piedade, para abrigar em regime de internato e semi-internato meninas entre cinco e dezoito anos;
4) Cessão de casa de moradia junto ao pátio da estação ferroviária, para usufruto vitalício da escrava Camila;
5) Perdão de todas das dívidas pessoais registradas em seu livro de contabilidade...
Da noite para o dia, quase duzentos negros escravos ganharam a alforria, que foi comemorada com festas. O segundo barão de Entre-Rios, como herdeiro mais próximo dos bens não arrolados no testamento, assumiu a direção de todas as fazendas que haviam pertencido a seu pai e sua irmã e das terras antes pertencentes à fazenda do Cantagalo que passaram para as fazendas vizinhas, também de sua propriedade, como as Piracema, Rua Direita, Boa União, São Lourenço e Bemposta.
Quando o vereador Ribeiro de Sá o procurou o barão de Entre-Rios este parecia insatisfeito.
- O que houve barão, o testamento da condessa o desagradou de alguma maneira?
- Tenho que respeitar a vontade dela no leito de morte. Algumas medidas estão certíssimas, como por exemplo, dar alforria aos escravos. Com a lei do Ventre Livre, os ingênuos com menos de onze anos, daqui a dez vão ser liberados da tutela do senhor de suas mães; não podem sofrer o regime disciplinar dos demais, estão crescendo numa situação dúbia, portanto quanto antes libera-los, melhor.
- Por que, então, caro barão, não faz o mesmo com todos os seus escravos.
- E a indenização que teremos direito? A abolição virá, sem dúvida alguma, mais cedo ou mais tarde, mas os fazendeiros estarão abrindo mão de um patrimônio, por um capricho do governo. Sem dúvida alguma quem for perder este patrimônio por causa de alguma lei meramente política merece ser indenizado; é uma questão de direito adquirido, ora bolas!
- Mas, os abolicionistas falam exatamente o contrário, que o governo deve sim indenizar, porém os escravos liberados. Senão, argumentam eles, os homens livres da noite para o dia terão grandes problemas: onde morar, com que dinheiro se vestir e alimentar, quem cuidará deles na doença? Terão que se submeter aos salários que os fazendeiros quiserem, para os mais velhos dirão: a porta da rua é serventia da casa! Dizem então, que com uma pequena indenização, haverá capital suficiente para se estabelecerem, criarem demanda por novos produtos e serviços...
- Sei disso. Portanto, na dúvida, a melhor decisão foi a que minha irmã tomou: dá-lhes logo a liberdade. Os melhores eu irei aproveitar nas minhas fazendas sem dúvida alguma. Mas só os melhores, não os baianos problemáticos, estes os quero longe daqui!
- Cobrar laudêmio para financiar a Irmandade N. S. da Piedade e por longo prazo manter a Casa de Caridade foi uma boa idéia. Aproveitaram duas idéias de Petrópolis, o Asilo Santa Isabel vive às minguas, dependendo de esmolas não é uma boa idéia, mas incorporando o mecanismo de cobrança implantado pelo Imperador pela cessão de suas terras para a fundação da Colônia Agrícola dos Imigrantes, que nunca foi agrícola, tornou sustentável o amparo às meninas pobres da região. Foi sua proposta não foi?
- Ponderei apenas com a Condessa...
- Ceder uma casa para a Camila, que já está com mais de 65 anos, apenas como usufruto, é claro, foi uma medida justa.
- Então concordou com tudo barão?
- Dois favores inúteis: legalizar as terras cedidas de boca por meu pai e por nós mesmos, primeiro para a Cia. União e Indústria e depois para a Ferrovia D. Pedro II, foi inútil. Para quê, se todos os benefícios diretos do gesto já haviam sido conseguidos? Esta região das Três Barras era perdida no mapa, tornamo-la conhecida em todo o país. Para que legalizar, se esta situação irregular poderia render um bom dinheiro no futuro?
- Não pensamos por este ângulo, realmente...
- Outra coisa: perdoar os pequenos, médios e grandes devedores, rasgar as promissórias, zerar os registros... Para quê? Deram um péssimo exemplo. Todas as pessoas a quem eu empresto devem estar pensando: “vamos enrolar, vamos enrolar... o barão vai um dia perdoar!”
- Ora, barão, eram créditos difíceis...
- Uma boa medida eleitoreira, sem dúvida meu caro vereador, mas justificada apenas por este ângulo. Quem vai votar na Condessa depois de morta? Ou o senhor, meu caro vereador, vai dizer que propôs isso?
- Claro que não!
- Mas deveria! É a única forma de tirar um mínimo de proveito deste gesto da minha querida irmã. Que Deus a guarde!
- Ela vai entrar para a história como grande benemérita.
- Eu não quero linhas em livros no futuro, quero é mil réis agora!
Sem maiores repercussões para o grande público, a mensagem fúnebre do cabo submarino que veio poucos meses depois da notícia da morte da condessa do Rio Novo repercutiu sobre apenas duas pessoas em Petrópolis: os dois Emilios Pietro, neto e avô. Informava que Juan Pietro estava sepultado em Carracedo, na Espanha. Quem assinava o telegrama era um advogado, desconhecido por ambos, pedindo que entrasse em contato o mais cedo possível.
Quem abriu a mensagem telegráfica foi Emilio que ficou pálido e logo procurou seu neto. Bernadete estranhou o aparecimento subido do velho, já à noite procurando por Emílio que já estava deitado.
- Seu tio está aí. Disse que é urgente.
- Você não disse que eu já estava deitado? Pode ser algum problema no sítio, por causa da chuva, que bem poderia esperar amanhã.
Emilio ficou pálido enquanto o avô lia o telegrama. Saíram abraçados falando baixo um ao ouvido do outro, Emilio viu por pela fresta da janela. Eles olharam em sua direção e ela se afastou, denunciando a vigilância. Levaram mais alguns minutos em conversa e Emilio retornou cabisbaixo.
- O problema é sério mesmo?
- Sim, veio um telegrama da Espanha. Morte em família.
- Nos atinge?
- Não sei. De imediato não, mas depois pode ser que sim.
- O que foi?
- Um outro tio morreu há três dias, irmão de meu tio Emilio. Deve ter deixado dívidas ou fortuna, não sabemos ainda.
- Seu tio vai lá então?
- Não, de forma alguma, ele não pode ir.
- Por que não?
- Bem... A viagem... Isso mesmo, ele pode não resistir à longa viagem. Acho que eu mesmo devo ir.
- Então eu vou junto! Sou sua mulher. E vou levar a criança.
- Não vamos nos precipitar. Vou responder por telegrama ao advogado e saber se a nossa presença é realmente necessária. Se for preciso viajaremos, se não for, aguardaremos novas notícias... Está bem assim?
- Eu não quero passar o resto dos meus dias aqui, num anexo da casa do meu pai ou enfurnada num sítio!
O avô de Emilio assistiu o posicionamento da esposa e comentou baixo:
- Ela é sempre nervosa assim?
- Não, é um doce de pessoa. Só tem um desejo incontrolável de viajar, quer ver outros lugares...
- Nós também não somos iguais?
No dia 20 de fevereiro de 1883, pouco antes do 29º. Aniversário de fundação da Estrada de Ferro Mauá, finalmente os trilhos chegam até à Cidade Imperial. No trem inaugural estavam D. Pedro II e toda família. Os monarcas foram recebidos no porto de Mauá, embarcaram nos novos carros adquiridos especialmente, já que a bitola tinha sido reduzida de 1.676 mm para a bitola métrica e seguiram viagem até a Raiz da Serra. Aí começava o trecho novo. Locomotivas Baldwin a vapor com roda dentada no centro, que se encaixava nas engrenagens instalada no centro da linha, substituíam então as tradicionais e em 30 minutos de viagem, os seis quilômetros de linha e mais de 700 m de diferença de altitude eram vencidos.
A frota da ferrovia era composta de 10 carros de primeira classe, totalizando 360 lugares, quatro carros de segunda com capacidade para 90, 4 vagões para animais e bagagens, 25 vagões fechados e 20 abertos. Ao longo do trecho, várias bandeirolas verde-amarelas saudavam o Imperador, que envelhecido para 57 anos de idade dava um ar solene ao evento.
Mas esta não foi a única festividade promovida pela diretoria da Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará. No dia 30 de abril de 1884, quando completaria 30 anos da primeira ferrovia brasileira, foi inaugurado na estação de Petrópolis um busto em honra do visconde de Mauá. O engenheiro João Martins Coutinho, diretor-presidente da nova ferrovia iniciou o discurso homenageando o visconde, informando que fora o primeiro que mandou estudar na serra a aplicação do sistema de cremalheira, logo que teve notícias do bom resultado que produziu na Suíça.
O visconde respondeu reconhecendo primeiramente que um grande infortúnio veio abater-lhe no último quartel da vida, devido principalmente à ferrovia Santos a Jundiaí, que apesar da luta de 13 anos, entre 1862 a 1875, não pode dominar. Reconheceu ser ainda o sistema de cremalheira a técnica mais adequada para vencer grande diferença de nível nas ferrovias – uma confissão tardia de que sua ferrovia original nunca poderia atingir o Vale do Paraíba em tempo hábil para escoar todo o café ali produzido, antes que a decadência da lavoura, pois dependeria de um invento só testado e aprovado em meados da década de 70. Portanto não foi a Estrada de Ferro D. Pedro II, a alternativa adotada, responsáveis pela falência tanto da Estrada de Ferro Mauá como da Cia. União e Indústria. A primeira começou uma obra sem ter tecnologia necessária para concluí-la e a rodovia aposta na tração animal contra força do vapor. Falou entretanto, por rodeios e de maneira enigmática, como era seu estilo de redação, com a síntese de seu discurso compreendido por poucos. Efetivamente, quando a ferrovia chegou a Petrópolis a Estrada de Ferro D. Pedro II esta com sua linhas finalizando em Que Luz de Minas.
Neste mesmo ano de 1884, a nove de outubro, outra linha de cremalheira era inaugurada no Brasil, também com a presença do Imperador e toda família imperial: a Estrada de Ferro do Corcovado, com tráfego entre Cosme Velho e as Paineiras. Meses depois, em 1º. De Julho de 1885 foi aberta ao público, pois atingia finalmente o Alto do Corcovado.
Embora o equipamento de tração fosse do mesmo tipo, locomotivas Baldwin dotadas do sistema Riggenbach a rampa chegava a 30% para vencer 600m diferença de nível em quatro quilômetros de linha.
Cedo pela manhã, estava Emilio sobre a carroça ajeitando os fardos de queijo que um empregado trazia, preparando para mais uma viagem de produtos para os hotéis no centro da cidade, quando percebeu seu avô chegando apressado. Ele estava pálido e pediu que Emilio descesse, pois havia tido um sonho que o deixara preocupado.
- No sonho meu irmão apareceu e falou que temos que resolver a questão do ouro.
- Como assim?
- Não deu para compreender bem, mas creio que seja algo que não te contei na ocasião, mas eu acho que agora ele está me cobrando. Apareceu um homem aqui, há muito tempo atrás, falando sobre o ouro. Aleguei a amnésia e ele então tentou fazer-me recordar, dizendo ser Juca de Entre-Rios, do fazenda do Galo... algo assim. Nunca mais voltou.
- Por que o senhor não me disse na ocasião?
- Você estava nas vésperas do casamento, não quis te preocupar. Fiquei esperando e como o homem nunca mais voltou, esqueci. Mas agora Emilio apareceu num sonho, todo vestido de branco, dizendo que temos que resolver este assunto.
- Resolver como? Você sabe quem era o homem, ele deixou nome?
- Não, ficou muito intrigado por eu não o reconhecer, só isso. A desculpa da amnésia parece não ter dado resultado. Ele ficou desconfiado de eu estar escondendo o ouro dele.
- Dele?
- Disse que sim, estava precisando da parte dele.
- O que vamos fazer?
- Não sei. Estou contando por causa do sonho que tive. Acho que meu irmão está querendo satisfação.
- Temos, então de visitar os locais onde ele trabalhou por muitos anos e nunca fomos, na vila de Paraíba do Sul, na localidade de Entre-Rios, que ele sempre falava. Mas não dá para chegar assim, de repente. Temos que pensar algo...
- Posso esperar para ver se o sonho se repete. Se for mesmo mensagem do além vai se repetir, não é?
- Boa idéia.
Quando o avô partiu Emilio ficou preocupado. Ninguém deixa para trás uma grande fortuna sem luta. Portanto, alguma coisa pode ter acontecido. Resolveu então investigar jornais antigos que trouxessem notícias de algum fato, por ocasião do casamento, acontecido na localidade de Entre-Rios. Entregou as mercadorias e foi até a biblioteca pública da cidade. Em poucos minutos viu a notícia de um crime, cuja vítima chamava-se Tuca, morador da fazenda do Cantagalo. Não falaria nada com o avô, para não oloca a-lo mas na primeira oportunidade pegaria uma diligência da antiga União e Indústria e viajaria por seis horas até lá.
Inventando uma desculpa para Bernadete, Emilio partiu na primeira oportunidade. Ao chegar a Entre-Rios hospedou-se no hotel sobre o prédio da estação ferroviária. Perambulou pela plataforma e puxou conversa com o pessoal da ferrovia, sempre disposto a dar conversa a passageiros entre os horários de trens. Rodeou o tema principal, mas quando se referiu ao nome Tuca, a reação foi imediata.
- Você o conheceu?
- Um tio meu sim, chamado Emilio, um espanhol...
- O mestre Emílio? Todo mundo conheceu ele por aqui, trabalhou em toda a extensão da ferrovia. O que houve com ele?
- Morreu na Espanha e pediu-me que viesse aqui, pois tinha um acerto com Tuca. Mas descobri que ele morreu também, não é?
- Sim foi brutalmente assassinado e até hoje ninguém descobriu a razão. Uns falam de assalto, outros de vingança, outros de conspiração política.
- Eu poderia conversar com algum amigo dele, para saber mais?
- Claro. Pegue o próximo trem até a Vila de Paraíba do Sul e procure pelos ex-combatentes da Guerra do Paraguai. São uns três ou quatro que sempre estão pescando sob a ponte da cidade ou na estação de trem.
Emilio achou-os na plataforma da estação. Depois da conversa com os ex-voluntários da pátria, Emilio resolveu retornar a Petrópolis passando pelo Rio de Janeiro. Portanto, pegou o trem em direção à Corte, desceu na Estação Central e seguiu a pé até o Cais do Pharoux, onde tomou um vapor até Mauá, seguindo pela nova ferrovia até Petrópolis. Foi um caminho mais longo, porém o tempo foi praticamente o mesmo das carruagens que ainda trafegavam pela União e Indústria.
Soubera muita coisa e ficou preocupado. Seu avô não poderia nunca se expor, pois na versão dele o mestre Emilio estava morto na Espanha e não criando gado num sítio no alto da serra. Diante disto resolveu coloca-lo a par de toda a trama que, pelo que percebeu não era apenas um assalto, mas interesses em barrar um plano de emancipação de escravos à força. O dinheiro proveniente do ouro seria usado para financiar o movimento. Por trás estariam, provavelmente, grandes fazendeiros de café do Vale do Paraíba, gente poderosa e perigosa, pois a decadência do café os estava deixando endividados. Manter os escravos poderia ser uma forma de conseguir um bom dinheiro pela indenização paga pelo governo.
- Eu corro risco então?
- Se ficar aqui, sem se expor, acredito que não, pois não sabemos quantas pessoas ficaram sabendo do ouro que o falecido tio Emilio estava guardando. Ninguém irá à Espanha te cobrar nada, mas aqui em Petrópolis será fácil.
- O pior é que não sei de nada. Quanto ele estava guardando?
- Pois é, este é o nosso risco. As pessoas aqui são violentas.
- Mataram o Tuca. Ele está pendurado na cerca de arame farpado da ferrovia.
O quadro, mesmo para quem não o conhecia, era chocante: amarrado na cerca de arame, com a cabeça pendente, os braços abertos e travados pelo arame o corpo ensangüentado de Tuca lembrava uma imagem de Jesus Cristo crucificado. Quem fizera aquilo tinha realmente a intenção de chocar. Enquanto os homens o retiravam da trágica posição, outros vinham correndo gritando:
- A casa dele foi toda revirada.
- Acharam o bloco de anotação que sempre andava com ele?
- Não, as roupas foram todas rasgadas e não tinha nada nos bolsos. Foi assalto, sem dúvida nenhuma.
Camila aproximou-se do filho e percebeu por um fio de sangue no pescoço que o cordão de ouro com a medalha de N. S. da Piedade, que ele ganhara no dia em que nasceu, há 33 anos, quando da primeira visita do Imperador no Vale do Paraíba, havia sido arrancada com violência.
No dia do casamento do seu neto em Petrópolis com a jovem Bernadete Kling, Juan ficou pensativo, com uma grande dúvida: deveria ou não contar o episódio do mulato que o confundira com o irmão e falara de ouro para seu neto. Não quis contar antes porque o menino só falava no casamento cada vez mais próximo e não considerava justo preocupá-lo, pois o tema ouro é sempre grave. Sua divagação foi interrompida por uma batida amistosa nas suas costas:
- Não fique triste, homem. Hoje é dia de alegria, eu estou dando minha filha e você apenas um sobrinho...
Emilio sorriu constrangido para o alemão Magnus, que evidentemente havia exagerado na cerveja forte produzida pelos patrícios e respondeu:
- Estava com o pensamento longe... Lembrava na mãe e avó de Emilio, lá na Galícia. Com certeza gostariam de estar nesta festa maravilhosa.
- Pois deixe de pensar coisas tristes, vou trazer-lhe alguma bebida para esquecer o passado. Vinho ou cerveja?
- Vinho, tinto se possível.
Enquanto saboreava a bebida que na Espanha todo o dia tomava, mas que no Brasil pelo alto imposto de importação, de mais de 50% de taxa, seu consumo diário era proibitivo, o mestre Emilio procurou se entrosar entre os convidados. De longe observava que o neto estava totalmente integrado aos alemães que comemoravam mais um casamento na colônia. Distraiu-se novamente quando Maguns volta a despertá-lo:
- Grandes notícias, mestre Emílio. Sua aposentadoria como criador de vacas vai ter de acabar.
- Como?
- Está aqui meu amigo Hans, que sabe de fonte limpa que vão investir pesado na implantação da linha para Petrópolis. Será um sistema de cremalheira, em rampa de 15%. Serão necessários vários canteiros experientes como o senhor para vencer as dificuldades da serra.
Juan empalideceu. Nada sabia sobre cantaria, seu único trabalho na Galícia fora construir muros de junta seca, encaixando as pedras naturais, recolhidas em qualquer encosta, uma nas outras, sem oloca-las em faces perfeitas. Estava habituado, isto sim, por anos de prática, era com a pecuária e a criação de ovelhas e alguns porcos. Sorveu um grande gole de vinho enquanto pensava no que dizer. O alemão continuou:
- Vamos voltar aos velhos tempos de obra de cantaria aqui na serra, mestre Emilio!
- O senhor poderia formar uma turma especial, mestre, pois há anos não se tem este tipo de serviço na nossa região e os oficiais perderam toda a prática.
- Vamos esperar a hora certa, vamos esperar – foi a única expressão que lhe veio à cabeça.
- Ele tem razão – concluiu Magus olhando para o amigo Hans.
- Como assim?
- Estes políticos vivem prometendo, prometendo. Estou com ele. Vamos esperar acontecer. Aí então a mão-de-obra aparece. Não podemos criar ilusão no povo!
Quando o ano de 1880 chegou, o engenheiro Henrique Dumont já havia decido: venderia pela melhor oferta sua fazenda em Casal, onde nada de grande poderia ser feito, e mudaria definitivamente para o interior paulista. Faria parte da Caravana de Barreto e implantaria a maior fazenda de café do interior paulista.
Em pouco tempo juntou as economias e com um sócio adquiriu a fazenda Arienduva, próximo da vila de Ribeirão Preto. Derrubou a mata, plantou cinco milhões de pés de café e fez uma rede de quase cem quilômetros de linhas férreas no seu interior. Tornar-se-ia em dez anos o Rei do Café.
O pequeno Alberto, já com sete anos, demonstrava uma rara habilidade mecânica e foi autorizado pelo pai a operar locomoveis, espécie de trator a vapor, de grandes rodas, utilizadas na preparação da terra para o plantio de café.
Enquanto as matas iam sendo derrubadas no interior da província de São Paulo para novas fazendas de café, deixando exposta a terra roxa e porosa de alta fertilidade, no Vale do Paraíba as velhas lavouras, plantadas nas encostas dos morros, sem respeitar curvas de nível, perdiam a cada ano a produtividade, exigindo novas derrubadas da Mata Atlântica que já demonstrava sinal de esgotamento. Na província do Rio de Janeiro, onde a cultura era ainda mais antiga do que no trecho paulista e as terras eram muito valorizadas, para se conseguir a mesma produção por área plantada os fazendeiros passaram a diminuir a largura das ruas, o que contribuía para a proliferação das pragas e dificultava a colheita. O rendimento caía a cada ano.
Com relação à mão-de-obra que a cultura de café é intensiva, depois da frustrada experiência da parceira colono-fazendeiro implantada pelo Senador Vergueiro, ficou claro que o trabalho assalariado era a melhor opção. Em pouco tempo os próprios imigrantes, organizados em cooperativas, tornaram-se também produtores, passando a comprar as fazendas dos primeiros exploradores que, ao educar seus filhos na Europa, não conseguiam mais descendentes interessados no difícil e arriscado trabalho da lavoura. Esses doutores preferiam a vida regular das cidades, aplicando o capital proveniente da venda das fazendas distantes. Os imigrantes investidores, por outro lado, serviam de exemplos para outros mais novos e trabalhavam com um afinco nunca visto antes no Brasil. Os defensores do processo de clarificação do país tinham argumentos irrefutáveis para enfrentar os sentimentais abolicionistas.
No vale do Paraíba fluminense, todavia, estava ainda em jogo o reconhecimento nobiliário. Neste mesmo ano a Viscondessa do Rio Novo, viúva há 11 anos, reconhecidamente uma benemérita caridosa foi agraciada por D. Pedro II com o título de Condessa. Imediatamente abriu processo para o próximo passo: o título de Marquesa do Rio Novo.
A festa de comemoração, todavia, não teve a mesma repercussão da realizada pelo irmão três anos atrás. Restringiu-se a uma missa em ação de graças na capela de Nossa Senhora da Piedade na própria fazenda do Cantagalo, pois a viúva sentia-se doente, padecendo de um mal que os médicos do Rio de Janeiro e Petrópolis não conseguiam diagnosticar.
Certo dia de rotina, chega ao sítio do mestre Emilio os enviados dos engenheiros responsáveis pela obra da linha de cremalheira da Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará. Felizmente, na ocasião o neto estava presente, o que tranqüilizou Juan.
- Para cumprimos o prazo, mestre Emilio vamos abrir várias frentes de trabalho. Começamos primeiro na raiz da serra, onde a rampa é suave, não chegando a 8%, mas logo depois seguirá sempre em 15% e quando atingirmos o Viaduto da Grota Funda. Em todo trecho será preciso muita obra de cantaria. Nós pensamos no senhor...
- Mas já está tudo aprovado mesmo?
- Sim, o decreto número 8.120 de 31 de maio de 1881 aprovou os estatutos da nova ferrovia e as obras começaram em agosto do mesmo ano. Não vai faltar dinheiro para os investimentos, pois o projeto foi muito bem elaborado.
- Os senhores sabem que eu já me aposentei...
- O que nos levou a convidá-lo, mestre Emilio, não foi tanto a nossa obra não, mas o recente Decreto Imperial de número 8.372, de sete de janeiro deste ano, de 1882, que autoriza o engenheiro Francisco Pereira Passos e João Teixeira Soares a implantarem uma outra ferrovia, no morro do corcovado. Se não garantirmos o senhor, os outros poderão convidá-lo. Vai ser uma corrida para ver quem termina primeiro... São dois grupos que querem a todo custo agradar o Imperador.
- E se meu avô garantir que não trabalha em nenhuma das duas obras?
- O senhor pode dar esta palavra? Eles, que começarão depois da nossa obra, mas como são apenas quatro quilômetros, contra os seis quilômetros nossos, podem nos passar à frente. Politicamente, o senhor sabe...
- Têm a minha palavra, não trabalharei ou ajudarei nenhuma das duas obras. Depois dos sessenta anos resolvi mudar de profissão, não sou mais um canteiro, mas um pecuarista. Ou não posso fazer isso? Começar vida nova depois dos sessenta?
- Claro que pode mestre Emilio. Saiba o senhor que pode se considerar um homem feliz, nesta fase da vida começar tudo novamente, da estaca zero...
Emilio olhou para o avô que lhe piscou o olho, travando um sorriso.
Na Espanha Emilio (Juan) também mantinha sua vida pacata, de pastoreio, correspondendo com o irmão e sobrinho-neto duas vezes por ano. Ficou sabendo que o jovem Emilio seria pai pela primeira vez. Levou as ovelhas para o pasto de verão, na parte mais alta da encosta que subia em direção à serra Calva e procurou um abrigo à sombra, pois fazia calor. Entre as rochas percebeu um movimento e ficou observando o trabalho de tecer uma teia por uma aranha rajada. Ao contrário do Brasil, onde o calor parece estimular a proliferação de milhares de espécies de insetos diferentes, nos países de clima frio observa-se uma variedade menor.
A aranha subia na pedra, alcançava uma ponta mais saliente e deixava o corpo cair, preso por uma teia fina que saía de seu abdome. O vento a impulsionava para outro ponto, onde ela fixava a teia e subia novamente na pedra, repetindo o movimento, formando primeiro um triângulo, firmemente ancorado. Emilio como uma criança, ficou observando o trabalho do inseto. Concluído os pontos extremos, a aranha começou a tecer uma espiral a partir das extremidades, que se foi fechando até o centro. Depois de uma hora de trabalho a teia estava pronta e a aranha ficou no centro, abrindo as seis pernas, cada extremidade posicionada sobre um fio da seda, pronto para receber o sinal de qualquer vibração provocada por algum inseto alado que ficasse aderido aos fios viscosos.
Emilio refletiu sobre a teia espiralada e a imagem desenhada por sua vida e de seu irmão, que partindo de um mesmo ponto, tomaram rumos diametralmente opostos. Logo eles, gêmeos idênticos e, portanto, de personalidade e traços físicos semelhantes. Trocaram de posições, todavia, para terem a mesma vivência, o mesmo nível de conhecimento. Teciam como a aranha, uma rede de conhecimento.
Deitado na relva, observando os blocos de nuvens formando desenhos aleatórios no céu, Emilio sentiu lágrimas vir aos olhos por causa da solidão. Mas tarde pensou ter adormecido e sonhado, pois um inconfundível aroma doce de fumo de rolo chegou a suas narinas.
- Acordou meu branco?
- Donana, o que faz aqui? Como é possível.
- Tudo é possível quando se quer, meu branco.
- Há quantos anos não vejo a senhora...
- Nunca mais chamou meu branco. Eu ficava de longe, só observando.
- Chamei agora? Não estou preparando café algum para a senhora fazer a boca de pito.
- Seus olhos e seu coração me chamaram, meu branco. E eu estou aqui, para trocar um dedo de prosa. O menino Tuca está te preocupando?
- Sim, tenho pensado muito nele, mandou-me uma carta...
- Ele não vai precisar mais de nada do que está guardando não.
- Como sabe que guardo algo?
- Não vai precisar do ouro que o branco escondeu por trás da parede de pedra não.
- Pois falou que iria.
- Não vai mais não, tem agora outra missão.
- Ele fez tanto esforço pelo ouro.
- Esse ouro é proveniente de muito sofrimento, não pode ver a luz do sol não, meu branco. Está condenado a ficar só no escuro, escondido, como estava debaixo da terra e os nossos irmãos tiveram que suar sangue para tirá-lo de lá.
- Tem razão. Sendo da época do Ciclo do Ouro saiu debaixo da terra em Vila Rica, sabe lá com quanto sacrifício; viajou enrolado, escondido para não brilhar; ficou debaixo das águas escuras do Rio Paraibuna por anos sem conta; eu mesmo o escondi em esculturas e depois por trás da parede de pedra. Tem razão, sempre no escuro.
- Quanto sacrifício e sofrimento por uma coisa que não pode aparecer à luz do sol, não é meu branco?
- Por que tem então, tanto valor?
- Valor para muitos homens é o que se dá não o que se tem!
Emilio arregalou os olhos assustados, virou o rosto em todas as direções e nada viu além das ovelhas pastando e os dois cães dormitando sob a sombra de um arbusto. Sonhara, sem dúvida alguma. Aspirou fundo e pensou sentir diluindo na brisa o perfume adocicado do fumo de rolo do cachimbo de Donana, tal como acontecia na casinha do local que passou a se chamar Portão Vermelho, depois que a rodovia União e Indústria instalou ali um ponto de pedágio, no longínquo povoado de Entre-Rios na distante Vila de Paraíba do Sul, do outro lado do Oceano Atlântico.
No outro lado do Atlântico, na Vila de Paraíba do Sul, o estado de saúde da condessa do Rio Novo vinha se agravando dia-a-dia. Estava cada vez mais magra e abatida, sem ânimo para a vida – dizia. Vários médicos consultados no Rio de Janeiro sugeriram então, que ela fosse procurar especialistas em Londres.
Receando não voltar viva da viagem, a condessa mandou convocar seu amigo e antigo servidor, o vereador pela Vila de Paraíba do Sul Miguel Ribeiro de Sá, para juntos elaborarem o testamento. Todas as pendências ainda não resolvidas foram então pelos dois fixados, já que a condessa não tinha descendentes diretos. O testamento foi lacrado e a condessa embarcou num vapor para Londres.
Nem um mês se passou após sua chegada e numa tarde fria de junho de 1882, a mensagem que chegou pelo cabo submarino implantado pelo Visconde de Mauá em 1874 trazia uma notícia terrível: a Condessa do Rio Novo estava morta, não resistira ao tratamento que fora se submeter em Londres.
Na Vila de Paraíba e em Petrópolis as igrejas avisadas fizeram-se toar os sinos em sinal de pesar e missas foram imediatamente encomendadas. As duzentas alunas do Asilo Santa Isabel, no ponto mais nobre de Petrópolis, no número 58 da Avenida do Imperador, onde antes era a residência de verão dos maiores fazendeiros da região do médio vale do Paraíba foram chamadas para uma ladainha especial.
O corpo embalsamado da condessa chegou ao Rio de Janeiro no primeiro vapor que partiu de Londres e imediatamente foi transladado para o túmulo especialmente preparado no interior da Capela de N. S. da Piedade, ao lado do túmulo de seu pai, da mãe e do marido. Toda a família da fazenda do Cantagalo finalmente se juntou, por trás do altar principal, no interior da capela.
Dias depois o testamento de Mariana Claudina Pereira Carvalho, a condessa do Rio Novo, foi aberto e na leitura realizada pelo testamenteiro, o vereador Miguel Ribeiro de Sá, dentre as cláusulas principais destacava-se:
1) Alforria para todos os escravos da fazenda de Cantagalo e cessão de terras para que eles constituíssem uma Colônia;
2) Legalização das terras cedidas pelo pai para a Estrada de Ferro D. Pedro II, ainda não assinada em termos documentais;
3) Criação de uma Irmandade N. S. da Piedade, com a finalidade de subsidiar, através de laudêmio, cobrado sobre as terras demarcadas para este fim na fazenda do Cantagalo, a Casa de Caridade N. S. da Piedade, para abrigar em regime de internato e semi-internato meninas entre cinco e dezoito anos;
4) Cessão de casa de moradia junto ao pátio da estação ferroviária, para usufruto vitalício da escrava Camila;
5) Perdão de todas das dívidas pessoais registradas em seu livro de contabilidade...
Da noite para o dia, quase duzentos negros escravos ganharam a alforria, que foi comemorada com festas. O segundo barão de Entre-Rios, como herdeiro mais próximo dos bens não arrolados no testamento, assumiu a direção de todas as fazendas que haviam pertencido a seu pai e sua irmã e das terras antes pertencentes à fazenda do Cantagalo que passaram para as fazendas vizinhas, também de sua propriedade, como as Piracema, Rua Direita, Boa União, São Lourenço e Bemposta.
Quando o vereador Ribeiro de Sá o procurou o barão de Entre-Rios este parecia insatisfeito.
- O que houve barão, o testamento da condessa o desagradou de alguma maneira?
- Tenho que respeitar a vontade dela no leito de morte. Algumas medidas estão certíssimas, como por exemplo, dar alforria aos escravos. Com a lei do Ventre Livre, os ingênuos com menos de onze anos, daqui a dez vão ser liberados da tutela do senhor de suas mães; não podem sofrer o regime disciplinar dos demais, estão crescendo numa situação dúbia, portanto quanto antes libera-los, melhor.
- Por que, então, caro barão, não faz o mesmo com todos os seus escravos.
- E a indenização que teremos direito? A abolição virá, sem dúvida alguma, mais cedo ou mais tarde, mas os fazendeiros estarão abrindo mão de um patrimônio, por um capricho do governo. Sem dúvida alguma quem for perder este patrimônio por causa de alguma lei meramente política merece ser indenizado; é uma questão de direito adquirido, ora bolas!
- Mas, os abolicionistas falam exatamente o contrário, que o governo deve sim indenizar, porém os escravos liberados. Senão, argumentam eles, os homens livres da noite para o dia terão grandes problemas: onde morar, com que dinheiro se vestir e alimentar, quem cuidará deles na doença? Terão que se submeter aos salários que os fazendeiros quiserem, para os mais velhos dirão: a porta da rua é serventia da casa! Dizem então, que com uma pequena indenização, haverá capital suficiente para se estabelecerem, criarem demanda por novos produtos e serviços...
- Sei disso. Portanto, na dúvida, a melhor decisão foi a que minha irmã tomou: dá-lhes logo a liberdade. Os melhores eu irei aproveitar nas minhas fazendas sem dúvida alguma. Mas só os melhores, não os baianos problemáticos, estes os quero longe daqui!
- Cobrar laudêmio para financiar a Irmandade N. S. da Piedade e por longo prazo manter a Casa de Caridade foi uma boa idéia. Aproveitaram duas idéias de Petrópolis, o Asilo Santa Isabel vive às minguas, dependendo de esmolas não é uma boa idéia, mas incorporando o mecanismo de cobrança implantado pelo Imperador pela cessão de suas terras para a fundação da Colônia Agrícola dos Imigrantes, que nunca foi agrícola, tornou sustentável o amparo às meninas pobres da região. Foi sua proposta não foi?
- Ponderei apenas com a Condessa...
- Ceder uma casa para a Camila, que já está com mais de 65 anos, apenas como usufruto, é claro, foi uma medida justa.
- Então concordou com tudo barão?
- Dois favores inúteis: legalizar as terras cedidas de boca por meu pai e por nós mesmos, primeiro para a Cia. União e Indústria e depois para a Ferrovia D. Pedro II, foi inútil. Para quê, se todos os benefícios diretos do gesto já haviam sido conseguidos? Esta região das Três Barras era perdida no mapa, tornamo-la conhecida em todo o país. Para que legalizar, se esta situação irregular poderia render um bom dinheiro no futuro?
- Não pensamos por este ângulo, realmente...
- Outra coisa: perdoar os pequenos, médios e grandes devedores, rasgar as promissórias, zerar os registros... Para quê? Deram um péssimo exemplo. Todas as pessoas a quem eu empresto devem estar pensando: “vamos enrolar, vamos enrolar... o barão vai um dia perdoar!”
- Ora, barão, eram créditos difíceis...
- Uma boa medida eleitoreira, sem dúvida meu caro vereador, mas justificada apenas por este ângulo. Quem vai votar na Condessa depois de morta? Ou o senhor, meu caro vereador, vai dizer que propôs isso?
- Claro que não!
- Mas deveria! É a única forma de tirar um mínimo de proveito deste gesto da minha querida irmã. Que Deus a guarde!
- Ela vai entrar para a história como grande benemérita.
- Eu não quero linhas em livros no futuro, quero é mil réis agora!
Sem maiores repercussões para o grande público, a mensagem fúnebre do cabo submarino que veio poucos meses depois da notícia da morte da condessa do Rio Novo repercutiu sobre apenas duas pessoas em Petrópolis: os dois Emilios Pietro, neto e avô. Informava que Juan Pietro estava sepultado em Carracedo, na Espanha. Quem assinava o telegrama era um advogado, desconhecido por ambos, pedindo que entrasse em contato o mais cedo possível.
Quem abriu a mensagem telegráfica foi Emilio que ficou pálido e logo procurou seu neto. Bernadete estranhou o aparecimento subido do velho, já à noite procurando por Emílio que já estava deitado.
- Seu tio está aí. Disse que é urgente.
- Você não disse que eu já estava deitado? Pode ser algum problema no sítio, por causa da chuva, que bem poderia esperar amanhã.
Emilio ficou pálido enquanto o avô lia o telegrama. Saíram abraçados falando baixo um ao ouvido do outro, Emilio viu por pela fresta da janela. Eles olharam em sua direção e ela se afastou, denunciando a vigilância. Levaram mais alguns minutos em conversa e Emilio retornou cabisbaixo.
- O problema é sério mesmo?
- Sim, veio um telegrama da Espanha. Morte em família.
- Nos atinge?
- Não sei. De imediato não, mas depois pode ser que sim.
- O que foi?
- Um outro tio morreu há três dias, irmão de meu tio Emilio. Deve ter deixado dívidas ou fortuna, não sabemos ainda.
- Seu tio vai lá então?
- Não, de forma alguma, ele não pode ir.
- Por que não?
- Bem... A viagem... Isso mesmo, ele pode não resistir à longa viagem. Acho que eu mesmo devo ir.
- Então eu vou junto! Sou sua mulher. E vou levar a criança.
- Não vamos nos precipitar. Vou responder por telegrama ao advogado e saber se a nossa presença é realmente necessária. Se for preciso viajaremos, se não for, aguardaremos novas notícias... Está bem assim?
- Eu não quero passar o resto dos meus dias aqui, num anexo da casa do meu pai ou enfurnada num sítio!
O avô de Emilio assistiu o posicionamento da esposa e comentou baixo:
- Ela é sempre nervosa assim?
- Não, é um doce de pessoa. Só tem um desejo incontrolável de viajar, quer ver outros lugares...
- Nós também não somos iguais?
No dia 20 de fevereiro de 1883, pouco antes do 29º. Aniversário de fundação da Estrada de Ferro Mauá, finalmente os trilhos chegam até à Cidade Imperial. No trem inaugural estavam D. Pedro II e toda família. Os monarcas foram recebidos no porto de Mauá, embarcaram nos novos carros adquiridos especialmente, já que a bitola tinha sido reduzida de 1.676 mm para a bitola métrica e seguiram viagem até a Raiz da Serra. Aí começava o trecho novo. Locomotivas Baldwin a vapor com roda dentada no centro, que se encaixava nas engrenagens instalada no centro da linha, substituíam então as tradicionais e em 30 minutos de viagem, os seis quilômetros de linha e mais de 700 m de diferença de altitude eram vencidos.
A frota da ferrovia era composta de 10 carros de primeira classe, totalizando 360 lugares, quatro carros de segunda com capacidade para 90, 4 vagões para animais e bagagens, 25 vagões fechados e 20 abertos. Ao longo do trecho, várias bandeirolas verde-amarelas saudavam o Imperador, que envelhecido para 57 anos de idade dava um ar solene ao evento.
Mas esta não foi a única festividade promovida pela diretoria da Estrada de Ferro Príncipe do Grão Pará. No dia 30 de abril de 1884, quando completaria 30 anos da primeira ferrovia brasileira, foi inaugurado na estação de Petrópolis um busto em honra do visconde de Mauá. O engenheiro João Martins Coutinho, diretor-presidente da nova ferrovia iniciou o discurso homenageando o visconde, informando que fora o primeiro que mandou estudar na serra a aplicação do sistema de cremalheira, logo que teve notícias do bom resultado que produziu na Suíça.
O visconde respondeu reconhecendo primeiramente que um grande infortúnio veio abater-lhe no último quartel da vida, devido principalmente à ferrovia Santos a Jundiaí, que apesar da luta de 13 anos, entre 1862 a 1875, não pode dominar. Reconheceu ser ainda o sistema de cremalheira a técnica mais adequada para vencer grande diferença de nível nas ferrovias – uma confissão tardia de que sua ferrovia original nunca poderia atingir o Vale do Paraíba em tempo hábil para escoar todo o café ali produzido, antes que a decadência da lavoura, pois dependeria de um invento só testado e aprovado em meados da década de 70. Portanto não foi a Estrada de Ferro D. Pedro II, a alternativa adotada, responsáveis pela falência tanto da Estrada de Ferro Mauá como da Cia. União e Indústria. A primeira começou uma obra sem ter tecnologia necessária para concluí-la e a rodovia aposta na tração animal contra força do vapor. Falou entretanto, por rodeios e de maneira enigmática, como era seu estilo de redação, com a síntese de seu discurso compreendido por poucos. Efetivamente, quando a ferrovia chegou a Petrópolis a Estrada de Ferro D. Pedro II esta com sua linhas finalizando em Que Luz de Minas.
Neste mesmo ano de 1884, a nove de outubro, outra linha de cremalheira era inaugurada no Brasil, também com a presença do Imperador e toda família imperial: a Estrada de Ferro do Corcovado, com tráfego entre Cosme Velho e as Paineiras. Meses depois, em 1º. De Julho de 1885 foi aberta ao público, pois atingia finalmente o Alto do Corcovado.
Embora o equipamento de tração fosse do mesmo tipo, locomotivas Baldwin dotadas do sistema Riggenbach a rampa chegava a 30% para vencer 600m diferença de nível em quatro quilômetros de linha.
Cedo pela manhã, estava Emilio sobre a carroça ajeitando os fardos de queijo que um empregado trazia, preparando para mais uma viagem de produtos para os hotéis no centro da cidade, quando percebeu seu avô chegando apressado. Ele estava pálido e pediu que Emilio descesse, pois havia tido um sonho que o deixara preocupado.
- No sonho meu irmão apareceu e falou que temos que resolver a questão do ouro.
- Como assim?
- Não deu para compreender bem, mas creio que seja algo que não te contei na ocasião, mas eu acho que agora ele está me cobrando. Apareceu um homem aqui, há muito tempo atrás, falando sobre o ouro. Aleguei a amnésia e ele então tentou fazer-me recordar, dizendo ser Juca de Entre-Rios, do fazenda do Galo... algo assim. Nunca mais voltou.
- Por que o senhor não me disse na ocasião?
- Você estava nas vésperas do casamento, não quis te preocupar. Fiquei esperando e como o homem nunca mais voltou, esqueci. Mas agora Emilio apareceu num sonho, todo vestido de branco, dizendo que temos que resolver este assunto.
- Resolver como? Você sabe quem era o homem, ele deixou nome?
- Não, ficou muito intrigado por eu não o reconhecer, só isso. A desculpa da amnésia parece não ter dado resultado. Ele ficou desconfiado de eu estar escondendo o ouro dele.
- Dele?
- Disse que sim, estava precisando da parte dele.
- O que vamos fazer?
- Não sei. Estou contando por causa do sonho que tive. Acho que meu irmão está querendo satisfação.
- Temos, então de visitar os locais onde ele trabalhou por muitos anos e nunca fomos, na vila de Paraíba do Sul, na localidade de Entre-Rios, que ele sempre falava. Mas não dá para chegar assim, de repente. Temos que pensar algo...
- Posso esperar para ver se o sonho se repete. Se for mesmo mensagem do além vai se repetir, não é?
- Boa idéia.
Quando o avô partiu Emilio ficou preocupado. Ninguém deixa para trás uma grande fortuna sem luta. Portanto, alguma coisa pode ter acontecido. Resolveu então investigar jornais antigos que trouxessem notícias de algum fato, por ocasião do casamento, acontecido na localidade de Entre-Rios. Entregou as mercadorias e foi até a biblioteca pública da cidade. Em poucos minutos viu a notícia de um crime, cuja vítima chamava-se Tuca, morador da fazenda do Cantagalo. Não falaria nada com o avô, para não oloca a-lo mas na primeira oportunidade pegaria uma diligência da antiga União e Indústria e viajaria por seis horas até lá.
Inventando uma desculpa para Bernadete, Emilio partiu na primeira oportunidade. Ao chegar a Entre-Rios hospedou-se no hotel sobre o prédio da estação ferroviária. Perambulou pela plataforma e puxou conversa com o pessoal da ferrovia, sempre disposto a dar conversa a passageiros entre os horários de trens. Rodeou o tema principal, mas quando se referiu ao nome Tuca, a reação foi imediata.
- Você o conheceu?
- Um tio meu sim, chamado Emilio, um espanhol...
- O mestre Emílio? Todo mundo conheceu ele por aqui, trabalhou em toda a extensão da ferrovia. O que houve com ele?
- Morreu na Espanha e pediu-me que viesse aqui, pois tinha um acerto com Tuca. Mas descobri que ele morreu também, não é?
- Sim foi brutalmente assassinado e até hoje ninguém descobriu a razão. Uns falam de assalto, outros de vingança, outros de conspiração política.
- Eu poderia conversar com algum amigo dele, para saber mais?
- Claro. Pegue o próximo trem até a Vila de Paraíba do Sul e procure pelos ex-combatentes da Guerra do Paraguai. São uns três ou quatro que sempre estão pescando sob a ponte da cidade ou na estação de trem.
Emilio achou-os na plataforma da estação. Depois da conversa com os ex-voluntários da pátria, Emilio resolveu retornar a Petrópolis passando pelo Rio de Janeiro. Portanto, pegou o trem em direção à Corte, desceu na Estação Central e seguiu a pé até o Cais do Pharoux, onde tomou um vapor até Mauá, seguindo pela nova ferrovia até Petrópolis. Foi um caminho mais longo, porém o tempo foi praticamente o mesmo das carruagens que ainda trafegavam pela União e Indústria.
Soubera muita coisa e ficou preocupado. Seu avô não poderia nunca se expor, pois na versão dele o mestre Emilio estava morto na Espanha e não criando gado num sítio no alto da serra. Diante disto resolveu coloca-lo a par de toda a trama que, pelo que percebeu não era apenas um assalto, mas interesses em barrar um plano de emancipação de escravos à força. O dinheiro proveniente do ouro seria usado para financiar o movimento. Por trás estariam, provavelmente, grandes fazendeiros de café do Vale do Paraíba, gente poderosa e perigosa, pois a decadência do café os estava deixando endividados. Manter os escravos poderia ser uma forma de conseguir um bom dinheiro pela indenização paga pelo governo.
- Eu corro risco então?
- Se ficar aqui, sem se expor, acredito que não, pois não sabemos quantas pessoas ficaram sabendo do ouro que o falecido tio Emilio estava guardando. Ninguém irá à Espanha te cobrar nada, mas aqui em Petrópolis será fácil.
- O pior é que não sei de nada. Quanto ele estava guardando?
- Pois é, este é o nosso risco. As pessoas aqui são violentas.
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